quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

plumbeas oblíquas


É à hora de almoço que sou dado à contemplação mais intensa e produtiva. Se estiver a chover, melhor ainda. Nada acentua melhor a sensação de isolamento como um bom carapuço pelas orelhas abaixo. É como uma toca portátil, digamos assim. Um chapéu de chuva também é interessante, cria como que um cone de protecção de pessoas e chuva com um diâmetro igual ao do chapéu, desde que não esteja a dar daquela chuva oblíqua de que os escritores e poetas tanto gostam, mas que molha os sapatos italianos do nosso consultor. É disso e dos céus plúmbeos. Muito gostam deles de chuvas oblíquas e céus plúmbeos. E de meter a cor azul por todo lado. Acham que se trocarem uma cor por azul, a coisa fica poética. Jorge passou a mão pelo queixo azulado da barba por fazer. Desde quando a barba de um homem é azulada? Só se for algum bicho peludo e azul da rua sésamo. E depois são as montanhas azuis, muito gostam eles de ver montanhas azuis por todo lado. Se calhar nunca saíram do Chiado e a única montanha que conhecem é a do Brokeback que eles já viram 30x. O Fausto até fez um disco chamado Em Busca das Montanhas Azuis. Boa sorte Fausto. Se as encontrares, tira uma foto e posta no instagram para a gente ver. Mas sem photoshop, não vale batota. Ou o fumo azul do cigarro. Ou as sombras azuladas no olhar de Sandra. Deve ser um rímel da avon, o sombras azuladas. Não inventem. O fumo é cinzento. As montanhas têm tonalidades em gray scale a maior parte das vezes, quando vistas ao longe, por causa da poluição. Aliás, o termo artístico é sfumato. Em vez de "Em busca das montanhas azuis" devia ser "Em busca das montanhas grayscale 80%". Ou 70, 90%, é uma questão ir experimentando e ver qual é que fica melhor no poema. Há montanhas brancas também, perdão, montanhas alvas. Por exemplo, no Nepal. Especialmente de dia. À noite não, só se levarem com uns faróis muito potentes em cima. De noite podem, com muita sorte, num dia de céu limpo e de lua argêntea, ficar argênteas. Como as faces de Sandra, alvas e argênteas de olhos com umbras azuladas de apanhar no focinho. E livrem-se de começar qualquer texto ou poema com "manhã". A não ser que a dita esteja submersa, claro. O que pode acontecer no caso de muita chuva oblíqua e entupimentos nas saídas dos esgotos. Não, tem de começar com aurora. Se querem ser poetas, é uma questão de meter o despertador a tocar mais cedo e não ficar na ronha a carregar no snooze três ou quatro vezes.

9 comentários:

Izzy disse...

Por acaso a mim o fumo de cigarro parece-me azulado... E obrigada pela explicacao, finalmente percebi porque nunca serei poeta. Adoro ficar na ronha!!!!

nAnonima disse...

"Desde quando a barba de um homem é azulada? Só se for algum bicho peludo e azul da rua sésamo."

:)))))

BeatrizCM disse...

Reflexão genial! "Contemplação mais intensa e produtiva": DONE.

Maria D Roque disse...

Criatividade afectada pelo Vírus da Sombra Azul ? ;)

Anónimo disse...

É quando eu mais gosto de ti.
90%.
R.

Maat disse...

eu tinha um rímel azul que me deram. mas não era da avon, era da yves rocher. é tudo igual.

peludo e azul. e laranja! (esta é uma das poucas músicas da rua sésamo que ficou para sempre na minha memória)

António Machado disse...

não perca os "elefantes azuis"...
http://www.youtube.com/watch?v=KuJLEflJUeE
por outro lado, amo esta:
http://www.youtube.com/watch?v=BI0_C_TOMOU

Palmier Encoberto disse...

Eu acho que a Sandra deve estar bastante formosa, na obscuridade da sua sombra cerúlea...

ME disse...

Agora fez-se luz: Manhãs submersas foi escrito no Dafundo!!! Só pode!