sábado, 27 de agosto de 2011

1985


O conceito de moda juvenil da minha mãe era muito próprio dela. Ela achava que estar bem vestido era ter peças de roupa a condizer, por exemplo, calças verdes com camisola verde e kispo verde ou calças castanhas, camisola castanha e casacão castanho, calças de ganga e camisa de ganga e blusão de ganga. Eu parecia sempre uma manchinha de cor triste. Também desisti do gorro com pompom em cima. Na Bélgica era algo perfeitamente banal, os gorros de lã tinham um pequeno pompom em cima, mas ali naquela aldeia não se podia usar pompom no gorro ou ele serviria de alvo a torrões e fisgas de grampos, mesmo que estivéssemos com o gorro na cabeça a fugir.

Para ajudar ainda mais à minha integração social, minha avó enviava-me camisolas da Bélgica, roupa que ela própria tinha tricotado, em lã espessa, com padrões apalhaçados, sempre demasiado largas e compridas e que eu só usava dentro de casa porque a minha mãe sentia-se mal se eu nem sequer as vestisse.
Não sei que imagem é que a minha avó tinha de mim, talvez pensasse que com o exercício físico do campo eu tivesse crescido muito. As mangas eram tão compridas que  tinha dificuldades em agarrar nos talheres. Às vezes, quando tentava ver as horas, o Galão pensava que o meu braço a agitar a manga era eu a convidá-lo para brincadeira e ele mordia a manga e não me largava. Quase que me desfazia a camisola quando eu tentava  fugir.
-- Mãaae! Olha o Galão! Está a comer a camisola da avó!

Tinha de vir a minha mãe distraí-lo com um bocado de fiambre. Acho que o Galão deduzia que quando eu puxava pela manga com muita força, estava a brincar com ele. A minha mãe interrompia a brincadeira e o Galão e eu ficávamos envergonhados, ele a cuspir pequenos fiapos de lã com a língua e o focinho arreganhado e eu a recompor a camisola. Nunca conseguimos destruir nenhuma, eram resistentes. A minha avó sabia fazê-las, não há dúvida.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Pedro Soares dos Santos, o presidente executivo da Jerónimo Martins, diz que degusta todos os produtos do Pingo Doce, para garantir a qualidade


Alimento Seco para Cão ActivPet Mix
À base de várias carnes, tais como carne de vaca e frango, resulta numa deliciosa refeição. Contém ainda uma grande variedade de legumes e cereais, contribuindo para uma alimentação equilibrada. ActivPet Mix é rico em vitamina A, D3 e E
.

Só no Pingo Doce.

não estou deprimido, não estou sequer triste

O meu método é assim
Tralalala, duridudiduridum dum, hoje vou cozinhar uma pizza congelada… será que ainda há? Ohh, esta é das minhas preferidas! Peperoni cheese! Yey! Uma cervejinha fresca agora, duridumdum, forno 200º circulação, 10 minutos, pizza dentro de forno… meow meow meow meeeoow vamos para a sala… ligar tv… vou escrever um post enquanto a pizza está a fazer
Acender cigarro. Coloca a medalinha de ouro do S. Jorge para me proteger dos espíritos deles.


Espíritos, ó espíritos dos poetas e dos escritores suicidas e decadentes, ó fantasmas angustiados, invoco-vos nesta nuvem de fumo!


toma morte saudade beber sexo
e também faca adeus noite poker dinheiro amor frio
com inferno ferida cripta fogo naufrago seiva
sem esquecer concha ouro mártir corte
um pouco de sempre muito nunca
chora odeia esquece ama cospe

Obrigado espíritos! Obrigado! Mais mais!
 
agora loucura ausência cancro caixão
com corda pérola vinho solidão
e orelhas de gato focinho de cão

*PIIIIIIP*
Pizza! Está pronta.


Obrigado espíritos de poetas e escritores suicidas, até amanhã! :) Acho que este ficou fixe, é um daqueles que elas gostam!


De nada Tolan. Tens a certeza que não queres mesmo juntar-te a nós? Hoje era uma boa noite. Temos muitos poetas e escritores mas por aqui ninguém percebe de blogues.


