Isto é o mal de vos mimar com textos geniais, já caí neste erro no passado, uma pessoa começa a subir a bitola e depois vem um texto pior e ouve-se "ah, este não é tão bom como o anterior" e eu atiro-me para o chão em desespero, sou muito frágil. Com as pessoas é a mesma coisa, acho que não devemos fazer aqueles esforços para as surpreender com uma boa atitude só porque na véspera lemos mais um livro de auto-ajuda e vamos cheios de bom karma para o escritório porque isso só vai tornar evidente o nosso estado lastimoso no dia seguinte, após uma noite de copos. A propósito, comprei uma GoPro HD. Mesmo não sendo grande coisa no surf, prometo-vos umas imagens bonitas do género destas, uma coisa que gosto muito é meter-me em beach breaks violentos e brincar, o mar é tão fixe e eu ia morrendo afogado aos 10 anos foi numa piscina vigiada, a lição que retirei para a vida é que a morte surge quando estamos distraídos e não quando estamos concentrados e alertas.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Pessoas que perderam o emprego e agora tiveram de arranjar outro: o criativo publicitário que agora trabalha nas obras
- Meu, larga o caralho do telemóvel, passa-me a broca, temos de furar o betão para passar os cabos ainda hoje...
- Isto não é um telemóvel Djalmão, é um iphone. Ai, mal consigo mexer nisto, tenho as mãos cheias de bolhas…
- Temos de ter o parede do prédio pronta às seis da tarde meu. Quero tirar o pé para ir buscar minha dama ao comboio, estás a boelar aí parado e o patrão deu ordens a Djalmão para não tirar a pata do candengue das calças queima bilhas, por isso, trabalha!
- As calças “queima bilhas” são umas WESC de Nova Iorque “meu”: We Are the Superlative Conspiracy. Não há disto cá em Portugal, parecem umas 501 mas este corte aqui assim ó, este botão, vês a diferença?
- Usa calça larga como Djalmão puto.
- Por acaso as tuas calças são fixes... Onde é que compraste essas calças? São mesmo vintage? Já vinham com o efeito sandlbasting e bleached ou fose tu que...
- Não é calça queima bilhas como as tua, passa-me a broca puto, esta aqui avariou o motor elétrico.
- Compra um Mac.
- Vais ficar parado a dar jajão o dia todo?
- Só não gosto do conceito desta parede Djalmão, é demasiado igual às outras paredes do prédio! Qual é o conceito?
- Parede é parede! É um prédio! Tu bebeu muita bitola boiado!
- Alguma vez viste o meu portfolio pá? Eu ganhei o prémio Melhor Campanha Activa de Point of Sale de Guerrilha Strategy Buzz de 2008! E o prémio Activation Brand Sell of Point Online Offline Below the Line Above the Line Under the Line Between the Lines, categoria new talents, de 2006!
- Ui, Djalmão quer dar gasosa às seis e ser pago, vamos furar o parede agora!
- Não, estás a ser racional demais… vamos fazer um brainstorm criativo, espera, deixa-me abrir o moleskine. O briefing que nos deram, que eu anotei foi “é para fazer os cabrões dos buracos das caixas de derivação para o caralho dos cabos de electricidade e passar o primário para a 1ª demão, e a andar foda-se” . E tu estás simplesmente a pensar de forma demasiado racional, sem conceito. Quantas paredes iguais a esta já viste? Temos oportunidade de deixar a nossa marca no prédio, criar buzz. Podíamos assim desenhar letras com a broca e furar as paredes com frases como “isto não é uma parede” em todas as paredes, era uma coisa original, ou então "isto é a sala de jantar" na casa de banho e "isto é a casa de banho" na sala de jantar! Temos de…
- ÉS TÃO CREMOSA! PASSAVA-TE NO PÃO E COMIA-TE TODINHA!
- O que foi? Porque estás a gritar para a rua?
- Olha-me aquela dama, ui ui, que mbunda…
- É interessante é, gosto dos óculos de massa, deve estudar ali na Nova...
- Olha puto, outra dama: TANTA CARNE BOA E DJALMÃO A PASSAR FOME! Ih ih ih… olhou!
- Mas foi-se embora também. Djalmão, alguma vez arranjaste uma mulher assim a gritar para a rua?
- O quê? Tu tá cacimbado puto, Djalmão agora tem de trabalhar e furar o parede, vamos...
- Mas pensa nisso Djalmão! Vou-te arranjar uns headlines, nem precisam ser long copys! Ok, qual é o teu selling point? Aquilo que te torna diferente dos outros?
- Djalmão tem 206 kitado com aparelhagem alpine, quando põe kizomba ele...
- Não, não pode ser isso, o teu target aqui é urban alternative. Outra coisa?
- Barraco tem sportv, um primo meu consegue desloquear a boxe.
- Espera, vou pensar um bocado, há aqui algum brainstorm lounge? Em 10 minutos resolvo isto, sou um génio ouviste? Um génio, eu ganhei o Activation Brand Sell of Point Online Offline Bellow the Line Above the Line Under the Line Between the Lines
- Volta aqui puto! Puto! Já deu gasosa... Djalmão fura isso sozinho.
(...)
- Pronto Djalmão, está aqui!
- Tu voltou!? Djalmão está quase a acabar o parede.
- Tenho a ideia, isto é genial, vem aqui para a varanda, para rua, daqui vêem-te bem quando vierem a descer a rua, agora é só por este balde ao contrário, e este também, e aqui este prato de plástico, e tu sentas-te aqui nestes tijolos, toma estes pauzinhos e vais fingir que estás a tocar bateria quando eu meter o iphone com o mp3 a tocar no máximo, mas só começas a tocar quando aparecer a bateria, antes fazes assim um ar concentrado e sério antes ok?
-Tu tá cacimbado?
- A sério, confia em mim... olha, vem lá uma...
I CAN FEEL IT COMING IN THE AIR OF NIGHT
- Isto não é um telemóvel Djalmão, é um iphone. Ai, mal consigo mexer nisto, tenho as mãos cheias de bolhas…
- Temos de ter o parede do prédio pronta às seis da tarde meu. Quero tirar o pé para ir buscar minha dama ao comboio, estás a boelar aí parado e o patrão deu ordens a Djalmão para não tirar a pata do candengue das calças queima bilhas, por isso, trabalha!
- As calças “queima bilhas” são umas WESC de Nova Iorque “meu”: We Are the Superlative Conspiracy. Não há disto cá em Portugal, parecem umas 501 mas este corte aqui assim ó, este botão, vês a diferença?
- Usa calça larga como Djalmão puto.
- Por acaso as tuas calças são fixes... Onde é que compraste essas calças? São mesmo vintage? Já vinham com o efeito sandlbasting e bleached ou fose tu que...
- Não é calça queima bilhas como as tua, passa-me a broca puto, esta aqui avariou o motor elétrico.
- Compra um Mac.
- Vais ficar parado a dar jajão o dia todo?
- Só não gosto do conceito desta parede Djalmão, é demasiado igual às outras paredes do prédio! Qual é o conceito?
- Parede é parede! É um prédio! Tu bebeu muita bitola boiado!
- Alguma vez viste o meu portfolio pá? Eu ganhei o prémio Melhor Campanha Activa de Point of Sale de Guerrilha Strategy Buzz de 2008! E o prémio Activation Brand Sell of Point Online Offline Below the Line Above the Line Under the Line Between the Lines, categoria new talents, de 2006!
- Ui, Djalmão quer dar gasosa às seis e ser pago, vamos furar o parede agora!
