sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

um animalista

Daniel Oliveira, no Expresso

O abaixo-assinado para impedir o abate do Zico não tem grande importância? Ele, propriamente dito, não a terá, por isso não merece que se perca mais tempo com o assunto. Mas o que ele revela é bastante importante. E fala-nos de uma civilização desnorteada.(...) Foi por atribuirmos à vida de todos os seres humanos um estatuto absolutamente excepcional que a escravatura nos pareceu inaceitável. (...) Ao colocar as relações humanas no mesmo patamar que as relações com os animais a escravatura torna-se aceitável, porque desprezamos essa excecionalidade que a liberdade humana nos confere. Se eu sou dono de cães e de gatos, numa relação necessariamente desigual - e que só pode funcionar se for desigual -, porque raio não hei de ser dono de pessoas? Se eu mato animais para me alimentar, porque raio não hei de matar seres humanos para garantir a minha subsistência?

Para o Daniel Oliveira, o abaixo-assinado é pouco importante e nem merece mais tempo, mas o que revela é a uma civilização desnorteada. Afinal é relevante.

E curioso que o mesmo Daniel Oliveira, quando escreveu no Arrastão a propósito do referendo pela legalização do aborto e em defesa do sim, começava o texto por apelar ao nosso sentido prático e que se esquecessem as questões filosóficas e metafísicas impossíveis de resolver e geradoras  de ruído. E no entanto, eis-nos aqui, longe das questões práticas como a  responsabilização criminal dos donos dos cães, passando pelas limitações à posse de raças perigosas, pelas soluções para animais que mataram etc. discutindo se as pessoas que assinam o abaixo assinado são a semente do regresso da escravatura ou do canibalismo...

Focando-me apenas no exemplo improvável da escravatura: podem ser exploradas 200 mil mulheres em redes de exploração sexual da europa de leste, e  podem existir 12 milhões de escravos em todo o mundo, mas para o Daniel, o sinal de desnorte está na petição pelo zico ou nas opiniões como a minha. Essas sim, são o prenúncio de um perigo que ainda está para vir, quando ele já aqui está e nunca se foi embora, nem mesmo quando o tal homem de que fala o Daniel (quem será esse homem misterioso e representativo da moral colectiva?) teve a súbita revelação de que o ser humano tinha um carácter absolutamente excepcional.

Metafisicamente, não me considero superior a um cão, uma árvore ou uma ameba. Não vejo diferença metafísica entre o massacre de toda uma tribo da amazónia por mineiros e a própria destruição da floresta da Amazónia. Vejo diferenças de gravidade e crueldade, de necessidade e de fins. Para os mineiros assassinos, matar os índios foi equivalente a derrubar mais umas árvores. Fizeram-no com a mesma convicção e pragmatismo, em prol dos seus interesses que considerarão totalmente legítimos. O facto dos índios serem humanos, não os salvou do mesmo destino que aguarda Amazônia, precisamente porque os seres humanos têm um carácter absolutamente excepcional, especialmente os mais fortes ou mais representativos do ponto de vista económico e social.

Faço parte da natureza e isso coloca-me numa posição pragmática. Se na natureza se mata para comer, também não me considero hipócrita por matar para comer. Considero que existe mal, sofrimento e relações de força que são inevitáveis, como existem na natureza. Existem, são incontornáveis. Até no mundo do Daniel, há crianças que passam mal enquanto ele vai jantar fora, compra um fato novo ou vai fazer turismo. É assim que vivemos, todos os dias e não sinto que sejamos hipócritas por isso, desde que façamos um esforço para corrigir o que está errado e não entremos em absolutismos do estilo "a vida do ser humano está acima de qualquer animal". Se a vida de outro ser humano - que não conhecemos - não chega a ser excepcionalmente superior para abdicarmos de tudo ou mesmo de um pouco para o salvar, então poupem-nos a reflexões sobre como a consideram excepcionalmente superior a cães ou gatos. Não há nada excepcionalmente superior a nada por princípio absoluto.

Não deixa de ser irónico que esta opinião venha de Daniel Oliveira, membro do Bloco de Esquerda. Parece que é uma tentativa de aproximação ao Portugal conservador e católico que não terá ficado bem impressionado depois do referendo do aborto. Quanto à perigosidade das ideias dos "animalistas", por favor... Não há qualquer registo de que os traficantes de escravos fossem uns activistas de direitos dos animais particularmente activos. Por outro lado, podia devolver ao Daniel a mesma desconfiança e medo (o que nunca fiz nem farei) pois há provas históricas de que ideologias políticas como a sua, quando se juntaram à vontade e possibilidade de nos nortear a civilização, fizeram estragos consideráveis a outros seres humanos, assim como  encontramos amplos registos de que muita gente plenamente convicta do princípio da excepcionalidade da vida humana - uma ideia bem antiga e Cristã - cometeu atrocidades sobre humanos, bastando-lhe para isso o truque de não os considerarem como humanos, mas sim animais, mercadorias, ameaças ou obstáculos.

