domingo, 12 de maio de 2013

Sugestões para Jorge Jesus

Perder o campeonato para o FCP no penúltimo jogo aos 91 minutos contra o FCP é de facto uma experiência interessante e com um belo cunho trágico, bem mais do que os outros campeonatos que o Benfica demolidor e fantástico de Jorge Jesus perdeu espectacularmente para o FCP. Contudo, penso que podem ainda melhorar este aspecto e acho que com esforço e dedicação, Jorge Jesus consegue dar mais emoções deste género aos adeptos benfiquistas. Parece-me que ainda temos margem para sentir mais desilusões sem morrer (qual será o limite? haverá limite?). Ficam aqui as minhas sugestões para construírem cenários propícios a que isso aconteça:

1-Chegar a três jornadas do fim do campeonato com 8 pontos de vantagem sobre o FCP.

 2-Chegar à última jornada, em que se jogará em casa com o FCP, com 5 pontos de vantagem sobre o FCP, mas ter o jogo da primeira volta contra o FCP em atraso.

3- Bastar uma vitória para confirmar o título, estar a ganhar 2-0 ao FCP, mas faltarem ainda 5 minutos para acabar o jogo.

 4- Ser diagnosticado um cancro a Vítor Pereira, mas o cancro ter 1% de hipóteses de cura.

5- Chegar a cinco jornadas do fim com quatorze pontos de vantagem sobre o FCP.

6- Estar a ganhar em casa ao FCP por 3-0 aos 75 minutos e o Varela fazer quatro cruzamentos para uma área só com jogadores do Benfica.

7- Estar um ponto atrás do FCP na última jornada, o FCP perde 1-0 com o Paços aos 90 minutos e o Benfica ganha ao Moreirense aos 90 minutos por 1-0, mas os respectivos árbitros dão 4 minutos de compensação.

 8- O Benfica vence o campeonato por dois pontos contra o FCP, mas entretanto surgem os resultados de um controlo antidoping a Carlos Martins.

 9- O Benfica faz 29 jornadas sempre com vitórias, mas o FCP, orientado por um jovem escuteiro com trissomia 21 que o Papa Francisco recomendou a Pinto da Costa, também. Na jornada 30, a perder por 1-0 contra o Benfica a 10 minutos do fim, o treinador com trissomia lança Izmailov e Helder Postiga.

Ficam aqui estas sugestões, embora suspeite que Jorge Jesus tem a sua lista e será capaz de fazer ainda melhor.

oh Jesus, Jesus

quinta-feira, 9 de maio de 2013

marketing de escritores

Tenho a experiência de observar pessoas atrás de um espelho duplo, filmadas, gravadas, agrupadas em perfis socio-demográficos homogéneos. Miúdos de liceu, estudantes universitários, trabalhadores liberais, donas de casa, consumidores de telemóveis, professores, grávidas, eleitores, reformados, classe A, B, C, Porto, Lisboa, sujeitos a um guião. Para lá dos objectivos de cada trabalho, sempre relacionados com marketing, observo os padrões de grupos de pessoas que de outra forma não conheceria. Os produtos e serviços visam suprir aspirações, sonhos. Até um sabonete pode lidar com questões de autoestima e identidade. São metáforas que as pessoas discutem de forma mais espontânea do que se tentássemos abordar directamente temas como "quem sou eu" e "qual é o sentido da vida", uma vez que aí estariam demasiado conscientes daquilo que se espera que digam. É frequente até, depois de uma breve interacção e debate, corrigirem os pontos de vista originais, rabiscando as pontuações que deram, tornando-as mais "próximas" da conclusão do grupo, dando-me a mim o trabalho de ter de perceber o que tinham escrito num primeiro impulso (e que é o que me interessa).

A publicidade, muito mais do que a arte, é a expressão dos nossos tempos, o sonho do agora, mesmo que mais limitada na sua expressão. A publicidade é levada a cabo por profissionais, sujeita a restrições, mediações e negociações. A maior parte das vezes, as ideias mais disruptivas são rejeitadas em detrimento de uma evolução segura, conservadora, dentro de uma média de aprovações, quer dos potenciais clientes alvo do segmento, quer dos anunciantes. Os criativos publicitários acabam por, com o tempo, começar a pensar de forma publicitária, levando em conta a apreciação previsível do superior que têm na agência, do cliente e do público, não sem uma certa frustração recorrente. Um bom criativo é alguém que, sob pressão e constrangimentos, consegue mesmo assim sacar uma ideia em tempo útil, sacrificando frequentemente as suas próprias convicções e instintos. É um profissional. Sucederá o mesmo com muitos escritores que se profissionalizam após inícios promissores e começam a produzir dentro desta lógica. Quanto a isso, nada contra, eu próprio adoraria ser um escritor de best sellers de terror à Stephen King e não vejo problema nenhum numa abordagem em que se procura um determinado impacto no público. É indiferente, porque a grande arte aparece tão bem aqui como noutro lado qualquer, frequentemente por acaso e tudo, o que ainda é melhor, como um Huckleberry Finn ou um Robison Crusoe. É exactamente como a dona de casa que no focus group é capaz de fazer um retrato vivo e literário das interacções familiares a propósito da escolha do operador de tv cabo, mas se lhe perguntássemos para discorrer sobre as mesmas interacções em abstracto, diria coisas demasiado previsíveis.