- Não, estás a ser racional demais… vamos fazer um brainstorm criativo, espera, deixa-me abrir o moleskine. O briefing que nos deram, que eu anotei foi “é para fazer os cabrões dos buracos das caixas de derivação para o caralho dos cabos de electricidade e passar o primário para a 1ª demão, e a andar foda-se” . E tu estás simplesmente a pensar de forma demasiado racional, sem conceito. Quantas paredes iguais a esta já viste? Temos oportunidade de deixar a nossa marca no prédio, criar buzz. Podíamos assim desenhar letras com a broca e furar as paredes com frases como “isto não é uma parede” em todas as paredes, era uma coisa original, ou então "isto é a sala de jantar" na casa de banho e "isto é a casa de banho" na sala de jantar! Temos de…
- ÉS TÃO CREMOSA! PASSAVA-TE NO PÃO E COMIA-TE TODINHA!
- O que foi? Porque estás a gritar para a rua?
- Olha-me aquela dama, ui ui, que mbunda…
- É interessante é, gosto dos óculos de massa, deve estudar ali na Nova...
- Olha puto, outra dama: TANTA CARNE BOA E DJALMÃO A PASSAR FOME! Ih ih ih… olhou!
- Mas foi-se embora também. Djalmão, alguma vez arranjaste uma mulher assim a gritar para a rua?
- O quê? Tu tá cacimbado puto, Djalmão agora tem de trabalhar e furar o parede, vamos...
- Mas pensa nisso Djalmão! Vou-te arranjar uns headlines, nem precisam ser long copys! Ok, qual é o teu selling point? Aquilo que te torna diferente dos outros?
- Djalmão tem 206 kitado com aparelhagem alpine, quando põe kizomba ele...
- Não, não pode ser isso, o teu target aqui é urban alternative. Outra coisa?
- Barraco tem sportv, um primo meu consegue desloquear a boxe.
- Espera, vou pensar um bocado, há aqui algum brainstorm lounge? Em 10 minutos resolvo isto, sou um génio ouviste? Um génio, eu ganhei o Activation Brand Sell of Point Online Offline Bellow the Line Above the Line Under the Line Between the Lines
- Volta aqui puto! Puto! Já deu gasosa... Djalmão fura isso sozinho.
(...)
- Pronto Djalmão, está aqui!
- Tu voltou!? Djalmão está quase a acabar o parede.
- Tenho a ideia, isto é genial, vem aqui para a varanda, para rua, daqui vêem-te bem quando vierem a descer a rua, agora é só por este balde ao contrário, e este também, e aqui este prato de plástico, e tu sentas-te aqui nestes tijolos, toma estes pauzinhos e vais fingir que estás a tocar bateria quando eu meter o iphone com o mp3 a tocar no máximo, mas só começas a tocar quando aparecer a bateria, antes fazes assim um ar concentrado e sério antes ok?
-Tu tá cacimbado?
- A sério, confia em mim... olha, vem lá uma...
I CAN FEEL IT COMING IN THE AIR OF NIGHT
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
As pessoas devem perder amigos à medida que envelhecem porque…
… a julgar pelo que se vê no facebook, a correlação entre a idade e o número de amigos é extraordinariamente negativa. Um jovem de 15 anos tem em média 642 amigos e um sénior de 60 e muitos tem cerca de uma dúzia e normalmente são só familiares também séniors (os netos devem, naturalmente, rejeitar-lhe os pedidos de add).
Esta relação negativa não pode ser explicada apenas pela morte, natural ou acidental, dos amigos das pessoas. É possível que uma pessoa de 15 anos perca cerca de 30 a 40% dos amigos por morte antes de chegar aos 65 anos, especialmente pessoas que façam amigos em guerras ou em bairros problemáticos com toxicodependentes, alcoólicos, criminosos e/ou homossexuais. Mas não chega para justificar este desbaste. Uma explicação possível seria a de que as novas gerações fossem mais amigas do seu amigo, menos individualistas que as gerações anteriores. Uma pessoa como o Pedro Magalhães poderia observar que isto tem a ver com a média de idades das pessoas que aderem ao facebook e que no universo dos jovens quase 100% tem facebook enquanto na 3ª idade a pct rondará os 2%, mas penso que isto é falacioso e pouco imaginativo. O meu palpite é o de que as pessoas se vão simplesmente chateando ao longo da vida e acabam por ficar sozinhas e com poucos amigos, a não ser que criem um facebook para os gatos que acumulam ou então para pessoas que já morreram, só para matar as saudades e prestar homenagem. Se calhar fazem isso, criam as contas de pessoas mortas, depois fazem login e fingem que são elas e desatam a fazer likes a tudo e mais alguma coisa, especialmente aos próprios status, e deve ser algo bastante creepy de se ver.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Pessoas que perderam o emprego e tiveram de arranjar outro: o psiquiatra que agora é vendedor de automóveis
- Boa tarde, posso ajudá-lo?
- Estou interessado neste BMW X3, mas isto agora com a crise... não sei...
- Deixe-me só colocar aqui o cronómetro. Temos 15 minutos, esteja à vontade. O que aprecia em particular neste automóvel?
- O que aprecio? O design. E o Tiguan do meu cunhado é um pigmeu ao pé deste BMW X3, este parece tão grande e forte. Mas é um bocado caro, 54 mil euros. Nem tenho contrato de trabalho ainda.
- Hmm… kleinen salsichen syndrom…
- O que foi? Porque está a tirar notas.
- Porque é importante para si a potência, dimensão e grossura do carro que conduz?
- Porquê? Não sei, é mais seguro, se chocar estamos mais protegidos.
- Tem medo de morrer? Pensa na morte de forma recorrente?
- Não, mas ando todos os dias na estrada, há com cada maluco.
- Acha que é por isso apenas… “desejo de segurança”?
- Só sei que não gosto daqueles carros pequeninos e frágeis, parecem umas latas ou umas coisas de plástico, se batem de frente contra um X3 não há safa possível.
- Hmm hmm… itsy bitsy kleinen salsichenzinha syndrom...
- A tirar notas de novo? O que está praí a murmurar?
- Estou apenas a ouvi-lo com atenção. Então e prefere a versão diesel ou gasolina?
- Diesel, claro.
- E como caracterizaria a sua vida sexual?
- A minha vida sexual!?
- Se não lhe apetecer falar nisso eu compreendo, podemos falar de outra coisa, o que quiser. Estofos em pele?
- Estofos em pele é um extra um bocado caro, mas... mas porque raio falou na vida sexual? Acha que eu preciso de carro para sacar gajas?
- Repare que não fui eu que disse isso e por mim o assunto estava encerrado. O senhor é que o está a dizer. Porque acha que fez essa pergunta e insiste nesse ponto?
- Você é que falou nisso! Eu saco as gajas que eu quiser, ouviu? Não preciso deste X3 nem de nenhum carro para nada!
- Espere, espere.... Sabe que se quisesse mesmo um carro para “sacar gajas”, para usar a sua expressão, nem eu nem ninguém poderíamos censurar esse seu desejo, é inteiramente legítimo. Sente-se culpado por querer manifestar a sua potência e virilidade através de um automóvel?
- Culpado!? Não! Mas eu não quero isso, só quero um carro seguro e económico e bonito e...
- Não digo que seja o seu caso, mas se fosse, saiba que teria razão em boa parte. As mulheres ainda percepcionam os seus alpha männlich cobridoren como tendo um papel relevante na hierarquia social. Sinais exteriores de sucesso e força induzem fantasias, indudizisten fantasian, e lubrificação sexual da vagina na via pública, koninen molhaden. É científico.
- Bem eu... não é que eu queira isso mas...
- A uma pessoa que, vamos supor, quisesse isso, eu receitava-lhe este aqui.
- O BMW X6M? Não posso comprar esse, custa 170 mil euros!
- Compreendo.
