Recentemente fiz mais uma viagem de 3 horas de comboio para o Porto e sentaram-se quatro brasileiros, dois homens e duas mulheres, nos seus 50/60 anos, turistas de classe média alta (cada vez mais frequentes devido ao boom económico e valorização do real).
Conversaram em voz alta três horas consecutivas.
Umas vezes falava um para os outros três. Outras os três falavam para um apenas. Às vezes um falava para um e o outro falava para o outro. O que é certo que é falavam todos para mim, que estava sentado atrás deles.
Apesar de se conhecerem obviamente há muito tempo (dois eram irmã e irmão e estavam acompanhados pelos respectivos esposos), não lhes faltou tema, desde novelas, destino de actores, histórias pitorescas disto e daquilo, doenças etc. e tudo num tom suficientemente elevado para que metade da carruagem pudesse desfrutar do seu interessante diálogo. Juro que em três horas não ocorreu uma única pausa nem sequer de um segundo, como é natural de acontecer, aquelas pausas em que todos se calam e um aproveita para dormitar e os outros falam mais baixo ou em que ninguém sabe o que dizer.
Era sobre-humano, o tom era relativamente estável e constante, como que um chilrear instintivo, assim que um terminava de dizer algo, outro havia que reagia imediatamente, mudando de tema ou respondendo. Imaginei uma carruagem toda cheia de pessoas assim e tive um vislumbre do inferno, mas depois pensei que se calhar era menos grave porque ficaria apenas aquele ruído ensurdecedor mas indistinto que se ouve nos transportes em Espanha... Sim, porque os espanhóis são os campeões dos decibéis, puta que os pariu que eles falam aos gritos literalmente.
E pronto, foi o meu post xenófobo do dia :) Espero que tenham gostado. Amanhã vou postar sobre os hábitos de gorjetas dos turistas judeus.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
corrigi
corrigi o post anterior que estava giro só que eu não sabia o que era um bildumnsroman e meti as patas da frente pelas patas de trás com a mania que sei as coisas.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
great technical difficulties e figura de urso
ATENÇÃO: Peço muitas desculpas aos meus leitores que, estranhamente, sabem o que é o Bildungsroman e eu não sabia, pelo que este meu post não faz grande sentido. Dado que comentaram entretanto e que sei que os vossos corações são sensíveis, não apago e fica aqui, ainda acrescento a seguinte nota tidada da wikipedia: É designado com o termo alemão Bildungsroman (romance de aprendizagem ou formação) o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.
A propósito do Adolescente, um livro de Dostoiévski com um narrador na primeira pessoa (incomum em Dostoiévski e considerado por alguns críticos como um livro mais fraco mas eu vou mostrar que não depois de o ler até ao fim), este blogger estrangeiro escreve isto:
«In a bildungsroman [romance na primeira pessoa], the narrator of the story knows the end before the beginning, and must withhold this information from the reader, both on the level of plot and incident, and on the level of self knowledge. At the same time, the illusion of developing awareness, of evolving consciousness must be self-consciously created.
The first person narrative limits the omniscience and interest of the narrative voice. Other characters’ motivations cannot be examined, other scenes in which the narrator is not present cannot be described, without the risk of breaking the illusion of a central viewpoint. The risk of boring the reader without a breath of fresh air provided by a change of scene or character is very great.
At the same time a first person narrative raises all sorts of questions about narrative provenance: is the story being told to the reader, or written down and ‘discovered’ by the reader? What is the gap in time between the events described and the writing/telling?
The genre is therefore fraught with great technical difficulties.»
Nem um género nem outro é melhor ou pior por princípio, mas reconheço facilmente que o bildumgsroman é menos popular e tem menos potencial de sucesso de vendas e mesmo crítico. Contudo, acho o bilbobaginsroman mais natural. O Kerouac pode escrever o blimungsroman do On The Road todo de uma assentada, mas dificilmente faria um não-blinmunsroman de uma assentada. Até porque ele é mau escritor (desculpem) e mesmo assim o On the Road não deixa de ser interessante e poderoso se encontrar a consciência certa. Os diários que se tem na adolescência, as cartas e e-mails que se enviam ou os blogues, são pedaços de blidungsruman. Contamos e escrevemos coisas limitados à nossa consciência e experiência. O esforço de ficção é criar uma consciência nova ou derivações da nossa consciência ou projectar a consciência em experiências novas. Exige voz. Um tipo formidavelmente chato consegue escrever romances não-blidensgruminan e o oposto é completamente falso. Ainda vou no inicio do Adolescente e gosto muito. O Dosto é tudo menos chato e tem sempre truques na manga. Vamos ver.
domingo, 21 de agosto de 2011
E ainda perguntam como é possível que pessoas de classe média alta tenham sido identificadas e presas nos riots de Londres?
Podia-me ter acontecido a mim :(
- O quê?! Jesus, tanto preto! E vêm todos a correr direito a mim! Por amor de Deus não me façam m... Oh, arrombate the shop of telemobiles? Yeah! Lets all go in this... shop... of telemobiles... and show we are angry against system! YEAH! FUCK! YEAH brohters! ai f##%"-se não me empurrem... yeah we are inside the shop, so many evil things here, racist things made by white corporations! ups estes dois gajos são brancos afinal e um está a olhar para mim de lado No, they evil telephonies angainst all races, white, black, yellow, jew!... deixem-me sair da loja agora, com licença excuse me... No! No! I wasnt leaving! I very angry against this shop! I burn this, let me get my isqueiro... merda, não consigo sair daqui, tenho reunião na sede da Merrill Lynch às 16h, vou chegar atrasado... olha um iPhone, se calhar ninguém dá pela falta dist... Oh sorry! take it brother, sorry! take it! Dont hit me! Nice baseball bat... ufa.... como é que estes gajos não morrem de calor todos enfaixados com estes gorros e lenços a tapar a cara... hei, aquilo ali ao canto no tecto é uma câmara? Estará ligada?