20 comentários:

Anónimo disse...

Tolan, nem todas as conversões foram forçadas. E nem todo o período "colonial" teve escravatura (não confundir com trabalho forçado) e não confundir (ou juntar no mesmo saco) as Américas com África. Foram processos distintos. Com Igrejas diferentes. Com diferendos acentuados. Não quer isto dizer que não existiram conversões forçadas.
R.

Anónimo disse...

É só para não se confundir o proselitismo do próprio Cristianismo com as conversões "forçadas" que existirem em diferentes épocas da História e também não confundir com os missionários das Américas e os missionários de África ou da Ásia.
R.

nAnonima disse...

a liberdade é um coisa muito bonita, dizem... mas parece que é só quando dá jeito.
mas o que eu achava mesmo bonito era haver respeito. respeito pela vida. isso sim, era bonito. haver vontade de todas as partes em dialogar com respeito a respeito do respeito pela vida.

intelectuais politizados, esses há ao pontapé... opinam de tudo e de todos. nunca questionam. não entendo como tanta gente tem tantas certezas. nunca pergunta, mas sabe tudo... sociedade estupidificada com tanto conhecimento.

gostei.

Tolan disse...

R, acabei por retirar isso, antes de ver o teu comentário. Retirei outras coisas que podiam baralhar a discussão ainda mais.

Maria Costa disse...

Gostei muito deste post.Já tinha lido o que o Daniel Oliveira tinha escrito e fiquei admirada pois não´era aquilo que eu pensava que o Daniel ia escrever.Poucas pessoas se preocuparam com a criança que morreu, o que é inadmissível mas dizer que o ser humano mais asqueroso, e estou a lembrar-me de tantos, é sempre superior a um animal, também o é.E neste momento olho para o meu cão aos meus pés e peço-lhe perdão em nome do Daniel Oliveira.

Tolan disse...

o objectivo era só dizer que muita gente convicta do princípio da excepcionalidade da vida humana cometeu atrocidades na mesma. A ideia em si, não nos torna piores ou melhores face aos outros humanos.

W-er9er disse...

Eu defendo a morte do cão, pelo perigo futuro que pode representar. Se ataca de forma mortal quando inadvertidamente lhe caem em cima, então, o indíce de perigo é alto. Queres mais prático do que isto?

Izzy disse...

Concordo em absoluto com o que dizes excepto quando entras pela metafisica adentro e ah bruta e te comparas a um cao, uma arvore e uma ameba. Metafisicamente falando ate pode dar tudo no mesmo mas na pratica regemo-nos por um conjunto de leis e costumes ditados por pessoas e nao por caes, arvores ou amebas. Quando os caes ou as arvores (as amebas duvido) mandarem nesta chafarrica entao eu ai calo-me.

Isto ate pode ser uma ilusao da minha parte mas eu assumo, sem vergonhas, e digo com orgulho: EU sou SUPERIOR a uma AMEBA! Raios, eh um organismo unicelular. EU sou SUPERIOR a um CAO! Que diabo, a minha cadela passa a vida a dormir e a lamber os genitais....Hmmmm... Pensando bem, talvez ... eu nao... nao seja superior a um cao... Mas... mas a uma ameba sim, sim a essa sou superior! (nao sou?)

Tolan disse...

Concordo com a morte do cão pelos mesmos motivos, embora não me custe equacionar qualquer outra solução. Se o matam ou não, não o vejo sequer como justiça ou castigo, o cão nem o percebe assim... O ideal, em minha opinião, era uma responsabilização criminal severa dos donos e limitações legais à posse de animais mais propensos a matar.

Anónimo disse...

O ideal e não só (em certos países já é Lei) é a responsabilização e a penalização para o dono. As limitações legais também acho correto. Já a morte do animal, não me choca. Mas também não atinjo a ideia completa do porquê de matar o animal. Por outro lado fico preso nos encargos (porque existem) em relação ao cão. Serão casos excecionais? Serão cães reinseridos? Serão aceites?
Acho salubre a petição. É a sociedade a mexer. Mas não tenhamos dúvidas que muitos donos (quando não os abandonam) levam os cães para abate por razões económicas. E o abate hoje não é feito à paulada...
R.

Maria D Roque disse...