Contudo, o pior acontece quando uma coisa quer parecer algo que não é. No fundo, publicidade enganosa, um produto de luxo que afinal é um pechisbeque de plástico lacado a tinta dourada que sai com a unha. Uma das coisas mais estranhas que observo no meio literário  português (e incluo nele o público) - é a ideia de que por se ser um escritor que fala de forma séria de coisas sérias, se é "sábio" e se tem uma compreensão superior do mundo, uma espécie de macro-perspectiva que escapa ao cidadão comum. Em Portugal, a importância que se atribui ao livro é meio mística e inversamente proporcional aos magros hábitos de leitura. De facto, só é possível mistificar algo com que não se contacte assim muito. A maior parte das entrevistas a escritores na tv  tem invariavelmente perguntas sobre a sociedade, a economia de mercado (sempre desumanizante, como se sabe), a reflexão sobre os nossos tempos de relações virtuais da internet em que não conhecemos o vizinho, a condição humana, a pátria que é a língua, o subúrbio neo-realista, a inevitável piscadela de olho ao Brasil e à lusofonia, a importância de ler, a importância do livro, a importância de ler livros, o papel do livro, o livro de papel. O que acha, senhor escritor, do livro hoje em dia? O senhor escritor responde que o livro existirá sempre, embora de outras formas, que é para não ser velho, mas dirá que nada substitui o objecto papel, que é para ser clássico, arrancando sorrisos ternos ao espectador, uma vez que os escritores também se querem como referências afectivas e conservadoras. As perguntas têm como resposta algo que não foge muito ao registo do jogador de futebol que fala na importância do colectivo e de continuar a trabalhar escrevendo e lendo para o mister literatura, disposto a carregar a cruz de viver à margem da vida e coisas que tal. Comparar a forma como é tratado um escritor português em Portugal com outros países como Inglaterra, EUA ou França (vejo pelo youtube), é como comparar o um Quarta a Fundo com o Top Gear. No Top Gear chegam ao desplante de discutir carros e testá-los. Na versão portuguesa, os automóveis a cheirar a novo desfilam ao som de uma música agradável, conduzidos placidamente pela marginal ou pela serra alentejana e o locutor vai enumerando as características boas como as jantes em liga insustentavelmente leve e a excelente dinâmica na autoestrada da lusofonia.

Poderão dizer que estas entrevistas, programas ou debates não interessam, remetendo o pobre artista para a esfera do que faz lá no seu sossego e retiro, que o que interessa são os livros, mas estas coisas mediáticas estão para os escritores como a publicidade para um perfume da chanel. Se a publicidade é a expressão da vontade colectiva relativamente a um determinado produto que é uma metáfora de uma necessidade "aspiracional", uma entrevista a um escritor num telejornal é a expressão daquilo que o público deseja ver nele, que a editora quer vender com ele e, com o tempo e tão frequentemente, daquilo que o próprio escritor acaba por querer ser: a figura mítica do grande sábio, pensador e cidadão do mundo, conhecedor da condição humana, a testemunha do nosso tempo que nos faz reflectir. Há mesmo livros que têm isto escrito na capa, assim de chapa logo ali, como se fosse um iogurte que dá imunidade e resistências naturais à peçonha da ignorância.

Por outro lado, somos bons a discutir futebol com violência. Somos categóricos. Há lenços brancos, insultos e euforias. Os programas de TV são animados e têm cromos que odiamos e raramente amamos e quanto mais maniqueístas forem, melhor. No meu bairro há um ajuntamento espontâneo de cinquentões e sessentões ao pé do quiosque. Todos os dias, de bola, record e o jogo na mão (o que facilita a identificação clubística), discutem no meio da rua as opções tácticas e cada lance do jogo da véspera. Porra, também me dá para falar de futebol e pensar em futebol. Nunca vi pessoas a discutir assim sobre escritores, excepto nas épocas gloriosas dos grandes SL Lobo Antunes Vs Saramago FC em plena força e que tanto debate animavam, mesmo entre pessoas que não tinham lido um ou o outro e, muito frequentemente, nenhum dos dois.

não é problema aqui dos tipos duros...

«Eu e a Sarah estávamos à espera do Jon junto ao nosso BMW 320i preto quando o Jon chegou de carro. Entrámos e dirigimo-nos ao gueto.
- O que é que os teus leitores e críticos dirão quando descobrirem que compraste um BMW?
- Esses sacanas vão ter de me continuar a julgar pela qualidade da minha escrita, como, aliás, sempre fizeram.
- Mas eles nem sempre o fazem.
- Isso não é problema meu.
 (...)
- Eu também tenho um BMW preto - comentou o Victor Norman.
- Os tipos duros conduzem BMW pretos - respondi-lhe eu»
Charles Bukowski, Hollywood (1989), edição da Alfaguara

... até porque o meu bmw 320d preto não é propriamente meu e tenho ido de bicicleta todos os dias porque não há lugar para o estacionar.

