terça-feira, 25 de setembro de 2012

deficit e corrupção

Parece inevitável que a Grécia saia do Euro. Aposto 5 contos de reis como Portugal também vai sair. Se a escolha entre ficar e sair é complexa de avaliar do ponto de vista económico, do ponto de vista político, parece óbvia. A Europa não salvou a Grécia. A utopia nascida em tempo de vacas gordas do crédito disponível para a europa do sul esfumou-se. Em vez de se optar por um programa de ajustamento de longo prazo, com reestruturação da dívida, focado na redução do peso do estado pela via de despedimentos, cortes e privatizações, combinada com investimentos para aumento da produtividade (convergência europeia, lembram-se?) optou-se também e sobretudo pelo aumento brutal de impostos, esmagando a economia privada. E tudo para quê?

O povo grego deve ser responsabilizado pelo facto de bancos estrangeiros, nomeadamente alemães, terem emprestado dinheiro aos políticos corruptos e irresponsáveis que os governaram? Na Califórnia, uma espécie de Grécia seis vezes maior e igualmente falida, o aumento de impostos foi sucessivamente bloqueado por uma democracia que funciona, forçando cortes na despesa ou a bancarrota de cidades.

E nós? José Sócrates conseguiu duplicar a dívida pública portuguesa no seu mandato. Em Março de 2011, num cenário já de crise aguda e com eleições anunciadas, perdeu o pudor e aumentou  os limites do ajusto directo que ele próprio introduziu em 2008, escancarando ainda mais a porta à corrupção total. Foi estudar filosofia deixando um país endividado enquanto que a sua família movimenta 383 milhões de euros nas Caimão, Man e Gibraltar.

Agora temos Relvas e um governo maçónico, Passos Coelho produto das jotas, afilhado de um barão que lhe construiu um currículo de ar, Paulo Portas ministro responsável por um processo de aquisição de submarinos que, na Alemanha levou à condenação de corruptores e que em Portugal misteriosamente não teve os equivalentes corrompidos etc. etc.

Obviamente que resolver o problema da corrupção e falta de transparência em Portugal não resolve só por si o deficit, mas resolve um problema não menos importante: o da falta de legitimidade e credibilidade para exigir o que quer que seja a um país. Por isso apenas, independentemente das medidas, vale a pena ir para a rua e ignorar as expressões sedativas do "manifestações são más para a imagem do país", "o povo português é digno e sereno", "temos de demonstrar coesão", "era preciso um governo de salvação, sem eleições", "temos de recuperar a confiança dos investidores", "somos o bom aluno", "não somos a Grécia"...

A democracia pode induzir instabilidade e incerteza no curto prazo, mas o que emergir dela será mais robusto e transparente do que uma paz burocrática e neutra sobre a qual o próprio projecto europeu foi amplamente construído, com o resultado que está à vista. Agora tentam limitar o debate a um leque reduzido de opções, como se não existisse a opção de recusar o pagamento da dívida e optar pela saída do euro, nem que seja com o mero intuito de ajudar à negociação de um prazo mais alargado e de outro de tipo de medidas. Face ao exemplo grego, surge a questão: a saída do euro só é válida quando é uma inevitabilidade e um país está de rastos para lá de qualquer solução?

12 comentários:

nAnonima disse...

"Obviamente que resolver o problema da corrupção e falta de transparência em Portugal não resolve o deficit, mas resolve um problema não menos importante: o da falta de legitimidade e credibilidade para exigir o que quer que seja a um país."

Mais uma vez, os meus aplausos!

Anónimo disse...

Sim, quando a Alemanhã estiver distraida a defender-se na 3ª guerra mundial.

Andorinha disse...

Grande post Tolan. Disseste tudo o que eu queria dizer mas não sabia como. Eu que sempre achei que a saída do Euro seria uma desgraça cada vez estou mais convencida que seria a melhor coisa, ao menos o sacrificio seria justificado pelos Portugueses, nao por submarinos que passeiam pelo Tejo.

Anónimo disse...

Agora falando a sério, não há maneira de bater o pé e dizer que não pagamos a dívida? Que não pagamos mesmo!?

Izzie disse...

Ah, mas não sabes? Em Portugal não há políticos corruptos, só pessoas muito mal intencionadas. Poque é perfeitamente normal um ex-PM estar a viver fora com um rendimento mensal milionário que ninguém sabe de onde vem, é perfeitamente normal serem escritórios de advogados de amigos a fazer pareceres, contratos e até leis, é perfeitamente normal um deputado ter interesses em empresas de sectores fundamentais e para os quais a AR e o governo legislam.
É tudo normal, e coitados, ainda ganham pouco, que são pessoas com muitas despesas, não comem qualquer coisa, e a um empregado fabril qualquer pão com chouriço serve.

