sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

títulos de romances

Dar um título a um romance é uma tarefa mais complicada que dar nomes a bebés rapazes (raparigas é fácil). Aprendi (para a próxima) que o truque é precisamente esse, arranjar um nome fixe para um protagonista masculino e depois dar o nome do gajo ao romance. Suttree, Huckleberry Finn, Frei Luís de Sousa, Dom Quixote... Também podemos ir para nomes de famílias: Bruddenbrook, Os Maias... Ou inventar monstrengos e dar-lhes nomes, como Malone, Molloy, Watt, Moby Dick, Bambi...Tenho a certeza que existem péssimos títulos de romances que acabaram por colar com o tempo, só que agora não dá para ver que eram péssimos. Talvez Guerra e Paz seja um título péssimo. Francamente, manteve-me afastado desse grande romance durante muito tempo. Guerra e Paz é um título desumano, temos imediatamente a sensação de ler algo enciclopédico, sem detalhe e vida, e depois é precisamente o oposto que se verifica. É um péssimo título. Há título bestiais à primeira, como o Espuma dos Dias. O Boris Vian tem os títulos melhores com o pseudónimo Vernon Sullivan: Morte Aos Feios, Irei Cuspir-vos nos Túmulos, Elas Não Sabem Nada... Fico atónito com os títulos de António Lobo Antunes. É que não me parece possível haver títulos mais bonitos que os dele. Não entres tão depressa nessa noite escura. O que farei quando tudo arde. Fado Alexandrino. Arquipélago da Insónia. Foda-se... (foda-se é uma interjeição minha, não é um título de António Lobo Antunes).  É uma tristeza uma pessoa ouvir dizer de três pessoas diferentes, que lhe leram o romance, coisas como "não podes dar um título a armar" ou "tem de ser descontraído" sempre que me lembro de propor um título assim bonito e poético como As Baleias Fantasma, tem de ser uma coisa mais trash. Sinto-me ofendido. O que me estão a tentar dizer com isso? Que eu sou trash? Ok, tudo bem, admito que não é Herman Melville, mas mesmo assim... E raramente vejo unanimidade. Como os nomes de bebés. Nunca tiveram essas discussões com amigos? Que nomes é que gostam? Nunca há unanimidade nos nomes bons, excepto nos nomes maus como Ruben, Cátia ou José Luís Peixoto. Também há títulos francamente maus. Há títulos que me fazem torcer o fígado, como aquele do Murakami, o Kafka On The Shore. Seria incapaz de ler um livro com esse título, não sei explicar porquê, mas torce-me o fígado como o cheiro a gold strike e o livro até pode ser bem bom. E títulos que me pareciam bonitos, depois com o tempo tornam-se lugares comuns terríveis, como o Insustentável Leveza do Ser. E vocês, que títulos gostam e não gostam e porquê? Expliquem, pelas vossas palavras, máximo 5000 caracteres.

27 comentários:

Maria D Roque disse...

Título giro : "O Meu Pipi"... Nesta altura do campeonato, nem vale um parágrafozito, quanto mais 500 palavras...

Desbocado disse...

Acho (como tu) que dar títulos a romaces é uma arte, arte díficil. Eu gosto de título disparatados, mas que me despertem algo, algum sentimento, memória, não sei. Peço desculpa não usar todas as palavras que podia mas estou com pouco tempo...

DESBOCADO!

Anónimo disse...

on the road
pé na estrada
sur la route
en el camino
unterwegs
op weg
sulla strada
vejene
matkalla
teel
úton
kelije
w drodze
pe drum


small is biutifull
keep it simple

Calimera disse...

esse fodasse, deve ter dado ideias a alguém para um titulo de livro...

Izzy disse...

Concordo com o anonimo aqui em cima. Keep it simple, minimalista. Como eh que se chama o teu protagonista?

Um bom titulo? "O amor eh fodido" de MEC. Simples, to the point, titulo que nao engana o fregues.