- O quê?! Jesus, tanto preto! E vêm todos a correr direito a mim! Por amor de Deus não me façam m... Oh, arrombate the shop of telemobiles? Yeah! Lets all go in this... shop... of telemobiles... and show we are angry against system! YEAH! FUCK! YEAH brohters! ai f##%"-se não me empurrem... yeah we are inside the shop, so many evil things here, racist things made by white corporations! ups estes dois gajos são brancos afinal e um está a olhar para mim de lado No, they evil telephonies angainst all races, white, black, yellow, jew!... deixem-me sair da loja agora, com licença excuse me... No! No! I wasnt leaving! I very angry against this shop! I burn this, let me get my isqueiro... merda, não consigo sair daqui, tenho reunião na sede da Merrill Lynch às 16h, vou chegar atrasado... olha um iPhone, se calhar ninguém dá pela falta dist... Oh sorry! take it brother, sorry! take it! Dont hit me! Nice baseball bat... ufa.... como é que estes gajos não morrem de calor todos enfaixados com estes gorros e lenços a tapar a cara... hei, aquilo ali ao canto no tecto é uma câmara? Estará ligada?
o pior comentário no Facebok
Vejo isto em muitos Facebooks. Uma pessoa posta um vídeo engraçado, uma foto, uma piada qualquer e depois ocasionalmente há um(a) sujeito(a) que interrompe uma cadeia de reacções positivas com um: "e não se trabalha?" ou "isto é de quem não tem nada que fazer lol".
Evidentemente, a pessoa que faz tal comentário é rapidamente colocada na lista do boss e fica com tudo bloqueado, mas o mal está feito.
Que motivação têm essas pessoas que se dedicam a comentar "vê-se logo que não tens nada para fazer" no facebook das pessoas?
Eu identifico algumas:
1) Não é por mal, é assim que reagem sempre que alguém faz uma piada, mesmo no mundo real: se alguém lhes diz algo engraçado numa conversa ao pé da máquina do café eles dizem "ah ah ah vê-se logo que não tens nada que fazer ah ah ah". Mesmo a ver o Herman na TV, em pequenos, já diziam "ah ah vê-se logo que não tem nada para fazer"
2) Existe a possibilidade, embora muito remota, de algumas pessoas das centenas de bons amigos do peito que se tem no facebook, não terem afinidade connosco e com o nosso sentido de humor, mas não quero precipitar-me em conclusões.
3) Querem iniciar um loop interminável. Podíamos responder "e tu, não tens nada que fazer em vez de veres isto e comentares que não tenho nada que fazer?" e eles responderiam "vê-se logo que não tens nada que fazer para comentares o meu comentário a dizer que não tens nada que fazer" e assim por diante.
4) Dizem isso em pessoa em todas as ocasiões em que não se está a trabalhar. Interrompem uma conversa de colegas como o seu "não têm nada para fazer?", tocam no ombro de um colega que está a escolher o disco para ouvir enquanto trabalham com um "não se trabalha?" ou gritam para a sala do café "e trabalhar, não?". Não são muito populares, normalmente.
5) De alguma forma retorcida, querem contribuir e consideram aquilo uma punchline do status dos outros, um pouco como aquele revirar de olhos dos malucos do riso no final de cada piada: "não tens nada para fazer? TOING O_o AHAHAHAH" É muito engraçado e resulta sempre.
6) O emprego deles é, na verdade, ver o facebook dos outros, ler os status ou ver os videos e depois fazer aquele comentário, de modo que para eles aquilo é trabalho e visa aumentar a produtividade dos outros.
Lembro-me destas, assim de repente.
Evidentemente, a pessoa que faz tal comentário é rapidamente colocada na lista do boss e fica com tudo bloqueado, mas o mal está feito.
Que motivação têm essas pessoas que se dedicam a comentar "vê-se logo que não tens nada para fazer" no facebook das pessoas?
Eu identifico algumas:
1) Não é por mal, é assim que reagem sempre que alguém faz uma piada, mesmo no mundo real: se alguém lhes diz algo engraçado numa conversa ao pé da máquina do café eles dizem "ah ah ah vê-se logo que não tens nada que fazer ah ah ah". Mesmo a ver o Herman na TV, em pequenos, já diziam "ah ah vê-se logo que não tem nada para fazer"
2) Existe a possibilidade, embora muito remota, de algumas pessoas das centenas de bons amigos do peito que se tem no facebook, não terem afinidade connosco e com o nosso sentido de humor, mas não quero precipitar-me em conclusões.
3) Querem iniciar um loop interminável. Podíamos responder "e tu, não tens nada que fazer em vez de veres isto e comentares que não tenho nada que fazer?" e eles responderiam "vê-se logo que não tens nada que fazer para comentares o meu comentário a dizer que não tens nada que fazer" e assim por diante.
4) Dizem isso em pessoa em todas as ocasiões em que não se está a trabalhar. Interrompem uma conversa de colegas como o seu "não têm nada para fazer?", tocam no ombro de um colega que está a escolher o disco para ouvir enquanto trabalham com um "não se trabalha?" ou gritam para a sala do café "e trabalhar, não?". Não são muito populares, normalmente.
5) De alguma forma retorcida, querem contribuir e consideram aquilo uma punchline do status dos outros, um pouco como aquele revirar de olhos dos malucos do riso no final de cada piada: "não tens nada para fazer? TOING O_o AHAHAHAH" É muito engraçado e resulta sempre.
6) O emprego deles é, na verdade, ver o facebook dos outros, ler os status ou ver os videos e depois fazer aquele comentário, de modo que para eles aquilo é trabalho e visa aumentar a produtividade dos outros.
Lembro-me destas, assim de repente.
sábado, 20 de agosto de 2011
prometam-me que fazem isto quando forem velhinhas, ó jovens frescas e bonitas
(eu serei o senhor de gorro a bater o pezinho e a tamborilar nos joelhos)
consigo ouvir o meu coração a bater de dentro do armário fechado do outro lado da sala
I can hear my heart beat
Across the room, behind the closet door
When I'm laying in my bed in the dark
I can't gather all the love I need when I need it
O despertador toca e eu tenho sempre dificuldades em levantar-me, antes não tinha. Tomo banho e visto-me e faço a barba (private joke).
Tento lembrar-me das coisas que tenho nesse dia antes de me vestir. Às vezes esqueço-me de uma reunião e depois tenho de vir a casa vestir um fato à pressa à hora de almoço e detesto quando isso acontece.
Às vezes tomo o pequeno almoço em casa e às vezes não e tomo no café e peço A Bola emprestada ao senhor Garcia ou leio o Público que posso ter comprado ou não. Ensaio mentalmente opiniões sobre futebol e economia mundial. Depois vou trabalhar.
Antes de trabalhar vou beber mais café e fumar e ver jornais.
Depois vou trabalhar.
Revejo coisas que escrevi na noite anterior e faço posts.
