sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Cada um é como Deus o fez, e muitas vezes até pior" - Cervantes

Gostei muito do Túnel de Ernesto Sábato. Arrumou-me um tema que pensei tratar: o ciúme. É o sentimento humano mais forte e mais interessante. Pus esse projecto de parte e volto aos Guaxinins Neuróticos, a minha especialidade digamos assim (creio que nem Cervantes, nem Shakespeare, nem Homero abordaram o tema dos Guaxinins Neuróticos). Terminei uns contos da Dorothy Parker, é muito boa mas há qualquer coisa de superficial ali, pelo menos nos contos, que a impede de ser comovente mesmo quando tenta. O melhor reside nos retratos irónicos. Por falar em escritores que não conseguem comover muito, voltei a ler uns contos de Nabokov. Ora aí está um senhor Escritor. É uma coisa verdadeiramente impressionante, o domínio das imagens oníricas, a fluidez com que se encaixam metáforas inesperadas de forma completamente natural e como elas nos suscitam imediatamente a impressão certa. Qualquer pessoa que se tenha atrevido a tentar escrever reconhece o quão elegante e eficaz é uma frase como "por volta das quatro desceu para a espaçosa sala de leitura, onde a lareira exalava calor laranja e pessoas invisíveis se afundavam em sofás de couro com as pernas estendidas a saírem de jornais abertos". Continuo, contudo, sem entender para que servem magistrais peças do puzzle se as peças do puzzle nem sempre formam um puzzle comovente. Isso é notório quando os contos se concluem com o tradicional golpe implacável nabokoviano, um fim violento ou cruel que irrompe pela tranquilidade e logo desaparece, deixando atrás de si um rasto de faúlhas como um raio que fulminou uma oliveira. Sentimos que era suposto aquilo perturbar-nos, mas nem sempre isso sucede, o mais frequente é mantermos a mesma frieza intelectual do princípio ao fim. Nabokov em certos contos, mais se assemelha a um pintor do que a  um escritor, com as suas personagens e paisagens suspensas num tempo melancólico e distante como num velho quadro. Nada disto é um defeito, mas dá-se o caso de eu ter uma costela de costureirinha que tem de sentir empatia com o escritor(a) e o Nabokov apenas me parece desumano. É extremamente útil do ponto de vista técnico, mesmo nas traduções - só o li traduzido - porque podemos, com toda a certeza, considerar a frase nabokoviana como a frase perfeita, uma espécie de grau máximo na escala de Richter do que deve ser uma frase, um abalo de talento que dura do principio ao fim, enquanto que outros mortais apenas fazem oscilar nervosamente a agulha do sismógrafo cá em baixo no 2 ou no 3.


7 comentários:

R. Vieira disse...

Ual. Que texto magnífico. E que opinião!!! Adorei! Vou lá procurar ler mais sobre o autor que referiste.

Um abraço.

Maria D Roque disse...

Gostei muito deste texto. Do Nabokov li a Lolita (clichéééé) há que séculos e gostei , mas não fiquei a aguar por mais...

Izzy disse...

Iniciado o countdown para o post de resposta do Alf...em 3, 2, 1 ...

Ega disse...

Pessoalmente quero que o Nabokov se foda. Não lhe perdoo as merdas com o Dostoievski.

Como o Nabokov está-se bem fodendo para mim, talvez um dia lhe leia qualquer coisa.

Curiosamente acabei de ler o Túnel muito recentemente. Um belo tratado sobre o ciúme sem dúvidas. Que edição leu o tolan? É que o Sabato está muito mal editado em Portugal. E porra, alguém que lhe publique o Abaddón el exterminador, já que tanta merda se publica por aí.

De resto, o Sabato morreu num Sábado, só para que fique a constar este aspecto nunca antes referido na crítica literária portuguesa.

Beatrix Kiddo disse...

flawless

só li a Lo-lee-ta, e comprei o Desespero

Anónimo disse...

Eu li o "convite para uma decapitação".
R.

Anónimo disse...

Uma escritora com contos que frequentemente terminam com um também golpe implacável é a Flannery O'Connor. Com uma escrita diferente mas impecável. Apesar de a escrita dela ser mais seca, na minha opinião funciona melhor. O golpe final consegue ser perturbador. Viciante, na minha opinião.
Do Nabokov só li a Lolita. E surge sempre outra coisa que quero ler, muito mais do que as restantes obras do senhor.

Joana