Ainda não. Tenho de escrever pelo menos três romances, depois logo se vê. E o Benfica este ano está com uma boa equipa. Se me tivessem dito isso quando jogava o Martin Pringle....


Ok, abraço. A vida é sofrimento.

A vida é sofrimento! Abraço.

Ufa :P Já posso tirar medalhinha. Por hoje já escrevi muito. Meaow meaow meaaaow Hmm que cheirinho a pizza de autêntico forno de lenha!

ele gosta delas mandonas




"Admiro-a e estou muito orgulhoso pela forma como se reclina e dá ordens aos líderes árabes... Leezza, Leezza, Leezza. Amo-a muito. Admiro-a e sinto-me orgulhoso porque é uma mulher negra de origem africana." - Kadhafi, à Al Jazeera em 2007 (conferir aqui)

não tenham pena de mim

deram-me este livro e com uma dedicatória que dizia "um beijo" e não foi de um gajo, como costuma ser, mas sim de uma miúda gira.

(aqueles poetas monosexuais estão-me sempre a dar livros a ver se eu fico monosexual)



e a música pós de trabalho de hoje, pós cerveja, pós escrita de hoje é...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

o amor, o amor

'Tens de mudar' disse-me ela. 'Tenho de mudar' concordei. Depois disse-me 'estou a falar a sério' e eu também concordei. Já sabia que ela estava a falar a sério logo da primeira vez. Quando ela falava a sério, cruzava os braços e ficava em pé, muito direita, às vezes em frente à televisão e então eu morria se estivesse a jogar playstation, a um jogo de guerra online em que nem dá para fazer pause. Mas não protestava por ter dado cabo do meu score.

'Nunca saímos, nunca vemos pessoas' disse-me ela. 'Temos de sair e ver pessoas' sugeri como solução. Pensei que era o que queria ouvir. Mas não devia ser isso porque se pôs muito direita e cruzou os braços. Depois disse-me 'então na próxima sexta feira vens comigo ao aniversário da Vera'. 'Quem é a Vera?' perguntei, a sentir-me nervoso. 'É uma amiga do trabalho, ela fica chateada se eu não for'. Então disse que sim, para irmos lá ao aniversário da Vera, mas não devo ter sido credível porque ela insistiu no tema 'nunca saímos, nunca vemos pessoas'. Não percebo porque motivo eu tinha de ver pessoas. Ela não podia ir ver as pessoas dela em paz? Então disse-lhe 'a vida é minha, sabes? não é a Vera que dispõe do meu tempo. Nem tu'. Saiu da sala, foi para o quarto e fechou a porta. Sabia que ela estava a chorar um bocadinho porque quando ia para o quarto era quando ia chorar um bocadinho, sentada na cama. Comecei a sentir-me culpado e a cerveja já nem me estava a saber bem. Nessa sexta feira acabámos por ir ao aniversário da Vera. Até foi agradável e no caminho de volta até lhe disse 'foi agradável, temos de repetir'. Mas nunca mais fui a nenhum.

'Nunca fazemos amor, não pode ser' disse-me ela. 'Temos de fazer amor então, vai para o quarto e prepara-te' disse-lhe, com a melhor das intenções. Mas ela cruzou os braços e pôs-se direita, a mordiscar as bochechas, como que a conter raiva. Não me parecia lá muito excitada e com vontade de fazer amor. Então perguntei-lhe 'O que foi? Queres que ponha música? Queres que te diga coisas queridas como da outra vez?'
'Qual outra vez?' perguntou ela com a voz a falhar. Lembrava-me de lhe ter dito coisas queridas e achei aquilo um bocado injusto. Lembrei-me de uma coisa que lhe tinha dito: 'Estou apaixonado por ti, quero viver contigo para sempre, quero estar dentro de ti todos os dias, quero fazer-te vir sempre para mim e que sejas minha e ser teu.' Era mais ou menos assim, citei de memória. Foi para o quarto e fechou a porta. Ainda hesitei. Tinha ido chorar sentada na cama ou o meu discurso tinha surtido efeito e queria fazer amor? Nunca soube.

