sábado, 8 de dezembro de 2012

corte de cabelo

Apesar de viver aqui há quatro anos, só hoje ganhei coragem para cortar o cabelo no cabeleireiro da minha rua. Precisava mesmo de cortar o cabelo, ainda por cima tenho uma reunião de trabalho na segunda-feira, com um potencial cliente. Não é bom parecer um poodle acometido de electricidade estática quando se quer vender coisas. A humidade é terrível. Bem, trata-se de um desses cabeleireiros que têm um vinil na montra a dizer haute fashion e que parece parado nos anos 80. Sempre que passo por lá ao sábado de manhã vejo um enome corropio de mulheres de meia idade e velhotas todas pintalgadas, a saracotearem-se de um lado para o outro com rolos e molas e toalhas na cabeça. Para cortar o cabelo, costumo ir a um muito insípido num centro comercial, um daqueles todo decorado com uma só marca de produtos e com cabeleireiras suburbanas de cabelo tão estragado por experiências com colorações que parecem ter sido recrutadas em Chernobyl. Esses sítios também costumam ter um gay português que faz sotaque brasileiro e que se concentra brutalmente em cada tesourada, como um escultor do renascimento a criar uma obra prima. Não sei porquê, esses sítios parecem-me verdadeiramente unissexo. Os de bairro não. O da minha rua não. Apesar de dizer a letras grandes UNISSEXO. Mas como acreditar nisso, do unissexo? É só mulheres lá dentro, sempre. Então hoje passei em frente ao cabeleireiro, só a sondar, e o caos era maior do que o habitual, dava a sensação que algo se tinha descontrolado e as senhoras estavam a fazer o jogo das cadeiras com os rolos e pinças na cabeça. Continuei o meu caminho, fingindo ter mais que fazer. Depois de ter visto os títulos dos jornais desportivos no quiosque, passei de novo em frente ao cabeleireiro. Queria parecer casual. Do género, vou aqui a passar e por acaso lembrei-me, olha, vou cortar cabelo. Então ganhei coragem e entrei. Fui recebido por um bafo quente de potentes secadores de cabelo, cheiros de cremes, shampôs, tintas e diluentes. Não é muito diferente de uma oficina de automóvel, pensei. Não foi sem alguma desilusão que me apercebi de uma indiferença geral face à minha chegada. Afinal de contas eu ia meter o Uni no Sexo daquele salão. Não conseguia distinguir facilmente as cabeleireiras e auxiliares das clientes. É um dos problemas destes sítios em que não há a clássica t-shirt preta oferecida por uma marca de produtos para cabelo. Uma senhora, que supus ser cabeleireira porque estava a pintar cabelo a outra senhora bastante parecida com ela na indumentária, perguntou-me o que eu queria. O que raio havia eu de querer? Um jogo de playstation? Uma mise? Queria cortar o cabelo, respondi, timidamente. Sorriram, veio logo uma disparada tirar-me o casaco e outra ajeitar uma toalha. Tentei encaixar-me na bacia de lavagem do cabelo. Costumam ser para anões, mas esta era mesmo absurdamente pequena. Fiquei quase deitado. A pouco e pouco, enquanto me lavavam a cabeça, as coisas recomeçaram o seu curso normal à minha volta. Ou então era eu que retomava o meu. Confirmei que a minha presença ali lhes era indiferente e que seguiam a sua vida. As mulheres quando estão em grande número no seu território são assim, é uma coisa fantástica, ignoram completamente o homem. Mas metam uma mulher no meio da tasca da minha rua quando