- A sério, já estou endividado com as prestações da casa. Teria de usar as poupanças dos meu avós e eles precisam delas para a reforma, isto só para dar uma entrada, depois teria de pedir a quase totalidade do empréstimo e pagar a prestações, não sei se tenho emprego ainda no mês que vem...
- Vou ajudá-lo. Por favor inspire fundo e olhe-me nos olhos.
- O quê está a fazer?
- Descontraia... descontraia... está numa praia... numa ilha paradisíaca...
- Sim mestre... @_@
- a ouvir Enya...
- Odeio Enya...
- Então outra merda qualquer, Vivaldi?
- Não sei o que é... mestre...
- Ok, ignore a música... vai obedecer a tudo o que eu lhe disser e acreditar que tudo é verdade.
- S... sim mestre...
- Quando eu contar até 3 e estalar os dedos, você vai acordar cheio de vontade ter um BMW X6M e vai assinar o contrato hoje mesmo acordando o empréstimo máximo de 75% do valor total. Vai acreditar que com o BMW X6M irá ter todo o sexo que alguma vez desejou e será imortal também.
- S... sim mestre.
-1,2 espere, já agora, é de que clube?
- Benfica, mestre.
- E acordará do Sporting e convencido para sempre que o Sporting joga o melhor futebol do mundo e nada do que lhe disserem o vai demover dessa opinião. E que o Benfica rouba em todos os jogos e é o pior clube do mundo e o responsável pelo 11 de Setembro.
- S... sim mestre...
- 1, 2, 3 *clac*
- Wow! Quero este carro já! Despache-se que quero ir ao estádio ver o jogo. Onde assino?
- Estou interessado neste BMW X3, mas isto agora com a crise... não sei...
- Deixe-me só colocar aqui o cronómetro. Temos 15 minutos, esteja à vontade. O que aprecia em particular neste automóvel?
- O que aprecio? O design. E o Tiguan do meu cunhado é um pigmeu ao pé deste BMW X3, este parece tão grande e forte. Mas é um bocado caro, 54 mil euros. Nem tenho contrato de trabalho ainda.
- Hmm… kleinen salsichen syndrom…
- O que foi? Porque está a tirar notas.
- Porque é importante para si a potência, dimensão e grossura do carro que conduz?
- Porquê? Não sei, é mais seguro, se chocar estamos mais protegidos.
- Tem medo de morrer? Pensa na morte de forma recorrente?
- Não, mas ando todos os dias na estrada, há com cada maluco.
- Acha que é por isso apenas… “desejo de segurança”?
- Só sei que não gosto daqueles carros pequeninos e frágeis, parecem umas latas ou umas coisas de plástico, se batem de frente contra um X3 não há safa possível.
- Hmm hmm… itsy bitsy kleinen salsichenzinha syndrom...
- A tirar notas de novo? O que está praí a murmurar?
- Estou apenas a ouvi-lo com atenção. Então e prefere a versão diesel ou gasolina?
- Diesel, claro.
- E como caracterizaria a sua vida sexual?
- A minha vida sexual!?
- Se não lhe apetecer falar nisso eu compreendo, podemos falar de outra coisa, o que quiser. Estofos em pele?
- Estofos em pele é um extra um bocado caro, mas... mas porque raio falou na vida sexual? Acha que eu preciso de carro para sacar gajas?
- Repare que não fui eu que disse isso e por mim o assunto estava encerrado. O senhor é que o está a dizer. Porque acha que fez essa pergunta e insiste nesse ponto?
- Você é que falou nisso! Eu saco as gajas que eu quiser, ouviu? Não preciso deste X3 nem de nenhum carro para nada!
- Espere, espere.... Sabe que se quisesse mesmo um carro para “sacar gajas”, para usar a sua expressão, nem eu nem ninguém poderíamos censurar esse seu desejo, é inteiramente legítimo. Sente-se culpado por querer manifestar a sua potência e virilidade através de um automóvel?
- Culpado!? Não! Mas eu não quero isso, só quero um carro seguro e económico e bonito e...
- Não digo que seja o seu caso, mas se fosse, saiba que teria razão em boa parte. As mulheres ainda percepcionam os seus alpha männlich cobridoren como tendo um papel relevante na hierarquia social. Sinais exteriores de sucesso e força induzem fantasias, indudizisten fantasian, e lubrificação sexual da vagina na via pública, koninen molhaden. É científico.
- Bem eu... não é que eu queira isso mas...
- A uma pessoa que, vamos supor, quisesse isso, eu receitava-lhe este aqui.
- O BMW X6M? Não posso comprar esse, custa 170 mil euros!
- Compreendo.
- A sério, já estou endividado com as prestações da casa. Teria de usar as poupanças dos meu avós e eles precisam delas para a reforma, isto só para dar uma entrada, depois teria de pedir a quase totalidade do empréstimo e pagar a prestações, não sei se tenho emprego ainda no mês que vem...
- Vou ajudá-lo. Por favor inspire fundo e olhe-me nos olhos.
- O quê está a fazer?
- Descontraia... descontraia... está numa praia... numa ilha paradisíaca...
- Sim mestre... @_@
- a ouvir Enya...
- Odeio Enya...
- Então outra merda qualquer, Vivaldi?
- Não sei o que é... mestre...
- Ok, ignore a música... vai obedecer a tudo o que eu lhe disser e acreditar que tudo é verdade.
- S... sim mestre...
- Quando eu contar até 3 e estalar os dedos, você vai acordar cheio de vontade ter um BMW X6M e vai assinar o contrato hoje mesmo acordando o empréstimo máximo de 75% do valor total. Vai acreditar que com o BMW X6M irá ter todo o sexo que alguma vez desejou e será imortal também.
- S... sim mestre.
-1,2 espere, já agora, é de que clube?
- Benfica, mestre.
- E acordará do Sporting e convencido para sempre que o Sporting joga o melhor futebol do mundo e nada do que lhe disserem o vai demover dessa opinião. E que o Benfica rouba em todos os jogos e é o pior clube do mundo e o responsável pelo 11 de Setembro.
- S... sim mestre...
- 1, 2, 3 *clac*
- Wow! Quero este carro já! Despache-se que quero ir ao estádio ver o jogo. Onde assino?
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
promessa de mudar
Com um rol de promessas e um DVD dos U2, reconquistei a confiança da minha namorada Princesa. Parte das minhas promessas tiveram a ver com um suposto desejo genuíno de mudança da minha pessoa. Disse-lhe que iria mudar certos hábitos e comportamentos que causaram stress na nossa relação e que a fizeram perder parcialmente o interesse em mim e retomar perigosos contactos com o ex namorado que já percebi que era fuzileiro, ou isso ou traficante de droga, isto foi só umas coisas que apanhei e que envolviam armas de fogo de calibre militar e ciúmes. Já sei que algumas vozes cínicas se vão levantar e dizer que é pouco correcto alguém transformar-se numa pessoa que não é só para agradar a outra. Primeiro, é neste princípio que reside a base das relações humanas em geral. E segundo, os meus defeitos podiam ilustrar todos os livros de auto ajuda que já li (e foram muitos) naqueles capítulos dedicados à sensibilização, com exemplos reais de pessoas miseráveis nas quais o leitor se pode rever. Portanto, também pensei que a Princesa me podia ser útil no intuito de me transformar numa pessoa mais feliz e fisicamente saudável. É certo que não passa de teatro, no íntimo, mas é como aquela terapia do riso, não importa o motivo da risota, o que conta é o efeito do acto físico de rir. Portanto, por mais que odiasse correr com ela às 7:30 da manhã às voltas na Cidade Universitária, com um cigarro ao canto da boca, a verdade é que aquilo me teria feito bem nos dias em que não desmaiava à 4ª volta e acordava com ela a dar-me estalos na cara e a sibilar “levanta-te mariquinhas, está tudo a olhar”. Isso e passar pela decathlon depois, comprar mais um stock de barrinhas de cereais e líquidos hidratantes, que já topei que até são bons para as violentas ressacas de vinho rasca que bebo quanto estou sozinho. Fez parte da negociação trocar a corrida pela surf.
