quarta-feira, 17 de agosto de 2011

gostos

O Tolan sabe que os gostos em si não são uma característica moral ou ética, isto é, uma pessoa não é melhor ou pior pessoa por gostar disto ou daquilo (e pessoas com bom gosto às vezes confudem ambos), nem é mais ou menos interessante à partida.

Dito isto, o Tolan acredita que as coisas não são relativas e que o gosto está intimamente ligado a características como independência e curiosidade. E foco-me só nessas duas.

Ter bom gosto pode ser gostar de coisas boas, e mau gosto, o gostar de coisas más. Nenhum existe na forma pura. Todos gostamos de coisas más e de coisas boas, em maior ou menor grau. Mas alguém que gosta de coisas más provavelmente nem sabe que existe diferença entre mau e bom, nunca pensou nisso. Nunca se preocupou em procurar e experimentar. E se essa pessoa pensa assim sobre livros e cinema, porque não havia de pensar assim sobre tudo? De novo, nada disto é condenável, mas não é certamente sinal de independência, antes de passividade e não é sinal de curiosidade, mas sim de preguiça.

É um dado adquirido que a esmagadora maioria das coisas de sucesso são más enquanto que a maioria das poucas coisas boas não têm sucesso contemporâneo, mas tendem a perdurar no tempo. Isto é um facto incontornável, estatístico. Há excepções, elas existem, mas são a minoria. Basta olhar para o top 10 dos livros ou discos mais vendidos, para a televisão e revistas, de cada época, para admitir este fenómeno: a maior parte daquilo é lixo e o que foi sucesso há mais de um ano desapareceu da memória. E isto é constante ao longo dos tempos. Já se observava isto há quinhentos anos, há mil anos. Algumas pessoas pensam que não e que a situação agora é pior, mas isso é porque o tempo entretanto apagou 99,9% do lixo que se fez até chegarmos aqui a 2011.É verdade que há um aumento do lixo pelos simples facto de que as coisas se democratizaram e se tornaram mais acessíveis, havendo pois mais mercado, mais gente a consumir, e por isso mais oferta de lixo.

Não significa que o que não tem sucesso é bom, é importante fazer a distinção. Há coisas que tentam ser boas e não só não têm sucesso como não são boas. Há coisas que tentam apenas ter sucesso e não conseguem. Há também muito mais gente e com mais meios profissionais a tentar ter sucesso do que a fazer coisas boas, na mesma proporção do público e do seu dinheiro. Porque ter sucesso é humano, exige trabalho e profissionalismo, enquanto que fazer coisas boas exige talento, que é algo atribuído divinamente e é estatisticamente mais raro. A intenção a priori é mesmo irrelevante, pois a história está cheia de obras primas que o foram por mero acaso e o autor não tinha intenção ou consciência disso e apenas queria fazer uma coisa que fosse engraçada ou que pagasse as dívidas do jogo ou que corrigisse moralmente uma nação.

Alguém que é exposto a bom cinema e boa música, torna-se mais interessante? Melhor? Mais inteligente? É muito discutível. Tudo me leva a crer que não, olhando apenas para os críticos. Podia pegar no exemplo oposto, nas pessoas simples, néscias, que, quando falam, contam histórias ou anedotas, debitam poesia pura. Mas estas pessoas são muito raras. Peguemos antes no exemplo oposto, no crítico.

Um crítico, por formação e hábito profissional, lê, ouve e vê muitas coisas. Mas um bom crítico é tão raro como um bom artista, visto que para comunicar com o público e para ter sensibilidade ao que está a ver, ele precisa também de características que não abundam nas pessoas, a começar pela independência e curiosidade, culminando no talento. E isto leva a um dos fenómenos que, esses sim, aborrecem o Tolan, porque é um embuste (ao contrário do mercado do sucesso que é puro) que é ver coisas más serem consideradas como boas pela crítica, apenas porque colam pedaços de coisas que normalmente se encontram em coisas boas que já foram feitas e que eles viram ou, ainda pior, porque não têm sucesso e servem para consolidar a hierarquia de gosto face às massas. E, por outro lado, os críticos tendem a rejeitar coisas objectivamente boas porque são feitas de pedaços de coisas que, ou não compreendem porque são novas e questionam tudo ou porque as referências são de coisas más, ou, ironicamente, porque têm sucesso.

Acresce a isto ainda a obrigatoriedade da crítica, do prémio, da laudatória, como se o espírito humano estivesse sincronizado com "um ano" civil e os ciclos comerciais. Em anos (décadas por vezes) em que tudo é mau, as coisas são atribuídas e elogiadas na mesma. Por outro lado, em anos excelentes (mais raros), existem coisas que não são devidamente valorizadas, porque tiveram azar de ser contemporâneos de outras igualmente boas. Penso por isso que os "prémios", pela importância que têm nas artes todas, deviam quase todos ser de carreira, que é aquilo que Hollywood inventou para descalçar a bota de ter na sua história enormes realizadores e actores que perderam para outros que o tempo resolveu, e bem, apagar.

16 comentários:

anouc disse...

Tol, li este texto com bastante atenção (apesar do tamanho. Tu cura-te, pá) pelos motivos que podes calcular. Remember?

Anyways, a minha opinião é positiva e favorável e acho até que sim senhor muito bem.

