sábado, 19 de janeiro de 2013

matar, pacifismo etc.

Uma mulher com dois filhos é espancada e abusada pelo marido, um sargento de polícia reformado. Em diversas ocasiões, ele ameaça-a de morte, com uma pistola. Um dia, ela tenta fugir de casa com uma pistola e ele agarra-a. À queima roupa, ela esvazia o carregador no marido. Ele não morre e tenta agarrar a outra pistola que ela também consegue agarrar e ainda lhe prega mais seis tiros. A lei considera que só é justificado o uso de força letal em resposta a uma ameaça imediata de perigo de vida. Foi acusada de homicídio. O caso de Barbara Sheehan tornou-se bastante conhecido (chegou a ir à Oprah).

Prosecutors typically reject the battered-woman defense by arguing that a person in Ms. Sheehan’s position had the opportunity to seek help. An abusive relationship, however egregious, they argue, does not justify homicide. But friends of Ms. Sheehan say she was too afraid to report her abuse to the police since her husband had worked in law enforcement. 

Penso que o mundo se divide em dois campos. O meu, que considera que a mulher fez o que tinha de fazer e até retira algum prazer de um ser humano mais asqueroso ter tido aquilo que merecia e outro, que provavelmente não está a viver a mesma situação que a mulher viveu (suponho, enfim)  vai dizer que em nenhuma ocasião o 'homem tem o direito de tirar a vida a outro' ou outras banalidades do género.

Foi condenada a cinco anos de cadeia, consideraram ter havido atenuantes. Por mim, se fosse ilibada, era ouro sobre azul. O mesmo tribunal, que a condenou aos cinco anos, representativo dos mecanismos legais da justiça, falhou para a proteger, uma vez que é preciso uma situação grave e factos consumados para poder agir. Contudo, o caso demonstra que a sociedade tem (felizmente) gradações diferentes para o aparentemente absoluto princípio do 'em nenhum caso se deve matar'. É evidente que o acto de matar uma pessoa pode ser avaliado de forma extremamente subjectiva. Há bastantes casos semelhantes onde é mais difícil encontrar atenuantes legais, como o de uma mulher abusada e espancada que, durante o sono do marido, lhe dá um tiro. Talvez essa (um caso real) não tenha tido paciência para esperar para uma situação limite arriscada como Sheehan e resolveu a questão de forma segura, pagando por isso pela condenação por homicídio de primeiro grau.

Isto não é o mesmo que ser favorável à pena de morte. Sou contra. Considero que o homicídio perpetrado por um mecanismo legal, ritualizado, do Estado, aceite pela maioria da sociedade como "correcto", com direito a padre, perante testemunhas, com data e hora marcada, com métodos como cadeira eléctrica, enforcamento ou injecção letal, sobre um ser humano inofensivo (preso), uma barbárie mais doentia do que um massacre perpetrado por um Breivik e obviamente sem qualquer comparação com os casos como o de Sheehan. O que me move não é exactamente pena dos condenados à morte, mas a sensação de viver numa sociedade desumanizada e que está disposta a matar um ser humano, detido e portanto inofensivo, num contexto neutro, sem atenuantes. Se pactuasse com isso como cidadão, seria um monstro. Em todo o caso, viveria entre monstros legalizados.

É curioso que tenha surgido um debate quando Obama eliminou Bin Laden numa espectacular operação. Ouviram-se as inevitáveis vozes, especialmente dos anti-americanos profissionais, de 'ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém'. Diziam-nos estes especialistas, sentados no sofá  do mero observador num país sossegado, que gostariam de ver tudo pela lei, mesmo que a prisão de Bin Laden implicasse um fenomenal reacender mediático da sua figura e gerasse, por todo o mundo, atentados com reféns executados por terroristas a exigir a libertação do seu ídolo durante todo o tempo que durasse a sua detenção. É precisamente o carácter excepcional da operação cirúrgica que a torna  aceitável tendo em conta o contexto do mundo em que vivemos e das atrocidades que os países já cometem. Morrem milhares de inocentes anónimos que nunca atiraram aviões contra prédios cheios de gente em nome da guerra contra o terrorismo, os tais danos colaterais de operações que até podem ter o aval da ONU entre países que assinam convenções de direitos humanos ou que mantêm relações cordiais e comerciais entre si. Entre as várias formas de resolver o problema (equacionaram utilizar uma grande bomba convencional para terraplanar a área) penso que levaram a cabo uma bastante elegante e arriscada. Não celebrei a sua morte e, apesar de entender que as imagens de celebrações patrióticas espontâneas de americanos sejam indicadoras do primário espírito "cowboy" americano, considerei-as meramente humanas, uma catarse simbólica ao mesmo nível do queimar de bandeiras.

