quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

sonho de Natal

A noite de Natal de 2022 ia ser uma noite como outra qualquer. Só me estiquei um pouco no jantar, um perú recheado com castanhas, liofizilizado, preparado em trinta segundos no hidratador térmico. E whiskas deluxe christmas edition para o Jeremias, o meu gato. Também abri um vinho menos mau. Colheita de 2012. Uma garrafa com rolha de cortiça e tudo. Tentei lembrar-me de 2012. Ah, sim, 2012 tinha sido um ano excelente, um dos últimos anos normais, antes da crise... Levantei-me e baixei as grades da janela. Depois fechei o vidro blindado para abafar o som das sirenes. Sim, uma noite como as outras para mim e para o Jeremias que ronronava ao meu lado no sofá, também ele indiferente ao Natal e um pouco tocado do vinho que bebeu do meu copo às escondidas. Excepto pelo pequeno barretinho elfo ajudante do pai natal que lhe consegui enfiar e prender com a ajuda de um elástico. Comprei-o na loja dos gregos. Às tantas, deixou de tentar arrancá-lo com as patas e conformou-se ao espírito natalício, entorpecido pelo vinho. Tinha um guizo na ponta, o barretinho, e de cada vez que ele se mexia ou sacudia a cabeça, retinia como uma rena e alegrava a casa.
- Gostas do Natal, Jeremias?
- Meoow.
- Não sejas assim. Não gostas do natal? Queres mais vinho?
- Meh.
Bebi aquela garrafa rapidamente e fumei um pouco, andei de um lado para o outro, abri outra garrafa... Carreguei um jogo de playstation. Era Natal, ao fim e ao cabo. Merecia. Foi então que tocaram à campaínha. Não abri, era normal tocarem à campainha a pedir comida desde que implementaram a Lei Jonet. Mas voltaram a tocar, a tocar, a tocar, às tantas enervei-me, peguei na vassoura anti-caridade que tinha ao lado da porta e fui vem quem era. À minha frente, nas escadas, um miúdo, corado de frio, embrulhado em cachecóis, um blusão de penas três números acima e um barrete enfiado até aos olhos escondidos atrás de espessas mechas de cabelo demasiado grande.
- O que foi? Queres caridade?
- Olá! - disse-me o miúdo. O Jeremias fugiu, com o guizo a retinir pela casa, abominava crianças.
- O que é que queres? Eu pago os meus impostos.
- A porta lá em baixo estava aberta. Com licença.
- Hei! Não podes entrar!
Abraçou-me.
- Vá, vá miúdo, o que vem a ser isto? - tentei afastá-lo.
- Pai... Sou eu! O teu filho! - tirou o barrete e os cachecóis. Depois ficou a olhar para mim com cara de parvo, meio ranhoso do frio.
- Não sou o teu pai. Que história é essa? Sai daqui. Olha que levas com esta vassoura. 
- Pai, não me reconheces? Olha lá bem para mim. Somos parecidos, olha, o meu nariz é igual ao teu.
- Onde está a tua mãe?
- A Plaft já aí vem pai, foi só buscar sopa de wan-tan de camarão ao chinês, sabes como ela é quando lhe apetece sopa de wan-tan..
Assim que lhe vi as orelhas e as sardas  no nariz e aquela lata toda, tive logo um pressentimento. Descalçou as botinhas do sapinho e sentou-se no sofá, no meu sofá. O Jeremias espreitava do escritório, a cabeça com o barrete do guizo a assomar da ombreira, desconfiado, a olhar ora para mim, ora para o miúdo, como que a dizer-me para resolver aquilo depressa.
- Ena, que fixe, tens uma Playstarion 12! UAU! E o Battlefield 20! Vamo-nos dar muita bem!
- Deixa-me! Sai daqui! Não posso ser teu pai, sou um grande escritor maldito - comecei a dar-lhe pequenas vassouradas.
- Está quieto! Pega no comando! Muaahahha! Vou ser sniper! A mãe não me deixa jogar estes jogos, vamos só jogar um antes dela vir.
- Olha que eu chamo a políc... não urso, então escolheste a camuflagem de selva para o cenário do deserto? Mas tu és parvo ou quê? Vão ver-te a dez quilómetros.
- Há uns arbustos na montanha que são desta cor.
- Deve haver, deve, pfff... e estás a fazer pontaria mal, aponta um bocado mais acima para compensar a gravidad...
- Headshot! E com bonus de marksman! Embrulha...
- Bah, ele estava parado em cima da torre.
Ouvimos passos femininos, de salto alto, pelas escadas acima e o barulho de sacos de plástico.
- Depressa, pai! Desliga isto, muda para a televisão, a mãe não pode ver-me a jogar estes jogos de guerra!
- O vinho! - dei um salto - Muda tu de canal, eu tenho de deitar fora estas garrafas!
- Onde é que está o comando, pai?! Depressa!
Os passos aproximavam-se cada vez mais e ouvimos o barulho da chave na porta.
- Ah, o cinzeiro, passa cá, tenho de vazar isto! Rápido!  Empurra essas peúgas para debaixo do sofá, isso, com as botinhas!
- ARGH! O teu comando está com as pilhas fracas!
A televisão reagiu às pancadas que o miúdo dava no comando e aterrou em cheio no Marco Paulo a cantar a plenos pulmões.

13 comentários:

Anónimo disse...

Bah, não li todo.
Estás sem sal.
A ver se te morre um gato ou apanhas uma doença séria.
R.

Mariam disse...

As botinhas do sapo. Essas vão perseguir-te para sempre.
Genial.

Izzy disse...

velho, resmungao e a viver sozinho com um gato?! Tolan, nao sabia que tinhas uma "lonely cat lady" dentro de ti!

Tolan disse...

Izzy, isso é porque não lias o blogue que eu tinha em 2003, ora essa.

Jeremias disse...

Meow.

Tolan disse...

Eu sei, Jeremias.

António Machado disse...

pena o final, tão apressado...

Cuca disse...

Muito bom. Foi o melhor conto de Natal que li nos últimos tempos.

Cuca disse...

Muito bom. Foi o melhor conto de Natal que li nos últimos tempos.

Plaft (do futuro) disse...

Malandro, prometeste que ias deizar de beber, até que reagiste bem à notícia. O melhor de voltar-mos a viver juntos foi o não ter de frequentar mais os horriveis antros de capitalismo. Agora que sou paleontóloga já podemos viver juntos com o nosso filho e o Jeremias

Plaft, Sílvia disse...

Se eu algum dia escrever "voltar-mos" agradecia que me pusessem fora de casa...

Maria D Roque disse...

Ah... As botinhas... Lindo.. Nada ázimo, invejosos...

Anónimo disse...

Oh Tolan, encarregaste uma pessoa que escreve "Se eu algum dia escrever "voltar-mos" agradecia que me pusessem fora de casa..." de fazer a revisão do teu romance?! Está bem entregue...