terça-feira, 25 de junho de 2013

frangarias e portugalidade

Entre os maiores mistérios da portugalidade (termo recorrente no marketing desde o início da crise em 2008) conta-se a atracção pelas longas filas de espera na aquisição de bens alimentares preparados, como sejam gelados, frangos assados ou caracóis. É algo que nem eu, nem a Plaft, após observação empírica repetida em condições controladas, conseguimos entender. Não vou abordar em grande profundidade o caso da Conchanata, uma gelataria da Avenida de Igreja. Tem filas de espera de 30-60 minutos ou mais, mas é verdade que não há outra gelataria nas imediações. É um típico fenómeno de portugalidade como a Santini. Nem vou abordar muito o caso da tasca do pai do Paulo Bento que tem objectivamente dos melhores caracóis da zona, mas que é preciso reservar mesas (até para comer caracóis às 16:00 num sábado) enquanto que há 30 estabelecimentos com caracóis na zona com o bónus de não terem fotografias e posters do Paulo Bento em todas as paredes.

O grande case study que podia figurar num MBA de Harvard, é o das "frangarias". Na  mesma Avenida da Igreja, três frangarias como eu lhes chamo, lado a lado. Vendem frangos assados, sobretudo. Uma delas, a mais pequena, o Rio de Mel, tem uma fila de gente rua fora que oscila entre os 30 e os 50 minutos, chegando facilmente aos 60 minutos às sextas feiras e sábados. Os carros, estacionados em 2º fila na avenida, dão a entender que a clientela vem de várias zonas de Lisboa, atraída como formigas para o rio de Mel (um nome assaz contra-intuitivo para uma frangaria). As outras duas frangarias, a Churasqueira do Manel e a das pretinhas (não sei o nome, mas tem pretinhas e senhoras de idade a atender) estão normalmente quase desertas, ao ponto de sentirmos vergonha alheia.

Sendo o frango assado uma comida fast food típica portuguesa, seria de esperar que o factor "tempo" teria um coeficiente de importância maior na função de utilidade. Afinal de contas, espera-se uma hora pelo pato com laranja da Tia Rosinha em Agosto, ali pelos lados da Galé, no sudoeste alentejano. É um pato que vem tostadinho e tenro do forno, com batatinhas redondas, com um arrozinho de miúdos coberto com uma camadinha de ovo e o estabelecimento sofre naturalmente um choque desorganizativo pela sazonalidade a que é sujeito. A isto soma-se o facto de serem alentejanos. Mas uma pessoa espera de bom grado, sentada, com vinho e um queijo. O tempo de espera, conjugado pela observação de outros patos a serem servidos em mesas ao nosso lado, a ansiedade de se terem esquecido de nós no meio do caos ou de outras pessoas serem servidas primeiro, aguça o apetite e confere à chegada das travessas do pato assado com laranja um carácter de milagre inesperado, como um paciente que recupera de um coma quando nada o fazia esperar. Mas esperar uma eternidade, em pé, depois de um dia de trabalho, com carro em 2ª fila, por um frango assado com batatas de pacote, é algo que, enfim, escapa à minha compreensão.

O critério geográfico, normalmente fundamental na escolha de fast food ou supermercados, não entra na avaliação, uma vez que, como expliquei, estão as três coladas uma às outras, do mesmo lado da rua e tudo. Será a qualidade? Analisemos. O rio de Mel e a frangaria das pretinhas têm os dois assadores de carvão. A do Manel tem assador a gás. Parecendo que não, a diferença no sabor nota-se, mesmo em blind tests com a Plaft, mas existe um empate técnico entre a qualidade do frango das pretinhas e do Rio de Mel. O frango da grelha do Manel não é tão bom.