Melhor titulo para uma biografia? "Life", de Keith Richards. Tau! Mind blown!

Titulos a atirar para o complicadinho, que depois vai-se a ver ate sao bons, mas que nao lemos ha mais tempo por causa, la esta, do titulo: "Se numa noite de inverno um viajante" de Italo Calvino + "Jeff in Venice, Death in Varanasi" de Geoff Dyer.

Anónimo disse...

O que me torce o fígado é o cheiro a amêndoa amarga, se bem que passar o dia seguinte a arrotar a canela, não seja propriamente um bom "programa"-

Assino a petição "Não é nada fácil dar um título a um escrito com mais de paragrafo, a não que seja um trabalho escolar", e falo na fase "O autor titula", depois ainda há fase "O pessoal do Marketing não considera esse título o mais aconselhável".

Mas depois do baptizado e da edição, muitos títulos ainda passarão pela cabeça do autor, e por cada título algumas dúvidas, "muitos títulos" * "algumas dúvidas" = foda-se.

Mariam disse...

"Pássaros feridos", "As pontes de Madison County", "Adopta-me", e, lá dentro, o presentinho envenenado, tão bom, de amores impossíveis, anacrónicos, e que acabam mal. "O primo Basílio", pelos mesmos motivos (à parte a salganhada de géneros, épocas, estilos e nacionalidades de autores que para aqui vai).

António Machado disse...

tenho o problema todo posto ao contrário
tenho título, tenho tema, (caractarização das personagens, etc.) tenho tudo muito arrumadinho... na minha cabeça...
se quiser escrever, o meu livro, por mim, entre em contacto
o primeiro grande romance da literatuga do sec. XXI diz-lhe alguma coisa?

Anónimo disse...

"Queres fazer o favor de te calar?"
É simples não é...? É do Raymond Carver, que também tem outros bons, e que neste parafraseou o meu avô a dirigir-se a qualquer membro da família. Às vezes é olhar para o lado. Vê lá isso
LML

Anónimo disse...

Gosto muito de "O teu rosto será o último" e do "Centenário que fugiu pela janela e desapareceu"...
E depois também há as capas...ai os livros que eu compro por não resistir às capas
Susana

Constanza Muirin disse...

"Livro".

Anónimo disse...

o meu top e de títulos (apenas do que li ):

1 - o senhor das moscas. epá.. o, senhor, das, moscas! loloolololo. digam lá que não tem um piadão! e além disso é um grande livro!

2 - o coração das trevas. em inglês "heart of darkness". não sendo particularmente interessante, se for dito em voz alta, tanto em português como em estrangeiro, de forma autoritária e com o os "erres" carregados, e se a seguir dissermos o nome do autor, joseph conrad, ganha uma dimensão única. ora tentem lá dizer de forma autoritária: "eu estou a ler o heart of darkness do joseph conrad". agora digam, por exemplo "eu estou a ler o delfim do josé cardoso pires". pois.. os delfins não metem medo a ninguém!


3 - o rui zink tem um livro de crónicas intitulado "luto pela felicidade dos portugueses". gosto do rui zink, e também luto pela felicidade dos portugueses, por isso parece-me que não podia faltar. é um grande título.

como podem ver não há por aqui espaço para lamechices!

menção honrosa: "o nariz". é um conto do Gogol. é um grande título. se fosse "o olho", "a perna" ou "o testículo" não teria o mesmo impacto. não só a palavra "nariz" tem uma sonoridade diferente como coloca o pedaço mais subvalorizado do corpo humano no topo da literatura clássica. um bom título também é isto.

Espiral disse...

Também adoro os títulos do AntóNIO lOBO anTUNES.

Ofereceram-me o último dele 2Não é meia noite quem quer" e só me contenho a lê-lo porque estou a lê-lo por ordem cronologia. Mas são todos títulos lindos fodasse.

O "Eu hei-de amar uma pedra" e o belissimo "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar" sao os melhores.

Anónimo disse...

