quinta-feira, 1 de março de 2012

caixa de correio

Há uma caixa de correio a transbordar de publicidade no rés do chão, é a minha, sempre a vomitar cartas. Entre a publicidade há cartas importantes, das finanças, da emel, da edp, da epal…
Odeio a caixa de correio. Quatro ou cinco vezes por ano abro a caixa de correio e cai-me um chorrilho de publicidade aos pés. Compra-me! Paga-me! Desconto! Saldos! Oportunidade!

Já fiquei sem luz, sem gás, sem net e sem água, umas quantas vezes. Já me aconteceu ligar a água quente e ela não vir e pensar “ok, tenho de contactar a lisboa gás ou que raio é” e encaro isso com normalidade e resignação.

Em dias bons, depois de ler livros de auto-ajuda, vou lá abaixo e faço a triagem pacientemente, com dois sacos de plástico, um para as cartas que interessam e as outras que são para a reciclagem, a publicidade, os catálogos da la redoute, do ikea, as cartas dos inquilinos que já morreram ou que já partiram. O desespero dos filhos da puta que distribuem publicidade é tão grande que às tantas já enfiam os panfletos à força pelas goelas da minha caixa de correio aos murros. Panfletos da worten amarrotados, fliers da remax a perguntar se quero vender a minha casa meio rasgados pelo ódio. O ódio é recíproco.

E as cartas do Estado para o meu avô que já morreu ou da PT para a minha ex que já foi. E tenho de explicar tudo? Tenho de explicar que algures numa base de dados certos nomes deviam ser substituídos pelo meu? Para quê? Vou morrer! Eles também.

As cartas que interessam (que me pedem cenas de dinheiro de diversa índole) vêm sempre num filho da puta de um crescendo cronológico.

Estimado cliente, encontra-se a pagamento a factura referente ao período de xis a xis

Estimado cliente, na ausência de pagamento até xis seremos forçados a cortar o fornecimento de xis

Etc. e por aí adiante.

Oh como os odeio e aos papeis, às cartas. Eu pago tudo. Eu pago para não me chatearem. Não me chateiem. Eu sou um contribuinte líquido para o PIB português, eu ainda agora vendi uma cena para o estrangeiro, dinheiro em caixa para Portugal. Façam de conta que não existo, tomem o meu código do multibanco.

Tenho a sensação que um dia tudo vai cair de repente. Estou a fazer amor e arrombam a porta e sou levado pela PSP num carro patrulha algemado e espreito pela janela e ela diz-me adeus, em roupão, na rua e na esquadra espancam-me e eu dou o nib e o pin e o puk e o paf e o plim, só quero que não me chateiem, eu compro, eu pago, eu aproveito a promoção, tomem, só quero que não me chateiem.

10 comentários:

trollofthenorth disse...

Diz que aqueles stickers "Publicidade aqui NÂO!" já fazem milagres.
É uma coisa bastante classe média mas comigo resulta.
Às vezes tenho pena e penso em tirá-lo. Os flyers do Media Markt já foram a minha leitura de pequeno almoço. Queria andar sempre actualizado com o preço dos LED's.

Nunca se deve dar o paf e o plim, ainda que sob coacção.

Izzie disse...

OMG, tu deitas fora os catálogos do IKEA? Ateu! Herege!

fake disse...

sincero!

disse...

sr. agente, agora eu estou aqui "a fazer amor" foda-se... "a fazer amor" tolan? era preferível estares a masturbar-te.

Tolan disse...

Achei que fazia contraste com o resto -_-

Onde é que se arranjam esses autocolantes do publicidade aqui não? Dá para colar na televisão e no youtube?

ME disse...

Sabes que existe uma coisa chamada débito directo? Assim a conta da água, da luz, do gás, da net e da TV ficam pagas mesmo que NUNCA MAIS abras a caixa de correio.
Bem sei que assim se acabava a emoção diária (suponho) de chegar ao duche e não se saber se há agua quente. Enfim, não se pode ter tudo!!!

trollofthenorth disse...

Tolan,

Seria no portal do consumidor, mas pasmem-se, está em baixo.

O meu arranquei-o de uma caixa de correio e colei com UHU. Ia colar o logo dos Sex Pistols para personalizar mais a coisa mas não me deixaram. Fascistas.

Anónimo disse...

eu fiz um papel a dizer "publicidade não endereçada? aqui não! obrigada", recortei e colei na minha caixa de correio e a publicidade deixou de ser metida na mesma. Só de vez em quando é que lá aparece qualquer coisita. Foi um descanso.

Rachelet disse...

1) os stickers a dizer "Pub aqui não" são um mito. Eu colo, os gajos da pub descolam e enfiam os folhetos com a mesma candura que referes.

2) débito directo. É uma limpeza. Não há filas, não há água fria quando se quer quente (a não ser que o gás se acabe, hélas, aqui ainda funciona a botija) nem cartas a atafulhar o correio.

3) os folhetos podem trazer fontes de alegria (esta palavra teimava em sair «alergia», bem se vê que não costumo escrevê-la por dá cá aquela palha) e humor insuspeitas, sobretudo quando anunciam serviços de videntes ou excursões a Tui.

mónica* disse...

para além destas coisas todas acima mencionadas existe também uma cena jeitosa que é a fatura eletrónica:)