Pelo princípio absoluto da superioridade da vida humana ou da morte apenas em nome da auto-defesa, então nenhum país invadido resistira ao invasor que lhe apresentasse a ocasião de simplesmente depor as armas, render-se e servir. Xanana Gusmão poderia ter descido das montanhas mas décadas mais cedo e poupado a vida a milhares de indonésios e, especialmente, timorenses.Os americanos podiam ter assinado um acordo e ceder à facção interna isolacionista e deixar a europa entregue à aprendizagem da saudação nazi. Afinal de contas, se formos colaboradores com um agressor, não há derramamento de sangue: é a nossa resistência que vai provocar mortos, especialmente do nosso próprio lado. Portanto, observando a história, em certas circunstâncias, princípios tão abstractos como a 'liberdade', 'independência' ou 'dignidade' podem mesmo sobrepor-se a princípios como ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém.

41 comentários:

D.S. disse...

Esses 2 exemplos que deste são precisamente os dois casos em que a exceção à regra do 'ninguém tem o direito de tiar a vida a ninguém' se confirma: auto-defesa e a guerra. Auto-defesa é óbvia, a guerra não tanto.
Lembro-me de discutir nas aulas de Política Internacional Contemporânea que a guerra era um momento de exceção da lei na medida em que, simplificadamente, matar um ser humano deixa de ser homicídio. O problema é que até a exceção tem que estar controlada, já que não se pode aplicar a todo o ser humano (e os civis?) nem a todo o tempo.
Portanto, sim, há momentos em que matar é necessário, e a auto-defesa, seja de uma pessoa seja de um país invadido, é a exceção que confirma a regra. Mas isso não invalida que o valor da vida humana tenha à mesma um caráter absoluto, já que aí torna-se uma questão de 'ou eu ou tu' e o 'tu' é que atacou, não me lixem.

RCA disse...

Relativamente à penas de morte ou até prisão perpétua, ambas inexistentes em Portugal, esquivando-me a pronunciar-me sobre ambas, para além da pena sobre o indivíduo, não é também necessário analisá-las na perspetiva do efeito dissuasor pelo exemplo?

Tolan disse...

Hmmm... pois. D.S, eu vi logo que eras dessas áreas. Tenta questionar um pouco aquilo que aprendes. A guerra é cinzenta. Se pode ser difícil encontrar exemplos de guerras totalmente justificadas, não é certamente difícil distinguir guerras mais justificadas (ex: contra os nazis) das menos justificadas (ex: vietname, Iraque parte II etc.) independentemente de poderem ter o mesmo estatuto legal à luz do direito internacional e conferirem aos seus combatentes a mesma autorização para matar. De facto, os combatentes apenas obedecem, os verdadeiros potenciais criminosos não disparam um tiro sequer.

E a auto-defesa é cinzenta, eu sei que nem sequer há debate se tu matares uma pessoa que te estava a tentar matar. A lei considera que só é justificado o uso de força letal em resposta a uma ameaça imediata de perigo de vida. Parece muito claro, sim. O que eu acho é que há muitas situações em que é muito complicado julgar e que essa ameaça, apesar de não ser imediata, é real ou não. Conheci casos infelizes assim em que vítimas vivem numa espécie de roleta russa, um perigo opressivo, uma ameaça constante mas que não tem força legal para justificar uma reacção definitiva. A maior parte dos casos de mortes em casos de violência doméstica são antecedidos por muitos episódios a que a lei por vezes não consegue responder de forma a "eliminar aquela ameaça", prendendo a pessoa, protegendo a vítima, etc. Portanto, se a vítima se antecipar ao tal momento de ameaça definitiva de perigo de vida, será sempre considerada culpada de um crime. Não estou a justificar que as vítimas andem aí aos tiros aos agressores, quero apenas dizer que no meu entender e mesmo aos olhos da lei e da sociedade, existem atenuantes circunstanciais que relativizam princípios absolutos que tomamos por adquiridos.

