quinta-feira, 18 de outubro de 2012

baixas pressões


Gosto muito de chuva. Não sou obrigado a estar bem disposto como quando está sol e calor e toda gente anda com roupas leves e garridas e um sorriso estúpido na cara. O meu mau humor e pouca vontade de sair da cama fica camuflado porque as caras das outras pessoas estão como a minha. O ar fica com menos pó, mais limpo, é mais saudável. Podemos andar a pé e não transpiramos porque está frio, a não ser naqueles dias impossíveis em que está a chover e está calor como se estivessemos num país tropical qualquer. Li algures que esses dias acontecem por causa do aquecimento global. Quando está a chover também posso usar as minhas botas e o meu blusão verde, que é como gosto de andar. O blusão tem bolsos onde posso deixar a tralha toda e tem um carapuço que é uma espécie de toca portátil muito prática e que me faz falta em reuniões mais aborrecidas. O livro da Plath vai debaixo do blusão, comprimido contra o corpo pelo meu antebraço. As pessoas não conseguem ver o livro porque é pequeno e está escondido debaixo do blusão e então devem estranhar o meu braço direito hirto e colado contra o corpo, como se estivesse partido e preso por um gesso invisível. Ou então nem reparam nisso porque estão tão deprimidas com a chuva e as constipações que só conseguem pensar na própria sobrevivência. É assim que imagino as pessoas em geral, uma vida que se resume a sensações como as de um animal: estou com frio, doi-me as pernas de andar, tenho fome, preciso de um café, quero dormir, tenho fome… O livrinho da Plath é como um passarinho que tenho de manter quente e proteger da chuva. Gostava de ter sido amigo dela e em vez de electrochoques tinha-lhe dado chocolates ou outra coisa assim do género, as raparigas costumam gostar de chocolates, especialmente as mais doidas. Gostaria de a guardar comigo como um ratinho ou um ouriço para enfiar num dos meus bolsos e dar-lhe pequenos pedacinhos de queijo ou restos de torrada com manteiga, sem que ninguém estivesse a ver. Podia levá-la para reuniões também, às vezes há bolos secos e outro tipo de comidas que ela poderia mordiscar. Ou nos aviões, há sempre bolachas nos aviões da tap. E nunca como a sobremesa, talvez ela gostasse da sobremesa e depois ficava o resto da viagem a dormitar ao meu colo a ver um mau filme até adormecer enrolada naqueles cobertores vermelhos que nos dão e que nunca são suficientemente grandes. É muito aborrecido isto tudo, mas felizmente está a chover por isso não faz mal, se estivesse sol podia sentir-me culpado.


10 comentários:

nAnonima disse...

de alguém que também gosta depressivamente da chuva, LINDO! :)

Rosa Cueca disse...

Tolan tu tens o dom de adivinhar tudo o que uma miúda quer ler para se sentir especial.
Props à Plaft!

Maria D Roque disse...

Eu sou Invernosa. Gosto do frio; não sou particularmente fan da chuva, mas os dias frios são mesmo a minha "coisa", como se diz agora. O sol quente aflige-me, sufoca-me, faz derreter o betume de pedra que passo horas a aplicar na fronha, faz-me sede, faz-me (mais) pesada, tira-me a dignidade de parecer normal.
O texto é belo e sensível, como aliás quase todos os textos em que o Tolan põe a alma . Quando sair o Livro, eu vou estar na fila para conseguir um exemplar. Como o verdadeiro Tolan, estará sempre acima da linha de água a marcar uma posição.

ME disse...

"as raparigas costumam gostar de chocolates, especialmente as mais doidas", foi o que retive deste texto.

Izzy disse...

Pronto, ja vi que ta mau tempo em Portugal... eh que os blogueiros tugas nao falam de outra coisa. "ah e tal, eu gosto da chuva porque me esconde as emocoes urbano-depressivas" ou "nao gosto da chuva porque nao posso usar calcoes".
Masquestamerda? Oh Tolan, eu esperava mais de si!

Isabel disse...

"ratinho", foi o que retive do texto. Lembrei-me do Jerry, um ratinho que tive e que foi, sem dúvida, o meu animal de estimação preferido. Era tão portátil... Ia comigo para todo o lado.

Maria Costa disse...

Não gosto de chuva. Ponto final ( por muito bonito que esteja o texto)

tata disse...

Gosto da chuva.
Gosto do texto.
Gosto da forma como escreves, tendencialmente bruto, descomunalmente apaixonado.
Ganda like!

Anónimo disse...

és um bruto, tolan, gosto bués!
gosto
gosto
gosto
tens pujança nas palavras. se fizeres outras coisas conforme escreves... uau.. deves brutal...
escreves sem papas na língua, sempre com a plath pela mão, assim pequenina.
um dia, gostaria de me unir a ti e à Sylvia através do cordão umbilical do facebook e ter filhos brutos como tu.
espero que um dia a raça humana desapareça toda para dentro do facebook e não lhe sobre dedos para tanto like.

tete cueca

Ex-Vincent Poursan disse...

tu e a plath… a plath e tu!!!
se está a chover lá vem a plath se estivesse sol a plath vinha.
o tolan borboleta, a plath lamparina e vice versa.
eu até entendo essa cena do amor… acho que já estive, ou agora é que estou e antes pensava que estava mas não estava e agora penso que não estou mas afinal agora é que estou… mais coisa menos coisa é isto. Se nem uma coisa nem outra… apaixono-me amanhã.
até nem costumo comentar aqui mas a caixa é só mulherio… está bem!!!
pronto… vejam lá se entram em velocidade de cruzeiro e não completam a metáfora lá de cima queimando as asas!!!