quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Trópico da Trampa - Henry Miller

Por todas as santas botinhas de sapinho do mundo... que merda é esta? Henry Miller, Trópico de Cancer. Olha, Miller, também consigo dizer foda-se, caralho, foder aquela cona toda, farfalhuda... epá... não me lixes. É a maior bosta pretensiosa a fingir que não é pretensiosa que jamais me foi dada a ler.  Um tipo a armar-se do princípio ao fim. Que gigantesca punheta. O Diário Remendado do Luiz Pacheco, já leste? Tu ao pé dele és um imbecil de um vaidoso. E és uma espécie de inverso do Céline, também. É curioso, o Pacheco faz um genuíno diário de um escritor improdutivo, caótico, marginal, sem esconder nada.. e claro, Lisboa não era a tua Paris mais a merda dos teus amigos intelectuais e artistas e as tuas descrições intermináveis dos boulevards e dos cafés e das águas furtadas. O Céline, consegue a proeza de eliminar o pequenino detalhe de ser escritor da sua biografia ficcionada e vai na direcção oposta, cresce, explode. Ambos têm verdade, causam a sensação de "pois é, as coisas são mesmo ASSIM", mesmo que sejam coisas opostas. Mas tu, nem uma coisa nem outra.  Escondes-te nos teus malabarismos como, aliás, toda a merda de beat generation a que deste início, tornaste o marginal numa coisa cool para estudantes universitários brancos, ricos e entediados, tu e os teus Kerouacs e Burroughs e afins. "O inverno chegou como uma lebre congelada"... vai-te foder mais a tua lebre congelada. Mais a tua rua que parece "um caralho sifílico cortado longitudinalmente". É que não parece nada, estás a ver? O que se passa é que na tua época,no teu meiozito de artistas parisienses da treta devias querer ser o enfant terrible e pronto. Se deres muitos arrotos e fizeres um grande chinfrim, as pessoas prestam-te atenção, especialmente os artistas e os burgueses que adoooooram ser chocados ao verem a sociedade do avesso. Que bela ave exótica deves ter sido. Queres um exemplo de como tu és enervante? Foi aqui que desisti de ler o livro, quando estás a jantar em casa de mais um desses artistas burgueses e o ouves falar contigo:

 - Odeio Paris! - queixa-se ele. - Estes estúpidos a jogarem cartas o dia todo... olha só para eles! E a escrita! De que vale escrever? Posso ser escritor sem escrever, não posso? Que prova, o facto de eu escrever um livro? Afinal, para que queremos livros? Já há demasiados livros... 

Porra, passei por tudo isso... há anos. Já ultrapassei a minha juventude melancólica. Estou a cagar-me para o passado, ou para o futuro. Sou saudável. Irremediavelmente saudável. Sem mágoas, sem arrependimentos. Sem passado, nem futuro. Basta-me o presente. O dia-a-dia. Hoje! Le bel aujourd'hui!

Jesus Cristo... Sabes o transtorno que me causa ter de deixar um livro a meio de uma viagem de metro e não ter outro logo ali à mão? Não sei o que é pior. O boneco que tu inventas e que é suposto representar o intelectual castrado (para quem, de facto, tu escreves)?  O boneco dizer coisas imbecis como "que prova o facto de eu escrever um livro?" A sério, era preciso fazê-lo tão estúpido e pedante? A forma como tu te afiambras com unhas e dentes ao que o teu boneco te disse, para te valorizar perante o leitor? Era preciso um contraste tão óbvio? Experimenta o contrário. Tu dizes "basta-me o presente. O dia-a-dia" etc. etc. que, sabe-se, corresponde a uma idealização genuína tua (porque és todo fã do zen e do budismo na vida real) e depois falas com um gajo que diz que tu és "falso" e não fazes nada, por exemplo, um amigo que fosse mesmo um grande escritor, tipo o Céline ou o Pacheco ou o Bukowski. Imagina isso. O Céline até publicou o Viagem Ao Fim Da Noite dois anos antes do Trópico. Imagina que vens com as tuas lebres congeladas e o caralho, para cima do Céline, do Bukowski e do Pacheco. O Céline, se calhar não te ouvia, entretido a apalpar as coxas à empregada. O Bukowski dizia-te na cara "i dont like you" e ia apostar nos cavalos. O Pacheco ouvia-te com atenção fingida, porque no fim pedia-te dinheiro emprestado. E ainda te mandava para o caralho depois de contar as notas.

14 comentários:

Isa disse...

amo você!

Anónimo disse...

Agora ficaste ressentido e voltas às origens. Nunca vais entender o Pacheco ó Tolan. Vieste da Bélgica. O próprio Pacheco ficcionava. Há coisas que não se escrevem, pela própria incapacidade da coisa. Podes tentar uma vida inteira e nunca vais conseguir. Garanto-te. Ou ficas calado e aturas a merda do dia-a-dia no "escritório", ou ficcionas. Não tentes.
R.

nAnonima disse...

:)))) gostei do teu exercício.

alf disse...

É com grande alegria que passo a celebrar este dia como o início da conversão do Tolan aos bons livros, na sequência de um evidente choque, testemunhado pelo próprio,com o nível mais rasteiro da categoria onde infelizmente anda a chafurdar há já demasiado tempo. Vamos a eles, caralho.

Gala Potente disse...

Brutal!

Maria D Roque disse...

Grande, Tolan !

Izzy disse...

Apoiado.

manuel a. domingos disse...

discordo

porteiro com galões a coçar chatos disse...


oh sô tolan, o sô mila já morreu!!!
o andar está fechado e não mora lá ninguém.

André disse...

Havia de chegar o teu primeiro post com o qual havia de discordar - longitudinalmente.

Podes sempre tentar ler o Opus Pistorum :O

http://thoughloversbelostloveshallnot.blogspot.ch/2012/02/opus-pistorum-de-henry-miller-livros.html

José Couto Nogueira disse...

Ler o Miller pelo sexo é o mesmo que gostar da Praça do Comércio pelo espaço de estacionamento... E comparar o Miller com o Pacheco é o mesmo que comparar o Celine com o... Tolan!

Beatrix Kiddo disse...

julgar com a vantagem do tempo

G. Varino disse...

opus pistorum, sim. O miller diverte-me, até certo ponto.

DCSdeC disse...

Lê o Trópico de Capricórnio. Eu gostei mais.