Depois vou almoçar com os colegas. Não gosto de grupos grandes porque se perde muito tempo a discutir para onde se vai almoçar. Mas gosto deles, só que todos ao mesmo tempo tem este problema, há sempre um que não gosta deste ou daquele restaurante.
Às vezes vou almoçar sozinho quando estou a ler um livro bom e aproveito para ler. Jogo matraquilhos e ganho 95% das vezes.
Depois tento não adormecer e penso em como considero grande parte da actividade humana um gigantesco desperdício de amor e de coisas boas.
Depois vou para casa e vejo pessoas nos carros e traço-lhes o perfil e oiço rádio.
Vou ao McDonalds jantar ou comprar um frango.
Passo pela tasca, dou coisas ao esquizóide da rua e compro cerveja e tabaco.
Vou para casa. Está às escuras e acendo luzes. Janto num tabuleiro a ver o noticiário. Jogo PS. Bebo. Fumo.
Depois oiço música, vou para os chats, escrevo que nem um animal, não tenho sono.
Depois fico com sono e vou para cama.
Leio uma página e adormeço.
Depois o despertador toca e eu tenho sempre dificuldades em levantar-me, antes não tinha.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
a matemática das palavras
O Bukowski diz que arte é fazer uma coisa aborrecida com estilo. Esta frase tem muito que se lhe diga. É polémica porque há romances que conseguem a proeza de não obliterar o estilo em momentos muito empolgantes e com argumentos complexos. As descrições de guerra do Tolstói no Guerra e Paz são disto um exemplo, a cena do crime no Crime e Castigo outro. Aquilo que mais facilmente destrói o estilo é a necessidade de contar algo que está a acontecer. É por isso que os romances bestsellers estilo Código Da Vinci, com o devido mérito que têm e que não questiono uma vez que o mercado é livre e competitivo, são normalmente áridos em estilo. Coisas acontecem e o foco está no argumento, na premissa, que é, aliás, a preocupação principal dos cursos de escrita criativa. Não se ensina estilo, é impossível. O conceito, o argumento e a criação de personagens tem técnica que pode ser ensinada como se ensina a arranjar máquinas de lavar roupa. Uns serão melhores nisso e outros piores.
O mais potente, para mim, é o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Esse vai ao extremo disto de fazer a coisa aborrecida com estilo: o Bernardo Soares está simplesmente a atrofiar em situações diferentes, todas elas bastante limitadas, limitadas à própria consciência. Ora se encontra no quarto sombrio a olhar pela janela, ora a recordar uma conversa, ora a pensar na morte da bezerra enquanto mastiga um bife num restaurante. Não tem narrativa, são fragmentos ordenados, sem uma ordem especial aparente. O sonho é um tema central, o sonhar-se. Mas também consegue outra coisa que é a fusão da personagem com a obra e a fusão desta com o autor, tanto que os especialistas pessoanos, que os há, dizem que o Livro do Desassossego é o mais próximo da voz de Pessoa e que o Bernardo Soares é o heterónimo menos "afastado" ou o menos circunscrito, de todos os seus heterónimos. Dificilmente consigo pensar num escritor mais fascinante que o Fernando Pessoa. O facto de ser português apenas facilitou a coincidência de o ter lido, uma vez que basta andar pelo Chiado que passamos pela sua estátua. Para mim, está no panteão dos maiores de sempre do universo. E o estilo magnífico consegue transmitir uma coisa límpida, inteligente, natural e familiar, como se resolvesse um problema matemático com a elegância da melhor solução, aquela que utiliza o mínimo possível de palavras e recursos. É nesta limpidez e inteligência que se faz a diferença para outros escritores e poetas, detentores de um estilo fabuloso, mas que é manejado por uma consciência mais vaga e imprecisa e que deixa a sensação que a única coisa que se quer dizer - magnificamente aliás - é uma ordem: comove-te com isto oh leitor.
Fernando Pessoa a jogar xadrez, cheio de estilo. Obviamente que está no modo Álvaro de Campos, o engenheiro, porque o Bernardo Soares sonharia até perder por tempo e o Alberto Caeiro pastaria os peões em bonitos padrões ordeiros.
O mais potente, para mim, é o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Esse vai ao extremo disto de fazer a coisa aborrecida com estilo: o Bernardo Soares está simplesmente a atrofiar em situações diferentes, todas elas bastante limitadas, limitadas à própria consciência. Ora se encontra no quarto sombrio a olhar pela janela, ora a recordar uma conversa, ora a pensar na morte da bezerra enquanto mastiga um bife num restaurante. Não tem narrativa, são fragmentos ordenados, sem uma ordem especial aparente. O sonho é um tema central, o sonhar-se. Mas também consegue outra coisa que é a fusão da personagem com a obra e a fusão desta com o autor, tanto que os especialistas pessoanos, que os há, dizem que o Livro do Desassossego é o mais próximo da voz de Pessoa e que o Bernardo Soares é o heterónimo menos "afastado" ou o menos circunscrito, de todos os seus heterónimos. Dificilmente consigo pensar num escritor mais fascinante que o Fernando Pessoa. O facto de ser português apenas facilitou a coincidência de o ter lido, uma vez que basta andar pelo Chiado que passamos pela sua estátua. Para mim, está no panteão dos maiores de sempre do universo. E o estilo magnífico consegue transmitir uma coisa límpida, inteligente, natural e familiar, como se resolvesse um problema matemático com a elegância da melhor solução, aquela que utiliza o mínimo possível de palavras e recursos. É nesta limpidez e inteligência que se faz a diferença para outros escritores e poetas, detentores de um estilo fabuloso, mas que é manejado por uma consciência mais vaga e imprecisa e que deixa a sensação que a única coisa que se quer dizer - magnificamente aliás - é uma ordem: comove-te com isto oh leitor.