A frangaria das pretinhas pauta-se por uma desorganização na fila de espera, em parte devido ao diâmetro alargado do balcão de vidro e inox onde estão exibidos espécimes de charcutaria usualmente associados a churrasqueiras (chouriços, azeitonas, queijos), em parte devido ao ambiente descontraído e familiar que lá se vive. O Rio de Mel não padece deste problema porque é tão estreito que se forma naturalmente uma fila única compacta. A pressão da fila de espera que se estende pela rua e o cansaço da espera também não dão azo a que os clientes confraternizem em alegre chocarrice ou que alguém se atreva a furar a fila. A grelha do Manel é lenta no serviço, derivado a não ter pressão para ser mais rápida, mas acaba por ser a mais rápida de todas, devido à clientela diminuta e de espírito prático (na qual eu me incluo). Se é verdade que o frango da grelha do Manel não é tão bom e que até se poderia compreender o monopólio do Rio de Mel caso o mercado fosse dividido entre estes dois players, entre o Rio de Mel e a das pretinhas não há justificação racional para tal disparidade de quota de mercado, mesmo em consumidores que atribuam grande importância ao sabor de um frango assado e ao processo de churrascagem do mesmo.
A disparidade advém de dois critérios emocionais. O primeiro é obviamente, o racismo. Apesar de haver bastantes ciganos em Alvalade, devido a existir um bairro social nas imediações, a verdade é que Alvalade tem muitos idosos e idosas, é das únicas freguesias PSD em qualquer eleição, é uma das zonas com maior poder de compra e instrução académica, tudo factores que explicam uma natural confiança em mãos brancas, portuguesas, no manejo de frango. Aliás, creio que o tipo do assador das pretinhas é um ucraniano, mas não tenho a certeza porque nunca o ouvi falar.

O outro aspecto é a reputação do local. O mass market português é amplamente atraído por fenómenos como "o Júlio dos caracóis é o que tem os melhores caracóis de Lisboa" ou "restaurante Capa Negra tem as melhores francesinhas" ou "a Santini, que tem os melhores gelados" e, como tal, não se importa de esperar e pagar pelo nutrimento referenciado e hiper-valorizado. Na ausência de informação, como em fazendo turismo, o português sente-se naturalmente atraído pelo nutrimento que estiver mais protegido por uma fila compacta e longa. O mesmo se verifica em fenómenos como a escolha do local para estender uma toalha na praia. O português confia na recomendação de outro português, por vezes, infelizmente, na nossa própria recomendação involuntária. Ao estendermos uma toalha na praia, mesmo que seja uma com um areal extenso, desocupado, aparentemente convidativo de forma indiferenciada, estamos a transmitir um sinal de recomendação a famílias portuguesas que tenham filhos com bolas de futebol.

Claro que os portugueses não são todos iguais, isto é o mainstream, o mass market... Nas franjas do mercado, no nicho, tal como na música pop rock, existem os hipsters dos frangos, dos caracóis, das francesinhas ou dos gelados. São aquelas pessoas irritantes que conhecem sempre um sítio recôndito e castiço que é muito melhor do que o sítio onde nós vamos, onde todos vão, um sítio que até pode parecer desleixado e com uma clientela de neo-realismo social (avisam eles), mas  onde os nutrimentos são muito melhores.

Tendo em conta o target do meu blogue, vocês, são hipsters de que género alimentício / estabelecimento?

27 comentários:

marta morais disse...

Hipster que é hipster deixa de ir ao estabelecimento a partir do momento em que 'todos vão'.
Eu cá já nem gosto tanto do teu blog 'agora que todos o conhecem' - quando éramos 3 ou 4 leitores é que ele era bom.

A Bomboca Mais Gostosa disse...

Sou claramente daqueles que conhece os melhores tascos para comer francesinhas. Quanto aos frangos, vou sempre à melhor churrasqueira da zona, que felizmente é mesmo perto de minha casa, por isso sei sempre quando é a confusão e fujo dela.

Quanto às praias, infelizmente acontece-me o mesmo fenómeno, eu gostava que não seguissem as minhas recomendações, mas vá-se lá perceber, vão sempre para aquele bocado de terreno em que eu já estou.

disse...

se andas por Alvalade deves conhecer o Lucca, a pizaria. ora, que me ocorra agora o único estabelecimento onde vou com alguma frequência pela qualidade do produto e se encontra vazio, é o Tavola Calda em Algés, uma dependência do Lucca (ou tem uma história de traição de chefs, não me lembro). para entenderes melhor porque aquilo serve um nicho de mercado e não tem um público mais abrangente, deixo-te aqui as fotos do facebook. é o inverso do castiço, é hiperbimbo futurista construído com tecnologia de discotecas dos anos 90, que afugenta qualquer trend maker. o chão tem filas de leds verdes e roxos, mas a esplanada a sul tem vista para a linha de comboio.