(e penso que andar de bicicleta em Lisboa me qualifica como um tipo ainda mais duro, se é que isso é possível)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

é apenas uma questão de ter fé na própria loucura


(...)


Comi as papas de aveia, mastigando cuidadosamente para mexer a cara o menos possível. Quase não posso abrir a boca, mas como não sou do tipo de pessoa de falar sozinho ou de mexer os lábios enquanto leio, o único problema é mesmo comer. Para passar tempo, contemplei um pouco  o recorte da fotografia da rapariga, muito séria, a falar para microfones. A sua postura, o olhar como se fosse para uma grande plateia, tudo aquilo tinha muita convicção, muito dramatismo. Arrumei a foto debaixo da almofada e fiquei assim na cama, sentado de pernas cruzadas, encostado à parede. Desde o enxerto de porrada de porrada do Martim no interrogatório que decidi mimar-me um pouco, ser menos severo comigo. Assim, em vez de me preocupar com o quadrado de luz da janela que se arrasta lentamente pelo chão e paredes ou em reservar a cama para dormir, optei por esquecer tudo isso e aproveitar para descansar no colchão sempre que me apeteça. Ademais, o calor do sol faz-me latejar a cara dorida. E ainda por cima, sinto-me deprimido com a minha situação em geral. Um sem fim de problemas e contrariedades, ao fim e ao cabo. Que porra, que depressão. Desculpem. Começo a ter saudades dos tempos em que não estava numa cela. O meu escritório não era nada mau, comparado com certos aspectos da minha situação actual. O que um bom enxerto não faz a uma pessoa. E ainda dizem que não se deve bater nas crianças ou nos cães... Tudo isto relativiza um pouco os problemas, pelo menos podemos retirar lições da desgraça. Lembro-me de uma manhã em que o meu computador crashou umas três ou quatro vezes e, enquanto esperava pelo restart e ouvia o ruminar da Alexandra a propósito do sistema operativo da Apple que era infinitamente superior ao Windows e que o Observatório devia dar McBooks a todos, tive um pequeno acesso de fúria. Não, não atirei mesas pelo ar. Primeiro, nem se manifestou no exterior do corpo, ficou cá dentro, a borbulhar. Mas criou tanta pressão que às tantas tive de me mexer e bati com o rato do computador na mesa, algumas vezes, mas com pouca força para não o partir. E tive cuidado de o fazer em cima do tapete fofinho, um brinde da TMN.

Serei uma pessoa intrinsecamente violenta? Não foi a primeira vez que descarreguei num rato, mas dessa vez tive mais cuidado que da primeira. Da primeira vez parti o rato todo e tive a Sílvia do economato e o departamento de informática à perna durante semanas, à procura de uma justificação. Não lhes cabia na cabeça que eu tivesse partido material informático, assim de propósito, era pior do que o ter roubado como, de resto, todos faziam. Deram-me um velho rato de mil novecentos e noventa e três, uma relíquia de museu. Tinha sarro fossilizado e foi preciso remover a bolinha do rato e limpá-lo com um xis acto que também tive de pedir à Sílvia do Economato. Mas era um bom rato, sólido, fiável, podia bater com ele na mesa, não era como os modernos ratos ópticos que inventaram depois e que são demasiado leves e frágeis. Devo mesmo ser um pouco nervoso, agora que penso nisso, batia com o rato tanta vez no tapete… O escritório estava sempre gelado pelo ar condicionado e café no copinho de plástico arrefecia em dois tempos. Era preciso bebê-lo depressa ou já não valia a pena e eu batia com o rato, frustrado de ter de ir buscar outro e fazer mais um risquinho na folha de contabilização dos cafés que tinham posto na copa para evitar abusos, quando todos sabíamos que o responsável era o segurança que, à noite, consumia umas dez cápsulas, para além de se masturbar no WC das mulheres. A minha colega Sara, a que tinha o chefe apaixonado por ela, atravessava uma menopausa fulgurante e era acometida de calores que a faziam impor um clima siberiano no escritório. Se alguém se atrevesse a desligá-lo ou subir a temperatura numa das suas frequentes idas ao WC, era pessoa para gritar ‘foda-se, quem é que mexeu no ar!?’ com tanta raiva e mágoa à mistura que todo o escritório ficava em silêncio e raramente o responsável se acusava. Em silêncio e consternação, víamos a Sara regular de novo o ar condicionado nos 10º polar ártico, turbo fan e sweep mode. Os que estavam na zona de influência daquele ar condicionado, sofriam. A Rita, uma das três administrativas do piso, ajeitava a manta nos ombros, a Sílvia do economato espirrava e assoava-se e o Manuel...  o Manuel via-se que queria protestar mas não o fazia, só demonstrava que queria protestar, mas de maneira a que a Sara não percebesse porque os dois davam-se muito mal e ele tinha medo dela. Aliás, ninguém se dava bem com eles, excepto o chefe que estava apaixonado pela Sara. E simpatizaram com o Manuel na fase da ginástica. Mas depois ele foi o primeiro a fartar-se dos exercícios e desmotivou toda gente, então toda gente lhe reservava ressentimento por ter sido o primeiro a desistir.