Fernando Pessoa a jogar xadrez, cheio de estilo. Obviamente que está no modo Álvaro de Campos, o engenheiro, porque o Bernardo Soares sonharia até perder por tempo e o Alberto Caeiro pastaria os peões em bonitos padrões ordeiros.
e uma vez
Uma vez eu era adolescente e estava a acampar. Tinha uma tenda grande daquelas antigas, com divisões, e depois outra pequena que servia de cozinha. Um dia estava a ler e para me proteger do sol, meti a cadeira dentro da tenda da cozinha e a mesa mesmo à porta e fiquei ali encaixadinho na toca a ler. Nisto passou um grupo de 5 ou 6 putos da minha idade. Eu a partir dos 6 ou 7 anos deixei de conseguir sociabilizar daquela forma natural e estes grupos espontâneos que se formam nas férias sempre me fizeram confusão pois nunca conseguia pertencer a nenhum. Então eles passaram e olharam para mim, ali a ler, e um comentou "olha, aquele ali é que está bem ah ah" e os outros "ya ahahah" e continuaram a andar e senti-me um freak porque de facto podia ter ido para debaixo do chapéu de sol ler ou então simplesmente ignorá-los, mas aquele comentário deixou-me de tal forma perturbado que nem consegui ler mais. Devo dizer que coisas deste tipo sucediam em diversas ocasiões, não muitas, mas mesmo assim algumas. Demorava tempo até ganhar confiança com pessoas e então era-me impensável meter conversa com tipos da minha idade. Não diria que mudei nesse aspecto, mas é certo que já não sou tímido. Penso que a timidez resulta de atribuirmos demasiada importância ao que estranhos pensam de nós. Estranhos, porque nenhum tímido é tímido com quem se sente à vontade e com quem tem confiança. A melhor coisa da maturidade é isso ser cada vez menos relevante, os estranhos. Lembro-me que até a andar na rua me preocupava com a minha maneira de andar, se era estranha e descoordenada ou se era normal e igual à das outras pessoas. Digo com toda a sinceridade que me vai sendo cada vez mais indiferente o juízo de outros e que, paradoxalmente, me parece às vezes pertinente fazer o esforço de pensar no que estranhos podem pensar de mim para continuar a ser o ser sociável que sou, especialmente por exigências profissionais. Por vezes sinto como totalmente absurdas essas expectativas e juízos terceiros quando comparados com a morte ou o infinito do universo ou as palavras de um amigo ou uma lambidela de um cão. São manifestações tão espúrias como a direcção do vento. Por vezes as minhas próprias palavras parecem duras e violentas e maldosas, mas também são apenas isso, direcção do vento. Somos muito parecidos todos uns com os outros.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
responsabilidade social
Já escrevi sobre ele mas, finalmente, o cabrão do esquizofrénico de Alvalade reconheceu-me. Ando há um ano a dar-lhe merdas, cigarros aos três de cada vez e trocos e ele nunca fala ou esboça um sorriso, apenas fica assim assustado na passadeira, de mão estendida. Hoje finalmente sorriu. O dia estava-me a correr mal e isto deixou-me bem disposto, como aquelas velhinhas tiazocas que dão coisas aos pobres na igreja de Alvalade e ficam assim paradas à espera que eles façam aquelas vénias de infinita gratidão e as fazem sentir-se como a Madre Teresa Calcutá com camarote reservado no Céu. O tipo lembra-me o meu tio. O meu tio era esquizofrénico e tinha exactamente a mesma postura e mímica corporal, o mesmo cerco de timidez que o fazia mover-se lentamente como se tivesse os músculos presos, o mesmo olhar fixo nos outros, a mesma pele meio avermelhada e aspecto desleixado, o mesmo excesso de roupa em dias de calor. Este aparece no McDonalds onde vou jantar regularmente, como o velho das barbas e do boné de que acho que já falei uma vez. Chega ao balcão e pede um copo de água e depois tira uns pacotes de açúcar. Senta-se na mesa mais encafuada que houver, virado para a parede, despeja o açúcar para o copo, mexe com cuidado, bebe um pouco, mexe mais um bocadinho e bebe um pouco, prolonga o prazer, na sua toca no McDonalds.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
gostos
O Tolan sabe que os gostos em si não são uma característica moral ou ética, isto é, uma pessoa não é melhor ou pior pessoa por gostar disto ou daquilo (e pessoas com bom gosto às vezes confudem ambos), nem é mais ou menos interessante à partida.
Dito isto, o Tolan acredita que as coisas não são relativas e que o gosto está intimamente ligado a características como independência e curiosidade. E foco-me só nessas duas.
Ter bom gosto pode ser gostar de coisas boas, e mau gosto, o gostar de coisas más. Nenhum existe na forma pura. Todos gostamos de coisas más e de coisas boas, em maior ou menor grau. Mas alguém que gosta de coisas más provavelmente nem sabe que existe diferença entre mau e bom, nunca pensou nisso. Nunca se preocupou em procurar e experimentar. E se essa pessoa pensa assim sobre livros e cinema, porque não havia de pensar assim sobre tudo? De novo, nada disto é condenável, mas não é certamente sinal de independência, antes de passividade e não é sinal de curiosidade, mas sim de preguiça.
É um dado adquirido que a esmagadora maioria das coisas de sucesso são más enquanto que a maioria das poucas coisas boas não têm sucesso contemporâneo, mas tendem a perdurar no tempo. Isto é um facto incontornável, estatístico. Há excepções, elas existem, mas são a minoria. Basta olhar para o top 10 dos livros ou discos mais vendidos, para a televisão e revistas, de cada época, para admitir este fenómeno: a maior parte daquilo é lixo e o que foi sucesso há mais de um ano desapareceu da memória. E isto é constante ao longo dos tempos. Já se observava isto há quinhentos anos, há mil anos. Algumas pessoas pensam que não e que a situação agora é pior, mas isso é porque o tempo entretanto apagou 99,9% do lixo que se fez até chegarmos aqui a 2011.É verdade que há um aumento do lixo pelos simples facto de que as coisas se democratizaram e se tornaram mais acessíveis, havendo pois mais mercado, mais gente a consumir, e por isso mais oferta de lixo.
Não significa que o que não tem sucesso é bom, é importante fazer a distinção. Há coisas que tentam ser boas e não só não têm sucesso como não são boas. Há coisas que tentam apenas ter sucesso e não conseguem. Há também muito mais gente e com mais meios profissionais a tentar ter sucesso do que a fazer coisas boas, na mesma proporção do público e do seu dinheiro. Porque ter sucesso é humano, exige trabalho e profissionalismo, enquanto que fazer coisas boas exige talento, que é algo atribuído divinamente e é estatisticamente mais raro. A intenção a priori é mesmo irrelevante, pois a história está cheia de obras primas que o foram por mero acaso e o autor não tinha intenção ou consciência disso e apenas queria fazer uma coisa que fosse engraçada ou que pagasse as dívidas do jogo ou que corrigisse moralmente uma nação.
Alguém que é exposto a bom cinema e boa música, torna-se mais interessante? Melhor? Mais inteligente? É muito discutível. Tudo me leva a crer que não, olhando apenas para os críticos. Podia pegar no exemplo oposto, nas pessoas simples, néscias, que, quando falam, contam histórias ou anedotas, debitam poesia pura. Mas estas pessoas são muito raras. Peguemos antes no exemplo oposto, no crítico.