Palmier Encoberto disse...

Eu cá, se tivesse uma loja, pagava a um grupo de figurantes para estar cá fora a formar fila, e a outro para estar a porta a provar e a dizer bem dos produtos... sucesso garantido :)

Anónimo disse...

No caso da Conchanata, a culpa é do ritmo indolente e alheado da senhora que serve...enerva muito , mas até tem graça e os gelados são muito bons! A tasca do pai do Paulinho tb tem os habitués que ficam lá devem ficar o dia inteiro a marcar lugar....
S

Tolan disse...

Marta, tenta comparar o meu blogue com outros e verás que é de nicho :)

Zé, por acaso não fui ainda à Lucca, mas essa Tavola Calda parece-me genial, a avaliar pelas fotos.

Palmier, a Plaft diz exactamente o mesmo. É a melhor forma de promover um local.

S, pois é! Já lá comi gelados quando apanhei aquilo mais vazio e parece altamente desorganizado e estranho, lento... O que não gosto muito na tasca do pai do Paulinho é isso, ter a sensação que aquilo é para habitués e os esquemas das mesas reservadas que na verdade não estão reservadas, enfim...

Anónimo disse...

Desbronquem-se que eu também quero ser hipster.

São João disse...

O Tavola Calda parece um bar de alterne dos anos 90 à beira da EN1 mas por incrível que pareça foi construído de raiz há 1 ou 2 anos.
Mas em Algés tens as melhores moelas do mundo, no Sé da Guarda ao lado da praça. Não são aquelas moelas guisadas, de borracha e a boiar em molho, são grelhadinhas e depois levam um molhinho 5 estrelas e pickles. Recomendo vivamente.

jj.amarante disse...

Aí nessa zona de Alvalade será difícil descobrir um sítio recôndito mas o restaurante chinês Nova Ásia, ao pé da Dimensão é agradável.

M D Roque disse...

Eu sou muito esquisita com a comida, principalmente com a higiene da comida e se vejo uma ou duas coisas que me desagradam em determinado local, não consigo voltar a comer lá... Sou hipster em home cooking & experimenting, mas se tivesse um negócio de comidinhas, seguiria os conselhos de Palmier, que me parecem muito acertados.

Pólo Norte disse...

Eduardo das Conquilhas, conheces?

Tiago disse...

o meu sobrinho de 13 anos disse-me há coisa de uma semana que aprendeu a gostar de marisco no eduardo das conquilhas...

disse...

São João, conheço bem o Sé da Guarda, quando trabalhava em Algés almoçava por esses lados todos os dias. nunca pedi moelas. sim, esqueci-me de mencionar que o Tavola Calda é recente, e que tem uma porta automática tão magnífica quanto imbecil, que foi claramente mais cara que toda a parafernália técnica e decorativa do interior.

São João disse...

Verdade Zé, vale a pena ir ao Tavola Calda nem que seja só para disfrutar da experiência que é abrir a porta.

Tiago disse...

Eu lembro-me do Eurico (no meu bairro, em S. Cristovão, Mouraria), onde se podem jantar boas sardinhas dentro de uma sala que durante o dia funciona como mercearia.

Mak, o Mau disse...

Andamos portanto a mover-nos nos mesmos quarteirões :)

Primeiro, uma correcção, há outra gelataria nessa zona, mais precisamente colada à entrada do Mercado de Alvalade, na Rio de Janeiro. O horário é mais limitado (fecha às 20h, salvo erro), mas tem bons sabores e algumas especialidades que recomendo - chocolate negro, por exemplo, dá 15-0 ao chocolate da conchanata. Normalmente, o que faço é quando passo na Conchanata se a fila é superior a três pessoas fora da porta sigo até lá ao fundo e 5 minutos depois, estou a comer um gelado que também é de qualidade.

O frango, é um mistério, mais do que pela clientela da Rio de Mel, é pelo facto das outras continuarem abertas há já bastante tempo. O que significa que há mercado ou que elas são "parasitárias" do sucesso da outra. Imagina, queres frango, apetece-te passar pela Rio de Mel, vês 50 pessoas na fila e tens duas opções, voltas sem frango ou vais a uma das alternativas (normalmente a do Manel).