Izzy disse...

Eu tambem era contra a pena de morte principalmente porque nao deixa margem para erros. Ha varios exemplos de condenados ah morte que, se descobre anos mais tarde, afinal eram inocentes. Uns ainda vao a tempo de ser libertados mas outros sao efectivamente assassinados pela sociedade. Eh um erro terrivel.

Mas, e aqui um grande mas, mudei de opiniao ao acompanhar as noticias do caso Petit (http://en.wikipedia.org/wiki/Cheshire,_Connecticut,_home_invasion_murders). Se isto fosse a minha familia eu muito provavelmente quereria administrar a injecao letal. Se calhar eh uma falha do meu caracter, o querer a justica do "olho por olho". Seja como for considero que a pena de morte para estes dois assassinos eh melhor para eles do que a prisao perpetua. E nem concebo a alternativa de viver numa sociedade que libertasse estes 2 monstros ao fim de 25 anos.

Marta disse...

Sou contra a pena de morte mas neste caso mataria sem o menor problema. Acho que até o faria mais cedo. Penso que não devia haver condenação mas talvez fosse abrir um precente que traria sempre problemas de julgamento. Na guerra, tudo depende da guerra e se se concorda ou não com ela. Já tive oportunidade de falar com ex combatentes da guerra colonial que sofreram e ainda sofrem por ter morto pessoas inocentes que segundo ele, e eu também, tinham mais razão do que ele para estarem a combater.

Anónimo disse...

A França, com o seu legado da Revolução Francesa, a igualdade, fraternidade etc só aboliu a pena de morte na década de 80. Até aí eram decapitados. Aconteceu na Argélia.
O curioso foi Portugal nunca ter tido essa tradição. Nas colónias também não tivemos o mítico "one drop rule".
R.

Cuca disse...

Não há nenhum princípio que seja absoluto, mas não consigo configurar nenhuma situação concreta em que a ofensa à dignidade pudesse justificar a morte de outra pessoa.

Anónimo disse...

Cuca. A título de exemplo. A pena de morte nalguns estados Americanos. Considerando que a taxa de homicídios é altíssima.
Acredito que a par da democracia, a pena de morte (ou as Leis) existem desenhadas para um certo país (considerando a cultura etc) e que a pena de morte não é de excluir.
R.

Luna disse...

Tolan

para já, começo por dizer que concordo com praticamente tudo o que disseste, especialmente no que toca à pena de morte.
De resto, tendo a pensar um pouco na linha do que a D.S. disse, embora não seja tão rigorosa no que respeita ao que pode ser considerado auto-defesa como a lei: eu considero o caso que descreveste auto-defesa, por exemplo.
Claro que são casos que devem ser bem investigados e a auto-defesa provada, pq senao qualquer assassino poderia sempre justificar-se com auto-defesa. Mas em casos de violencia doméstica e abuso sistemático e prolongado, pessoalmente não tenho dúvidas relativamente a auto-defesa.

De resto estas questões são todas demasiado cinzentas para se ter certezas éticas.

Cuca disse...

R,

Há uma coisa que falha nesse argumento. É que não há nenhuma evidência - nenhuma - de que a pena de morte contribua para diminuir as taxas da criminalidade violenta.
(além do que, mas isso já são questões de princípio e por isso dependem da opinião de cada um, que não há conveniências de gestão criminal que justifiquem que um estado adopte essa medida).

Cuca disse...

Luna, não é legítima defesa se a mulher mata o marido durante o sono. Evidentemente, não tem a vida ameaçada nessa altura. A menos que esteja trancada à chave no quarto, pode abrir a porta e sair para a rua. Só são concebíveis situações de legítima defesa quando a vítima não tem outra alternativa. De outra forma, todos podíamos meter na cabeça que o vizinho da frente um dia nos vai querer matar e decidiamos matá-lo só por precaução.

