sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

queda watching

Quando chove um bocado, mas não demais, há uma camada oleosa que se forma nas pedras de calçada e no empedrado de Lisboa. Os pés escorregam e a probabilidade de alguém escorregar e se estatelar de costas é bastante boa, enfim, depende do calçado, da aderência da respectiva sola e da agilidade natural ou reflexos do transeunte. As senhoras, obesos e os mais idosos, são propensos a estas quedas, mas os homens de escritório que usam mocassins de sola lisa também podem proporcionar divertidos tombos. É um espectáculo que aprecio bastante e considero-me um ávido conhecedor do género. Às vezes, se não estiver a rir demais, até as ajudo a levantar se for preciso, uma pequena retribuição pelo entretenimento que me proporcionaram. Há zonas da cidade mais adequadas, digamos assim, e é preciso conhecê-las, estudá-las. De outro modo bem podemos ficar à espera a olhar que se perde uma manhã inteira para nada. Para além da chuva, é necessária a combinação de outros factores, como um tráfego de pedestres considerável para aumentar a probabilidade e frequência de ocorrências, um declive  pronunciado, pedras mais lisas e sujidade escorregadia. A melhor sujidade é a de origem vegetal, enfim, restos de folhas, flores... nada escorrega melhor do que isso. A Avenida Dom Carlos, por exemplo, coberta de jacarandás, é muito boa em Maio, Junho, pois as flores desta árvore, que são de resto pegajosas e extremamente aderentes em tempo seco, formam uma eficaz camada oleosa à primeira chuvada. A esplanada do Café República é um bom posto de observação, discreto e confortável, podemos estar ali uma tarde a fingir que estamos a ler o jornal ou coisa do género. Recordo-me com saudade do tombo de um senhor de fato que não se limitou a cair no passeio, à maneira usual, mas que achou por bem cair entre dois automóveis estacionados na berma. Ali ficou, entalado entre os para-choques dos dois carros, até alguém reparar na perna de fora que se agitava desesperadamente e o ajudar a sair. Gosto da zona do Chiado também. A rampa que se inicia nos Armazéns, apesar de não ser particularmente escorregadia, tem um elevadíssimo tráfego de peões, incluindo mulheres muito produzidas e de salto alto, o que aumenta a probabilidade de valer a pena ficar ali à espera, a fingir que se está muito admirado com a beleza da rua. Não é apenas a queda em si que é engraçada e às vezes um pouco erótica até, pois  nos tombos de costas seguidos de deslizamento, as saias sobem um pouco e há ligas e rendas para ver.  Há que ter em conta o facto da queda ser presenciada por muita gente que finge que não reparou. É interessante assistir a esta solidariedade humana, enfim, é muito raro toda gente de uma rua parar e desatar a rir ou tirar fotos, algumas ficam até bastante consternadas e precipitam-se para ajudar a vítima o que, creio, ainda aumenta mais a sua vergonha. Depois é vê-la sair disparada o mais rápido possível dali, a ajeitar o vestido e com um pé de fora do sapato. Ao contrário do que se possa pensar, a espera pelo momento da queda não atenua em nada o divertimento, passa-se exactamente o oposto. Quando somos apanhados de surpresa por um tombo espectacular, como o do turista francês obeso que me conseguiu rebolar pelas Escadinhas do Duque abaixo, deixando atrás de si um rasto de pedaços de máquina Nikon, óculos escuros e moedas de uma bolsinha canguru que tinha à cintura, ao som de gritos de mon dieu! da esposa estática no cimo das escadas com as mãos na cabeça, ficamos um pouco perplexos no início, quase assustados e perde-se parte do efeito. Temos de reconstruir mentalmente o que acabámos de ver e só depois podemos rir. O facto de estar à espera que isso aconteça faz disparar a adrenalina no momento zero e o tempo abranda, é como se víssemos a coisa em câmara lenta do princípio ao fim. Sei que não faz de mim melhor pessoa, mas há prazeres piores do que esse e, de qualquer modo, não sou eu que prego rasteiras às pessoas.

6 comentários:

Palmier Encoberto disse...

Será melhor comprar aqueles ténis trail Salomon Speedcross 3CS, em amarelo fluorescente?!

Maat disse...

eu também sou dessas pessoas que se ri com as quedas dos outros. aliás, houve até uma altura que pensava que era a minha presença que provocava as quedas, porque onde quer que fosse, as pessoas espalhavam-se à minha frente. e depois era chato porque eu tinha de tentar disfarçar o riso e era difícil.

Peppy Miller disse...

tendo em conta a minha queda para o tropeçar e o escorregar nos dias normais, nos dias de chuva e com uma "calçada" assim, misturado com a indumentária de calçado a que o emu rico trabalho obriga certamente seria uma dessas figuras à qual te ris nos dias de chuva!! A boa verdade é que, se não me magoar, rio-me com uma perdida das minhas figuras ;D

ps: há gostos piores :D

Paula Nogueira Guerra disse...

desde que este espetáculo não sejas TU a dá-lo certo? hehehehe

Bom fim de semana xxxx

Maria D Roque disse...

É muito mau... Eu sou daquelas pessoas que fica " engasgada" de riso e parece um monte de gelatina a soluçar... tenho sido severamente criticada pela minha falta de reflexos e extrema inacção, mas fazer o quê ?

Lobsang Rampa disse...

lavar o escroto
é fundamental