segunda-feira, 3 de junho de 2013

65

Um dos colegas do meu pai do curso de oficiais na academia militar fez-me chegar um livro de curso  digitalizado. Foi estranho ver pela primeira vez fotos do meu pai nesta idade e neste contexto, da 4ª companhia 64/65, porque muito raramente falava nisso (e no passado em geral). Foi uma fase difícil da sua vida; o ingresso na academia militar foi consequência de ter fugido de um lar caótico, levando-o a ter de abandonar a engenharia no técnico, pois não tinha meios de subsistência. Tem a cara de miúdo e a expressão pensativa que nos estará nos genes. Desertaria pouco tempo depois com outros oficiais que se espalharam um pouco por toda a Europa. Ao meu pai, calhou a Bélgica, onde conheceu a minha mãe.


Recordo-me que a primeira sensação que tive quando soube que ia ser pai foi de "imortalidade". Tinha uma angústia que se dissolveu como se me tivessem dado uma injecção de morfina.  Parte disso tem a ver a consciência - talvez um pouco mística - de como traços profundos de quem somos passam de pais para filhos, traços de feitio, qualidades e defeitos únicos. Como tenho uma família que se foi fazendo pequena e dispersa e sou filho único, é possível que, ao ter filhos, tenha conferido um nexo e uma razão de ser a tudo o que me antecedeu, assumindo o desígnio de perpetuar alguns desses traços, misturando-lhes os da minha magnífica namorada que tem os seus muito marcados e espectaculares, dando-lhes um lar e um contexto mais feliz, um pouco como se fizesse as pazes com a vida das gerações que eu sou e que nós somos.

6 comentários:

Maria D Roque disse...

O meu pai era um querido
(1ª e última...
http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/2012/10/a-maquina-do-tempo.html)

O teu, acredito que também, á maneira dele, e tu escreves TÃO bem ... a nossa felicidade somos nós que a construirmos e tu és um construtor e pêras. :)

kiss me disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
kiss me disse...

Olhei para todas as fotos e achei que o teu pai era aquele, mesmo antes de reparar que os nomes estão por baixo (sou tão estúpida). És parecido.

Portuguesinha disse...

Engraçado, acabei de falar neste tema nuns posts. Fico contente por mais partilharem desta noção para mim tão clara que nós somos e estamos todos ligados.

Portuguesinha disse...

Engraçado, acabei de falar neste tema nuns posts. Fico contente por mais partilharem desta noção para mim tão clara que nós somos e estamos todos ligados.

euexisto disse...

"o ingresso na academia militar foi consequência de ter fugido de um lar caótico"

tenho um irmão lá agora pelos mesmos motivos