Luna disse...

E desde quando é que me referi a matar o marido durante o sono?

Referi-me ao exemplo dado no post (e eventualmente outros casos de violencia doméstica em que se defendam de mais um espancamento)

Cuca disse...

são dois exemplos. mas o primeiro também não é legítima defesa (a menos que ela tivesse razões para pensar que ele tinha uma terceira arma). o que pode ser é homicidio sob compreensível emoçao violenta. e daí a atenuante.

Luna disse...

Cuca

eu nunca fui espancada (felizmente), mas consigo imaginar o terror em que vive quem é, e que o medo e desespero que levem a uma reacção descontrolada, de quem naquele momento teme pela própria vida.

Luna disse...

E claro que isto traz o verdadeiro problema à discussão: a falta de protecção generalizada às vítimas de violencia doméstica.

Cuca disse...

Luna, essa observação está desactualizada. As vítimas de violência doméstica em portugal, neste momento, são tão protegidas pelo estado quanto é possível protege-las. Os processos são urgentes; a polícia desencadeia mecanismos de ação social para retirar as vítimas e os juízes, quando a coisa é feia, decretam imediatamente o afastamento do agressor da casa, mesmo que lhe pertença.
Claro que é preciso que as pessoas se queixem (o que parece que finalmente está a começar a acontecer) e que não se calem quando chega o dia do julgamento (o que lamentavelmente acontece na maior parte dos casos de violência doméstica, levando a absolvições por falta de prova).

Anónimo disse...

Cuca. Não foi um argumento. Foi uma mera laracha. Não conheço os dados nem tenho base para argumentar. Apenas faço reparos. E realmente estes dois países (França/Argélia e Estados Unidos) têm particularidades que Portugal não tem (foi dos primeiros a abolir a pena de morte) tal como a Tailândia, Turquia que sempre foram conhecidos pela pena de morte em relação ao tráfico.
Se existe relação direta na diminuição dos crimes? Talvez. São raros os casos de "mulas" no tráfico da Turquia. Já no Texas é o inverso. A "crime rate" é altíssima... portanto como referi em cima, vai do país e da cultura.
R.

Anónimo disse...

Cuca, atualmente a violência doméstica em Portugal funciona da seguinte maneira.
O desancadeamente do processo é célere. Se existir telefonema a polícia em 10 minutos está à porta. Com uma mulher e um homem.
Por Lei (e aqui é que bate o macaco) a Polícia não entra na residência e geralmente quando são polícias mais velhos nem sequer perdem tempo. Se não são apanhados em ato os polícias vão embora. Estes por regra são os já com anos de casa.
O outro caso é apanhar polícias novos. São os que geralmente entram em casa (seja ou não seja dada autorização) e são os que mais evitam a violência doméstica.
É esta a minha noção. Visto que chamei umas dez vezes a polícia. Das três vezes (sempre existiu violência) que a polícia tomou medidas sérias foi com polícias novos. Os mais velhos nem se chateiam.
R.

Tolan disse...

RCA, sim, isso seria uma justificação prática, o efeito dissuasor... as estatísticas não provam qualquer efeito dissuasor nos homicídios. E no fundo, o homicida ou acredita que não será apanhado ou então nem está bem lúcido no momento do crime, é por impulso, etc. A prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional e a pena de morte têm um carácter definitivo e isso é um argumento prático incontornável, aliás, é o mesmo que pode justificar o abate do cão Zico. Há casos de homicidas que admitem que se forem libertados, matam de novo. O problema está a ser colocado no caso de Breivik por exemplo, condenado a uns 21 anos, o mesmo que muitos outros prisioneiros apanham por crimes certamente muito inferiores. Levantou até a questão de se abrir uma excepção para o caso dele, o que acho que devia ter sido feito. O conceito do cúmulo jurídico confunde-me um pouco. Parece que matar 1 pessoa, 10 pessoas ou 150 pode ir dar ao mesmo em termos práticos a nível de penas. Segundo as notícias, alguns jovens amigos dos que morreram dizem que vão fazer justiça pelas próprias mãos quando ele sair da cadeia daqui a 20 anos, o que se compreende.

Tolan disse...

