segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

produtores

Uma das coisas que me mais me agrada neste disco do Andy Stott (post abaixo) é reconhecer nele a destilação / evolução de ideias que há uns anos estavam (ainda mais) extremadas no trabalho de visionários, em direcção a algo progressivamente mais friendly. Dentro de dez anos, ouviremos pop mainstream com alguns destes elementos e então serão toques de telemóvel.

A produção é um processo muito semelhante ao da pintura. Os pintores têm tanto de inovação e experimentação técnica como de criatividade estética. As técnicas marcam uma evolução e estão condicionadas pela tecnologia, se bem que a pintura não se compara à música nessa relação. A escrita, por exemplo, pode evoluir de muitas formas, mas a tecnologia não muda rigorosamente nada de fundamental. A música, pelo contrário, dependeu sempre da engenharia de som, dos instrumentos que existiam nas respectivas épocas e culturas. Com a gravação em estúdio, desenvolveram-se técnicas e aparelhos de produção, gravação e transformação do som que são, do ponto de vista criativo, tão complexos com a própria música que transformavam. Nem sempre eram tecnológicos, aliás, mesmo hoje em dia há produtores que recorrem a efeitos bastante primitivos. Os fantásticos Man Man gravam sons de coisas a cair no chão e a escangalharem-se todas para conseguir ter aqueles apontamentos de "caos" nas suas músicas. Reza a lenda que Aphex Twin teve várias fitas  pós-produzidas por um dos seus gatos que as desenrolou das bobines e as arranhou.

Um exemplo de 1956, da importância da produção. Elvis Presley não ficou contente com o som "seco" da sua voz na primeira versão do Heartbreak Hotel. Então foi ele próprio que sugeriu abrirem uma porta para uma grande escadaria nas traseiras, meter lá um amplificador e um microfone para captar o eco. Depois misturaram essa gravação com a da voz original e voilá, um dos sons mais distintivos da história do rock: a voz de Elvis no heartbreak hotel.



No campo dos produtores experimentais que se tornam artistas, um bom exemplo é o de Martin Hannett nos Joy Division e noutros bandas da Factory (Orchestral Manoeuvres in the Dark, A Certain Ratio, The Durutti Column). Os Joy Division eram bastante limitados nos recursos técnicos, os tais punks de que estou sempre a falar, com energia e vontade, mas sem os meios. According to Hannett: "There was a lot of space in [Joy Division's] sound. They were a gift to a producer, because they didn't have a clue. They didn't argue. "

Foi Hannet quem criou o som Joy Division, misturando tecnologia disponível na época, alguns gadgets de topo, outros rascas e fanhosos e técnicas tão simples como as do Elvis - gravar coisas em escadas ou telhados ou desmontar uma bateria para lhe incorporar peças retiradas de uma retrete. De facto, é impossível dissociar os Joy Division da textura da música deles.

Em minha opinião, a produção nos Joy Division tem tanto peso como as próprias composições e performance, para criar a distópica atmosfera austera, futurista, angustiante e industrial, onde a voz de Ian Curtis se assemelha à de um homem perdido no vácuo espacial, metáfora sonora da mais profunda solidão humana.
 

9 comentários:

W-er9er disse...

As bandas da Holy Mountain, especialmente o noise de Khora.

RCA disse...

Pretensioso... um dia destes tens de compreender que algumas merdas são para ler, ouvir, ver e calar.

É delirante ler o que escreves e conehcer as entrevistas de quem fez parte das coisas, com respostas à volta do "nós não faziamos a mínima ideia de...".

Ex-Vincent Poursan disse...

Hoje até tinha tempo pra comentar mas não posso. Não percebo nada de música. De produção ainda menos.
Até um certo e determinado tempo da minha juventude pensava que os discos eram gravados com os gajos, previamente enfrascados e com o génio anabolizado por recurso a substâncias que, a tocar numa garagem, enquanto o mais passado do grupo, em equilíbrio instável e encostado á parede do fundo, segurava o microfone dum gravador daqueles de fitas todos xpto.
É um facto que já tive a ajuda da minha gata numa análise muito matemática que produzi mas que não demonstrava nada. Como ela a fez em fanicos durante a noite, não a usei… e aí se manifestou a preciosa ajuda da tonta da gata. Mas não sabia que também se podia aplicar essa técnica á produção de música.
Por acaso até concordo com essa dos division serem limitados quanto á técnica mas exuberantes em energia e vontade, se bem que não faça a menor ideia de quem sejam esses tais de division e muito menos que usavam sanitas para os sons graves, mas perceba que tem a ver com o vácuo e essas merdas da solidão. É o que eu também experimento sempre que me sento numa e, estando obstipado, tenho uma sideral vontade de produzir.
Peço desculpa se por acaso o meu comentário é um bocado escatológico mas isto de produzir comentários por vezes também exige técnicas de recurso.

Pronto, e agora assim… uma vez que não posso comentar… fico por aqui sem comentar nada.

Tolan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tolan disse...

vincent, para um não-comentário, está muito bem, muito no vácuo e tudo.

W-er9er, não sei quem são esses, vou investigar.

Tolan disse...

RCA, esse comentário era para mim? :\ fiquei sem perceber.

W-er9er disse...

Desculpa Tolan, a banda são os Aufgehoben, o álbum é que tem o título Khora. Meanwhile, têm um álbum lançado também o ano passado. Os Aufgehoben são uns tipos com um background incrível no jazz e que, para a sua música, usam walls of sound e técnicas avant-garde. A produção é um mimo. O Merzbow é outro que tal.

RCA disse...

Entrei aqui farto de aturar os comentários sobre o cão no meu e desopilei no W-er9er quando topei a referência errada. De qualquer modo, não suporto os Aufgehoben :)

Tolan disse...

Ok, investigo amanhã pela manhã, de fones nas orelhas.

RCA, pois, imagino. É daqueles temas que inevitavelmente extrema campos. Lembro-me do que foi aquando do referendo do aborto. Jesus...