está a dar o Benfica e vão ver o que é caos e perturbação. Pintavam as unhas a uma senhora de idade, extremamente idosa. Um ar muito composto e nobre, qual rainha de inglaterra do bairro. Depois de lavado o cabelo, puseram-me aquela espécie de grande bata ou capa à volta do pescoço. Nos cabeleireiros de centro comercial costumam ser batas pretas ou brancas. Esta era razoavelmente preta, nos espaços entre o padrão de marcas de beijinhos em baton vermelho. Não dei grande importância. Quando a dignidade de um homem desce abaixo de um certo limite, nada importa mais, ele torna-se insensível a qualquer degradação da sua honra, basta pensar em Miguel Relvas. A cabeleireira começou a cortar-me o cabelo, depois de lhe explicar o corte que pretendia e de ela perceber imediatamente como eu queria o corte. Era tão experiente que nem cheguei a falar, o cabelo começou a cair em grossos cachos. Não estava cá com merdas, a minha cabeleireira. Manejava ao mesmo tempo uma tesoura, uma lâmina, um pente e meia dúzia conversas extremamente importantes com clientes e colegas que a interpelavam constantemente. Por vezes, a lâmina de barbear com que esfiapava cabelo com perícia vista apenas no Kill Bill ficava suspensa perto da minha orelha, a meio de uma novidade picante que lhe iam contar. Eu fazia figas para que a novidade não a entusiasmasse demais. Às tantas, também eu parecia atento à conversa. Nada de especial, era só um divórcio. Não lhe batia? Batia sim, e não era pouco. Ah bom, isto está a ficar interessante. E tinha uma amante. E ela tinha uma depressão. E ainda por cima levava. Fez um desmancho. Sangrou muito. E dívidas? Estavam cheios de dívidas, todos. Fiquei completamente agarrado às histórias. Bloqueio de escritor é que não havia por ali. Quando faltavam figurantes reais, pessoas do bairro, eles brotavam das revistas sociais, folheadas avidamente à procura de tema. Operações plásticas, traições, abuso de drogas, casamentos, divórcios, gravidez, dívidas, depressões, maus tratos, burla... Fiquei a perceber que uma biografia da Luciana Abreu é uma espécie de enciclopédia do trash. Vocês sabiam que a Luciana e o Djaló vão dar mais uma chance ao casamento? Eu não sabia. E agora já sei. E já sei onde ir, quando precisar de inspiração para uma história best seller que me pague as contas. Sim, aquele cabeleireiro é o heart of darkness perfumado, amaciado, colorido e lacado. Bate qualquer paneleirice do Céline mais as suas colónias em áfrica e o seu paludismo. É mais real do que qualquer casa de apostas de corridas de cavalos do Bukowski, mais decadente que a miséria do Hamsun e mil vezes mais perigoso que as guerrinhas do Hemingway. No fim, sem dar pelo tempo passar, tinha um rico corte de cabelo, ainda por cima. Bem giro. Acho que todas aprovaram. E que mal saí, se fartaram de cochichar a meu respeito: Parece que tem um blogue, o Tolan. O Tolan? Já ouvi falar, mas eu leio é o Arrumadinho. Ai nem me diga nada, esse é que me dava jeito aqui no salão para atrair clientela e dar conselhos. Mas é mesmo ele, o Tolan? É sim. Ele diz que quer ser escritor, não parece nada um escritor, não tem aquele ar digno. Escritor? Quer ser mas é um bebado, você já viu a quantidade de garrafas que ele recicla ao Sábado de manhã? Ah pois, não vê a menina que não mora em frente ao vidrão, é cá uma barulheira...