Qualquer título (e livro foda-se) da Margarida Rebelo Pinto segue directo para a TrashCan. Por isso não te metas com merdas tipo ela; pelo que nos tens mostrado até agora, és homem de títulos mais... assertivos. E com mais graça, foda-se (esta interjeição fica-te sempre muita bem).

Anónimo disse...

Uma palavra devia chegar-te. No máximo duas.

Mathieu

nAnonima disse...

anónimo das 22:21, estou contigo no "Nariz" de Gogól :))))

Anónimo disse...

Anonimal disse:
até me arrepio ao dizer isto, mas como é anónimo, que se foda (palavra muito repetida nesta caixa!!):

"as palavras que nunca te direi."

não li nem tenciono ler (nem sei se é tradução literal do titulo, não me dei ao trabalho de ir ver).

mas o facto de apenas o título encerrar em si toda uma história fascina-me.

Tolan disse...

depois da coisa existir, o título dela torna-se natural e a gente habitua-se, às tantas não pode ser outro. Lembro-me de ter tido uma ninhada de cachorros e tivemos de dar nomes aos bichos antes de os dar. Demos nomes genéricos. A uma, a mais feia e rosnadora e mal humorada, dei o nome de "Feroz". Havia o Machão (o único macho), a Princesa (orelhas encaracoladas) etc. Acabámos por ficar com a Feroz. O nome era absurdo. Tentámos vários nomes bonitos. Nenhum colava. Ficou Feroz até à morte.

Annie disse...

Não encontro melhor que o "Eu hei-de amar uma pedra", não lhe falta nada, nem o "eu" no início. Não li ainda o livro mas por ter este título (e por ser de quem é), será lido certamente. No lado oposto encontro "O jardim do paraíso" do Hemingway, é provavelmente um dos títulos mais banais (pelo menos à primeira vista) e não me promete nada de bom, mas depois...que brutal, que livro.

Peppy Miller disse...

Pois, não foi bem um romamce, mas gostei do "amor é fodido" do MEC

Maria D Roque disse...

Bom 2013, Tolan & Plaft , e restante pandilha!

ME disse...

Mau titulo: Apoplexia da ideia.
Não diz nada, remete para o vazio total, mas vendo bem as coisas até reflecte o seu conteúdo.

Bom titulo: A varanda do Frangipani - Mia Couto. Pelo titulo imaginava um sitio onde coisas fantásticas tinham acontecido e o tal do Frangipani tambem me soava a personagem exótica visto que não conheço ninguem chamado Frangipani. De uma cajadada o Mia (que tambem é um bom nome tanto para rapaz como para rapariga) resolveu logo dois problemas: um bom titulo para um livro e um bom nome para rapaz!

G. Varino disse...

Sr. Bentley, O Enraba-Passarinhos, Ângela Ramos Simões, Saída de Emergência, 2006. Só lendo...

Alexandra, a Grande disse...

Eu gosto de "A linha de sombra" e de "A possibilidade de uma ilha", apesar de não ter gostado muito dos livros a que pertencem. Gosto de títulos metafóricos, pelos vistos, e que tenham duas palavras ligadas por preposições. Agora que penso nisso, apercebo-me que é quase sempre assim. Que raio de coisa me fizeste descobrir.
Gostei muito de "Kafka à beira-mar", o livro, já que o referiste, mas teria resistido a comprá-lo por causa do título manhoso. Felizmente ofereceram-mo. E por falar nisso, gosto muito de "Felizmente há luar".
Boa sorte nessa decisão.

André disse...

Os títulos do ALA não são (todos) propriamente dele. Ele anda a apropriar-se de versos de grandes poetas. Não sei - se os poetas dessem voltas nos túmulos - se os poetas expropriados dos seus versos não andarão às voltas nos seus túmulos...

Anónimo disse...

"Dead Souls", Nikolai Gogol

euexisto disse...

"que sa foda o título"

depois agradeces-me com um favor quando fores famoso.