Um crítico, por formação e hábito profissional, lê, ouve e vê muitas coisas. Mas um bom crítico é tão raro como um bom artista, visto que para comunicar com o público e para ter sensibilidade ao que está a ver, ele precisa também de características que não abundam nas pessoas, a começar pela independência e curiosidade, culminando no talento. E isto leva a um dos fenómenos que, esses sim, aborrecem o Tolan, porque é um embuste (ao contrário do mercado do sucesso que é puro) que é ver coisas más serem consideradas como boas pela crítica, apenas porque colam pedaços de coisas que normalmente se encontram em coisas boas que já foram feitas e que eles viram ou, ainda pior, porque não têm sucesso e servem para consolidar a hierarquia de gosto face às massas. E, por outro lado, os críticos tendem a rejeitar coisas objectivamente boas porque são feitas de pedaços de coisas que, ou não compreendem porque são novas e questionam tudo ou porque as referências são de coisas más, ou, ironicamente, porque têm sucesso.
Acresce a isto ainda a obrigatoriedade da crítica, do prémio, da laudatória, como se o espírito humano estivesse sincronizado com "um ano" civil e os ciclos comerciais. Em anos (décadas por vezes) em que tudo é mau, as coisas são atribuídas e elogiadas na mesma. Por outro lado, em anos excelentes (mais raros), existem coisas que não são devidamente valorizadas, porque tiveram azar de ser contemporâneos de outras igualmente boas. Penso por isso que os "prémios", pela importância que têm nas artes todas, deviam quase todos ser de carreira, que é aquilo que Hollywood inventou para descalçar a bota de ter na sua história enormes realizadores e actores que perderam para outros que o tempo resolveu, e bem, apagar.
Dito isto, o Tolan acredita que as coisas não são relativas e que o gosto está intimamente ligado a características como independência e curiosidade. E foco-me só nessas duas.
Ter bom gosto pode ser gostar de coisas boas, e mau gosto, o gostar de coisas más. Nenhum existe na forma pura. Todos gostamos de coisas más e de coisas boas, em maior ou menor grau. Mas alguém que gosta de coisas más provavelmente nem sabe que existe diferença entre mau e bom, nunca pensou nisso. Nunca se preocupou em procurar e experimentar. E se essa pessoa pensa assim sobre livros e cinema, porque não havia de pensar assim sobre tudo? De novo, nada disto é condenável, mas não é certamente sinal de independência, antes de passividade e não é sinal de curiosidade, mas sim de preguiça.
É um dado adquirido que a esmagadora maioria das coisas de sucesso são más enquanto que a maioria das poucas coisas boas não têm sucesso contemporâneo, mas tendem a perdurar no tempo. Isto é um facto incontornável, estatístico. Há excepções, elas existem, mas são a minoria. Basta olhar para o top 10 dos livros ou discos mais vendidos, para a televisão e revistas, de cada época, para admitir este fenómeno: a maior parte daquilo é lixo e o que foi sucesso há mais de um ano desapareceu da memória. E isto é constante ao longo dos tempos. Já se observava isto há quinhentos anos, há mil anos. Algumas pessoas pensam que não e que a situação agora é pior, mas isso é porque o tempo entretanto apagou 99,9% do lixo que se fez até chegarmos aqui a 2011.É verdade que há um aumento do lixo pelos simples facto de que as coisas se democratizaram e se tornaram mais acessíveis, havendo pois mais mercado, mais gente a consumir, e por isso mais oferta de lixo.
Não significa que o que não tem sucesso é bom, é importante fazer a distinção. Há coisas que tentam ser boas e não só não têm sucesso como não são boas. Há coisas que tentam apenas ter sucesso e não conseguem. Há também muito mais gente e com mais meios profissionais a tentar ter sucesso do que a fazer coisas boas, na mesma proporção do público e do seu dinheiro. Porque ter sucesso é humano, exige trabalho e profissionalismo, enquanto que fazer coisas boas exige talento, que é algo atribuído divinamente e é estatisticamente mais raro. A intenção a priori é mesmo irrelevante, pois a história está cheia de obras primas que o foram por mero acaso e o autor não tinha intenção ou consciência disso e apenas queria fazer uma coisa que fosse engraçada ou que pagasse as dívidas do jogo ou que corrigisse moralmente uma nação.
Alguém que é exposto a bom cinema e boa música, torna-se mais interessante? Melhor? Mais inteligente? É muito discutível. Tudo me leva a crer que não, olhando apenas para os críticos. Podia pegar no exemplo oposto, nas pessoas simples, néscias, que, quando falam, contam histórias ou anedotas, debitam poesia pura. Mas estas pessoas são muito raras. Peguemos antes no exemplo oposto, no crítico.
Um crítico, por formação e hábito profissional, lê, ouve e vê muitas coisas. Mas um bom crítico é tão raro como um bom artista, visto que para comunicar com o público e para ter sensibilidade ao que está a ver, ele precisa também de características que não abundam nas pessoas, a começar pela independência e curiosidade, culminando no talento. E isto leva a um dos fenómenos que, esses sim, aborrecem o Tolan, porque é um embuste (ao contrário do mercado do sucesso que é puro) que é ver coisas más serem consideradas como boas pela crítica, apenas porque colam pedaços de coisas que normalmente se encontram em coisas boas que já foram feitas e que eles viram ou, ainda pior, porque não têm sucesso e servem para consolidar a hierarquia de gosto face às massas. E, por outro lado, os críticos tendem a rejeitar coisas objectivamente boas porque são feitas de pedaços de coisas que, ou não compreendem porque são novas e questionam tudo ou porque as referências são de coisas más, ou, ironicamente, porque têm sucesso.
Acresce a isto ainda a obrigatoriedade da crítica, do prémio, da laudatória, como se o espírito humano estivesse sincronizado com "um ano" civil e os ciclos comerciais. Em anos (décadas por vezes) em que tudo é mau, as coisas são atribuídas e elogiadas na mesma. Por outro lado, em anos excelentes (mais raros), existem coisas que não são devidamente valorizadas, porque tiveram azar de ser contemporâneos de outras igualmente boas. Penso por isso que os "prémios", pela importância que têm nas artes todas, deviam quase todos ser de carreira, que é aquilo que Hollywood inventou para descalçar a bota de ter na sua história enormes realizadores e actores que perderam para outros que o tempo resolveu, e bem, apagar.