R, sim, a cultura tem muito impacto. Hoje em dia, segundo uma sondagem, 25% dos portugueses concorda com a pena capital. Franceses são 41%. Quando miterrand a aboliu em 81, a percentagem de pessoas favoráveis à mesma era de 62%.

Luna disse...

Eu sou contra a pena de morte por princípio, mas não sou contra a prisão perpétua em certos casos, por exemplo. Isto porque acredito que a justiça não serve só para punir (e como tal dissuadir), mas também para proteger a sociedade de indivíduos que representam um risco para a mesma, e como tal, acho que tipos como o Breivik deveriam ser encarcerados para a vida, porque o seu calculismo e brutalidade, aliados à total falta de arrependimento, não dao garantias nenhumas de que assim que saia daqui a 20 anos nao volte a fazer exactamente a mesma coisa, e como tal a segurança das pessoas deveria prevalecer - razão pela qual defendo o abate do zico (e porque nao temos condiçoes para manter um animal longe da sociedade em condiçoes dignas, e entre uma jaula ou abate, me parece que a segunda opçao trará menos sofrimento ao animal).

Luna disse...

Cuca, pareces-me demasiado optimista quanto à eficiencia da justiça nos casos de violencia doméstica. Infelizmente, todos os anos, umas quantas dezenas de mulheres mortas vítimas de violencia doméstica demonstram que estamos longe de ter uma protecçao eficiente.

Luna disse...

Ah, e já agora, fico sempre perplexa com a desproporcionalidade das penas com os crimes cometidos.
O Breivik apanhou 21 anos, e falando num caso recente e trágico, o Aaron Swartz arriscava-se a apanhar 30 anos por partilhar informação. É grotesco.

Tolan disse...

Izzy, dizes que tu própria administravas a injecção letal mas não sabes se o farias ou não. Acho saudável / normal que uma pessoa admita isso. Por exemplo, há o famoso caso do Gary Plauch que teve o seu filho raptado e violado por um pedófilo. Não esteve com meias medidas, à entrada do tribunal deu-lhe um tiro e matou-o. O caso é famoso também porque foi filmado (está no youtube). Foi condenado a "apenas" 5 anos, o que demonstra que a sociedade tem flexibilidade na condenação destes actos, pois este está longe ser auto-defesa...

E sim, libertar certos criminosos o fim de 25 ou menos do que isso como sucede... Eu lembro-me de, em puto, fazer as vindimas daquelas a sério, quinze dias a vergar a mola e um dos trabalhadores, malta mesmo muito rude, do campo, era ostracizado pelos outros (um senhor nos seus 40s). Contava piadas, era bem disposto e ninguém se ria. Eu não percebia porquê até que me explicaram. Matou a mulher à enxada. Foi preso, mas uma amnistia aquando da visita do Papa João Paulo II a portugal, libertou-o ao fim de pouco tempo. Eu não consigo compreender muito bem, como disse ali em cima, o conceito da pena máxima / cúmulo jurídico sequer, quanto mais encurtar penas assim porque o santo padre aterra na portela. Considero que não há limites nos crimes, pelo que também o limite da pena deveria ter isso em consideração. E lá está, considero muito mais aceitável que tu ou o Plauch se passem da cabeça e tungas, e que depois sejam quase ilibados ou condenados mas com o respeito da sociedade e mesmo dentro da prisão por meia dúzia de anos, do que ser o estado a matar.

Tolan disse...

Luna, comentámos ao mesmo tempo praticamente e sim, concordo contigo.

Cuca, não sei em que país vives. Eu acompanhei de perto um caso terrível e as coisas não são bem assim. Os juízes, não sei se por inspiração católica, procuraram sempre uma espécie de reconciliação cristã, dizendo que se devia perdoar, que deviam fazer as pazes e a ele, um monstro, bastava-lhe chorar em tribunal e arranjar testemunhas falsas a seu favor.

Mas mesmo que não confiemos num testemunho próximo, uma investigadora acompanhou vários casos:
http://www.ionline.pt/portugal/vitimas-violencia-domestica-culpadas-tribunal

São inúmeros os casos revelados por Madalena Duarte em que a vítima é apontada como culpada, ou porque insistiu falar com o agressor que estava enervado ou porque não denunciou a situação com devida antecedência.