Então um dia quando cheguei a casa ela estava a fazer as malas. E estava a chorar e nem era só dentro do quarto e sentada na cama, era pela casa toda. Eu conseguia perceber porque estava a fazer as malas, mas não conseguia perceber porque estava a chorar outra vez. 'Muito choras tu' disse-lhe. Também reparei que estava a arrumar alguns livros que acho que eram meus mas não lhe disse nada, deixei-a levar aqueles livros. Até fiz mal porque um deles era de uma editora que depois faliu e nunca mais o vi à venda.

Depois saiu e bateu com a porta e a casa ficou silenciosa e muito quieta. Sentei-me no sofá mas não liguei a televisão. A noite caiu sem eu dar por isso e tudo começou a ficar escuro e não me levantei para acender as luzes. Começou a chover. Começou a chover ainda mais. Chovia tanto que já entrava água pela fresta na janela da varanda e ouvia o som de pneus de carros a fazer ondas em poças de água na rua. Depois saí à rua e fui comprar cerveja e um mcmenu e voltei para casa, todo encharcado, mas contente por ter conseguido sair à rua. Fui só espreitar ao quarto, pelo sim, pelo não. Não estava lá. Sentei-me na cama. Estava fria.

é o que eu sugiro sempre aos meus amigos com crianças que choram durante a noite


(comigo resulta)

afinal gosto de ballet

mas do chinês.


parte 2

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

moules aux frites, alguém?


(e o Aimar porra, é sempre o melhor em campo)

e falam

Recentemente fiz mais uma viagem de 3 horas de comboio para o Porto e sentaram-se quatro brasileiros, dois homens e duas mulheres, nos seus 50/60 anos, turistas de classe média alta (cada vez mais frequentes devido ao boom económico e valorização do real).

Conversaram em voz alta três horas consecutivas.

Umas vezes falava um para os outros três. Outras os três falavam para um apenas. Às vezes um falava para um e o outro falava para o outro. O que é certo que é falavam todos para mim, que estava sentado atrás deles.

Apesar de se conhecerem obviamente há muito tempo (dois eram irmã e irmão e estavam acompanhados pelos respectivos esposos), não lhes faltou tema, desde novelas, destino de actores, histórias pitorescas disto e daquilo, doenças etc. e tudo num tom suficientemente elevado para que metade da carruagem pudesse desfrutar do seu interessante diálogo. Juro que em três horas não ocorreu uma única pausa nem sequer de um segundo, como é natural de acontecer, aquelas pausas em que todos se calam e um aproveita para dormitar e os outros falam mais baixo ou em que ninguém sabe o que dizer.

Era sobre-humano, o tom era relativamente estável e constante, como que um chilrear instintivo, assim que um terminava de dizer algo, outro havia que reagia imediatamente, mudando de tema ou respondendo. Imaginei uma carruagem toda cheia de pessoas assim e tive um vislumbre do inferno, mas depois pensei que se calhar era menos grave porque ficaria apenas aquele ruído ensurdecedor mas indistinto que se ouve nos transportes em Espanha... Sim, porque os espanhóis são os campeões dos decibéis, puta que os pariu que eles falam aos gritos literalmente.

E pronto, foi o meu post xenófobo do dia :) Espero que tenham gostado. Amanhã vou postar sobre os hábitos de gorjetas dos turistas judeus.

corrigi

corrigi o post anterior que estava giro só que eu não sabia o que era um bildumnsroman e meti as patas da frente pelas patas de trás com a mania que sei as coisas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

great technical difficulties e figura de urso


ATENÇÃO: Peço muitas desculpas aos meus leitores que, estranhamente, sabem o que é o Bildungsroman e eu não sabia, pelo que este meu post não faz grande sentido. Dado que comentaram entretanto e que sei que os vossos corações são sensíveis, não apago e fica aqui, ainda acrescento a seguinte nota tidada da wikipedia: É designado com o termo alemão Bildungsroman (romance de aprendizagem ou formação) o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.

A propósito do Adolescente, um livro de Dostoiévski com um narrador na primeira pessoa (incomum em Dostoiévski e considerado por alguns críticos como um livro mais fraco mas eu vou mostrar que não depois de o ler até ao fim), este blogger estrangeiro escreve isto:

«In a bildungsroman [romance na primeira pessoa], the narrator of the story knows the end before the beginning, and must withhold this information from the reader, both on the level of plot and incident, and on the level of self knowledge. At the same time, the illusion of developing awareness, of evolving consciousness must be self-consciously created.