Um desporto de que gosto é o surf. Gosto de fazer surf, é uma afirmação estética do corpo enquanto objecto frágil exposto aos elementos mais brutais da natureza, há qualquer coisa de Caspar Friedrich na imagem do surfista de costas para o espectador, enfrentando a fúria do mar. E é essencialmente esse o motivo que me leva a fazer surf e acredito que a maior parte dos surfistas sente o mesmo.
O problema é que exagerei um pouco nos meus supostos dotes de surfista e criei elevadas expectativas e este fim de semana, sem saber bem como, vi-me atirado para o Lagide em mar de dois metros, com ventos gélidos acima de 20 nós offshore, com um fato de verão, em cima de uma placa de rocha a 50cm de profundidade coberta de ouriços de mar. De maneiras que optei por parecer ocupado, remando de um lado para o outro, evitando cuidadosamente a rebentação pelo elegante acto de largar a prancha e mergulhar e fechando os olhos quando uma das crianças surfistas de uma equipa local em treinos vinha direita a mim.
Felizmente, a Princesa é um pouco míope e havia lá um surfista bastante bom com um fato escuro parecido com o meu. Ela não me distinguia do promontório, onde o carro estava estacionado, pelo que no fim bastou-me dizer que apanhei umas “ondas do caraças” e ela disse “eu vi” e deu-me beijinhos e parece que ficou com qualquer coisa vagamente semelhante a respeito e admiração no olhar, algo que nunca lhe arranquei por sacar uma medalha de ouro numa corrida extreme no GT5 na ps3. Também estava gelado a sério e essa parte não era a fingir, nem a parte de ter de ser ela a conduzir porque não sentia os pés e ao largar a embraiagem quase que atropelei um casal de velhotes com um caniche.
Um desporto de que gosto é o surf. Gosto de fazer surf, é uma afirmação estética do corpo enquanto objecto frágil exposto aos elementos mais brutais da natureza, há qualquer coisa de Caspar Friedrich na imagem do surfista de costas para o espectador, enfrentando a fúria do mar. E é essencialmente esse o motivo que me leva a fazer surf e acredito que a maior parte dos surfistas sente o mesmo.
O problema é que exagerei um pouco nos meus supostos dotes de surfista e criei elevadas expectativas e este fim de semana, sem saber bem como, vi-me atirado para o Lagide em mar de dois metros, com ventos gélidos acima de 20 nós offshore, com um fato de verão, em cima de uma placa de rocha a 50cm de profundidade coberta de ouriços de mar. De maneiras que optei por parecer ocupado, remando de um lado para o outro, evitando cuidadosamente a rebentação pelo elegante acto de largar a prancha e mergulhar e fechando os olhos quando uma das crianças surfistas de uma equipa local em treinos vinha direita a mim.
Felizmente, a Princesa é um pouco míope e havia lá um surfista bastante bom com um fato escuro parecido com o meu. Ela não me distinguia do promontório, onde o carro estava estacionado, pelo que no fim bastou-me dizer que apanhei umas “ondas do caraças” e ela disse “eu vi” e deu-me beijinhos e parece que ficou com qualquer coisa vagamente semelhante a respeito e admiração no olhar, algo que nunca lhe arranquei por sacar uma medalha de ouro numa corrida extreme no GT5 na ps3. Também estava gelado a sério e essa parte não era a fingir, nem a parte de ter de ser ela a conduzir porque não sentia os pés e ao largar a embraiagem quase que atropelei um casal de velhotes com um caniche.
humor para mulheres
Sou dos poucos homens straight em Portugal a achar que os 6 fotogramas acima atingem o pináculo da evolução humana no que respeita ao humor. Já desisti de forwardar cenas do http://icanhascheezburger.com para colegas, porque o comentário habitual variava entre "gostas muito de coisinhas fofinhas destas?" com ar desconfiado e o "não gosto de gatos", quando não me calha enviarem-me de volta piadas com bebés a imitar cantores de hip-hop. Nestas coisas, o melhor é não provocar as pessoas e não lhes suscitar o desejo de retribuir com videos de bebés a imitar cantores de hip-hop, quando não são pretos a falhar respostas no quem quer ser milionário angolano.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
série pessoas que perderam o emprego e tiveram de arranjar outro: o gestor de redes informáticas que agora trabalha na Zara
- Bom dia, tem esta camisola em XS?
- Eish, isso é uma uber complicação... Vai-me obrigar a ir consultar a base do inventário que está a fazer o update e nem deve estar actualizado. Só indo mesmo ao armazém ver.
- E… pode ir ver então?
- Mesmo que vá ver é possível que esteja na secção errada, eles aqui arrumam tudo mal, aqueles n00bs, metem camisolas XS na prateleira das M, no outro dia tinham as calças 38 nos cabides com etiquetas das de 40, depois tenho eu de andar a scanar e a arrumar tudo outra vez.
- Mas eu gosto mesmo desta camisola, combina mesmo bem com uma mala que tenho. Pode ir ver?
- Mas quer essa? Isso é um tecido misto, com poliester, politereftalato de etila: C10H8O4 … Eu se fosse a si não queria C10H8O4 no meu corpo. Só a estou a avisar. As pessoas querem as coisas porque dizem que “combina” ou “fica bem” ou “gosto do Vista”, nunca querem Linux, depois ficam com a pele toda instável e cheia de alergias. Porque não leva antes esta aqui, em algodão, 94% celulose, 6% glicose, bom algodão, tamanho XL, estável…
- Mas essa cor é horrível! E é XL, eu sou XS!
- É XS agora, mas quando começar a engordar das porcarias que come vai parar ao XL num instante, já sei como é e depois vem-me pedir a mim para lhe trocar a camisola e deve pensar que eu não faço mais nada.
- Eu não como porcarias!
- Ai não? Uma pessoa que mete politereftalato de etila na pele diz que “não come porcarias”. É como aquelas que chegam aqui e compram as minisaias que estão na montra e depois queixam-se da webcam que eu pus no provador porque "querem privacidade". Elas querem é desmagnetizar-me as etiquetas! Sabe o trabalho que dá magnetizar etiquetas? Pensa que é chegar ali e é por magia, como aquelas pulseiras powebalance. Agora uma camisolinha de algodão, estável, isso já não compram.
- Eu não vou levar essa camisola XL! Adeus!
- Então e se engravidar por aí nessas noites em que sai e apanha bebedeiras ou se droga? Vai para casa com homens que nem conhece, engravida, precisa de roupa larga e e quem é que tinha razão? Pwnage! Eu! E quem é que a menina vai chatear? vai-me chatear a mim! vai dar-me trabalho!!! @#%! vai-me aparecer aqui com a camisola DE politereftalato de etila, CHEIA DE NÓDOAS DE cerveja, vómito seco e esperma e COM A MALINHA A COMBINAR E vai-me pedir para trocar pela XL de algodão que eu lhe sugeri agora! mas nessa altura já não vai estar aqui a camisola!!!! vou ter de ir ao armazém ver se há XL e está tudo fora do sítio no armazém porque aqueles n00bs desarrumam tudo! @#%! Adeus... Vaca...
- Eish, isso é uma uber complicação... Vai-me obrigar a ir consultar a base do inventário que está a fazer o update e nem deve estar actualizado. Só indo mesmo ao armazém ver.
- E… pode ir ver então?
- Mesmo que vá ver é possível que esteja na secção errada, eles aqui arrumam tudo mal, aqueles n00bs, metem camisolas XS na prateleira das M, no outro dia tinham as calças 38 nos cabides com etiquetas das de 40, depois tenho eu de andar a scanar e a arrumar tudo outra vez.
