sexta-feira, 26 de abril de 2013

notas

1. Na escrita, o combate é contra o tédio e o aborrecimento de mim próprio. Tenho de me surpreender e entreter. O que estou a dizer a mim próprio? Esse mistério deve ser suficiente para me manter entretido e acordado.

2.
Num romance, é preferível um "bom erro" do que a perfeição previsível. Um bom erro surge quando o autor se esqueceu de que o estavam a ler. A originalidade está no desvio face ao que seria de esperar.

3.
É mais verdadeira a representação de uma árvore com olhinhos e sorrisos do que um desenho realista de uma árvore a sério, porque o desenho da criança não esconde o facto de que moléculas de carbono e água poderem formar um ser vivo, com base em minerais e luz do sol é, na essência, tão absurdo como uma árvore ter olhinhos e sorrir. O desenho realista faz-nos esquecer isso. O infantil atira-nos com a subjectividade à cara e é original

As crianças demoram tempo até considerarem outros seres humanos como "iguais" e são extremamente egoístas. Só elas existem. A linguagem fornece depois a ilusão de que essa distância não existe e de que somos iguais. Mas não somos. Uma pequena distância contém uma infinidade de pontos e, na distância, está a originalidade, no fundo, aquilo que existe na grande arte e que Harold Bloom designa por "estranhamento".

Já como adultos, não geramos qualquer empatia e amor apenas pelo facto de sermos originais e estranhos, temos de ser bons. Já não há pai e mãe a babar-se por qualquer rabisco nosso. Pelo contrário, o artista luta sempre contra a desconfiança e cepticismo dos outros. Tem de se fazer respeitar. A forma como muitos leitores se encarniçam feitos chihuahuas histéricos ao primeiro erro ortográfico num texto de outro modo bom, já nem digo genial, é disso exemplo.

4.
Uma das características da não-arte é sufocar a liberdade de nos descobrirmos sozinhos. A mediocridade do ser humano médio explica-se por doses de cobardia e muita, muita preguiça. Tem horror de se descobrir sozinho e preguiça de tentar aproximar-se de si e dos outros.  A preguiça é muito patente no facto de nenhum artista beneficiar mais da percepção do "isto deu trabalho" do que o escritor. Pode escrever 300 páginas de lixo que pelo menos as pessoas dizem "fónix, nunca seria capaz de escrever 300 páginas". O pintor de pintura 'abstracta', o fotógrafo ou o DJ, sofrem do problema contrário: "isso também eu fazia, uma mancha branca com pintas vermelhas" ou "com as máquinas digitais, qualquer pessoa faz isto" ou "isto é só colar música e mexer no computador com o rato". Paciência.

 5.
Conceitos como dor, amor, tristeza, traição, mentira, honra, alegria, são suficientemente flexíveis para poderem conter em si as diferentes concepções de cada um e criar a ilusão de que somos iguais e de que há uma comunicação total. Os escritores medíocres fornecem a palha das manjedouras que são as prateleiras das livrarias. Se a Paula compra um livro que tem na capa "faz-nos olhar para dentro de nós e reflectir na condição humana" é isso mesmo que Paula espera obter pelo seu dinheiro, pois não cabe na cabeça de ninguém comprar uma aspirina que não tire dor de cabeça conforme vem anunciado na caixa, muito menos um medicamento que dê ainda mais dores de cabeça, como sucede com muito boa literatura.

6.
As coisas da linguagem funcionam nos dois sentidos: somos o resultado dos conceitos, mais do que criadores. Não é preciso ir a uma tribo dos amazonas. Numa reportagem de rua,  metida num desses vídeos de "gaffes" da RTP Memória, entrevistam um casal de populares portugueses e perguntam ao homem "como conheceu a sua mulher?". Ela ri-se e encolhe-se, coradinha e rechonchuda e o homem responde com o maior à vontade: "cheguei-me ó pé dela e disse-lhe assim: vou-te comer. E comi". Não leram Shakespeare ou Cervantes, deduzo. Ah, a imensa liberdade de não ter lido nada... Como recuperar isso? A verdadeira comunhão reside na consciência de que nos fazemos companhia uns aos outros no mistério da solidão. E aí, não seriam necessárias palavras, apenas um olhar, um aceno de cabeça, um 'eu sei que tu sabes', um chegar ao pé e comer. A escrita, por mais ou la la que seja, tem de ter esse chegar ao pé e comer.

7 comentários:

jj.amarante disse...

Aqueles quadros italianos antigos e grandes também têm aspecto de darem um trabalhão. Na realidade davam mesmo e nos contratos que os compradores faziam especificavam, por exemplo, que as caras das personagens tinham que ser feitas pelo pintor mestre do atelier, os aprendizes só podiam fazer os drapeados e outras partes mais simples do cenário.

Tolan disse...

Exacto, por isso meti o pintores de pintura "abstracta". Normalmente as pessoas respeitam imenso os quadros realistas, dizem "isto parece mesmo uma foto!" ou "olha só o detalhe da rendinha da armadura! que trabalhão!" :)

nAnonima disse...

(e o que eu gostava agora de não ser absurdamente repetitiva, porque não consigo pensar em mais nada do que simplesmente, gostei de ler. mas acredita, o pouco que digo, contrapõe-se com o muito que haveria para dizer.)

portanto, gostei.

(e o pequenino sportinguista, como está?)

Plaft, Sílvia disse...

(Pequena, pequena sportinguista)

nAnonima disse...

:))))))))))))))))))))))))))))))))

YES!!!!!!!!!

Maria D Roque disse...

Pequena Sportinguista é do melhor... ah, e adorei também o texto !!!

Vareta disse...

Tu és um miúdo com alguma piada - mas não sei porque é que insistes em definir 'as escrita' (ou a literatura) a partir da tua escrita. Esta tua tentativa de sistematização faz-me lembrar um adolescente a escrever um tratado sobre o pulso apenas porque se masturba.