The first person narrative limits the omniscience and interest of the narrative voice. Other characters’ motivations cannot be examined, other scenes in which the narrator is not present cannot be described, without the risk of breaking the illusion of a central viewpoint. The risk of boring the reader without a breath of fresh air provided by a change of scene or character is very great.

At the same time a first person narrative raises all sorts of questions about narrative provenance: is the story being told to the reader, or written down and ‘discovered’ by the reader? What is the gap in time between the events described and the writing/telling?

The genre is therefore fraught with great technical difficulties.»


Apesar de reconhecer as techical difficulties (ah ah) não creio que seja mais difícil que outros, penso que depende mais da voz interior, do estilo. Em todos os bons bildendumsroman (Catcher in The Rye, todos os Bukowski, Fome do Knut Hamsun, Molloy do Becket, Livro do Desassossego etc.), estes aspectos são irrelevantes. Vejo o bildiungsbergman (agora encontrei um nome fino para isto e não me calo) como a construção de um mundo subjectivo, uma consciência nova, que seja fascinante e que provoque estranhamento.

Nem um género nem outro é melhor ou pior por princípio, mas reconheço facilmente que o bildumgsroman é menos popular e tem menos potencial de sucesso de vendas e mesmo crítico. Contudo, acho o bilbobaginsroman mais natural. O Kerouac pode escrever o blimungsroman do On The Road todo de uma assentada, mas dificilmente faria um não-blinmunsroman de uma assentada. Até porque ele é mau escritor (desculpem) e mesmo assim o On the Road não deixa de ser interessante e poderoso se encontrar a consciência certa. Os diários que se tem na adolescência, as cartas e e-mails que se enviam ou os blogues, são pedaços de blidungsruman. Contamos e escrevemos coisas limitados à nossa consciência e experiência. O esforço de ficção é criar uma consciência nova ou derivações da nossa consciência ou projectar a consciência em experiências novas. Exige voz. Um tipo formidavelmente chato consegue escrever romances não-blidensgruminan e o oposto é completamente falso. Ainda vou no inicio do Adolescente e gosto muito. O Dosto é tudo menos chato e tem sempre truques na manga. Vamos ver.

domingo, 21 de agosto de 2011

lol


E ainda perguntam como é possível que pessoas de classe média alta tenham sido identificadas e presas nos riots de Londres?

 Podia-me ter acontecido a mim :(

- O quê?! Jesus, tanto preto! E vêm todos a correr direito a mim! Por amor de Deus não me façam m... Oh, arrombate the shop of telemobiles? Yeah! Lets all go in this... shop... of telemobiles... and show we are angry against system! YEAH! FUCK! YEAH brohters! ai f##%"-se não me empurrem... yeah we are inside the shop, so many evil things here, racist things made by white corporations! ups estes dois gajos são brancos afinal e um está a olhar para mim de lado No, they evil telephonies angainst all races, white, black, yellow, jew!... deixem-me sair da loja agora, com licença excuse me... No! No! I wasnt leaving! I very angry against this shop! I burn this, let me get my isqueiro... merda, não consigo sair daqui, tenho reunião na sede da Merrill Lynch às 16h, vou chegar atrasado... olha um iPhone, se calhar ninguém dá pela falta dist... Oh sorry! take it brother, sorry! take it! Dont hit me! Nice baseball bat... ufa.... como é que estes gajos não morrem de calor todos enfaixados com estes gorros e lenços a tapar a cara... hei, aquilo ali ao canto no tecto é uma câmara? Estará ligada?

o pior comentário no Facebok

Vejo isto em muitos Facebooks. Uma pessoa posta um vídeo engraçado, uma foto, uma piada qualquer e depois ocasionalmente há um(a) sujeito(a) que interrompe uma cadeia de reacções positivas com um: "e não se trabalha?" ou "isto é de quem não tem nada que fazer lol".

Evidentemente, a pessoa que faz tal comentário é rapidamente colocada na lista do boss e fica com tudo bloqueado, mas o mal está feito.

Que motivação têm essas pessoas que se dedicam a comentar "vê-se logo que não tens nada para fazer" no facebook das pessoas?

