quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

o lugar da infância


Ando a ler a Maravilhosa de Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlof. Há uma coisa que me apela muito neste tipo de narrativas, especialmente as nórdicas e alemãs, de Hans Christian Andersen aos irmãos Grimm. Por um lado, o estilo com descrições minimalistas ao serviço de uma narrativa simples e linear, capaz de ser entendida  por uma criança. Por outro lado, poderosas imagens, absurdas, poéticas e inesperadas, com elementos emprestados a folclore que lhes dão uma carga mítica, como se num tempo distante aquelas coisas fossem possíveis. Autores como Knut Hamsun (no Pan), Dino Buzzati ou mesmo o Mishima (no Tumulto das Ondas) têm um estilo que podia ser aplicado a fábulas infantis. Ao lê-los temos a sensação de reencontrar um tom primordial e poderoso. Outro aspecto é a crueldade dos temas (não parece ser o caso deste Nils Holgersson), especialmente se os analisarmos à luz da pedagogia moderna e da narrativa infantil mainstream americana ou da publicidade que definiu o novo standard. Um exemplo deste novo standard de que já aqui falei é a transformação da história da Pequena Sereia pela Disney numa coisa que pelo menos não deixe as crianças traumatizadas como o original de Andersen. Para a Pixar, um ogre como o Shreck é simpático e não um vilão, enquanto nos tempos idos um ogre comia crianças e era para isso que servia. Assustar as crianças com um "mal" impenetrável e impossível de descodificar, um mal que existe e é tão puro e indomável como a morte ou uma violenta tempestade, não é de todo pedagógico. Até o Darth Vader tem de ser explicado. A própria fealdade do Shreck é uma opção e a bela princesa também se torna num ogre, enquanto que num conto como a Cinderela, é a beleza ímpar que a torna especial e objecto de identificação da criança (e por falar em crueldade, na versão dos irmãos Grimm, de acordo com a wikipedia, as irmãs malvadas ficam cegas ao terem seus olhos furados por pombos). Hoje, pensaríamos duas vezes antes de escrever uma história sobre uma jovem muito bonita, a mais bonita de todo o reino, porque ao fazê-lo estaríamos talvez a excluir crianças que não são as mais bonitas ou a induzir uma epidemia de anorexia (esse é o papel da publicidade).  A versão da Disney (o primeiro é de 1950) chega a ser menos cor de rosa que a versão Cinderela para adultos, o Pretty Woman, filme em que a prostituição de Julia Roberts é descrita de forma tão optimista e leve que, de acordo com um documentário a que assisti, originou um  afluxo de jovens raparigas a Hollywood para se prostituirem em busca do seu Richard Gere. Jesus Cristo, sempre de olho nos meninos a ver se se portam bem e não vão parar ao inferno, pregado na cruz com a sua coroa de espinhos sanguinolenta, em representações mórbidas penduradas nas paredes das casas da aldeia da minha infância, foi sendo progressivamente substituído pelo Pai Natal vermelho da Coca Cola. Talvez o equivalente à moral do Capuchinho Vermelho no século XXI sejam os mitos urbanos na Internet, da seringa com sida no banco do cinema à bebida do estranho e o rim a menos no dia seguinte. O lado negro é amplamente difundido, a começar pelos media cheios de sensacionalismo, mas não na forma de "contos infantis" que os pais contem às crianças intencionalmente, o que seria bastante cruel e traumático, diga-se.  Parece que muitas histórias infantis do passado tinham como mensagem base o mundo é mágico e fabuloso, mas o sofrimento e a crueldade fazem parte dele: prepara-te e não desejes coisas. Hoje, a negra lição é escondida de acordo com as boas regras da pedagogia, o que gera como que dois mundos paralelos, aquele da felicidade em que vivemos e o da   desgraça que colide connosco quando menos o esperamos, na forma de diagnóstico no IPO ou de faróis em sentido contrário na nossa faixa. Como abordar um tema tão prosaico como o desemprego e a pobreza, uma tema que reflecte apenas e somente o facto de ninguém parecer precisar de nós e das nossas capacidades, quando até ali nos transmitiram o contrário, sempre? As Jonets e os César das Neves (por exemplo) vêem nas desgraças o natural cumprir das profecias das fábulas que ouviram toda a vida. Em certo sentido, são resistentes como baratas. 

8 comentários:

Maria D Roque disse...

Os contos de Andersen , dos Grimm ou de Perrault " adaptados" às crianças, terão em comum com os originais a ideia e a moral da história, pintadas de cor de rosa ou de todas as cores do arco íris .... Ainda me lembro de explicar ao meu irmão mais novo "The Company of Wolves ", e porque é que o lobo no fim "come" a menina....

R. disse...

A Branca de Neve dos anos 30. Está na posição 20 de uma lista de filmes de terror.

R.

Maria D Roque disse...

Um pequeno parentesis duma "Burtoniana" sobre histórias para crianças: ADOREI o Frankeweenie !!!!!

nAnonima disse...

adorei este post.

Vareta disse...

Bom... Quando comparados com a catequese, mesmo os contos infantis mais cruéis eram uma 'coisa para crianças'.

Mas deve ser difícil escrever para crianças hoje em dia: acreditamos nalguma moral ou ética, para além de 'o Ruca põe as pilhas no pilhão'?

Tolan disse...

A propósito disso do pilhão, este Nils Holgerson é pelos direitos dos animais e é do século XIX. O rapaz maltrata os bichos e um dia é subitamente encolhido e passa a depender deles e a aprender com eles. Podia ter sido escrito hoje :)

Acho que uma das morais ou éticas mais fortes agora tende a ser a de aceitar a diferença e de não julgar pelas aparências. Lembro-me de Tim Burton e todas as suas criações, a forma como ele torna monstrengos e o "horror" divertidos e familiares, como contra-ponto a uma moral que é superficial e hipócrita. Muitos livros infantis agora têm como protagonistas monstrengos ou putos cabeçudos com aparelho nos dentes.

De resto, acho que continuam muitos temas como ser amigo, ser bondoso e altruísta etc. Aliás, é capaz de haver um maior reforço disso. Eu quando leio uma coisa como o Polegarzinho não consigo descortinar qual a pedagogia subjacente aquilo :)

R. disse...

Correcção - bambi, não branca de neve.

R.

Juanna disse...

Agora tenta educar 2 criancinhas com milhares de adultos à volta muito preocupadas com a pedagogia das minhas ameaças "ou comes a sopa toda ou corto-te as veias dos pulsos". Grrrrrrr