(já começo a perder a esperança que isto mude)

tata disse...

Ai que dor na alma tolan...

Maman disse...

Há tanta coisa que nos escapa...
E a política monetária?
Ponhamo-nos noutra perspectiva .
Estes países têm tanta moeda em circulação, sem o correspondente PIB, que tal sacar-lhes a moeda em juros para ajustar a economia? Sempre ganhamos com isso.
O euro tornou-se impertinente, temos que lhes chamar à atenção que o dólar é quem manda.
E os chineses? Se os Américas nos vão pagar em dólares convem que seja qualquer coisa que valha.
E o salve-se quem poder ou o salve- se COM PODER.
Se for possível equacionar todas as variáveis talvez seja possível encontrar a solução. Duvido que seja possível.

Maman disse...

Há tanta coisa que nos escapa...
E a política monetária?
Ponhamo-nos noutra perspectiva .
Estes países têm tanta moeda em circulação, sem o correspondente PIB, que tal sacar-lhes a moeda em juros para ajustar a economia? Sempre ganhamos com isso.
O euro tornou-se impertinente, temos que lhes chamar à atenção que o dólar é quem manda.
E os chineses? Se os Américas nos vão pagar em dólares convem que seja qualquer coisa que valha.
E o salve-se quem poder ou o salve- se COM PODER.
Se for possível equacionar todas as variáveis talvez seja possível encontrar a solução. Duvido que seja possível.

Pedro Almeida disse...

Se não fosses gay dava-te um beijo na boca, ó Tolan!

É isso mesmo, deviamos neste momento estar a negociar uma saída ordenada e coordenada do Euro com a Europa e o BCE e ao mesmo tempo um financiamento de longo prazo com o FMI.
A União Europeia morreu enquanto tal, nunca houve solidariedade entre nações, apenas interesses.

Quando oiço alguém falar que a culpa é só nossa e que vivemos acima das nossas possibilidades só me apetece pegar na pistola.
Mas não foi este o sistema que nos impuseram???
Porque razão quase todo o material militar que temos foi comprado a alemães e franceses???
Porque nos obrigaram a destruir a frota pesqueira e a agricultura em favor dos agricultores franceses???

Isto a que os nossos "parceiros" europeus nos estão a obrigar chama-se usura!
A responsabilidade tanto tem que ser de quem é obrigado a pedir empréstimos como de quem força esses empréstimos sabendo que são impossíveis de pagar.

O resultado desta brincadeira toda é que os países ricos do norte da Europa têm todo o sul manietado e com tendência a ser semi-escravizado. Não sei se sempre foi esse o plano ou não, mas resultou.

Isto agora ou acaba mal ou acaba mal.

Izzy disse...

Mais uma vez muito bem escrito mas duvido que a saida do euro aconteca. Os gregos nao querem, e se eles nao sairem nos nao saimos sozinhos. Se calhar o que devia haver era duas moedas, o euro do norte e o do sul. A proposito: http://www.nytimes.com/2012/09/02/magazine/7-story-lines-to-watch-in-the-euro-crisis-this-fall.html?_r=2ref=magazine&.

Agora, o que deve acontecer o quanto antes eh fortalecer o combate ah corrupcao. Nao eliminar, isso eh uma utopia mas minimizar. Todavia confesso que para isso nao tenho solucoes. A justica nao funciona, toda a gente sabe disso. Talvez um movimento Occupy Assembleia da Republica?

Anónimo disse...

«Na Califórnia, uma espécie de Grécia seis vezes maior e igualmente falida»
Desculpa mas isto ou é má vontade ou desconhecimento do que está em causa.
Basta ler isto http://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_California para se entender que a California não é a Grécia. Nem a Grécia é Portugal. Nem a Irlanda é Portugal.
Ir a manifestações e ler o Arrastão não dá crédito. Portugal utilizou desde "sempre" a desvalorização e a desorçamentação para competir... na Europa. Os custos do trabalho vai ter de baixar. Ou a Constituição "Cubana" vai ter de ser queimada. Sem estes dois pontos, com maior ou menor recuperação, não vale a pena. A Suécia fez o mesmo em relação à TSU, mas em 8 anos. Aumentando 1% ao ano.
R.

Maria D Roque disse...

Rápido e certeiro... tem a certeza que não é primo do Lucky Luke ???