quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

o urso

Quando era puto achava o meu pai um solitário extremo. Os pais dos outros iam para caçadas ou pescarias em grupo e o meu pai, que também as fazia assim no início, com direito a patuscadas, começou a ser mais solitário. Via-o fazer os preparativos da pesca submarina e da caça e partir sozinho como um urso esquivo, acompanhado por um cão de companhia histérico por poder mandar a civilização às urtigas. Uma vez, quando eu o repreendi por ser tão anti-social e ainda por cima misógino e lhe tentei fazer ver como era bom eu ter a minha imensa família de amigos em Lisboa (naquela fase da vida universitária em que precisamos dos amigos como de pão para a boca e achamos que é assim para toda a vida) disse-me que era uma fraqueza precisar de amigos e mulheres dessa maneira. Exagerava um bocadinho, como sempre, mas passado uns anos dei comigo a percorrer as mesmas pegadas no deserto no momento em que talvez mais precisasse de pessoas, embora com as minhas variantes de jovem moderno do século XXI, com o distanciamento lúcido e inevitavelmente narcisista que caracteriza quem se observa a si próprio constantemente pela escrita. Até já pensei em comprar a merda de uma cana de pesca para aproveitar os dias sem ondas de jeito, tamanha é a força dos genes que me leva a ficar especado em frente às montras de equipamento de pesca das lojas do Cais do Sodré. O verdadeiro urso não comunica com o exterior, desaparece e aparece. Por vezes, nos momentos de ursidão, deslizamos para um estado de delírio em que os pensamentos se calam porque fazem demasiado ruído na catedral da cabeça. De vez em quando fazemos uma paragem num ancoradouro qualquer da civilização, pequenos rituais práticos como cozinhar uma refeição ou quando um empregado de restaurante nos interpela a perguntar se queremos mais uma cerveja. É em momentos de ursidão que a memória dele me surge mais nítida e que me sinto mais perto do sítio para onde ele foi. A campa dele é no mar, na vinha onde correm perdizes, no suspiro de um cão velhote a ressonar ao pé da lareira e a tremelicar das patas enquanto recorda em sonhos as caçadas com o dono que nunca mais chegou a casa e que se chegasse teria exactamente a mesma festa que se se tivesse ausentado umas horas, na bandeira vermelha que desafiávamos como se fossemos touros a responder a uma provocação marinha, no som do machado a cortar lenha num tronco, no cheiro a diesel da moto-serra que veio depois do pequeno acidente com o machado, na terra molhada, na chama de um velho candeeiro de petróleo... Soube depois, por uma vizinha que brincara com ele em criança, que o meu avô, que nunca conheci, o espancava impiedosamente quando era miúdo. Nunca falava no passado, também isso era um sinal de fraqueza. Eu posso certamente queixar-me de algumas coisas, aquele tipo de porrada psicológica do tipo "moderno" digamos assim, necessária para moldar personalidades ao fim e ao cabo, mas nada de especial, porque no lado prático, na realidade, cresci com uma espécie de chão sólido, paredes espessas e tecto protector que estaria sempre lá. Parece que o estou a ver a olear a Beretta automática, toda desmontada, e depois a alinhar a mira e a dizer-me que se me fizessem mal, ele matava o gajo logo, ia atrás dele e matava o gajo, quais tribunais e advogados, isso é para os fracos... É fixe ouvir isso de um pai, digo-vos já. Tenho de conversar com a Plaft mais um bocado sobre estas coisas. Pode ser pouco pedagógico, concedo, mas para um puto de 7 ou 8 anos, é muito fixe.

4 comentários:

Constanza Muirin disse...

Também tenho um pai desses, ursolitário, e essa componete genética revelou-se em mim desde cedo. Boas viagens pela ursidão!

Maria D Roque disse...

Percebo o vazio e o Teddybear. O texto, como habitualmente, é excelente. Tens que registar este teu registo literário Tolan®

Mariam disse...

Eu compro o teu livro. Custe o que custar. Faz o teu preço.

Peppy Miller disse...

Fizeste-me lembrar o meu pai.. muito bem escrito! Quando sai o teu livro?