É complexo e delicado, um ecossistema de escritório. As saudades de um bom café. De um bom rato sobre um tapete confortável para se poder bater nele quanto as janelas do browser encravam e o computador crasha, de ler os jornais desportivos do dia na Internet… Agora só tenho uma rapariga numa fotografia e um texto sobre antioxidantes no verso.

Então, ouvi psst, psst da janela da prisão. Ainda não tinham orientado a câmara de vigilância para a janela.

─ Psst! Chega aqui ó!

Levantei-me e aproximei-me, arrastando o pequeno cobertor puído. A luz da janela ofuscava-me e a contra-luz vi a silhueta de duas pequenas orelhas a assomar de uma cabeça felpuda. Os meus olhos adaptaram-se à claridade. Reconheci o Guaxinim Neurótico. Estava agarrado às grades com as pequenas patas cheias de pelo cinzento e branco todo hirsuto e enfiava o focinho para conseguir espreitar melhor para dentro da cela. 
 (...)

terça-feira, 7 de maio de 2013

in bloom

Para mudar de registo e fugir do futebol, por intermédio de um amigo, cheguei a este cover do In Bloom por parte dos Deolinda.

Como seria de esperar, gerou-se um pequeno debate nos comentários. Eu não gostei. Admito que de facto tenho uma aversão aos tiques vocais da vocalista dos Deolinda (e aos Deolinda) Aquela forma de atacar tudo em crescendo de intensidade não é cantar, é mugir. Qualquer sentimento fica triturado, uma vez que a voz, entretida que está a disfarçar limitações com acrobacias, não tem espaço para transmitir mais nada. Isto pode ser uma questão de gosto pessoal, por exemplo, salve as devidas proporções, também nunca fui à bola com a voz da Amy Winehouse.

Quanto ao cover, deve captar o espírito da música numa interpretação pessoal ou então subvertê-lo de forma irónica ou distanciada. No caso deste cover há apenas uma escolha de arranjos e instrumentos e que soa neutra no sentido Nouvelle Vague, só que em vez de bossa nova ou easy listening, é uma espécie de fado de fusão. Ou seja, é bem feito no sentido deolinda (sem a voz seria agradável). Mas podia ser esta faixa como uma da Cindy Lauper ou dos Megadeth, seria deolindizada da mesma forma. A interpretação está completamente ao lado do significado (negro), mas também não é exactamente irónica. A vocalista não parece cantar em inglês (aquilo é o quê? russo?) e dá a entender que só está a vocalizar sílabas e sons aleatórios que são giros, mesmo que a letra diga coisa como nature is a whore ou sell the kids for food.

Aqui o exemplo de um cover que acentua um sentimento orignal da música, o Lithium pelos  Polyphonic Spree. É um cover tão bom que é a única música boa dos Polyphonic Spree.



E aqui um exemplo de ironia, o Rape Me em versão crooner, de Richard Chease, que dedico à baliza do Helton no próximo Sábado.

para os que pedem a cabeça de JJ

O Benfica tem 83% de vitórias e zero derrotas. No registo de vitórias, o Benfica está igual ao Barcelona na liga BBVA e o Barcelona ainda conta com 2 derrotas e foi humilhado contra RM e Bayern. Mas o Barcelona está a 11 pontos do RM enquanto que aqui estamos a 2 do FCP. O Manchester United é campeão com 75% de vitórias em todos os jogos jogados e conta com 4 derrotas. O Bayern de Munique, a melhor equipa da actualidade, tem exactamente o mesmo registo de vitórias que o Benfica, mas é campeão com 20 pontos de vantagem (e jogou praticamente o mesmo número de jogos). A Juventus é campeã de Itália com 68% de vitórias e conta com 5 derrotas. É preciso ter consciência disto. Se me falarem em diferenças de competitividade entre ligas, posso falar de diferenças de orçamentos e na performance do Benfica na Liga Europa e na sensação de ter sido mal afastado da Champions, pois era a 2ª melhor equipa do Grupo. O que JJ fez foi extraordinário. A equipa do Benfica, provavelmente a melhor que me lembro de ver jogar, pelo menos desde o Benfica de Ericksson, está a fazer um campeonato perfeito enquanto disputa mais 2 frentes, mas temos o "azar" de defrontar um grande FCP focado exclusivamente no campeonato, a última competição que lhe resta. Não entendo mesmo como de repente Jorge Jesus passa de genial a besta. Se fizéssemos 10 campeonatos assim, ganhávamos 8 ou 9. E não percebo como se deduz que vencendo o Estoril ontem seríamos campeões. Ainda faltam 6 pontos.