Eu identifico algumas:

1) Não é por mal, é assim que reagem sempre que alguém faz uma piada, mesmo no mundo real: se alguém lhes diz algo engraçado numa conversa ao pé da máquina do café eles dizem "ah ah ah vê-se logo que não tens nada que fazer ah ah ah". Mesmo a ver o Herman na TV, em pequenos, já diziam "ah ah vê-se logo que não tem nada para fazer"

2) Existe a possibilidade, embora muito remota, de algumas pessoas das centenas de bons amigos do peito que se tem no facebook, não terem afinidade connosco e com o nosso sentido de humor, mas não quero precipitar-me em conclusões.

3) Querem iniciar um loop interminável. Podíamos responder "e tu, não tens nada que fazer em vez de veres isto e comentares que não tenho nada que fazer?" e eles responderiam "vê-se logo que não tens nada que fazer para comentares o meu comentário a dizer que não tens nada que fazer" e assim por diante.

4) Dizem isso em pessoa em todas as ocasiões em que não se está a trabalhar. Interrompem uma conversa de colegas como o seu "não têm nada para fazer?", tocam no ombro de um colega que está a escolher o disco para ouvir enquanto trabalham com um "não se trabalha?" ou gritam para a sala do café "e trabalhar, não?". Não são muito populares, normalmente.

5) De alguma forma retorcida, querem contribuir e consideram aquilo uma punchline do status dos outros, um pouco como aquele revirar de olhos dos malucos do riso no final de cada piada: "não tens nada para fazer? TOING O_o AHAHAHAH" É muito engraçado e resulta sempre.

6) O emprego deles é, na verdade, ver o facebook dos outros, ler os status ou ver os videos e depois fazer aquele comentário, de modo que para eles aquilo é trabalho e visa aumentar a produtividade dos outros.

Lembro-me destas, assim de repente.

sábado, 20 de agosto de 2011

prometam-me que fazem isto quando forem velhinhas, ó jovens frescas e bonitas

(eu serei o senhor de gorro a bater o pezinho e a tamborilar nos joelhos)

consigo ouvir o meu coração a bater de dentro do armário fechado do outro lado da sala




I can hear my heart beat
Across the room, behind the closet door
When I'm laying in my bed in the dark
I can't gather all the love I need when I need it


O despertador toca e eu tenho sempre dificuldades em levantar-me, antes não tinha. Tomo banho e visto-me e faço a barba (private joke).
Tento lembrar-me das coisas que tenho nesse dia antes de me vestir. Às vezes esqueço-me de uma reunião e depois tenho de vir a casa vestir um fato à pressa à hora de almoço e detesto quando isso acontece.
Às vezes tomo o pequeno almoço em casa e às vezes não e tomo no café e peço A Bola emprestada ao senhor Garcia ou leio o Público que posso ter comprado ou não. Ensaio mentalmente opiniões sobre futebol e economia mundial. Depois vou trabalhar.
Antes de trabalhar vou beber mais café e fumar e ver jornais.
Depois vou trabalhar.
Revejo coisas que escrevi na noite anterior e faço posts.
Depois vou almoçar com os colegas. Não gosto de grupos grandes porque se perde muito tempo a discutir para onde se vai almoçar. Mas gosto deles, só que todos ao mesmo tempo tem este problema, há sempre um que não gosta deste ou daquele restaurante.
Às vezes vou almoçar sozinho quando estou a ler um livro bom e aproveito para ler. Jogo matraquilhos e ganho 95% das vezes.
Depois tento não adormecer e penso em como considero grande parte da actividade humana um gigantesco desperdício de amor e de coisas boas.
Depois vou para casa e vejo pessoas nos carros e traço-lhes o perfil e oiço rádio.
Vou ao McDonalds jantar ou comprar um frango.
Passo pela tasca, dou coisas ao esquizóide da rua e compro cerveja e tabaco.
Vou para casa. Está às escuras e acendo luzes. Janto num tabuleiro a ver o noticiário. Jogo PS. Bebo. Fumo.
Depois oiço música, vou para os chats, escrevo que nem um animal, não tenho sono.
Depois fico com sono e vou para cama.
Leio uma página e adormeço.
Depois o despertador toca e eu tenho sempre dificuldades em levantar-me, antes não tinha.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