Dizem-me que o truque é ligar a encomendar para a hora X, o mesmo truque que utilizo à cautela quando vou ao Lucca, que já aí mencionaram, seja qual for o dia da semana. A "filial" oficial do Lucca é ou era o La Finestra, ali junto à Gulbenkian naquele passeio grande com vários restaurantes.

Ainda em Alvalade, para hipsterismo de casa de chá tens o Oh Chá, que é bom para quem goste de chá, mas é óptimo para quem goste de bolos.
O indiano ao lado da Igreja de S.João de Brito é competente e tem um irmão gémeo na Avenida do Brasil, para aí a 2 minutos de carro.
(para o hipster com menos posses, fazem 10% desconto no take away).

Mas, não posso revelar todos os segredos de Alvalade senão aquilo fica demasiado mainstream (pelo menos na categoria menos de 200 anos)

Ricardo disse...

Eduardo das Conquilhas, boa sugestão.

R. disse...

O Eurico, que o Tiago atrás referiu. A Tia Natércia, em Alfama. Os gelados Fragoletto, na Rua da Prata (acho). Para caracóis os melhores que conhecia eram em Linda-a-Velha, no café do Aníbal, mas já não lá vou há anos.

R.

Tolan disse...

jj amarante, conheço perfeitamente esse chinês, para mim é o melhor de lisboa, é pena os preços serem um bocado puxadotes e por isso temos ido a um ilegal no martim moniz, um sítio tão hipster que já lá vi o gajo dos belle chase hotel e tudo.

Mak, obrigado pelo guided tour, um dia devíamos petiscar qualquer coisa por ali e falar de negócios, branding, essas coisas.

Pólo, não conheço o Eduardo das Conquilhas :(

pela descrição da S. João tenho de ir a esse Tavola Calda rapidamente.

Pipoca Mais Picante disse...

Os melhores frangos de Lisboa são os da praça do Chile, dão 10 a 0 aos de Alvalade e a fila também é enorme.
Croquetes é no tico tico, bife em s. Bento e Eduardo das conquistas é crime não conhecer.

Espiral disse...

O chinês do Martin Moniz é optimo; mas atenção vais aquele que era clandestino e já não é bem porque toda a gente conhece ou ao outro ? =P

- Já agora fiquei curiosa de saber o tal sítio do pato com laranja. É onde e como se chama?

Sou tudo menos hipster, gosto de ir a sítios em que gosto da ocmida, sou bem servida, também gosto de conhecer sítios novos, mas du primazia aos sítios onde sou bem tratada.

Tolan disse...

Pipoca, nem me fales nos croquetes do tico tico que a Plaft fantasia com eles... agora o "Eduardo das conquistas"... cof cof cá para mim houve aí um lapso... errmm... não seria "conquilhas"? Hmm?

espiral, o sítio é a tia rosa e não rosinha com pus no post: http://www.lifecooler.com/Portugal/restaurantes/RestauranteTiaRosa

trust me, este pato é do caraças.

Anónimo disse...

Isso só mostra que os velhos empoeirados que abundam nessa zona gostam de ser visto em determinados locais à espera( devem achar que lhe confere algum status especial) não tanto pela qualidade da coisa mas para aparecer.Normalmente são aqueles que não apreciam vinhos por aí além mas compram a marca X reserva tal(mais careira) para impressionar os amigos com os seus conhecimentos...Pão e Circo é o que este povo quer!E outro Salazar para endireitar isto tudo!;)

Anónimo disse...

(E assim se descobre que o Tolan provavelmente é meu cliente). Engraçado. Vou estar atenta a uma Plaft muito grávida e depois mostrar que os critérios para este estudo não são os melhores ;)

Pipoca Mais Picante disse...

Ah ah ah ah ah a porra da escrita inteligente do Tm dá nisto, mas se houver um Eduardo das conquistas também seria crime não conhecer. São aqueles pequenos prazeres que a vida nos dá.

A Chata disse...

Como caracóis numa tasca que não tem dois copos iguais nem dois pratos iguais. E são os melhores que já provei!

Miss M disse...

E ninguém aqui falou do Grog em Alvalade! É que não são mesmo de Alvalade...