Por isso acalmem-se.


análise técnico táctica

Saí de um compromisso de trabalho já tarde, a meio do jogo. Não podia ter a internet ligada porque estava a supervisionar um focus group e tinha o cliente mesmo ao meu lado. O camarada alf foi-me informando do andamento do jogo por sms, uma vez que deduzi que o meu habitual informador de sms, o camarada Diego, estivesse no estádio e no estádio festeja-se os golos mais tempo e o sms demora mais 20 segundos que o do amigo no restaurante e  40 a 60 segundos comparando com um amigo que esteja em casa no sofá sem ninguém com quem partilhar o golo.

No caminho para casa, apanho um taxi, relato na tsf, taxista benfiquista. Mas um benfiquista do tipo merdoso. Este começou logo com o discurso anti-Jesus que já estava engatilhado. Foi golo do benfica e o filho da puta nem festejou porque lhe contrariava a teoria de que isto e aquilo e eu não suporto pessoal que já tem a teoria engatilhada para quando o Cardozo falha o drible pela 100092832ª vez. Depois enervei-me com o silêncio do cabrão. Estive para sair do táxi. Não tenho pachorra. Já odeio taxistas por princípio (ando de bicicleta em Lisboa quase diariamente, sei do que falo).

Eu cá só comecei a ser benfiquista merdoso quando ouvi que o Carlos Martins estava a jogar. Aí fiquei ao lado do taxista e transformei-me noutro benfiquista merdoso. Fomos os dois, merdosos, pelo caminho, Lisboa fora. Disse ao taxista isto mesmo: vai ser expulso, é uma questão de minutos, ele não tem capacidade para lidar com a pressão. Sempre detestei o Carlos Martins porque, como Jorge Jesus admitiu na flash interview, é um jogador "sem inteligência emocional", um eufemismo para bronco do caralho. É uma coisa que se vê logo naquele esgar de sofrimento amargo, na ausência total de alegria a jogar, naquela irritação permanente e no olhar provocador, arruaceiro e limitado, uma espécie de Vitor Pereira em versão jogador.

De resto, quanto ao jogo, não vi a maior parte, mas pelo resumo, parece-me que podia ter dado para algo completamente diferente se o Benfica tivesse concretizado as oportunidades na primeira parte, como costuma concretizar. Mas apanhei o Jesus a rezar de cócoras antes do livre do Cardozo. E porquê, toda esta ansiedade? Porquê o desânimo nas bancadas? Porque vamos jogar no Dragão o jogo do título e temos todos - ou quase todos - um pessimismo fruto da experiência? Aqui sim, considero que Jesus tem um mau perfil (pense-se em Koeman por exemplo). É o único ponto. Dou de barato os Carlos Martins e os Robertos do passado. O que me suscita dúvidas é a forma como ele encara os momentos de grande pressão, com um certo pessimismo, como se não "aquerditasse". Ele não pode ser um prolongamento dos adeptos. Tem de ser mais frio e distante. A ideia com que eu fiquei foi que para ele era vital ganhar hoje e vi desespero. Depois na flash interview disse que "tudo está como antes, somos líderes" mas isso tem de passar também durante o jogo.

Por que motivo queríamos ganhar hoje? Para ter a folga de 4 pontos para o jogo de Sábado? Mas... não seria ridículo perder esse jogo e ganhar o campeonato por 1 ponto? Sinceramente, seríamos "campeões" perdendo esse jogo? Por um ponto, depois de perder com o FCP? A festa teria um gosto um pouco amargo. Assim, temos de ganhar para legitimar o nosso título a todos os níveis, até o aritmético. É melhor. Na vida, as alegrias são diametralmente opostas à desgraça potencial.

E pluribus unum.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ficava-te tão bem...


...e para além disso

... acompanha as últimas tendências da moda...
 

...dá atenção aos fãs...
.

..e começa desde tenra idade...
 

 ... a desenvolver a sua obsessão.

um verdadeiro artista

...nem tem dinheiro para comer ou para comprar roupa como deve ser.

 


sponsoring

Esta terça-feira celebra-se o Dia Internacional do Livro e para os clientes da Caixa Geral de Depósitos (CGD) poderia ter sido um dia em que receberiam um livro de graça. A parceria foi estabelecida entre a editora Saída de Emergência e a CGD, que só no final da semana passada percebeu que alguns livros não seriam adequados à imagem do banco pelo seu conteúdo erótico e linguagem menos apropriada. Por isso , hoje não houve livros para ninguém.  

Como seria de esperar, depois disto, vieram as reacções de repúdio por tão censório, hipócrita e conservador acto da CGD. Isto confunde-me, porque pensava que a banca era o diabo e vai-se a ver e precisam dela para o dia do livro. E confunde-me porque quanto o coitado do Catroga, que é um gajo dos bancos, disse "isso são pentelhos", pimba, caiu-lhe tudo em cima. Homessa, este país é confuso. O banco não censura as obras, apenas não as patrocina, mesmo que tenha sido uma decisão um pouco tosca num banco que até tem experiência no campo cultural. Aquilo que sobressai disto da CGD é que nem conheciam os autores. Só falta convidarem o João César Monteiro para fazer o próximo anúncio do Caixa Woman e rejeitarem, mesmo à última da hora, o anúncio em que uma mulher nua nada crawl numa caixa forte cheia de moedas de euro enquanto recita Camões. 