19 comentários:

Capt. Paddock disse...

Muito bom.

Anónimo disse...

boa tarde

boa tarde como está?

bem obrigado. posso sentar-me?

sim, com certeza. não está cá ninguém. então como quer o cabelo.

pente 6 em cima, 4 atrás e de lado.

então, é o mesmo de sempre não é.

pois, o mesmo de sempre. curtinho.

passam 15 minutos, lavagem de cabelo, perícia na utilização da máquina, retoques nas patilhas, muito silêncio.

boa tarde, então como está isto? quantas pessoas tenho à minha frente?

5 minutos e está despachado, não está cá mais ninguém.

dá tempo de lá acima ver se ganhei alguma coisa no euromilhões?

sim, isto está calmo.

olhe, o presidente da câmara também joga no euromilhões!

era o presidente da câmara?

era, veja lá, deve querer ganhar a sorte grande para se ver livre disto. faz ele bem.

eu por acaso não jogo no euromilhões.

ai eu jogo, nesse por acaso jogo. está bom o cabelo ou quer mais curto?

sim, está bom assim.

quer laca ou gel?

não obrigado.

***

resumindo, tens de me dar a morada desse salão de cabeleireiro.

Maat disse...

como aconteceu comigo há pouco tempo, também tu aprendeste uma lição: nunca subestimar os pequenos cabeleireiros de bairro. fazem cortes tão bons como os outros, o preço é bastante jeitoso (a mim até me fizeram desconto por ser 'um corte simples') e ainda ficamos a saber imenso da vida das pessoas. e como estão tão entretidas a falarem umas com as outras, não tentam meter conversa connosco, que é o melhor.

Maat disse...

e bem metida essa do miguel relvas!

Ex-V.P. disse...


o post não está mau… está até razoável.
mas falta a tusa caralho… a sensualidade… enfim, cócegas no cacete pronto!
eu já fui cortar o cabelo a santuários desses e as únicas memórias que guardo são as mamas a dançar mesmo ali ao lado da minha cara… umas pernas descuidadamente meio abertas duma ou outra cliente… o toque das mãos enquanto me lavam a cabeça… ah, e mamas… mamas a roçarem o ombro.
confesso que és vezes até me cheira a cona lavada com água quente!!!

P.S. se estão incomodados/as por falar em conas e mamas… problema vosso!!!

Tolan disse...

Posso garantir que não foi bem essa a impressão daquele salão. Não sei se a visão da velhota com as unhas carmim nas mãos alvas e mirradas terá tido alguma coisa a ver com isso...

Anónimo disse...

foda-se.. vocês conhecem cá umas barbearias!!

já fui a casas de putas em que gastei dezenas de euros e fui pior atendido.

Ex-V.P. disse...


brrrrrrrrr….”velhota com as unhas carmim nas mãos alvas e mirradas”!!!

pronto está bem… mas por exemplo para gerontólilos e outras parafilias por quirópteros estava à maneira… ou não???!!!

”velhota com as unhas carmim nas mãos alvas e mirradas”… fooodaaaaçe... até fiquei com mirrado como quando passo 20 minutos a nadar no moledo!
se todos os salões fossem assim adoptava o look zz top!!!

cum camandro…o que um escritor sofre pra escrever umas coisitas!!!

... disse...

gerontófilos, porra!!!

tenho de começar as ler as cenas antes de publicar.

Palmier Encoberto disse...

Escorrem-me lágrimas :DDDD

António Machado disse...

li com um sorriso (XL), de uma ponta (da orelha) à outra :)

Anónimo disse...

Good stuff. És um grande eco da minha mente. Eu escrevi este post há 3 anos atrás. Tu é que o divulgaste e ornamentaste com verbos e piadas.
O meu era ligeiramente diferente. Tinha um brasileiro a ler a bíblia e música no leitor, "apocalipse uhh uhh" enquanto o fulano (os brasileiros evangelistas têm sempre camisas amarelas ou verdes) metia conversa sobre o spórtem...
R.

Izzy disse...

Andou o Hemingway a arriscar a vida em safaris em Africa, guerras civis em Espanha, bebedeiras de caixao ah cova, infidelidades epicas...para que? Bastava-lhe ter ido a um cabeleireiro de senhora.

tata disse...

Amei como sempre... esse teu sarcasmos bate tudo!

Daniel disse...

Eu também já meti o Uni no Sexo de um Salão. Se arranjarmos mais dez, deve dar para criar um sindicato.

POC disse...

Enorme final :)

Maria D Roque disse...

Queres ver que nos encontrámos no coiffeur e eu que sou pitosga nem reparei que eras um piqueno??? Escrever (tão bem) é um dom ... Cherish it...

Anónimo disse...

Quer cortar o cabelo e não lhe acontecer o filme de terror que descreve no seu post?

Então faça como eu: vá a um barbeiro e fuja do cabeleireiro. é como andar de taxi sem termos de ouvir que "isto" só se resolvia com um salazar...

marta disse...

eheheheh, qualquer dia convido-te para vires cortar o cabelo aqui ao cabeleireiro da aldeia, um mimo... esse admirável mundo das mulheres é uma fonte inesgotável de posts. repara mais a fundo nele e verás que não te arrependes :)