- Mas eu gosto mesmo desta camisola, combina mesmo bem com uma mala que tenho. Pode ir ver?
- Mas quer essa? Isso é um tecido misto, com poliester, politereftalato de etila: C10H8O4 … Eu se fosse a si não queria C10H8O4 no meu corpo. Só a estou a avisar. As pessoas querem as coisas porque dizem que “combina” ou “fica bem” ou “gosto do Vista”, nunca querem Linux, depois ficam com a pele toda instável e cheia de alergias. Porque não leva antes esta aqui, em algodão, 94% celulose, 6% glicose, bom algodão, tamanho XL, estável…
- Mas essa cor é horrível! E é XL, eu sou XS!
- É XS agora, mas quando começar a engordar das porcarias que come vai parar ao XL num instante, já sei como é e depois vem-me pedir a mim para lhe trocar a camisola e deve pensar que eu não faço mais nada.
- Eu não como porcarias!
- Ai não? Uma pessoa que mete politereftalato de etila na pele diz que “não come porcarias”. É como aquelas que chegam aqui e compram as minisaias que estão na montra e depois queixam-se da webcam que eu pus no provador porque "querem privacidade". Elas querem é desmagnetizar-me as etiquetas! Sabe o trabalho que dá magnetizar etiquetas? Pensa que é chegar ali e é por magia, como aquelas pulseiras powebalance. Agora uma camisolinha de algodão, estável, isso já não compram.
- Eu não vou levar essa camisola XL! Adeus!
- Então e se engravidar por aí nessas noites em que sai e apanha bebedeiras ou se droga? Vai para casa com homens que nem conhece, engravida, precisa de roupa larga e e quem é que tinha razão? Pwnage! Eu! E quem é que a menina vai chatear? vai-me chatear a mim! vai dar-me trabalho!!! @#%! vai-me aparecer aqui com a camisola DE politereftalato de etila, CHEIA DE NÓDOAS DE cerveja, vómito seco e esperma e COM A MALINHA A COMBINAR E vai-me pedir para trocar pela XL de algodão que eu lhe sugeri agora! mas nessa altura já não vai estar aqui a camisola!!!! vou ter de ir ao armazém ver se há XL e está tudo fora do sítio no armazém porque aqueles n00bs desarrumam tudo! @#%! Adeus... Vaca...
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
pessoas que perderam o emprego e tiveram de arranjar outro: o banqueiro que agora é taxista
- Boa tarde.
- Muito boa tarde.
- Queria ir para a rua Actor Tasso, é uma paralela à Fontes Pereira de Mello, sabe onde é?
- Com certeza. Temos percursos para a Fontes Pereira de Melo, Avenida Duque de Loulé, Avenida da Liberdade, Marquês de Pombal...
- Mas eu queria ir para a Actor Tasso, é perto do Sana Capitol Hotel, fica mesmo numa parela à Fontes Pereira de Melo.
- Lamentamos, a não ser que seja cliente Premium Taxi Executive VIP, a nossa oferta só inclui estes percursos às taxas de mercado.
- Não me pode levar para a rua Actor Tasso?
- Lamento muito, o sistema informático não deixa.
- Pergunte lá a um responsável, isto não faz sentido...
- Muito bem... RETALIS, aqui taxi 503, tenho um cliente que quer ir para uma rua não disponível na oferta básica. Escuto.
- Alô 503. É cliente Premium Taxi Executive VIP? Escuto.
- O senhor é cliente Premium Taxi Executive VIP?
- Não!
- O senhor diz que não. Escuto.
- Então não pode ser. Escuto.
- Como vê, não é possível. Tenho imensa pena.
- Que maçada! Estou atrasado para uma reunião!
- Está interessado em ser cliente Premium Taxi Executive VIP? Temos uma série de condições especiais e acordos com o ginásio Holmes Place e oferecemos uma torradeira com bluetooth e mp3 que...
- Não, deixe lá, leve-me então para a Fontes Pereira de Melo.
- Muito bem, deseja ouvir música? Pode seleccionar a estação de rádio que quiser.
- Então ponha aí na Antena 1, está quase a dar o noticiário.
- Com certeza. A temperatura está boa assim? Quer que feche a janela?
- Está um bocadinho frescote, feche lá a janela, obrigado. E pode ir um pouco mais depressa?
- Com certeza.
*CLUNK*
- Que barulho foi este!?
- Qual barulho?
- O para-choques traseiro caiu!
- Não se preocupe, está tudo bem.
*SLANK*
- Saiu uma jante disparada! Quero sair, deixe-me sair!
- Se sair agora tem de pagar a totalidade da tarifa. Mas não se preocupe, são apenas alguns problemas com peças mas que serão rapidamente tratados.
- Mas, mas... O Taxi está a cair aos bocados! Deixe-me sair!
- Não se preocupe, isto era o nosso intermediário na Alemanha que nos arranjava os Mercedes que comprava a checoslovacos que os iam buscar à Polónia que os montavam de peças compradas a ciganos Romenos, mas está tudo bem agora, excelente carro, de confiança, não ligue a boatos.
- O carro está a deitar uma fumarada!
- Ah, o depósito devia ter um restinho de gasolina de marca branca, isto nunca se sabe o que metem nos depósitos... no tempo do Salazar as coisas não eram assim. No outro dia apanhei um preto no martim moniz que...
(...)
- Muito bem, chegámos... são 22 euros e 56 cêntimos.
- O quê!? O taxímetro diz 8 euros!
- Temos de incluir a taxa de escolha de música, taxa climatização e taxa de urgência...
- Qual "taxa de escolha de música", o que é isso?
- Estava estipulado nas condições do serviço dos nossos taxis.
- Onde!? Não vi nada!
- Debaixo do tapete dos pés do passageiro do lado encontrará a lista de condições do nosso serviço e as taxas aplicáveis nos casos em que...
- Muito boa tarde.
- Queria ir para a rua Actor Tasso, é uma paralela à Fontes Pereira de Mello, sabe onde é?
- Com certeza. Temos percursos para a Fontes Pereira de Melo, Avenida Duque de Loulé, Avenida da Liberdade, Marquês de Pombal...
- Mas eu queria ir para a Actor Tasso, é perto do Sana Capitol Hotel, fica mesmo numa parela à Fontes Pereira de Melo.
- Lamentamos, a não ser que seja cliente Premium Taxi Executive VIP, a nossa oferta só inclui estes percursos às taxas de mercado.
- Não me pode levar para a rua Actor Tasso?
- Lamento muito, o sistema informático não deixa.
- Pergunte lá a um responsável, isto não faz sentido...
- Muito bem... RETALIS, aqui taxi 503, tenho um cliente que quer ir para uma rua não disponível na oferta básica. Escuto.
- Alô 503. É cliente Premium Taxi Executive VIP? Escuto.
- O senhor é cliente Premium Taxi Executive VIP?
- Não!
- O senhor diz que não. Escuto.
- Então não pode ser. Escuto.
- Como vê, não é possível. Tenho imensa pena.
- Que maçada! Estou atrasado para uma reunião!
- Está interessado em ser cliente Premium Taxi Executive VIP? Temos uma série de condições especiais e acordos com o ginásio Holmes Place e oferecemos uma torradeira com bluetooth e mp3 que...
- Não, deixe lá, leve-me então para a Fontes Pereira de Melo.
- Muito bem, deseja ouvir música? Pode seleccionar a estação de rádio que quiser.
- Então ponha aí na Antena 1, está quase a dar o noticiário.
- Com certeza. A temperatura está boa assim? Quer que feche a janela?
- Está um bocadinho frescote, feche lá a janela, obrigado. E pode ir um pouco mais depressa?