O Dia Internacional do Livro foi uma ocasião para efectuar um determinado tipo de negócio, para o qual é necessário dinheiro do banco. Se não fosse preciso o dinheiro do banco, a Saída de Emergência não precisaria do banco para distribuir os seus livros de forma tão altruísta numa espécie de dumping cultural (outro debate interessante é se distribuir livros gratuitamente não é em si uma forma de despromoção do livro e dos respectivos autores, mas...). 

Contra isto não tenho absolutamente nada. Espero um dia ganhar prémios ou ser patrocinado e distribuído num pacote em que o cliente abre uma conta e recebe um iPad com uma edição digital do meu romance intitulado "O amor é tramado". Para manter o meu nível de vida, precisava de ganhar um daqueles prémios da PT todos os anos e mesmo assim, devo ter de desistir da sportv. A vida está difícil. Paguem-me e podem ter a certeza que não envergonho ninguém. Tenho experiência de grandes empresas eu, muitos bancos, muitos CAs, muitas reuniões. Sei comportar-me. E sei que muitas das iniciativas culturais das empresas obedecem a critérios instintivos, digamos assim. Por vezes, navegam um pouco ao sabor do gosto de administrador A ou B que considera que as coisas da cultura tem um certo panache e glamour que não se obtém com o futebol. E eu concordo, até porque não jogo futebol. E dentro da cultura, há gostos para tudo, também, talvez haja por aí um administrador ou um júri ou alguém que me considere irreverente qb mas não demais. Bom para reposicionar o sponsoring do banco numa vanguarda mais jovem, assim tipo poemas do Peixoto nos muros, como aqueles patrocinados pelas tintas CIN. Eu até tinha um bom poema para isso, chamava-se "Colar de Pérolas", começava com "o teu pincel já pinta?" e tinha uma pintura de uma mulher semi nua com salpicos de tinta branca no peito e no pescoço. Mas não o quiseram, já tinham irreverência com o Peixoto e ele tem tatuagens enquanto que eu pareço um betinho. Não há nada como estar no meio dos artistas na qualidade de mecenas, seja como representante de uma empresa ou do estado. A vanguarda da nação no beija mão. Os artistas também se sentem aconchegados, alimentados e acarinhados, especialmente num país em que nem dando livros de borla metemos estas bestas a ler.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

the boss















- AHHHHHHHH!!! Por el amor de dios, mister!!! AHHHH!!!
- Prontos, prontos, acalma-te, não lhores...

25 de Abril vintage

Por vezes, o 25 de Abril parece um acontecimento mítico dos velhos políticos, algo como uma aparição de fátima aos pastorinhos, a ganhar um pó que se limpa a cada manif sindicalizada, a cada encenação patriótica oficial de fato, gravata ou uniforme, pompa e circunstância, ritualizado, com mais pessoas no palco do que na rua. Grandola Vila Morena na garganta de jovens em flash mobs virais, quando um simples 'ó fulano, vai pró caralho' seria mais adequado ao fulano. Nem sequer temos um poeta, um cantor, temos Geis e temos Deolindas e eu tenho vergonha alheia. Ao preço a que estão as guitarras, com a literatura toda disponível, a informação toda, a liberdade, a internet... e não se consegue parir nada de jeito, verdadeiro, enredam-s no revival pop, no pastiche pegado, no soviet chique, na ideologia vintage mistificada até à exaustão. Não sejam velhos, ó jovens. O 25 de Abril deve-vos ser tão sagrado como as taças dos campeões europeus do Benfica. Fomos, mas o que importa é o que somos. É impossível fingir sentimentos e revolta. Mais depressa o trovador do nosso tempo vem da Damaia ou da Amadora do que da medíocre jovem elite à rasca. A juventude como outra face de uma moeda velha e gasta que se mete na juke box para tocar o disco de sempre, a encenação de sempre, velha, velha, velha... Agitam espantalhos que os velhos lhes emprestam, vão para partidos e abraçam ideias com um século de atraso, como se o mundo fosse um museu e estivéssemos numa secção estanque. Até o nacionalismo está aí, tão obsceno num jovem, o anti-ianque, o anti-alemão, o anti-europa, o anti-outro... As palavras de ordem são “ais”,  suspiros de velha. Estão a destruir tudo o que foi construído, queixam-se os imberbes reaças que querem remendar o dique que rebentou por todos os lados sonhando com outro igual ao que nos pôs aqui, igual ao que os velhos vos deixaram e que vos mantém à margem do vosso futuro. Agarram-se ao passado e passam ao lado do presente. Gosto muito do 25 de Abril, mas foi em 74 e o Portugal de hoje, mal ou bem, também é resultado desse 25 de Abril. Este governo é o resultado desse 25 de Abril. O anterior também. E o antes desse também. E antes desse, idem. Respeite-se o passado, aprenda-se com ele, mas libertem-se, cortem o cordão e interrompam a sequência, não deixam que os velhos vos convençam que o vosso trabalho, a vossa missão, é acabar o trabalho que eles deixaram a meio, entregando-vos bandeirinhas, palavras de ordem, ideias, cartilhas, cartões partidários e um posto na secção distrital, na lista, no parlamento. Enquanto brincarem a reenactments de abriladas e verões quentes, enquanto estiverem cheios de saudades de ideias paridas há mais de cem anos, ideias que vos foram metidas na cabeça como o catequista mete o Inferno e o Jesus na cabeça da criança na catequese, não podem fazer parte de um 6 de Fevereiro de 2017, um dia que precisa de jovens aqui neste velho país de velhos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