"o objectivo era só dizer que muita gente convicta do princípio da excepcionalidade da vida humana cometeu atrocidades na mesma" - e pronto !

Anónimo disse...

Só um bitaite para o ar...
A morte do animal no canil (afastado das pessoas responsáveis) serve de condicionante para pessoas que futuramente queiram um cão da mesma raça?
Acho que a via (pesada) da responsabilização do donos e a criação de fortes entraves a certas raças tem mais efeito nas pessoas (e tenta evitar estes casos) do que a morte propriamente dita do animal. Que neste caso é uma morte assética, intravenosa e afastada. Logo não acho que sirva de condicionante a futuros "donos". E também não acho que outros cães tenham esse medo.
:)
R.

Tolan disse...

concordo, R.

Pimpas disse...

Nem sequer dediquei tempo meu a ler crónica do excepcional Daniel Oliveira. Mas li o post e fico mais descansada por saber que há opiniões bem mais sensatas que a dele. Obrigada Tolan!

D.S. disse...

A excecionalidade da vida humana de que o Daniel fala não vem do Cristianismo cristão e conservador, vem da Declaração Universal dos Direitos Humanos, elevada a direito internacional após a Segunda Guerra Mundial e que consagra que todos os seres humanos têm direito à vida. Sem exceção.
Não se pestaneja por se matar uma vaca ou um peixe ou um porco para nos alimentarmos, mas por alguma razão o canibalismo é um crime... Isto porquê? Porque a vida de uma pessoa vale mais do que a vida de qualquer desses animais. Não vale a pena estar com hipocrisias e falsos moralismos.
Tolan, tu és o próprio a afirmar que te é indiferente o abate do cão; serias tão peremtório em defender a morte de um assassino caso tivesse sido um homem a matar a criança e não um cão?
A pena de morte é inaceitável também por esse mesmo motivo: nenhum ser humano, por mais asqueroso e criminoso que seja, merece morrer.
Como a Luna dizia há uns posts atrás e muito bem, o valor da vida humana é e tem que ser absoluto, necessariamente para evitar que a decisão de quem merece viver e quem merece morrer esteja à mercê da subjetividade de cada um; quem decide o que é um ser humano asqueroso?
Para que conste, não defendo o abate do cão, sou anti-touradas e sempre tive animais de estimação que amei e amo. Mas, lá está, numa escolha entre salvar um animal e uma pessoa, não pode haver dúvidas (o animal é fofinho? É fiel? E o ser humano, é asqueroso? É criminoso?)

S* disse...

Ele não se toca??? Depois da primeira crónica, continua a picar as pessoas.

Tolan disse...

D.S. a «Declaração Universal dos Direitos Humanos não tem propriamente impedido que continuem a haver atrocidades perpetradas pelos mesmos países que assinaram a carta ou que esses países (e nós) fechemos os olhos a uma quantidade astronómica de atrocidades perpetradas por outros. Queres uma visita guiada ao continente africano?

Considerar que o conceito de que os seres humanos são todos iguais adveio de um documento, nunca me passaria pela cabeça... Já séculos antes de Cristo os sufis defendiam esse conceito e terão mesmo influenciado Jesus. O cristianismo foi a religião dos escravos. Penso que a sua influência foi um pouco superior, não?

As pessoas precisam de sentir que existem papeis e seres bem pensantes que garantem que a «vida humana é um valor absoluto» porque não vivem na síria e não têm de pegar numa ak-47, porque não estão sob domínio nazi, porque não existe uma tribo vizinha que luta convosco pelos mesmos recursos escassos, porque nunca viveram uma situação limite, nunca sentiram medo ou fome extrema...

Daí que pessoas como o Daniel, que até é pago para isso, gostem muito de pegar em casos práticos e particulares e daí extrapolar para enormes teorias cataclísmicas, orque caso contrário, aborrecem os leitores. Os leitores pagam ao Daniel, ao Cesar das NEves, ao Henrique Raposo, ao Saraiva, para que eles nos avisem dos grandes perigos que a humanidade corre a cada esquina. Ficámos todos a saber então, que os que assinaram a petição, sem sequer se aperceberem, acabaram de condenar milhões de pessoas num futuro qualquer à escravidão!

Cuca disse...

É curioso, porque eu ouvi o Marcelo Rebelo de Sousa dizer exactamente a mesma coisa (usou a palavra hediondo em vez de asqueroso) e parece que quando é ele a dizer já não incomoda tanto.

Tolan disse...

Ao Marcelo, não ligo nenhuma sequer, isso é do universo da tv e eu nem vejo tv.

Tolan disse...

(noticiários, etc., vejo séries e filmes e documentários)