a matemática das palavras

O Bukowski diz que arte é fazer uma coisa aborrecida com estilo. Esta frase tem muito que se lhe diga. É polémica porque há romances que conseguem a proeza de não obliterar o estilo em momentos muito empolgantes e com argumentos complexos. As descrições de guerra do Tolstói no Guerra e Paz são disto um exemplo, a cena do crime no Crime e Castigo outro. Aquilo que mais facilmente destrói o estilo é a necessidade de contar algo que está a acontecer. É por isso que os romances bestsellers estilo Código Da Vinci, com o devido mérito que têm e que não questiono uma vez que o mercado é livre e competitivo, são normalmente áridos em estilo. Coisas acontecem e o foco está no argumento, na premissa, que é, aliás, a preocupação principal dos cursos de escrita criativa. Não se ensina estilo, é impossível. O conceito, o argumento e a criação de personagens tem técnica que pode ser ensinada como se ensina a arranjar máquinas de lavar roupa. Uns serão melhores nisso e outros piores.

O mais potente, para mim, é o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Esse vai ao extremo disto de fazer a coisa aborrecida com estilo: o Bernardo Soares está simplesmente a atrofiar em situações diferentes, todas elas bastante limitadas, limitadas à própria consciência. Ora se encontra no quarto sombrio a olhar pela janela, ora a recordar uma conversa, ora a pensar na morte da bezerra enquanto mastiga um bife num restaurante. Não tem narrativa, são fragmentos ordenados, sem uma ordem especial aparente. O sonho é um tema central, o sonhar-se. Mas também consegue outra coisa que é a fusão da personagem com a obra e a fusão desta com o autor, tanto que os especialistas pessoanos, que os há, dizem que o Livro do Desassossego é o mais próximo da voz de Pessoa e que o Bernardo Soares é o heterónimo menos "afastado" ou o menos circunscrito, de todos os seus heterónimos. Dificilmente consigo pensar num escritor mais fascinante que o Fernando Pessoa. O facto de ser português apenas facilitou a coincidência de o ter lido, uma vez que basta andar pelo Chiado que passamos pela sua estátua. Para mim, está no panteão dos maiores de sempre do universo. E o estilo magnífico consegue transmitir uma coisa límpida, inteligente, natural e familiar, como se resolvesse um problema matemático com a  elegância da melhor solução, aquela que utiliza o mínimo possível de palavras e recursos. É nesta limpidez e inteligência que se faz a diferença para outros escritores e poetas, detentores de um estilo fabuloso, mas que é manejado por uma consciência mais vaga e imprecisa e que deixa a sensação que a única coisa que se quer dizer - magnificamente aliás - é uma ordem: comove-te com isto oh leitor.

Fernando Pessoa a jogar xadrez, cheio de estilo. Obviamente que está no modo Álvaro de Campos, o engenheiro, porque o Bernardo Soares sonharia até perder por tempo e o Alberto Caeiro pastaria os peões em bonitos padrões ordeiros.