é uma menina

(por engano coloquei o post aqui, mas já o coloquei aqui)

mesmo sem perceber, isto comoveu-me




Karel Kryl - ANDĚL (tradução retirada de um forum)

From a church in ruins
in a box with a piece of soap
I brought home an angel
they broke his wings
He gazed at me devotedly
and I was a little jittered
so I pressed in his hand
an empty parfume bottle


And therefore please believe me
I wanted to ask him
to help me, right in the door (~ instantly),
to foretell

what's awaiting me
and can't be avoided

what's awaiting me
and can't be avoided


Then we observed (~guarded) the sky
watching birds
dabating about God
and about playing soldiers


I could not see into his cheek (~ through him)
he tried to hide it
As he likely envied the birds
that they can flit freely.

When he was telling me news
at my bedroom window
I forged him new wings
out of a brass cartridge case.
And this way I lost my angel
he flew away through the window
nathless a friend promised me
a new one made of my helmet.



(wikipedia):
Karel Kryl (April 12, 1944 Kroměříž – March 3, 1994 Munich) was a popular Czech singer-songwriter and performer of many protest songs in which he strongly criticized and identified the shortcomings and inhumanity of the Communist and later post-communist regime in his home country. 

Uma grande canção de intervenção não tem cor política, é sempre pela liberdade e contra a opressão. A canção transporta-os para os tempos em que não tinham nada que se agarrar a não ser a esperança e a amizade na adversidade, mas é uma metáfora. A esperança, tão patente nos rostos de cada homem e mulher naquele concerto pós revolução de veludo que acabou com a ditadura, parece temperada por memórias em que alguns olhares se perdem. Noutros, vemos a timidez de quem ainda não se adaptou às novas asas da liberdade que lhe puseram.

três músicas fixes

Phosphorescent - "Song for Zula"
Jenny Hval - Mephisto in the Water
Mikal Cronin - Weight

terça-feira, 30 de abril de 2013

tempestade

Fotografias de tempestade em Saturno,tiradas pela sonda Cassini. Um furacão de dois mil quilómetros de diâmetro com ventos de mais de 500 km/h. Apesar das cores serem "falsas", são obtidas por infravermelho e de forma automática tendo em conta diferentes comprimentos de onda: this scheme means colors correlate to different altitudes in the planet's polar atmosphere: red indicates deep, while green shows clouds that are higher in altitude. 





bife

Blogger Vareta disse...
Tu és um miúdo com alguma piada - mas não sei porque é que insistes em definir 'a escrita' (ou a literatura) a partir da tua escrita. Esta tua tentativa de sistematização faz-me lembrar um adolescente a escrever um tratado sobre o pulso apenas porque se masturba.
Vareta, companheiro de mais de uma década de blogues e aventuras diversas, tem por hábito interpelar-me de forma acutilante e concisa, como é exemplo comentário supracitado.

Talvez haja aqui um problema de informação incompleta, uma vez que os meu tratados e tentativas de sistematização são uma pequena parte de um esforço maior e invisível ao blogue, o esforço de escrita do segundo romance.. É o mesmo que tirar notas quando se cozinha de improviso. Experimentam-se ingredientes, temperos, tempos de cozedura, combinações, tudo por instinto, depois prova-se e anota-se 'como deve ser cozinhado' tal e tal prato com coisas como 'o bife deve ser surpreendido por calor extremo na frigideira, assim se constituirá uma camada bem passada que preservará os sucos da carne no interior mal passado'. É mais para mim. É preciso muita fé, estamos quase sempre sozinhos.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

o diabo está nos detalhes

Embora garantindo que consigo a primeiro-ministro a austeridade irá continuar, Seguro explicou que "há uma diferença entre austeridade e política de austeridade". "A austeridade do rigor e da contenção orçamental, essa é a austeridade com que o PS está de acordo", disse. - DN

sexta-feira, 26 de abril de 2013

notas

1. Na escrita, o combate é contra o tédio e o aborrecimento de mim próprio. Tenho de me surpreender e entreter. O que estou a dizer a mim próprio? Esse mistério deve ser suficiente para me manter entretido e acordado.

2.
Num romance, é preferível um "bom erro" do que a perfeição previsível. Um bom erro surge quando o autor se esqueceu de que o estavam a ler. A originalidade está no desvio face ao que seria de esperar.

