sexta-feira, 19 de agosto de 2011

e uma vez

Uma vez eu era adolescente e estava a acampar. Tinha uma tenda grande daquelas antigas, com divisões, e depois outra pequena que servia de cozinha. Um dia estava a ler e para me proteger do sol, meti a cadeira dentro da tenda da cozinha e a mesa mesmo à porta e fiquei ali encaixadinho na toca a ler. Nisto passou um grupo de 5 ou 6 putos da minha idade. Eu a partir dos 6 ou 7 anos deixei de conseguir sociabilizar daquela forma natural e estes grupos espontâneos que se formam nas férias sempre me fizeram confusão pois nunca conseguia pertencer a nenhum. Então eles passaram e olharam para mim, ali a ler, e um comentou "olha, aquele ali é que está bem ah ah" e os outros "ya ahahah" e continuaram a andar e senti-me um freak porque de facto podia ter ido para debaixo do chapéu de sol ler ou então simplesmente ignorá-los, mas aquele comentário deixou-me de tal forma perturbado que nem consegui ler mais. Devo dizer que coisas deste tipo sucediam em diversas ocasiões, não muitas, mas mesmo assim algumas. Demorava tempo até ganhar confiança com pessoas e então era-me impensável meter conversa com tipos da minha idade. Não diria que mudei nesse aspecto, mas é certo que já não sou tímido. Penso que a timidez resulta de atribuirmos demasiada importância ao que estranhos pensam de nós. Estranhos, porque nenhum tímido é tímido com quem se sente à vontade e com quem tem confiança. A melhor coisa da maturidade é isso ser cada vez menos relevante, os estranhos. Lembro-me que até a andar na rua me preocupava com a minha maneira de andar, se era estranha e descoordenada ou se era normal e igual à das outras pessoas. Digo com toda a sinceridade que me vai sendo cada vez mais indiferente o juízo de outros e que, paradoxalmente, me parece às vezes pertinente fazer o esforço de pensar no que estranhos podem pensar de mim para continuar a ser o ser sociável que sou, especialmente por exigências profissionais. Por vezes sinto como totalmente absurdas essas expectativas e juízos terceiros quando comparados com a morte ou o infinito do universo ou as palavras de um amigo ou uma lambidela de um cão. São manifestações tão espúrias como a direcção do vento. Por vezes as minhas próprias palavras parecem duras e violentas e maldosas, mas também são apenas isso, direcção do vento. Somos muito parecidos todos uns com os outros.

7 comentários:

Psycoo de La Cole disse...

as vezes perguntava-me se os outros partilhavam das mesmas inseguranças e medos. depois, com o tempo deixei de me preocupar com isso e passei a olhar de forma saudável para o meu umbigo e preocupar-me mais em ultrapassar os ditos medos do que achar o que poderiam achar de mim. acho que isso acaba por ser uma coisa gradual...

Pedro M. Fonseca disse...

Na maior parte das vezes, as palavras dos outros magoam quando são um reflexo da nossa própria insegurança sobre o tema em questão.

Outras vezes apenas porque mostram o quão longe de nós os outros podem estar. Especialmente se os julgávamos perto, quando percebemos que nos tornámos um estereótipo de alguém, concebido por esse amigo, e já não importa o que se diga e o que se faça. Somos o que essa pessoa pensa e pronto. E tanto faz se pensa coisas "boas" ou "más".

Vareta disse...

Eu só olho para o meu umbigo quando ele tem cotão... Em especial no Inverno, quando uso Thermotebes ou pijamas de flanela.

O que os outros pensam interessa-me bastante, tal como me interessa o que não pensam (talvez ainda mais). Mas tenho sérias dúvidas de que alguma vez o façam sobre mim - pensar, digo eu; ir para além da impressão, da informação sensorial (mesmo nos casos de pessoas que também vêem o meu cotão do umbigo).

Aladdin Sane disse...

Quando tinhas 7 anos os miúdos já diziam "ya"?

Resta dizer (confessar!) que a maior parte das pessoas são uma grande seca, desinteressantes, para não dizer sensaboronas - isto pode começar a parecer o clube da auto-complacência, mas é o que penso. É bom podermos ir fazendo o que nos apetece, coisas que nos dão prazer, por simples que sejam, indiferentes ao "espanto" que causamos nas pessoas que vivem de se espantar com pouco.

Se isto não fizer sentido, nâ quero saber. Afinal só queria pavonear perante vós a imagem que arranjei para o perfil. É dos "Yeasayer". Fuck, e os gajos que não arranjam maneira de cá vir.

a.i. disse...

Ora nem mais: "Penso que a timidez resulta de atribuirmos demasiada importância ao que estranhos pensam de nós."
Tolan, como fizeste para seres tão esperto! It's amazing! (não tou a gozar)

Isabel disse...

Pois é.

Diego Armés disse...

Muito bom o texto. E é de reter este comentário de excelência "tenho sérias dúvidas de que alguma vez o façam sobre mim - pensar, digo eu; ir para além da impressão, da informação sensorial". De facto, uma pessoa sentir-se intimidada "pelo que os outros pensam dela" é bastante egocêntrico. És um vaidoso, Tolan.