Oração da impressora do escritório
Pai Nosso que estais na rede,
não me digas paper jam remove cover
nem para ser eu a fazer o replace do toner
não ponhas o meu relatório urgente em espera,
atrás dos prints das fotos das crianças da Vera,
vou ter de entregar isto agora ao Presidente
trata-se de um print muito urgente
e se o Júlio voltou a imprimir pornografia
que eu esteja atento e de vigia
que não me passe ao lado na encadernação
e que eu acabe com a mesma reputação
da Maria João
que nunca deu por nada
e está muito intrigada
porque o Senhor Doutor
lhe pisca o olho no elevador
Amen
não me digas paper jam remove cover
nem para ser eu a fazer o replace do toner
não ponhas o meu relatório urgente em espera,
atrás dos prints das fotos das crianças da Vera,
vou ter de entregar isto agora ao Presidente
trata-se de um print muito urgente
e se o Júlio voltou a imprimir pornografia
que eu esteja atento e de vigia
que não me passe ao lado na encadernação
e que eu acabe com a mesma reputação
da Maria João
que nunca deu por nada
e está muito intrigada
porque o Senhor Doutor
lhe pisca o olho no elevador
Amen
não sei se foi dos carneiros que contei
Mas tive um sonho intenso e para não o esquecer tomo nota dele aqui. Estava num apartamento antigo, na cidade de X, onde vivi a adolescência. À parte uma mobília velha e minimalista, a casa estava praticamente vazia. Era sábado. Estava acompanhado pela Y, pelos vistos tinha conseguido levá-la para casa e íamos ter sexo. Era noite e víamos um filme em DVD. Ela tentava criar um ambiente romântico para conferir um pouco de dignidade aquilo tudo. Sentia-me deprimido porque ela dizia coisas como "às vezes as pessoas recusam-se a ver um filme em alemão, eu não tenho problema nenhum com isso" e eu perguntava-lhe "com que espécie de pessoas é que tu te dás?" e depois sentia-me mal. Não havia bebida em casa, nem sequer frigorífico. Então lembrei-me que era Sábado e que podia dar-se o caso da minha mãe aparecer naquele apartamento, para ver obras ou o seu estado, antes de o alugar. Afastei-me da Y e fui para o escritório virado a oeste e quando olhei para o telemóvel, estava a fazer uma chamada há meia hora pelo menos, e ouvia a voz da minha mãe preocupada.
- Estou?
- Filhe? És tu? Ah merde, estava preocupade! Não quer vir jantar connosque?
- Com quem? Onde estás?
- Em X, com a A, B,C. Anda!
- Não, não, estou com alguém aqui no apartamento.
- Ah... estou a passar aqui na porte em baixo agora mesme, ainda bem que tu avise.
- Eu vou aí abaixo cumprimentar.
Desci as escadas a correr, esquecendo-me da Y.
Estava a chover torrencialmente. Então a minha mãe disse-me que no carro tinha a última carta que o meu pai escreveu e perguntou-me se eu a queria ler. Hesitei mas disse que sim. Abriu a bagageira (era o velho peugeot 504 da minha infância). À volta do carro estavam pessoas da minha infância, em silêncio. Abriu uma pasta, tinha muitos papéis confusos e deu-me uma folha amachucada.
Tentei ler mas tinha dificuldades em focar. Algumas palavras estavam escritas a lápis, outras a tinta negra. As frases eram curtas e só conseguia ler pedaços, palavras, não conseguia entender o sentido e atribuí a confusão ao seu estado no fim. Mas conseguia perceber o sentimento, no início era uma raiva grande, estava cheia de expressões como "o caralho!" como quem está fodido com a desilusão de descobrir no fim que o enganaram em criança com as promessas de que a vida é uma coisa e afinal é outra. Depois explicava porque tinha fugido e comprara uma casa pequena numa aldeia, ia recomeçar. A carta era paranóide e disconexa, cheia de raiva e de autorecriminações que nunca na vida o ouvira fazer, coisas como "fiz tudo mal" ou "falhei". Anexada à carta estava uma fotografia dessa casa, recortada de uma foto maior. Ele dizia que não tinha sido ele a tirar foto mas sim uma equipa de filmagens a escolher locais, por coincidência, e que ele lhes pediu a foto que por acaso era da casa dele. A meio da leitura da carta uma gigantesca nave espacial pairou no ar num monte em frente ao carro e começou a explodir, a desfazer-se (os meus sonhos têm sempre um cunho do Michael Bay). Ignorei-a completamente, continuando a ler a carta. Tinha esquemas complicados da casa e do jardim, com rabiscos a lápis a desenhar árvores. E acabava com um desenho de uma casota engraçada, muito naif, parecida com a do snoopy, com uma bola de futebol e um baloiço ao pé e dizia "a casa para o meu filho XXXXX" e eu colapsei numa espécie de choro-uivo durante muito tempo. A minha mãe desculpava-me às pessoas "está a ler uma carte que o pai escreveu". Despedi-me, voltei para casa à chuva e quando estava a subir as escadas de volta ao apartamento, acordei. Faltavam três minutos para o despertador tocar.
Bom dia!
- Estou?
- Filhe? És tu? Ah merde, estava preocupade! Não quer vir jantar connosque?
- Com quem? Onde estás?
- Em X, com a A, B,C. Anda!
- Não, não, estou com alguém aqui no apartamento.
- Ah... estou a passar aqui na porte em baixo agora mesme, ainda bem que tu avise.
- Eu vou aí abaixo cumprimentar.
Desci as escadas a correr, esquecendo-me da Y.
Estava a chover torrencialmente. Então a minha mãe disse-me que no carro tinha a última carta que o meu pai escreveu e perguntou-me se eu a queria ler. Hesitei mas disse que sim. Abriu a bagageira (era o velho peugeot 504 da minha infância). À volta do carro estavam pessoas da minha infância, em silêncio. Abriu uma pasta, tinha muitos papéis confusos e deu-me uma folha amachucada.