3.
É mais verdadeira a representação de uma árvore com olhinhos e sorrisos do que um desenho realista de uma árvore a sério, porque o desenho da criança não esconde o facto de que moléculas de carbono e água poderem formar um ser vivo, com base em minerais e luz do sol é, na essência, tão absurdo como uma árvore ter olhinhos e sorrir. O desenho realista faz-nos esquecer isso. O infantil atira-nos com a subjectividade à cara e é original

As crianças demoram tempo até considerarem outros seres humanos como "iguais" e são extremamente egoístas. Só elas existem. A linguagem fornece depois a ilusão de que essa distância não existe e de que somos iguais. Mas não somos. Uma pequena distância contém uma infinidade de pontos e, na distância, está a originalidade, no fundo, aquilo que existe na grande arte e que Harold Bloom designa por "estranhamento".

Já como adultos, não geramos qualquer empatia e amor apenas pelo facto de sermos originais e estranhos, temos de ser bons. Já não há pai e mãe a babar-se por qualquer rabisco nosso. Pelo contrário, o artista luta sempre contra a desconfiança e cepticismo dos outros. Tem de se fazer respeitar. A forma como muitos leitores se encarniçam feitos chihuahuas histéricos ao primeiro erro ortográfico num texto de outro modo bom, já nem digo genial, é disso exemplo.

4.
Uma das características da não-arte é sufocar a liberdade de nos descobrirmos sozinhos. A mediocridade do ser humano médio explica-se por doses de cobardia e muita, muita preguiça. Tem horror de se descobrir sozinho e preguiça de tentar aproximar-se de si e dos outros.  A preguiça é muito patente no facto de nenhum artista beneficiar mais da percepção do "isto deu trabalho" do que o escritor. Pode escrever 300 páginas de lixo que pelo menos as pessoas dizem "fónix, nunca seria capaz de escrever 300 páginas". O pintor de pintura 'abstracta', o fotógrafo ou o DJ, sofrem do problema contrário: "isso também eu fazia, uma mancha branca com pintas vermelhas" ou "com as máquinas digitais, qualquer pessoa faz isto" ou "isto é só colar música e mexer no computador com o rato". Paciência.

 5.
Conceitos como dor, amor, tristeza, traição, mentira, honra, alegria, são suficientemente flexíveis para poderem conter em si as diferentes concepções de cada um e criar a ilusão de que somos iguais e de que há uma comunicação total. Os escritores medíocres fornecem a palha das manjedouras que são as prateleiras das livrarias. Se a Paula compra um livro que tem na capa "faz-nos olhar para dentro de nós e reflectir na condição humana" é isso mesmo que Paula espera obter pelo seu dinheiro, pois não cabe na cabeça de ninguém comprar uma aspirina que não tire dor de cabeça conforme vem anunciado na caixa, muito menos um medicamento que dê ainda mais dores de cabeça, como sucede com muito boa literatura.

6.
As coisas da linguagem funcionam nos dois sentidos: somos o resultado dos conceitos, mais do que criadores. Não é preciso ir a uma tribo dos amazonas. Numa reportagem de rua,  metida num desses vídeos de "gaffes" da RTP Memória, entrevistam um casal de populares portugueses e perguntam ao homem "como conheceu a sua mulher?". Ela ri-se e encolhe-se, coradinha e rechonchuda e o homem responde com o maior à vontade: "cheguei-me ó pé dela e disse-lhe assim: vou-te comer. E comi". Não leram Shakespeare ou Cervantes, deduzo. Ah, a imensa liberdade de não ter lido nada... Como recuperar isso? A verdadeira comunhão reside na consciência de que nos fazemos companhia uns aos outros no mistério da solidão. E aí, não seriam necessárias palavras, apenas um olhar, um aceno de cabeça, um 'eu sei que tu sabes', um chegar ao pé e comer. A escrita, por mais ou la la que seja, tem de ter esse chegar ao pé e comer.

terça-feira, 23 de abril de 2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fisioterapia

Em três semanas de férias não escrevi nada, apenas li obras completas de Borges (magnífico) até ele entrar na poesia (um horror) e Nabokov. Quando voltei e tentei pegar de novo no segundo romance, num conto ou no blogue, senti-me como se estivesse em recuperação depois de um AVC. Ainda estou ligeiramente enferrujado e escrever parece-me um exercício de fisioterapia. Uma coisa impressionante e angustiante e foram só três semanas. A convivência com o mar das caraíbas, peixes coloridos, margaritas e ruínas maias, trouxe-me para o "agora" e para o "real", eliminando a necessidade de imaginação e fuga. No fundo, senti-me como qualquer um de vocês se sente no dia a dia, só que sem ser nas Caraíbas rodeado de peixes coloridos. Brrr! Não queremos isso...  Como um jogador de futebol descobre, à primeira lesão, que afinal o corpo dele não é uma máquina mágica perfeita, também eu me apercebi de quão frágil é o próprio talento. A pouco e pouco vou recomeçando a povoar a cabeça de sinceros guaxinins e tudo parece bem encaminhado. Fora isso, se estivermos a falar de uma cidade onde não haja muitas pessoas diferentes umas das outras, como sucede em metrópoles muito cosmopolitas como Londres ou Nova Iorque, sou uma pessoa igual a qualquer outra que se vê na rua.