Isa disse...

gostei muito. acrescento apenas que os gostos, o que nos interessa, nomeadamente no que se refere ao conteúdo e à escolha da forma como passar a mensagem, tem a ver com as nossas auto-ilusões, aquilo em que acreditamos, o que nos faz andar pra frente. basicamente um instinto de sobrevivência, onde cabe tudo, religião, partido político, clube de futebol, cinema, leituras, vídeo jogos, forma de encarar a vida em geral, u name it ;)
qt mais alguém se identificar, mais "sucesso" fará. e às vezes não somos fadados a isso, pq o nosso perfil não se adequa, nós não queremos. a prova disso são compositores de sucesso noutras vozes que não a sua. e q tb ganham, têm o reconhecimento dos pares e ganham direitos de autor. mas o sucesso é de outros.
Bjo

a.i. disse...

ehpa, tu escreves estas coisas depois de conversares sobre estes temas com a senhora da cantina à hora do lanche é?

Isabel disse...

Fiquei a meio, amanhã leio o resto... O que não quer dizer que o texto seja mau. Ou que eu seja preguiçosa e não tenha curiosidade de o ler até ao fim. Nada disso!
Tenho é sono. Até amanhã.

Cardápio de Vilãs disse...

Too long...and messy!

Anónimo disse...

Ó Tólan, tu és um tipo com talento. Sabes muita da vida. Tens um certa sensibilidade. Aposto que tens um nariz de Judeu. Lês uns quantos clássicos e és inteligente. Não usas barba. Mas tu fazes um overkill ao teu talento. Comecei a descobrir-te estavas tu lá na ex-colónia. Fiz-te caça a post's antigos. Mas sofres de um qualquer problema moderno. Escreves em demasia... E além disso acho que começas a escrever para alguém, o que ainda é pior.
É triste porque parece um tipo com talento.
É com pesar que me despeço de ti Sr. Tolan, talvez nos cruzemos um dia e eu faça um comentário jocoso à tua jaqueta abichanada.
Cumprimentos e do teu sincero,

R.

Tolan disse...

R., só li até aqui: "Ó Tólan, tu és um tipo com talento. Sabes muita da vida. Tens um certa sensibilidade." Obrigado :)

Anónimo disse...

Este post é mau. Mas eu já li outros.

Tolan disse...

é esse o espírito -_-

Vareta disse...

Fixe. Um texto pertinente sobre o gosto é "arrumado" nos comentários sem outra discussão para além do "gosto/não gosto".

Tolan disse...

Faltaram os kitys, Vareta. Uns kitys e tinha ficado perfeito.

Aladdin Sane disse...

`tá bem. No meio de tudo, destaco esta frase: "E, por outro lado, os críticos tendem a rejeitar coisas objectivamente boas porque são feitas de pedaços de coisas que, ou não compreendem porque são novas..."

Não creio que os críticos sejam assim tão avessos às "coisas novas", mas é verdade que muito se desdenha o que tem sucesso. A parte séria do comentário já está.

Agora, muitos "malham" nos críticos, mas é uma profissão "badtrip": têm de criticar e tentar "entrar" na mente dos espectadores / público, sabendo que muitos destes são também presumidos, pretensiosos e apenas gostam "do primeiro trabalho de quem obteve reconhecimento no segundo". Então sabe que, mesmo que eventualmente gostem do que estão a apreciar, há uma franja de público que "ordena" o contrário, porque se quer distanciar da populaça que gosta do mainstream. Ao "dizer mal" sabe também estar a instalar a polémica, e assim falar-se-á da obra e, concomitantemente - como gosto de empregar este advérbio, parece "como comi tanto", concomitantemente, dizia, o crítico virá também à liça. E um crítico que não se ponha a dizer mal do que aprecia corre o risco de perder o emprego. "Ah, se o gajo gosta de tudo não sei para que é crítico, com a sua visão acrítica".

Eu, o perturbado, que te lê desde que o PCP "venceu as eleições", creio que este texto está muito bem escrito. Parece-me, desculpa-me por estar a arvorar-me em crítico, um bom exercício de estilo, que - sabe-lo bem - não tinhas necessidade de o "florear" - podias, ao invés, ter escrito um post num tom jocoso, como ainda se vai dizendo por aí - mas é como se te tivesses obrigado a escrevê-lo nestes termos mais "académicos". A disciplina de um escritor, certo?

Tolan disse...

Aladdin, eu disse que há bons críticos e maus críticos :)

Obrigado e podia ter escrito no tom jocoso, mas o leitor ideal deste texto era eu próprio a pensar digamos assim e a estruturar um raciocínio. Faço alguns posts assim e, normalmente, nem os ponho blogue.

Por exemplo, fiz um a semana passada a explicar porque motivo há menos mulheres boas escritoras, já ia em página e meia. E não o postei :D

Busca-pólos disse...

Achei curioso o facto de a maioria das pessoas que teceu uma opinião negativa acerca deste texto não ter dado nenhuma justificação racional, isto é, não apontaram o dedo àquilo que os fazia desgotar. Não discordaram e discutiram o tema.
Não estou a defender-te Tó-lan.

Publica o texto acerca de haver menos mulheres boas escritoras. Curiosidade.

Tolan disse...

Não posso publicar esse, pelas minhas estimativas era -34% de visitas só nos primeiros dias.

M disse...

Muito bom, Tolan. Deste-me que pensar, principalmente aquela parte da independência e da curiosidade.