Tentei ler mas tinha dificuldades em focar. Algumas palavras estavam escritas a lápis, outras a tinta negra. As frases eram curtas e só conseguia ler pedaços, palavras, não conseguia entender o sentido e atribuí a confusão ao seu estado no fim. Mas conseguia perceber o sentimento, no início era uma raiva grande, estava cheia de expressões como "o caralho!" como quem está fodido com a desilusão de descobrir no fim que o enganaram em criança com as promessas de que a vida é uma coisa e afinal é outra. Depois explicava porque tinha fugido e comprara uma casa pequena numa aldeia, ia recomeçar. A carta era paranóide e disconexa, cheia de raiva e de autorecriminações que nunca na vida o ouvira fazer, coisas como "fiz tudo mal" ou "falhei". Anexada à carta estava uma fotografia dessa casa, recortada de uma foto maior. Ele dizia que não tinha sido ele a tirar foto mas sim uma equipa de filmagens a escolher locais, por coincidência, e que ele lhes pediu a foto que por acaso era da casa dele. A meio da leitura da carta uma gigantesca nave espacial pairou no ar num monte em frente ao carro e começou a explodir, a desfazer-se (os meus sonhos têm sempre um cunho do Michael Bay). Ignorei-a completamente, continuando a ler a carta. Tinha esquemas complicados da casa e do jardim, com rabiscos a lápis a desenhar árvores. E acabava com um desenho de uma casota engraçada, muito naif, parecida com a do snoopy, com uma bola de futebol e um baloiço ao pé e dizia "a casa para o meu filho XXXXX" e eu colapsei numa espécie de choro-uivo durante muito tempo. A minha mãe desculpava-me às pessoas "está a ler uma carte que o pai escreveu". Despedi-me, voltei para casa à chuva e quando estava a subir as escadas de volta ao apartamento, acordei. Faltavam três minutos para o despertador tocar.
Bom dia!
terça-feira, 16 de agosto de 2011
o boogaloo triste
James Brown, o verdadeiro "rei", está entretido a dançar o boogaloo em directo na tv nacional em 1965, completamente na dele, apenas a ser awsome em cada molécula, e eu a beber a minha cerveja e a menear a cabeça, quando somos interrompidos aos 0:32 pelo apresentador branquelas que pede ao James Brown para dançar o boogaloo como um homem feliz e o James pergunta se pode antes dançar o boogaloo como se estivesse triste. E realmente, ele dança um boogaloo triste, um paradoxo portanto, que ele resolve com mestria. Tiro notas mentais, mas somos interrompidos de novo pelo apresentador branquelas que lhe diz "allright that's enough" e que lhe pede para ensinar aos jovens figurantes, todos brancos e mui fremosos, como se dança o boogaloo e eles imitam-no.
debater, manual
Primeiro, muitas opiniões são herdadas. É preciso passar todas as opiniões para um campo neutro e depois daí ir fazendo a filtragem. Se opiniões herdadas resistem a testes, não há problema. Apesar de existir quem tenha paciência didáctica, eu não a tenho.
Segundo, temos de ter sempre predisposição para ouvir e questionar aquilo em que acreditamos, com base em factos e argumentação racional. Passar de comunista a liberal ou vice-versa, com base num argumento ou facto novo, deve ser sempre uma hipótese, pois só ela credibiliza a opinião actual face a pessoas que pensam de maneira diferente.
Terceiro, não misturem boas intenções com as soluções e os meios. O provérbio "de boas intenções está o inferno cheio" é uma excelente máxima. Torna-se muito cansativo discutir com pessoas que se julgam donas de uma superioridade moral e ética quando, no fundo, querem o mesmo que qualquer pessoa. Normalmente esta superioridade ética está fundada em preconceitos herdados e não em opiniões baseadas na observação, no estudo e na procura de soluções para os problemas.
Quarto, o facto de pertencerem a algo que tenha "nome" e que represente uma forma comum de pensar (como ser de esquerda, direita, católico, ateu, anarquista, ecologista etc.) deve resultar de um acaso. Por acaso, as vossas opiniões que passaram pelo crivo do ponto um, dois e três, calham em ser parecidas com a de um grupo de gente que tem um nome abstracto para o denominar. Não é isso que vos vai atribuir mais ou menos razão. O oposto diminui a razão, porque alguém que quer pertencer a um grupo que considera moralmente superior, tem tendência a procurar argumentos e factos de forma enviesada para justificar a sua escolha irracional ou herdada e fazer oposição a grupos que cristalizem posições adversas à sua.
Segundo, temos de ter sempre predisposição para ouvir e questionar aquilo em que acreditamos, com base em factos e argumentação racional. Passar de comunista a liberal ou vice-versa, com base num argumento ou facto novo, deve ser sempre uma hipótese, pois só ela credibiliza a opinião actual face a pessoas que pensam de maneira diferente.
Terceiro, não misturem boas intenções com as soluções e os meios. O provérbio "de boas intenções está o inferno cheio" é uma excelente máxima. Torna-se muito cansativo discutir com pessoas que se julgam donas de uma superioridade moral e ética quando, no fundo, querem o mesmo que qualquer pessoa. Normalmente esta superioridade ética está fundada em preconceitos herdados e não em opiniões baseadas na observação, no estudo e na procura de soluções para os problemas.
Quarto, o facto de pertencerem a algo que tenha "nome" e que represente uma forma comum de pensar (como ser de esquerda, direita, católico, ateu, anarquista, ecologista etc.) deve resultar de um acaso. Por acaso, as vossas opiniões que passaram pelo crivo do ponto um, dois e três, calham em ser parecidas com a de um grupo de gente que tem um nome abstracto para o denominar. Não é isso que vos vai atribuir mais ou menos razão. O oposto diminui a razão, porque alguém que quer pertencer a um grupo que considera moralmente superior, tem tendência a procurar argumentos e factos de forma enviesada para justificar a sua escolha irracional ou herdada e fazer oposição a grupos que cristalizem posições adversas à sua.
a verdade
Uma das coisas que mais me aborrece nos filmes é quando usam truques desonestos para criar twists. Acabei de ver um assim, o Alta Tensão, filme francês de terror. O filme seria aceitável sem o básico truque inspirado no Fight Club / Sixth Sense: aquilo do "o que vês não é a realidade". Ou seja, estamos na cabeça de uma personagem do filme e aquilo que vemos não é a realidade.
Não é este o psicopata, este senhor nem sequer existe.
Este senhor existe na cabeça desta lesbiana, ela é que é a psicopata.
É giro uma vez, pronto, está feito. Chega. Não que tenha algum problema com uma filmagem subjectiva à mente de uma personagem, como na Repulsa de Polanski ou o Spider do Cronenberg. O que acho idiota é que o espectador não saiba disso e que isso sirva de base a um twist: "ah, afinal não era ele o psicopata, era a lésbica e estamos a ver o filme pela mente da lésbica obcecada pela Alex". Não me lembro de Hitchcock alguma vez ter recorrido a estes atalhos para criar twists nos argumentos. Que mal tinha o Alta Tensão ser só um filme de um psicopata dos bons e dos antigos?