**** starfucker ****

O*_*O

Nein Mann, estou aqui a curtir, vai tu andando para casa


e uma vez

Uma vez eu era adolescente e estava a acampar. Tinha uma tenda grande daquelas antigas, com divisões, e depois outra pequena que servia de cozinha. Um dia estava a ler e para me proteger do sol, meti a cadeira dentro da tenda da cozinha e a mesa mesmo à porta e fiquei ali encaixadinho na toca a ler. Nisto passou um grupo de 5 ou 6 putos da minha idade. Eu a partir dos 6 ou 7 anos deixei de conseguir sociabilizar daquela forma natural e estes grupos espontâneos que se formam nas férias sempre me fizeram confusão pois nunca conseguia pertencer a nenhum. Então eles passaram e olharam para mim, ali a ler, e um comentou "olha, aquele ali é que está bem ah ah" e os outros "ya ahahah" e continuaram a andar e senti-me um freak porque de facto podia ter ido para debaixo do chapéu de sol ler ou então simplesmente ignorá-los, mas aquele comentário deixou-me de tal forma perturbado que nem consegui ler mais. Devo dizer que coisas deste tipo sucediam em diversas ocasiões, não muitas, mas mesmo assim algumas. Demorava tempo até ganhar confiança com pessoas e então era-me impensável meter conversa com tipos da minha idade. Não diria que mudei nesse aspecto, mas é certo que já não sou tímido. Penso que a timidez resulta de atribuirmos demasiada importância ao que estranhos pensam de nós. Estranhos, porque nenhum tímido é tímido com quem se sente à vontade e com quem tem confiança. A melhor coisa da maturidade é isso ser cada vez menos relevante, os estranhos. Lembro-me que até a andar na rua me preocupava com a minha maneira de andar, se era estranha e descoordenada ou se era normal e igual à das outras pessoas. Digo com toda a sinceridade que me vai sendo cada vez mais indiferente o juízo de outros e que, paradoxalmente, me parece às vezes pertinente fazer o esforço de pensar no que estranhos podem pensar de mim para continuar a ser o ser sociável que sou, especialmente por exigências profissionais. Por vezes sinto como totalmente absurdas essas expectativas e juízos terceiros quando comparados com a morte ou o infinito do universo ou as palavras de um amigo ou uma lambidela de um cão. São manifestações tão espúrias como a direcção do vento. Por vezes as minhas próprias palavras parecem duras e violentas e maldosas, mas também são apenas isso, direcção do vento. Somos muito parecidos todos uns com os outros.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

responsabilidade social

Já escrevi sobre ele mas, finalmente, o cabrão do esquizofrénico de Alvalade reconheceu-me. Ando há um ano a dar-lhe merdas, cigarros aos três de cada vez e trocos e ele nunca fala ou esboça um sorriso, apenas fica assim assustado na passadeira, de mão estendida. Hoje finalmente sorriu. O dia estava-me a correr mal e isto deixou-me bem disposto, como aquelas velhinhas tiazocas que dão coisas aos pobres na igreja de Alvalade e ficam assim paradas à espera que eles façam aquelas vénias de infinita gratidão e as fazem sentir-se como a Madre Teresa Calcutá com camarote reservado no Céu. O tipo lembra-me o meu tio. O meu tio era esquizofrénico e tinha exactamente a mesma postura e mímica corporal, o mesmo cerco de timidez que o fazia mover-se lentamente como se tivesse os músculos presos, o mesmo olhar fixo nos outros, a mesma pele meio avermelhada e aspecto desleixado, o mesmo excesso de roupa em dias de calor. Este aparece no McDonalds onde vou jantar regularmente, como o velho das barbas e do boné de que acho que já falei uma vez. Chega ao balcão e pede um copo de água e depois tira uns pacotes de açúcar. Senta-se na mesa mais encafuada que houver, virado para a parede, despeja o açúcar para o copo, mexe com cuidado, bebe um pouco, mexe mais um bocadinho e bebe um pouco, prolonga o prazer, na sua toca no McDonalds.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

gostos

O Tolan sabe que os gostos em si não são uma característica moral ou ética, isto é, uma pessoa não é melhor ou pior pessoa por gostar disto ou daquilo (e pessoas com bom gosto às vezes confudem ambos), nem é mais ou menos interessante à partida.

Dito isto, o Tolan acredita que as coisas não são relativas e que o gosto está intimamente ligado a características como independência e curiosidade. E foco-me só nessas duas.

Ter bom gosto pode ser gostar de coisas boas, e mau gosto, o gostar de coisas más. Nenhum existe na forma pura. Todos gostamos de coisas más e de coisas boas, em maior ou menor grau. Mas alguém que gosta de coisas más provavelmente nem sabe que existe diferença entre mau e bom, nunca pensou nisso. Nunca se preocupou em procurar e experimentar. E se essa pessoa pensa assim sobre livros e cinema, porque não havia de pensar assim sobre tudo? De novo, nada disto é condenável, mas não é certamente sinal de independência, antes de passividade e não é sinal de curiosidade, mas sim de preguiça.