- Com certeza.
*CLUNK*
- Que barulho foi este!?
- Qual barulho?
- O para-choques traseiro caiu!
- Não se preocupe, está tudo bem.
*SLANK*
- Saiu uma jante disparada! Quero sair, deixe-me sair!
- Se sair agora tem de pagar a totalidade da tarifa. Mas não se preocupe, são apenas alguns problemas com peças mas que serão rapidamente tratados.
- Mas, mas... O Taxi está a cair aos bocados! Deixe-me sair!
- Não se preocupe, isto era o nosso intermediário na Alemanha que nos arranjava os Mercedes que comprava a checoslovacos que os iam buscar à Polónia que os montavam de peças compradas a ciganos Romenos, mas está tudo bem agora, excelente carro, de confiança, não ligue a boatos.
- O carro está a deitar uma fumarada!
- Ah, o depósito devia ter um restinho de gasolina de marca branca, isto nunca se sabe o que metem nos depósitos... no tempo do Salazar as coisas não eram assim. No outro dia apanhei um preto no martim moniz que...
(...)
- Muito bem, chegámos... são 22 euros e 56 cêntimos.
- O quê!? O taxímetro diz 8 euros!
- Temos de incluir a taxa de escolha de música, taxa climatização e taxa de urgência...
- Qual "taxa de escolha de música", o que é isso?
- Estava estipulado nas condições do serviço dos nossos taxis.
- Onde!? Não vi nada!
- Debaixo do tapete dos pés do passageiro do lado encontrará a lista de condições do nosso serviço e as taxas aplicáveis nos casos em que...
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
pessoas que perderam o emprego e tiveram de arranjar outro: o advogado que agora é empregado de mesa
- Olhe, se faz favor, eu pedi água fresca, esta está natural...
- Exmo. Cliente, a sua petição inicial contida na exordial não logrou agasalho nos meus orgãos auditivos. Manifesto repúdio pelo lapso procedual que inquinou o procedimento subsequente à sua exortação. O estabelecimento acolherá a sua observação com agravo e procederá à efectivação do mesmo conforme estabelecido no contrato comercial do regime geral da restauração.
- O quê?
- Não ouvi, peço desculpa, trago-lhe já outra.
(...)
- Exmo. Cliente, perante a objecção disposta no momento procedual precedente, a saber, o momento da entrega do recipiente com água mineralizada superavitariamente acima dos limites térmicos pressupostos no requerimento oral, entregamos um recipiente albergado em contentor refrigerador durante um período superior a 12h e que, consequentemente, se encontra na espectro termal por si especificado.
- O quê!?
- Esta aqui está fresquinha. E para almoço, o que deseja?
- O que é que sai mais rápido? Estou com pressa.
- Exmo Cliente, festinare docet. A imprecisão linguística contida no seu requerimento oral, leva-me a indeferi-lo por ausência de sentido objectivamente objectivo. Não obstante, e por prova de boa fé da Nossa parte, visto que aequiparat factum nobile velle bonum, se o Exmo Cliente ao usar a intervenção coloquial "sair mais rápido" especificava especificamente o tempo cronológico de confecção das refeições nutricionais deste estabelecimento legal, é nossa fulcral obrigação incontornável retorquir-lhe que a totalidade do leque de panóplia de universo dos repastos inclusos no cardápio do dia cinco de Janeiro de 2011 no período entre as 12:00 e as 15:00 e que elenca com devido pormenor a constituição e o preço dos mesmos, possuem tempos cronológicos de confecção e alicerção logística idênticos.
- O quê?
- Está tudo a sair rápido, digamos assim.
- Então queria um frango de caril se faz favor. E depressa!
- Utilius tarde quam nunquam!
- Exmo. Cliente, a sua petição inicial contida na exordial não logrou agasalho nos meus orgãos auditivos. Manifesto repúdio pelo lapso procedual que inquinou o procedimento subsequente à sua exortação. O estabelecimento acolherá a sua observação com agravo e procederá à efectivação do mesmo conforme estabelecido no contrato comercial do regime geral da restauração.
- O quê?
- Não ouvi, peço desculpa, trago-lhe já outra.
(...)
- Exmo. Cliente, perante a objecção disposta no momento procedual precedente, a saber, o momento da entrega do recipiente com água mineralizada superavitariamente acima dos limites térmicos pressupostos no requerimento oral, entregamos um recipiente albergado em contentor refrigerador durante um período superior a 12h e que, consequentemente, se encontra na espectro termal por si especificado.
- O quê!?
- Esta aqui está fresquinha. E para almoço, o que deseja?
- O que é que sai mais rápido? Estou com pressa.
- Exmo Cliente, festinare docet. A imprecisão linguística contida no seu requerimento oral, leva-me a indeferi-lo por ausência de sentido objectivamente objectivo. Não obstante, e por prova de boa fé da Nossa parte, visto que aequiparat factum nobile velle bonum, se o Exmo Cliente ao usar a intervenção coloquial "sair mais rápido" especificava especificamente o tempo cronológico de confecção das refeições nutricionais deste estabelecimento legal, é nossa fulcral obrigação incontornável retorquir-lhe que a totalidade do leque de panóplia de universo dos repastos inclusos no cardápio do dia cinco de Janeiro de 2011 no período entre as 12:00 e as 15:00 e que elenca com devido pormenor a constituição e o preço dos mesmos, possuem tempos cronológicos de confecção e alicerção logística idênticos.
- O quê?
- Está tudo a sair rápido, digamos assim.
- Então queria um frango de caril se faz favor. E depressa!
- Utilius tarde quam nunquam!
série pessoas que perderam o emprego e tiveram de arranjar outro: o consultor que agora é canalizador
- S...sim?
- Bom dia, tenho uma reunião com a senhora Alzira Costa. Sou o canalizador da Forrester Daymon Lynch & Plumbing - estende cartão.
- É o canalizador?
- Exactamente.
- Ah, desculpe, sou a Alzira, pensei que fosse testemunha de Jeová, assim com o fato, entre, entre...
- Com licença.
- Deseja um café, uma água?
- Obrigado, estou bem. Aguardo no hall?
- Não, não, pode já tratar disto, é o lavatório da cozinha que está entupido, o meu marido ontem ainda despejou soda cáustica e esteve com o desentupidor mas isto não deu e a empregada vem hoje, de maneiras que...
- Muito bem. Vou-lhe mostrar os trabalhos que fizemos até hoje. Tem projector? Não, deixe estar, não é preciso, somos só os dois, podemos ver a apresentação no meu computador. Onde posso ligar o portátil?
- Olhe, não é preciso, eu só queria mesmo desentupir o lava-loiças e...
- Está a arrancar. Isto do windows demora um eternidade a fazer o start up... Ok, power point... está quase... A Forrester Daymon Lynch & Plumbing nasceu em 1982 pela mão de dois canalizadores de Massamá, chamava-se Silva & Fagundes Desentop. Aqui no slide são os dois fundadores ao pé do nosso headquarters em Benfica. Depois, com a minha entrada em 2010, fizemos um rebranding para Forrester Daymon Lynch & Plumbing. Fazemos trabalhos para toda a geografical area de Lisboa, Sintra e Almada. Já fizemos trabalhos para mais de...
- Olhe, não tenho mesmo muito tempo, vai desentupir-me o lava-loiças ou...?
- Deixe-me só então saltar uns slides então... Estes foram os nossos projectos em lava-loiças. Este aqui foi um lava-loiças que tinha entupido com óleo de frigideira arrefecido, num t0 de Chelas, podemos ver ali que o cliente tinha deixado (...)