Além disso são filmes que envelhecem muito mal, tira-se aquele truque ao Fight Club ou ao Sixth Sense e o filme perde 90% do interesse. Não consigo compreender o que está na cabeça de um argumentista para cometer um erro tão patético quando não há um único clássico que faça estes malabarismos. Nem vai haver.
SPOILER ALERT
Se calhar devia colocar o spoiler alert no início do post. Mas o filme já tem uns anos, por isso, que se lixe.
Não é este o psicopata, este senhor nem sequer existe.
Este senhor existe na cabeça desta lesbiana, ela é que é a psicopata.
É giro uma vez, pronto, está feito. Chega. Não que tenha algum problema com uma filmagem subjectiva à mente de uma personagem, como na Repulsa de Polanski ou o Spider do Cronenberg. O que acho idiota é que o espectador não saiba disso e que isso sirva de base a um twist: "ah, afinal não era ele o psicopata, era a lésbica e estamos a ver o filme pela mente da lésbica obcecada pela Alex". Não me lembro de Hitchcock alguma vez ter recorrido a estes atalhos para criar twists nos argumentos. Que mal tinha o Alta Tensão ser só um filme de um psicopata dos bons e dos antigos?
Além disso são filmes que envelhecem muito mal, tira-se aquele truque ao Fight Club ou ao Sixth Sense e o filme perde 90% do interesse. Não consigo compreender o que está na cabeça de um argumentista para cometer um erro tão patético quando não há um único clássico que faça estes malabarismos. Nem vai haver.
SPOILER ALERT
Se calhar devia colocar o spoiler alert no início do post. Mas o filme já tem uns anos, por isso, que se lixe.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
há pais que confiam na catequese para isto mas comigo foi mais assim
Tolan aprende a reconhecer e a defender-se dos perigos do dia a dia.
Enquanto os pais assistem a mais um episódio do Dallas, Tolan compra preservativos.
Não é muito discreto.
Tolan tem a sua primeira namorada. E na escola ainda acham que ele é geek :D
Tolan vai à disco dançar e ensaia os passos que o tornarão famoso e quebrarão a coluna cervical à S. em dois sítios.
Tolan aprende qual a função de divesos objectos.
Tolan, a ir buscar frango since 1985.
Tolan depressa sente uma afinidade com o universo de Charles Bukowski e afoga as mágoas.
Enquanto os pais vêem um episódio de Uma Casa na Pradaria na tv da sala, Tolan joga sossegado.
"Não fiques em casa o dia todo a jogar!" diz a mãe. Tolan não compreende tal repreensão, pois ele estava precisamente na praia e ao ar livre.
Enquanto os pais assistem a mais um episódio do Dallas, Tolan compra preservativos.
Não é muito discreto.
Tolan tem a sua primeira namorada. E na escola ainda acham que ele é geek :D
Tolan vai à disco dançar e ensaia os passos que o tornarão famoso e quebrarão a coluna cervical à S. em dois sítios.
Tolan aprende qual a função de divesos objectos.
Tolan, a ir buscar frango since 1985.
Tolan depressa sente uma afinidade com o universo de Charles Bukowski e afoga as mágoas.
Enquanto os pais vêem um episódio de Uma Casa na Pradaria na tv da sala, Tolan joga sossegado.
"Não fiques em casa o dia todo a jogar!" diz a mãe. Tolan não compreende tal repreensão, pois ele estava precisamente na praia e ao ar livre.
domingo, 14 de agosto de 2011
o mundo interior
Encontro-me a ler o Viagens de Gulliver do senhor Jonathan Swift (ainda).
Quando Gulliver viaja, leva consigo a sociedade e o pensar ocidental, nomeadamente o inglês, e coloca-o em confronto com mundos diferentes mas que são emanações absurdas do mundo inglês do século XVIII. Assim, também há cortes, leis, cidades, ciência, arte, exércitos etc. nesses novos mundos. Não são mundos "selvagens" e "inocentes" como os que se desbravavam na época e cujas questões fundamentais que suscitam são retratadas, por exemplo, no maravilhoso Robinson Crusoe do Daffoe, também mais ou menos da mesma época.
Gulliver é como um diapasão da nossa identidade, vemos as coisas pelos olhos dele: os outros mundos parecem absurdos e desproporcionados e ele, por comparação, ora é um gigante que vence batalhas sozinho, ora é um ser pequenino e desprezível explorado numa feira de curiosidades.
O mecanismo de Swift é subtil e contém uma poderosa auto-ironia à sociedade inglesa, pois Gulliver, que é um inglês civilizado, humanista e justo e profundamente convicto da superioridade da sua nação e cultura, é sucessivamente desarmado pelas circunstâncias e pelo contexto que varia com as suas viagens. O seu sistema de valores vai sendo desmistificado, seja directamente, quando o Rei da terra dos gigantes faz uma mordaz crítica à sociedade descrita por Gulliver, seja pela caricatura, quando reconhecemos nos mundos descritos por Gulliver, o nosso próprio país e os seus defeitos, levados a um extremo absurdo. Por exemplo, uma nação que é governada por pessoas obcecadas por números e que os analisam e contabilizam à exaustão mas que, por outro lado, são cegas e surdas à realidade próxima que os rodeia (sendo necessários "batedores" que lhes dão pancadinhas nos olhos e nos ouvidos para que oiçam e vejam quando alguém fala com eles) não é mais do que uma caricatura de uma característica nossa (ocidental). O que é curioso é que apesar destes sucessivos choques, nada em Gulliver indica que ele pense de forma diferente ou que as viagens o transformem. Apenas aparenta ser louco quando conta as suas histórias a pessoas do seu país.
O retrato satírico que ele faz da Inglaterra de 1726 podia perfeitamente ser aplicado ao Portugal de 2011, com alguns ajustes.E a forma de Gulliver analisar e descrever estas sociedades estranhas, é muito semelhante à nossa, quando comentamos a actualidade de países que nos são estranhos e distantes ou de fenómenos que não conhecemos, mesmo dentro do nosso país. Esta é talvez a última conclusão que se retira do As Viagens de Gulliver. O único referencial, absoluto, somos nós, na nossa solidão e mundo interior e tudo o resto é potencialmente absurdo ou moralmente errado se destoar do nosso mundo interior.
O Jonathan Swift é este senhor ó:
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