quinta-feira, 29 de novembro de 2012

rituais

Em minha casa sempre se discutiu e muito. É que discutíamos tudo, não havia refeição e telejornal que não acabasse com alguém a levantar-se da mesa (normamente eu) por diferendos de diversa índole, desde ideológicos e metafísicos, às mais corriqueiras desavenças familiares.

- Não é nada disso, vocês é que são uns comunas!
- Tu é que és um fascista meu egoístazeco, quem é que te paga as contas?
- Eu se quiser saio de casa, ouviste?
- Então sai! Mulher, ajuda-o a fazer as malas!
- Nãaaao, o meu fiiiillho!
Depois comia o jantar no quarto, muito amuado. Era giro, de certa forma era uma actividade como outra qualquer. No entanto, tinha noção da disfuncionalidade do meu núcleo familiar uma vez que as famílias dos meus amigos pareciam todas encantadoras e equilibradas e eu sentia-me mal e muitas vezes usava este tema para discussão em casa.
- Estamos sempre a discutir!
- Tu é que estás sempre a discutir!
- Eu sou o filho, vocês são pais, se eu sou assim a responsabilidade é vossa! - e abria velhos livros de psicologia juvenil e pousava-os na mesa com estrondo, com o indicador pousado numa frase que dizia que a criança era o resultado do meio social e familiar ou outra cretinice do género. Tinham sido escritos por hippies nos anos 60, eram completamente imbecis e eu sabia-o, mas fazia-o apenas por provocação. Os meus pais, que os compraram todos entusiasmados, também os começaram a achar desactualizados e irrealistas quando eu cheguei à puberdade. Lembro-me que o meu pai começou a interessar-se por armas medievais nessa altura, até construiu uma besta com um arco em fibra de vidro.
Às vezes eu ia a casa de amigos e ficava muito espantado. Eles tratavam o pai por você e davam um beijinho e reinava principalmente o silêncio durante as refeições, por vezes interrompido por conversa ligeira. A mãe servia a comida sem se queixar constantemente de ter feito o jantar depois de um dia de trabalho. O pai via as notícias e fazia apenas alguns comentários.
- Então como correu o dia?
 - Correu bem, pai. E o seu?
Ficava sempre à espera que qualquer coisa explodisse. Na minha casa, quando se falava pouco à minha mesa é porque alguém estava a engatilhar uma discussão épica, do género o meu pai estar todo fodido porque eu tinha enchido o computador de virus ou a minha mãe de olhos postos no prato de sopa, furibunda por causa das pegadas de lama do meu pai no soalho acabado de encerar. Mas ali na casa dos meus amigos não, eu ficava expectante e nada sucedida. Só anos mais tarde se vinha a saber que o pai tinha uma amante ou que a mãe era internada com uma depressão e divorciavam-se e os meus amigos também ficavam com depressões e mudavam de curso superior constantemente, alguns até iam parar a cinema, enfim, o cúmulo. Na minha casa nunca houve disso, ficaram casados até que a morte os separou. As discussões entre os dois foram esmorecendo devido a cansaço, um pouco como as luzes de uma lanterna com as pilhas cada vez mais fraquinhas. No fim, já só arrebitavam um bocadinho quando eu lá ia aos fins de semana.
- Vens cansado! Andaste nas boites? Gastas o dinheiro todo em porcarias!
Matavam as saudades assim e era duro porque quando eu aparecia lá já não discutiam um com o outro pois tinham tempo de sobra para o fazerem durante a semana. Não, ao fim de semana tinham de aproveitar bem o tempo comigo. Para garantir que tinham bastante tempo, a minha mãe começava por me acordar às 9:00 com o aspirador no meu quarto: 'aspiro sempre às 9 e não vou mudar isso porque o senhor príncipe quer dormir, andaste nas boites, gastas o dinheiro todo em porcarias'. Era muito complicado curar as ressacas naquela casa. 

Agora sou só eu e a minha mãe e então as coisas são mais sossegadas. Eu sento-me no lugar que antes era do meu pai e evito ver o telejornal. Ela não deixa de me enervar com profissionalismo, mesmo operando sozinha, porque decidiu  juntar ao seu arsenal de provocações o cepticismo e o pessimismo militantes que eram próprios do meu pai. Sabemos que dois minutos depois daquele 'humm...' após o nosso relato de algo extremamente injusto que nos aconteceu vai aparecer o tradicional 'tens a certeza que isso é mesmo assim como dizes?'. Por isso parece tão estranho a outras pessoas que um simples 'humm...' da nossa mãe possa originar tal reacção. Estás a exagerar, oiço, tudo porque me levantei da mesa mal ouvi aquele preâmbulo do 'humm' e ameacei ir já para Lisboa a 200 à hora, ouviste mãe, a 200 à hora que é como eu ando quando volto da "boite"  todo alcoolizado, mãe! Depois acalmo-me, a tempo da sobremesa e do café. A minha mãe faz uma excelente mousse de chocolate e eu ofereci-lhe uma Dolce Gusto aqui há tempos que faz um rico capuccino. E despachamos o resto do vinho, falamos de livros e filmes e ela anota as minhas recomendações num papelinho... De fora, isto pode parecer um bocadinho desconcertante, mas é tudo muito normal para nós.

10 comentários:

Maria D Roque disse...

É o protótipo duma família com valores, que se adoram e adoram desafiar-se até ao limite. Lá em casa também era um pouco assim, e depois de 74, 5 gatos pingados, 3 ideologias diferentes, era tiro e queda. A nossa hora de jantar parecia sempre um filme italiano.... Muitas, muitas saudades....

A info-excluida disse...

Parece o jantar lá de casa. E eu a achar que estava sozinha nesse drama. O dicionário jantou connosco muitas vezes, coitado.

RCA disse...

Com a minha mãe é mais ou menos o mesmo. Se bem que entre nós haja o acordo tácito de nunca concordarmos com nada.

G. Varino disse...

há mto tempo k n uso essa de voltar logo para lisboa

Verónica Sousa disse...

Lindo! Fiquei com saudades de almoçar ou jantar com os meus pais...

tata disse...

Espera lá... mas não tratas os teus pais por você?? :)

ME disse...

Normalmente a discussão à mesa lá em casa era com a minha irmã, que estava sentada à minha frente, e que acabava sempre com ela a levar um banho com a água do meu copo...só para refrescar os ânimos!!!

Marta M. disse...

Ainda vão ter saudades desas discussões todas. Acreditem.Aproveitem enquanto podem

nemsabesnoquetemetes disse...

Se não soubesse que sou filho único ainda dizia que nasceste em minha casa...

Morgana disse...

O meu pai morreu quando tinha 12 anos. Jantei sempre com a minha mãe que decidiu manter o estado de civil viúva e me criar sozinha. Por isso, decidi apaixonar-me (até hoje, ao fim de 21 anos)três filhos e esses são os meus jantares.. Tudo serve para berrarmos uns com os outros! E é maravilhoso!