É um dado adquirido que a esmagadora maioria das coisas de sucesso são más enquanto que a maioria das poucas coisas boas não têm sucesso contemporâneo, mas tendem a perdurar no tempo. Isto é um facto incontornável, estatístico. Há excepções, elas existem, mas são a minoria. Basta olhar para o top 10 dos livros ou discos mais vendidos, para a televisão e revistas, de cada época, para admitir este fenómeno: a maior parte daquilo é lixo e o que foi sucesso há mais de um ano desapareceu da memória. E isto é constante ao longo dos tempos. Já se observava isto há quinhentos anos, há mil anos. Algumas pessoas pensam que não e que a situação agora é pior, mas isso é porque o tempo entretanto apagou 99,9% do lixo que se fez até chegarmos aqui a 2011.É verdade que há um aumento do lixo pelos simples facto de que as coisas se democratizaram e se tornaram mais acessíveis, havendo pois mais mercado, mais gente a consumir, e por isso mais oferta de lixo.

Não significa que o que não tem sucesso é bom, é importante fazer a distinção. Há coisas que tentam ser boas e não só não têm sucesso como não são boas. Há coisas que tentam apenas ter sucesso e não conseguem. Há também muito mais gente e com mais meios profissionais a tentar ter sucesso do que a fazer coisas boas, na mesma proporção do público e do seu dinheiro. Porque ter sucesso é humano, exige trabalho e profissionalismo, enquanto que fazer coisas boas exige talento, que é algo atribuído divinamente e é estatisticamente mais raro. A intenção a priori é mesmo irrelevante, pois a história está cheia de obras primas que o foram por mero acaso e o autor não tinha intenção ou consciência disso e apenas queria fazer uma coisa que fosse engraçada ou que pagasse as dívidas do jogo ou que corrigisse moralmente uma nação.

Alguém que é exposto a bom cinema e boa música, torna-se mais interessante? Melhor? Mais inteligente? É muito discutível. Tudo me leva a crer que não, olhando apenas para os críticos. Podia pegar no exemplo oposto, nas pessoas simples, néscias, que, quando falam, contam histórias ou anedotas, debitam poesia pura. Mas estas pessoas são muito raras. Peguemos antes no exemplo oposto, no crítico.

Um crítico, por formação e hábito profissional, lê, ouve e vê muitas coisas. Mas um bom crítico é tão raro como um bom artista, visto que para comunicar com o público e para ter sensibilidade ao que está a ver, ele precisa também de características que não abundam nas pessoas, a começar pela independência e curiosidade, culminando no talento. E isto leva a um dos fenómenos que, esses sim, aborrecem o Tolan, porque é um embuste (ao contrário do mercado do sucesso que é puro) que é ver coisas más serem consideradas como boas pela crítica, apenas porque colam pedaços de coisas que normalmente se encontram em coisas boas que já foram feitas e que eles viram ou, ainda pior, porque não têm sucesso e servem para consolidar a hierarquia de gosto face às massas. E, por outro lado, os críticos tendem a rejeitar coisas objectivamente boas porque são feitas de pedaços de coisas que, ou não compreendem porque são novas e questionam tudo ou porque as referências são de coisas más, ou, ironicamente, porque têm sucesso.

Acresce a isto ainda a obrigatoriedade da crítica, do prémio, da laudatória, como se o espírito humano estivesse sincronizado com "um ano" civil e os ciclos comerciais. Em anos (décadas por vezes) em que tudo é mau, as coisas são atribuídas e elogiadas na mesma. Por outro lado, em anos excelentes (mais raros), existem coisas que não são devidamente valorizadas, porque tiveram azar de ser contemporâneos de outras igualmente boas. Penso por isso que os "prémios", pela importância que têm nas artes todas, deviam quase todos ser de carreira, que é aquilo que Hollywood inventou para descalçar a bota de ter na sua história enormes realizadores e actores que perderam para outros que o tempo resolveu, e bem, apagar.

Oração da impressora do escritório

Pai Nosso que estais na rede,
não me digas paper jam remove cover
nem para ser eu a fazer o replace do toner
não ponhas o meu relatório urgente em espera,
atrás dos prints das fotos das crianças da Vera,
vou ter de entregar isto agora ao Presidente
trata-se de um print muito urgente
e se o Júlio voltou a imprimir pornografia
que eu esteja atento e de vigia
que não me passe ao lado na encadernação
e que eu acabe com a mesma reputação
da Maria João
que nunca deu por nada
e está muito intrigada
porque o Senhor Doutor
lhe pisca o olho no elevador
Amen