Por esta razão, são muitas as vítimas que acabam por não revelar a verdade. “Em 2009, apenas 2495 casos foram a julgamento”, sendo que “em 95,6% dos casos, os agressores ficaram com termo de identidade e residência”, o que mostra como a mulher continua desprotegida.

Em 2011, foram apresentadas 25 126 queixas, mas apenas 121 agressores estavam presos. A responsável considera que é urgente mudar esta situação, referindo que “as vítimas de violência doméstica não devem ser inquiridas na frente do agressor, pois não vêm a sua verdade reconhecida”, conclui Madalena Duarte.

Luna disse...

É um ciclo vicioso: como não se vêem suficientemente protegidas, muitas vítimas acabam por retirar as quaixas por terem medo que não o fazendo as represálias sejam ainda maiores.

Eu costumo dizer, do alto da minha arrogancia, que um homem só me batia uma vez. Mas eu sei lá o que o medo real é, e como condicionaria o meu comportamento?

Anónimo disse...

Eu quero deixar aqui um exemplo.
Portugal sem a pena de morte (e com os 25 anos de teto máximo + cúmulo jurídico) é dos países onde mais desleixo existe em relação a crimes de pedofilia.
Não há dados para trabalhar. Não há custos com reinserções e até há pouco tempo ao fim de 7 anos o cadastro destes crimes eram apagados e as pessoas encaminhadas para locais onde... infelizmente existiam crianças.
Nesse aspeto Portugal está a anos luz de países mais desenvolvidos e neste caso mais regulados.
Não acho que necessitemos de pena de morte. Portugal não tem essa tradição e sempre tivemos uma relação muito leve (salvo exeções) com as nossas colónias. Não lidámos de perto com o terrorismo Islâmico. E a nossa criminalidade não é a mesma que a dos Estados Unidos. Aceito que exista a pena de morte nalguns estados. No Louisiana por exemplo. Aceito a castração química. E aceito a pena perpétua.
Também sou favorável à decapitação de alguns autores de livros; José Luís Peixoto ou o Miguel Sousa Tavares...
R.

Tolan disse...

:)))

Cuca disse...

Tolan,
Vivo neste país, sei exatamente como é que as coisas se passam em relação aos processos judiciais das vítimas de violência doméstica e garanto-te que nos dias de hoje não existem juizes a procurar nenhuma espécie de reconciliação entre vítimas de violência doméstica e agressores e muito menos por inspiração católica. Isso é tanto mais disparatado quanto é certo que o crime nem sequer admite desistência de queixa (logo, não há "reconciliação" judicial possível). O que existe, desesperadamente, é juízes a tentar evitar que as vítimas se refugiem no direito a não prestar declarações, recusando-se a falar e condenado ao fracasso acusações que fizeram gastar o tempo de muita gente e o dinheiro dos contribuintes.

Cuca disse...

Luna,

Admito como possível que existam casos de quem não fala por medo. serão residuais. Diz-me a minha experiência que a maior parte dos que não falam em julgamento é porque no mês ou na semana anterior eles arranjam maneira de se reconciliar. Claro que passado uns tempos há novas queixas...
A verdade é que este crime é extremamente complexo, desde logo, porque não há nada mais difícil do que proteger as pessoas das suas próprias decisões.

Luna disse...

Cuca

eu quero muito acreditar que estamos no bom caminho, e que o nosso sistema judicial esteja efectivamente a proteger melhor as vítimas de violencia doméstica. E fico contente por saber que a situação está a mudar.

Mas acho que ainda temos um longo caminho a percorrer. Inclusive na parte das vítimas conseguirem confiar mais na justiça.

Luna disse...

e admito que (felizmente) não conheço casos em primeira mão (ou pelo menos que eu saiba).

Cuca disse...