Meia hora depois
- ... e os nossos valores são colocar as plumbings no século XXI com a promessa de um new paradigm de serviço assente em inovação e performance, com as sinergias dos nossos human resources e o know-how de experiência adquirida. Obrigado. Tem alguma questão?
- Pode ver o lava loiças agora?
- Vamos então fazer uma análise SWOT ao lava-loiças... Ah, um classico modelo IKEA com estrutura em alumínio e pedra, tubagem de pvc de categoria 4. Muito bem, um modelo posicionado nos eixos qualidade preço e design simples, por contraste com as loiças italianas posicionadas no luxo e no design requintado... deixe-me por água a correr... exacto, como suspeitava, isto está entupido com gordura, entupited with fat, e é só colocar soda caústica...
- O meu marido já tentou isso, não deve ser gordura, ele diz que são resíduos sólidos quase de certeza e que o senhor devia ter uma daquelas bombas hidráulicas ou aqueles arames muito compridos para conseguir chegar ao cano entupido.
- Cara Alzira, isto é de certeza um case study de fat entuped pipe, já vimos dezenas de case-studys destes. Vou-lhe fazer uma technical proposition of reparation.
- Mas não é gordura, eu nem tenho cozinhado nada com óleo ou gordura!
- Ora, estimando aqui uma timeline de 16 horas, reunião de kick off, update meeting daqui a duas horas, custos externos de material e químicos, avaliação do resultado e...
- Bom dia, tenho uma reunião com a senhora Alzira Costa. Sou o canalizador da Forrester Daymon Lynch & Plumbing - estende cartão.
- É o canalizador?
- Exactamente.
- Ah, desculpe, sou a Alzira, pensei que fosse testemunha de Jeová, assim com o fato, entre, entre...
- Com licença.
- Deseja um café, uma água?
- Obrigado, estou bem. Aguardo no hall?
- Não, não, pode já tratar disto, é o lavatório da cozinha que está entupido, o meu marido ontem ainda despejou soda cáustica e esteve com o desentupidor mas isto não deu e a empregada vem hoje, de maneiras que...
- Muito bem. Vou-lhe mostrar os trabalhos que fizemos até hoje. Tem projector? Não, deixe estar, não é preciso, somos só os dois, podemos ver a apresentação no meu computador. Onde posso ligar o portátil?
- Olhe, não é preciso, eu só queria mesmo desentupir o lava-loiças e...
- Está a arrancar. Isto do windows demora um eternidade a fazer o start up... Ok, power point... está quase... A Forrester Daymon Lynch & Plumbing nasceu em 1982 pela mão de dois canalizadores de Massamá, chamava-se Silva & Fagundes Desentop. Aqui no slide são os dois fundadores ao pé do nosso headquarters em Benfica. Depois, com a minha entrada em 2010, fizemos um rebranding para Forrester Daymon Lynch & Plumbing. Fazemos trabalhos para toda a geografical area de Lisboa, Sintra e Almada. Já fizemos trabalhos para mais de...
- Olhe, não tenho mesmo muito tempo, vai desentupir-me o lava-loiças ou...?
- Deixe-me só então saltar uns slides então... Estes foram os nossos projectos em lava-loiças. Este aqui foi um lava-loiças que tinha entupido com óleo de frigideira arrefecido, num t0 de Chelas, podemos ver ali que o cliente tinha deixado (...)
Meia hora depois
- ... e os nossos valores são colocar as plumbings no século XXI com a promessa de um new paradigm de serviço assente em inovação e performance, com as sinergias dos nossos human resources e o know-how de experiência adquirida. Obrigado. Tem alguma questão?
- Pode ver o lava loiças agora?
- Vamos então fazer uma análise SWOT ao lava-loiças... Ah, um classico modelo IKEA com estrutura em alumínio e pedra, tubagem de pvc de categoria 4. Muito bem, um modelo posicionado nos eixos qualidade preço e design simples, por contraste com as loiças italianas posicionadas no luxo e no design requintado... deixe-me por água a correr... exacto, como suspeitava, isto está entupido com gordura, entupited with fat, e é só colocar soda caústica...
- O meu marido já tentou isso, não deve ser gordura, ele diz que são resíduos sólidos quase de certeza e que o senhor devia ter uma daquelas bombas hidráulicas ou aqueles arames muito compridos para conseguir chegar ao cano entupido.
- Cara Alzira, isto é de certeza um case study de fat entuped pipe, já vimos dezenas de case-studys destes. Vou-lhe fazer uma technical proposition of reparation.
- Mas não é gordura, eu nem tenho cozinhado nada com óleo ou gordura!
- Ora, estimando aqui uma timeline de 16 horas, reunião de kick off, update meeting daqui a duas horas, custos externos de material e químicos, avaliação do resultado e...
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
o apelo da Igreja (ou porque nunca recebi convites para escrever crónicas pagas em revistas de referência)
Tentei em tempos uma aproximação à Igreja porque me agradava francamente o resultado artístico e estético da arte a ela associada, é uma coisa que confere ao criador alguma credibilidade e um lado dramático bíblico e histórico, separando-o do resto da manada hedonista e secular que caracteriza os "artistas" em geral, especialmente os do rock. A Igreja propõe-me uma alternativa interessante à lucidez e à solidão: transformar-me numa espécie de ser feliz, seguindo placidamente rituais com hierarquias e regras claras, oferecendo-me em troca um sentimento de pertença cultural e social e um género de apoio moral omnipresente, muito em procura nos dias de hoje. Aquela cumplicidade entre os cristão, ao domingo de manhã, parece-me uma coisa agradável, parece-me bem, embora a média de idades seja assustadoramente semelhante à dos participantes nos comícios do PCP, quase que dá a sensação que os velhinhos portugueses evoluíram em direcções diferentes, como a raposa do deserto que tem orelhas grandes para dissipação de calor e a do ártico que tem orelhas pequenas para a sua conservação, mas que no fundo vieram da mesma raposa original que, em princípio, vivia em climas temperados.
O meu apoio moral neste momento vem de cerveja ou vinho, ocasionalmente vodka e dos autocolantes nos maços de tabaco a felicitar-me pelo lento suicídio. Invejo os católicos, vejo-os na sopa dos pobres no Natal, com um olhar sincero, a afirmar perante as cameras da SIC que “encontraram a felicidade em Jesus” e que “vivem no amor pelo próximo” enquanto distribuem postas de bacalhau demasiado cozido e couves duras por pessoas com aspecto sujo e pobre e com quem os ateus não haviam de querer ter nada a ver. Em boa verdade, consigo imaginar-me mais facilmente no lugar dos maltrapilhos, a ser alimentado à colher por cristãos e mostrar-me agradecido e piedoso (contando que me deixassem escrever em paz) do que propriamente a ajudar excluídos sem talentos artísticos de qualquer espécie.
Mesmo assim, preciso de Internet, electricidade, água, gás etc. não é só comida, e nisso acho que a Igreja já não ajuda nada e também não conheço casos de pessoas que rezem muito para ter a conta do meo paga por milagre ao fim do mês. Se Jesus descesse à Terra, penso que teria de repensar os milagres. Em vez de ressuscitar Lázaro, o que é um pouco politicamente incorrecto e coloca sérias questões sanitárias e burocráticas (imagine-se o caos no arquivo de identificação civil) podia pagar-lhe as prestações do T2 no Parque das Nações, em vez de transformar água em vinho poderia transformar água em vitamin water ou formas luso. Por mais apelativo que possa ser tornar-me cristão, a verdade é que a Igreja também tem um lado soturno e profundamente deprimente, com Cristos sangrentos por todo lado e mártires torturados das formas mais engenhosas, uma coisa própria da mente de um Frank Miller ou de um Tarantino. Também temos o povo a arrastar-se a Fátima e a cumprir promessas em que, supostamente, há uma tácita correlação positiva entre o grau de dor e sacrifício e o objectivo pretendido e isso é uma coisa que me deprime um pouco, não tanto como as touradas, é certo, mas não é bonito. Fazer 100 metros de joelhos pode garantir 20% de visão ao pequeno Amilcar, cego de nascença, mas se forem três pessoas, por exemplo, pai, mãe e avó, e cada um fizer 300 metros, podem recuperar 100% da visão do Amilcar e se calhar ainda metem uma cunha para a artrite do tio João. Não sei. Sempre que tentei uma aproximação, algo me dizia que aquilo não era para mim, mas não desisti.
