sexta-feira, 14 de setembro de 2012

o que pode fazer um liberal?

Só a extrema esquerda (PCP, BE) tem credibilidade para organizar protestos e propor alternativas à Troika neste contexto. Eu sou liberal como sabem e - como certamente não sabem - não existe qualquer réstia de liberalismo nem neste governo nem em qualquer outro que existiu no passado. Estou isolado, eu e meia dúzia de pessoas que lêem livros e estudam coisas. Estou habituado, isto é como gostar de Smiths e crescer numa vila de província all over again.

É como viver em ditadura. Se os resistentes são os comunistas, não é tempo para me preocupar com detalhes da organização da sociedade do futuro, mas sim com os do presente. Quando for para derrotar os comunistas nas eleições democráticas, cá estarei. Até lá, são meus aliados. Sou liberal e desde o início da crise financeira a recapitalização de bancos deveria ter sido reduzida ao mínimo e as coisas deviam colapsar saudavelmente. O novo sistema financeiro seria mais robusto, mais avesso ao risco e teria premiado os bancos mais cautelosos. .

Não me esqueço que, quando foi o crime (esse sim um saque) da privatização do BPN, só BE e PCP protestaram de forma assertiva. O negócio do BPN transitou suavemente de um governo do PS para outro do PSD / CDS com a benção do Rei, perdão, do Papa, perdão, do Presidente da República que ainda foi a tempo de retirar as magras poupanças e o beneplácito supervisor a garantir que não houve falha de supervisão. Por outro lado, PS, CDS e PSD concordaram com o bailout de bancos como o BCP ou o BPI injectando capital pago pelos nossos impostos, abdicando da justa nacionalização, salvando os accionistas privados e garantindo-lhes os ganhos futuros, enquanto nós receberemos em troca uns juros miseráveis.

E no meio disto, uma manifestação de reacção a umas medidas. Identifico-me com parte do manifesto do Que se Lixe A Troika que serve de base à manifestação de amanhã, 15 de Setembro, é assim emotivo e bonito, parabéns aos autores.

Contudo, não me consigo identificar com dois pontos fundamentais desta manifestação do que se lixe a Troika, para além do naming pueril e estúpido que vem sendo hábito nas manifestações deste tipo.

O primeiro é escamotear que o Estado como o conhecemos, e cujo desaparecimento é lamentado no manifesto, existiu em grande parte devido a financiamento externo e que esse financiamento foi excessivo.

Os alemães levam esta merda a sério. Impuseram 3% de déficit no tratado porque logo na altura houve economistas alemães que avisaram que isto podia dar merda. E o que fizemos nós, os gregos, os espanhóis? Aldrabámos. Nunca percebemos bem a necessidade essas coisas dos limites de endividamento. Escondemos os deficits reais com malabarismos de transferências de fundos de pensões, PPPs, não inclusão de obras do Metropolitano como despesa pública, buracos como o da Madeira eram desconhecidos etc.

Tudo isto denota que nem um só governante português alguma vez compreendeu o objectivo de um limite ao endividamento, mas tão só interpretou o limite como uma espécie de regra burocrática que um gajo pode contornar e fazer o jeitinho para ser eleito, precisamente porque parecia garantir o tal Estado Social e a ilusão de progresso, o mesmo que agora tantos portugueses lamentam como perdido. Nunca o tivemos, pelo menos, não o tivemos ao nível que temos hoje e nenhuma solução vai fugir a isso. Emprestaram-nos um. A crédito e a prazo.

E depois damos com estes cartazes.



Na Grécia assistimos a isto. Ficamos com o orgulho patriótico ferido e inchamos tipo peixe balão e a culpa é externa. São os especuladores, são os judeus do FMI, é a malvada da Merkl, é o contribuinte alemão que está a financiar a nossa dívida e que aceitou desbloquear mais de 190 mil milhões de euros para o BCE: eles têm a culpa. Nós, portugueses, somos umas vítimas, agora queremos as nossas vidas, quando ainda há meses tínhamos um consenso de 85% de votos nos partidos que assinaram o acordo da Troika, aquilo soava ao mesmo tipo de mama que tivemos com os fundos comunitários.

Dia 29 de Setembro há uma manifestação mais a sério, convocada pela CGTP.

A CGTP-IN convoca Jornada de Luta para Lisboa / Terreiro do Paço - Dia 29 SET, 15.00 H
para "Acabar com esta política e com este governo antes que este governo e esta política acabem com o país".


A política não funciona nem para o propósito que tem: pagar a dívida, reduzir o déficit. É útil demonstrar aos líderes europeus, à troika, ao fmi, aos alemães, que existe uma reacção à austeridade e que há um consenso contra a lógica económica dessa solução. O Governo é miserável e incompetente. Não tem credibilidade, não inspira confiança, desde o fundamental da ausência de estratégia até ao mais acessório e anedótico, como cantar o chamava-se Nini vestia de organdi horas depois de anunciar medidas draconianas.  Está tudo bem. Talvez vá a essa então e aturarei estoicamente os previsíveis gritos anti-Merkl como aturo os mongas no estádio da luz a assobiar o Cardozo.