E outra coisa, Luna, o que condiciona o comportamento das vítimas não é o medo.
Uma pessoa maltratada durante anos a fio fica com a sua dignidade pessoal afetada a tal ponto que tolera coisas que a maioria das pessoas consideraria intoleráveis. Muitas vezes elas próprias consideram-se culpadas da situação. Não é o sistema que faz isso. São os efeitos específicos deste tipo de crime. Neste cenário - mulheres habituadas a maus trataos e a manipulação psicológica profunda, em que muitas vezes as vítimas amam os agressores - é frequente que as vítimas recuem quando percebem a probabilidade séria de eles irem presos.
Claro que é sempre mais fácil responsabilizar o estado e dizer que a culpa é do sistema judicial. Até pode ser noutros casos. Neste, actualmente, não é.

Luna disse...

Sim sim, eu sei disso, embora não ache que nao haja qualquer influencia do medo. Mas sim, a violência nao é só física, é psicológica também, fazendo com que as vítimas percam totalmente a auto-estima ao ponto de se considerarem merecedoras de tal tratamento, tendo quase sentimentos de gratidão à posteriori, quando o agressor se "arrepende".
O que me leva à questão do acompanhamento psicológico destas pessoas - é uma questão, não sei de facto até que ponto estas pessoas sao acompanhadas.

Anónimo disse...

A melhor parte deste post é:

"O que me move não é exactamente pena dos condenados à morte, mas a sensação de viver numa sociedade desumanizada e que está disposta a matar um ser humano, detido e portanto inofensivo, num contexto neutro, sem atenuantes. Se pactuasse com isso como cidadão, seria um monstro."

Eu entendo a ironia inerente, Tolan. Se isso existe, de alguma forma já assinámos o pacto e, somos todos monstros. Mas nenhum ser aprisionado é inofensivo, enquanto enterdermos inofensivo como incapaz de interagir com a sociedade.

Tolan disse...

Cuca, parece-me que conheces melhor a realidade desses casos do que eu e digo isto sem ironia. E fico feliz por ver que algo está a ser feito nesse sentido e há melhorias. Usei apenas o exemplo da violência doméstica para ilustrar um ponto de vista.

Tolan disse...

anónimo, todos temos um certo monstrengo em nós, um "animal". Aliás, tudo isto começou com a história do "a vida do ser humano mais asqueroso vale mais do que a de qualquer animal". É evidente que os meus sentimentos me dizem uma coisa completamente diferente. Eu perdoo muito mais facilmente uma mulher que dá um tiro num marido que abusa dela etc. do que um homem que mate um cão por crueldade. Não posso escapar a isto. Posso racionalizar, mas para mim o segundo crime afigura-se-me como mais tenebroso que o primeiro em que até sinto, sinceramente, um 'só tiveste o que merecias' :\

Anónimo disse...

Tolan, só agora vi este teu comentário. Apesar de compreender o teu prisma e até te dar razão, não consigo deixar de ter a outra perspetiva. Que é a perspetiva de quem aplica a Lei. E invariavelmente existem variáveis, atenuantes, circunstâncias etc. Não podes colocar as coisas simplesmente assim; mulher que dá um tiro num marido que abusa dela vs um homem que mate um cão por crueldade. Isso não existe. A ver. A mulher sempre foi abusada? Que tipo de abusos? Qual a relação entre os dois? Etc, etc, etc. Acho que o mais lógico é entender a circunstância de um caso e de outro. E muito facilmente chegas à conclusão que nem tudo é preto no branco. A crueldade não existe por si só. As pessoas não são cruéis. Tu não nasces com a crueldade. A qualquer momento da tua vida, podes tornar-te cruel. Repara numa coisa. Eu já tive de matar crias. Fui cruel. Agora achas que mereço a pena de morte? Serei uma pessoa cruel? Já ao contrário, sou incapaz de levantar a mão a um familiar etc. Como processas isto?
Eu só não te dou razão no seguinte. É que nem sempre a mulher "foi" abusada. E isso do lado de quem aplica a Lei (não é a polícia, falo do Direito) é importante. Pois nunca conheces a 100% a circunstância.
R.

Cuca disse...

De qualquer forma, Tolan, o teu post nem era sobre violência doméstica e na essencia do que dizes eu até concordo contigo. Os princípios não são absolutos. Nem sequer o direito à vida.

G. Varino disse...

muito correio da manhã

Maria D Roque disse...

A justiça nem sempre é justa e nem sempre é cega...