O meu apoio moral neste momento vem de cerveja ou vinho, ocasionalmente vodka e dos autocolantes nos maços de tabaco a felicitar-me pelo lento suicídio. Invejo os católicos, vejo-os na sopa dos pobres no Natal, com um olhar sincero, a afirmar perante as cameras da SIC que “encontraram a felicidade em Jesus” e que “vivem no amor pelo próximo” enquanto distribuem postas de bacalhau demasiado cozido e couves duras por pessoas com aspecto sujo e pobre e com quem os ateus não haviam de querer ter nada a ver. Em boa verdade, consigo imaginar-me mais facilmente no lugar dos maltrapilhos, a ser alimentado à colher por cristãos e mostrar-me agradecido e piedoso (contando que me deixassem escrever em paz) do que propriamente a ajudar excluídos sem talentos artísticos de qualquer espécie.
Mesmo assim, preciso de Internet, electricidade, água, gás etc. não é só comida, e nisso acho que a Igreja já não ajuda nada e também não conheço casos de pessoas que rezem muito para ter a conta do meo paga por milagre ao fim do mês. Se Jesus descesse à Terra, penso que teria de repensar os milagres. Em vez de ressuscitar Lázaro, o que é um pouco politicamente incorrecto e coloca sérias questões sanitárias e burocráticas (imagine-se o caos no arquivo de identificação civil) podia pagar-lhe as prestações do T2 no Parque das Nações, em vez de transformar água em vinho poderia transformar água em vitamin water ou formas luso. Por mais apelativo que possa ser tornar-me cristão, a verdade é que a Igreja também tem um lado soturno e profundamente deprimente, com Cristos sangrentos por todo lado e mártires torturados das formas mais engenhosas, uma coisa própria da mente de um Frank Miller ou de um Tarantino. Também temos o povo a arrastar-se a Fátima e a cumprir promessas em que, supostamente, há uma tácita correlação positiva entre o grau de dor e sacrifício e o objectivo pretendido e isso é uma coisa que me deprime um pouco, não tanto como as touradas, é certo, mas não é bonito. Fazer 100 metros de joelhos pode garantir 20% de visão ao pequeno Amilcar, cego de nascença, mas se forem três pessoas, por exemplo, pai, mãe e avó, e cada um fizer 300 metros, podem recuperar 100% da visão do Amilcar e se calhar ainda metem uma cunha para a artrite do tio João. Não sei. Sempre que tentei uma aproximação, algo me dizia que aquilo não era para mim, mas não desisti.
Bandido cha cha cha
agora ficam isto no ouvido o dia todo hi hi hi ^_^
A Princesa é que me mostrou esta música, tinham uma coreografia especial no clube de salsa :))
saudades :(
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
o amor
(acho que ela está mesmo chateada :\ e hoje é noite de poker com os amigos nem vou escrever, é um desperdício)
elas não percebem nada de arte
Depois de um interregno dedicado às rotinas agradáveis do amor, como comprar mantimentos frescos no Pingo Doce, adormecer a ver filmes com o Hugh Grant e ouvir uma pessoa a falar comigo sobre o que a Fernanda lhe disse a propósito do Alberto que é um grande parvo em não namorar com a Roberta da recepção, eis que é chegado o momento de recomeçar uma vida artística de grande escritor. Foi uma resolução de ano novo. Essa e fazer inspecções sanitárias ao frigorífico pelo menos uma vez por mês. Tenho um romance inacabado, um monstro de 191 palpitantes páginas a esperar o meu esforço e dedicação de grande artista. O problema é que para me sintonizar para o romance, preciso de sofrer a sério. Sofrer a bom sofrer, não tanto como um poeta ou o Torres Couto, mas mesmo assim sofrer. Portanto, a única forma de compatibilizar relações amorosas e arte é por intermédio de relações atribuladas ou de casamentos e a natural infelicidade que vem com o tédio da rotina. A fase do namoro e do encantamento é totalmente incompatível com criação de valor. Qualquer aprendiz de escritor sabe isto muito bem à primeira discussão com o tópico “mas vais ficar em casa outra vez o fim de semana todo?”
É evidente que num casamento, este problema já não se coloca porque a mulher já se cansou de sair à noite e também já não é tão bonita e não está para se meter ao pé de miúdas universitárias todas produzidas e empinadas, preferindo rever-se na Bridget Jones no canal Hollywood.
Ontem, tive o ímpeto de a mandar embora de casa para escrever, para criar. Ela arrumou as suas coisas, furiosa, e mal a porta bateu senti-me profundamente triste e culpado e sozinho. Finalmente! Fui a correr para o computador para aproveitar o estado de espírito e ainda escrevi uns parágrafos bons. Telefonei-lhe depois para pedir desculpa, até porque ia jogar playstation e não se justificava continuar atrofiado, mas não me atendeu. Não há crise. Combina-se uma ida ao playcenter do Colombo, ela adora o bowling. Safo-me sempre. As mulheres em geral gostam muito de artistas como eu porque temos um olhar intenso e febril, com aquela densidade e paixão que caracteriza os mártires. Embora o objecto do nosso desejo seja um mistério ainda por definir, elas gostam de se colocar entre o objecto e o artista, de maneiras que o olhar incida sobre elas, no fundo, como um guaxinim encadeado pelos faróis de uma Nissan Patrol antes de ser esborrachado. A Princesa tem exactamente esse olhar quando lhe falo dos meus projectos confusos e das dificuldades que se avizinham e suspeito que não compreende metade do que lhe digo, até porque no outro dia referiu-se a dois misteriosos livros que lhe terei recomendado, um tal de “Crime e Paz” e um “Guerra e Castigo”.
É evidente que num casamento, este problema já não se coloca porque a mulher já se cansou de sair à noite e também já não é tão bonita e não está para se meter ao pé de miúdas universitárias todas produzidas e empinadas, preferindo rever-se na Bridget Jones no canal Hollywood.
Ontem, tive o ímpeto de a mandar embora de casa para escrever, para criar. Ela arrumou as suas coisas, furiosa, e mal a porta bateu senti-me profundamente triste e culpado e sozinho. Finalmente! Fui a correr para o computador para aproveitar o estado de espírito e ainda escrevi uns parágrafos bons. Telefonei-lhe depois para pedir desculpa, até porque ia jogar playstation e não se justificava continuar atrofiado, mas não me atendeu. Não há crise. Combina-se uma ida ao playcenter do Colombo, ela adora o bowling. Safo-me sempre. As mulheres em geral gostam muito de artistas como eu porque temos um olhar intenso e febril, com aquela densidade e paixão que caracteriza os mártires. Embora o objecto do nosso desejo seja um mistério ainda por definir, elas gostam de se colocar entre o objecto e o artista, de maneiras que o olhar incida sobre elas, no fundo, como um guaxinim encadeado pelos faróis de uma Nissan Patrol antes de ser esborrachado. A Princesa tem exactamente esse olhar quando lhe falo dos meus projectos confusos e das dificuldades que se avizinham e suspeito que não compreende metade do que lhe digo, até porque no outro dia referiu-se a dois misteriosos livros que lhe terei recomendado, um tal de “Crime e Paz” e um “Guerra e Castigo”.
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