13 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Góis Nogueira disse...

Caso que esta é de longe a mais bem explicada razão de se ir à manifestação de amanhã, isto sem querer obrigar ou desobrigar ninguém. Os movimentos em si e os cartazes tornam-se irrelevantes perante o delírio em curso do demente do Passos Coelho e do Gaspar e comp. Demente não, criminoso.
http://declinioqueda.wordpress.com/2012/09/14/porque-ir-a-manifestacao-no-sabado/

Pedro Góis Nogueira disse...

Corrijo: é Creio, não é Caso :)

Izzie disse...

Caraças, que escrevi aqui um comentário enorme, uma coisa que me custou horrores, a dizer que concordo com um liberal e tenho até de beber um copinho d'auga que tenho a garganta a arder do sapo que engoli, e desapareceu. mas pronto, tens toda a razão, o manifesto e tema da manif é tolo e pueril, mas vou à mesma, não contra a troika e a merkel, mas contra a política que este governo, como devedor, está a fazer. gostava que Pt saísse disto de cabeça erguida, o problema é que o plano, ou coisa que eles inventaram vai matar-nos primeiro.
Mas dia 29 vou outra vez, não seja por isso. Até é naquela que considero a localização correcta (praça josé fontana? foi alguém que mora por ali que marcou, foi?)

Maria D Roque disse...

Eu vou, porque cometi o crime de votar num partido desta coligação governamental , e já estou farta de me autoflagelar. Só não percebi a relevância do ponto de encontro, nem do percurso à Praça de Espanha...

Stiletto disse...

Não concordo com o manifesto. A culpa não é da Troika. A culpa é nossa que gastámos mais do que ganhámos durante anos a fio. A culpa é dos nossos governantes que se preocuparam mais em ganhar eleições e dar empregos aos amigos que em aumentar a competitividade de Portugal.
Estou revoltada por uma série de medidas que este governo ainda não tomou e devia ter tomado, estou revoltada pela sua inépcia em comunicar, estou revoltada pela incompetência de muitos, pela desonestidade de imensos, pelo comodismo de outros tantos.
Mas NÃO participo numa manifestação com um manifesto destes. A Trika não tem de pagar as nossas dívidas, por muito que isso nos custe.

Stiletto disse...

(e Deus nos livre de a Troika nos retirar o financiamento...)

Anónimo disse...

Que grande salganhada de pensamentos num texto com potencial... Não percebi nada do parágrafo do bpn, é uma grande confusão. Depois, Metro e afins não foram malabarismos per se - as regras eram iguais para todos os países, também permitiam à Alemanha ou Holanda atirar os buracos dos transportes públicos para fora do défice (como o fizeram). As regras contabilísticas mudaram e agora já ninguém pode esconder.

Finalmente, naming porquê? Porque não dizer só nome?



Tolan disse...

Se achas que a alemanha ou a restante europa do norte tiveram o mesmo rigor contabilístico nas finanças públicas que portugal, grécia ou espanha, se queres comparar o que significam, na realidade, 4% de deficit contabilizados em Portugal e 4% contabilizados pelos alemães, não sou a pessoa ideal para discutir contigo.

Anónimo disse...

lol Contra a Troika... mas se nem a troika concorda com estas medidas...
I.Punk

Tolan disse...

Quanto ao parágrafo do BPN, esse nós nacionalizámos e vendemos depois a um banco angolano num negócio de contornos nebulosos e que nos custou (até agora) 5,8 mil milhões de euros. Mas os outros bancos resgatados, esses não nacionalizámos. Emprestámos, a taxas de juro bem convidativas. A maior parte do dinheiro da troika destina-se a isso, diga-se. Daqui a um tempo esses bancos podem valer mais do que valem hoje visto que as suas cotações estão na fossa. Nós (o estado somos "nós" e só existe porque "nós" pagamos impostos) só vamos receber os juros acordados que serão, previsivelmente, inferiores à valorização dos títulos, quando fomos nós que bancámos o guito para os aguentar.

No Reino Unido nacionalizaram parcialmente o Lloyds e o Scotland PLC. Na Islândia, apesar de ser um caso diferente, a forma de tratar o problema foi ainda mais radical. Na Bélgica, Holanda e Luxemburgo nacionalizaram o ING. Cá, quem são os únicos que defendem a nacionalização de bancos falidos como o BPI ou BCP? Lá está: BE, PCP. Percebem porque estou deprimido?

Isabel disse...

Eu também vou. Sempre gostei de manifestações. Gosto do calor humano e de ver toda a gente junta a lutar por uma causa. Nunca me hei-de esquecer do cordão humano por Timor. Foi lindo!

Anónimo disse...

percebo e partilho da tua depressão. é dificil ser liberal em portugal.