quarta-feira, 18 de maio de 2011

Um instantâneo na vida de Tolan, In Cold Blood style


1- A senhora G e a galinha Felizmina
Das quatro galinhas e um galo da senhora G., sem dúvida que a Felizmina era o seu orgulho, uma galinha de penas douradas, de 11 kg, com a espantosa capacidade de por um ovo por dia. ‘Ela põe ovos perfeitos, vem cá gente comprá-los, gente das aldeias vizinhas. Compram ovos das outras galinhas também, que eu vendo à meia dúzia, mas os da Felizmina marco com um F, com um marcador de feltro’, costumava contar a senhora G., quando ia ao padeiro de manhã. Por vezes levava um ovo da Felizmina, para mostrar às vizinhas.
Felizmina debicava milho naquele dia, era uma galinha feliz, uma galinha que se preocupa com as coisas que as galinhas se preocupam. Ela gostava bastante do galo, o Marcelo, e o Marcelo também gostava dela. Era vítima da inveja das outras galinhas que a olhavam de lado e comentavam que ela era gorda e que usava drogas para ter ovos maiores.

2- Podemos ser atacados por aliens
Pelas dezoito horas do dia 14 de Agosto de 1985, Tolan limpou a espingarda de pressão de ar ,marca Diana, ofercida pelo seu pai uns meses antes por ocasião do seu oitavo aniversário, à revelia dos protestos da mãe. Espreitava pelo cano e soprava, sob o olhar atento do seu cão, o Garoto.
Garoto viria a comentar às autoridades paternas que ‘woof woof auuhh woof woof auuhh woff grrunf’ mas o seu depoimento foi declarado inválido no julgamento sumário que decorreria umas horas depois.
Com a lâmina do canivete que o pai lhe oferecera pelo sexto aniversário à revelia dos protestos da mãe, vincou uma cruz na cabeça de onze projécteis de chumbo e colocou-os numa pequena caixa de fósforos. A cruz aumentava o poder destruidor dos chumbos e servia-lhe de marca pessoal também. As restantes munições foram guardadas no bolso direito do fato de treino. Normalmente, não precisaria de mais de meia dúzia, mas as coisas podiam correr mal, ‘nunca se sabe quando podemos ser atacados pelos aliens’, comentava frequentemente aos amigos da escola.
‘Achei que ele estava estranho nesse dia’, comentou a mãe de Tolan, ‘mal tocou nos Choco Crispies, ele que adora Choco Crispies… É um bom menino, um pouco estranho, por vezes parece normal, está sempre a correr de um lado para o outro com o cão e com o Snoopy de peluche mas depois é capaz de ficar longos períodos calado e pensativo e sabemos que ele está a preparar alguma. Sempre que está sossegado é porque está a preparar alguma grave. Devia ter percebido.’

3- Raio do puto, estava ali anhar feito parvo
Tolan montou a bicicleta com a pressão de ar a tiracolo, o boné de caça do pai enfiado até às orelhas e dirigiu-se para as traseiras da casa dos vizinhos, a dona G. e o senhor F., que ficava na ponta norte da aldeia de C., isolada. Era um fim de dia quente e os morcegos confundiam-se com as andorinhas. Chegou à casa da dona G. Era uma casa antiga, de grandes dimensões, com um frondoso jardim na frente e muros altos, decadente pela falta de obras e parcos recursos dos seus habitantes, agricultores.
Na parte traseira havia uma pocilga com porcos, galinhas e coelhos e dois cães permanentemente presos que davam o alarme quando um estranho se aproximava. Tolan desmontou a bicicleta e caminhou com cuidado para não fazer ruído. Armou a pressão de ar com um clac metálico disfarçado pela passagem da Casal Boss do Tó Moleiro que, intrigado pela aparição de Tolan, abrandou e acenou com a mão. Tolan não respondeu . Não podia revelar a sua presença aos cães acorrentados pois estes ladrariam e as ratazanas não saíriam da toca. No café da aldeia, Tó Moleiro comentaria ‘vi o filho do V., com a pressão d’ar, raio do puto tava a anhar ali feito parvo, em cima do muro do sô F', depoimento que poderia ter sido útil mas que acabou por não ser necessário.

4- A grande pilha de estrume
Rastejando lentamente em cima do muro do quintal, colocou-se em posição de sniper. O vento estava contra pelo que Tolan não deveria ser detectado pelo olfacto das ratazanas dos cães. Além disso, havia uma grande pilha de estrume junto ao muro que exalava uma cortina de odor.
Tinha uma boa visão sobre a parte norte das traseiras, conhecia os buracos de escoamento de águas, o amontoado de lenha e os tijolos empilhados. As ratazanas costumavam surgir daqueles esconderijos com o cair da noite e gatinhavam aos sopetões rápidos até às gamelas de ferro dos cães para comerem os restos de sopa de pão. Tinha de agir depressa, mais cedo e a luz intimidaria os gigantes roedores e depois da noite cair, estaria demasiado escuro para atirar com precisão.
Quatro galinhas e um galo patrulhavam o quintal, debicando o chão e fazendo cot cot cot’s ocasionais. O ar estava infestado de melgas e mosquitos, atraídos pelo estrume no muro abaixo e pelas águas estagnadas da pocilga de porcos
Imóvel, esperou pela primeira vítima, controlando a respiração e os batimentos cardíacos, com a coronha da arma encostada à cara, relaxando a vista o mais possível. Quando era picado por uma melga, resistia ao impulso de se mexer ou dar um estalo na face. Aproximava a mão devagar, resistindo à dor e tentava esmagar o insecto com um movimento silencioso. A primeira ratazana apareceu pelas 19:45, os seus olhos vermelhos a espreitar do buraco de evacuação das águas junto ao muro e Tolan disparou, errando o alvo. Os cães sobressaltaram-se e ladraram. Tolan esperou que se calassem mas sabia que só dali por umas horas as ratazanas voltariam a aventurar-se no quintal.
Mesmo assim deixou-se ficar teimosamente à espera, sendo cada vez mais picado por melgas. Sentia já alguns altos a formarem-se-lhe na face e esta a deformar-se progressivamente. Irritado, apontou a arma à cabeça de uma galinha de 11kg, dourada. O tiro era praticamente impossível, estava a mais de 20 metros e no escuro.

5- eu não lhe queria acertar pai!
Bateram à porta e os pais de Tolan precipitaram-se, estavam preocupados com atraso do filho para o jantar. Depararam-se com a senhora G, lacrimejante e nervosa. Numa mão segurava com firmeza o braço de um Tolan de cara deformada por picadas de melga e sujo de estrume até ao cabelo e na outra a Felizmina. Morta.
‘Eu não lhe queria acertar pai!’, começou por justificar-se Tolan na banheira, os olhos semicerrados pelas bolhas de sabão, enquanto a mãe o esfregava com uma escova normalmente utilizada para escovar o Garoto.
Tolan encarou o castigo com naturalidade, trancado no quarto, sem jantar. O Snoopy era o seu companheiro de cela. No entanto, a prisão mudou-o. A companhia de Snoopy, um perigoso cão de peluche, transformou-o profundamente. Estavam a combinar um assalto às nésperas do senhor P. quando o pai bateu à porta do quarto.
‘Porque fizeste aquilo? Se continuas assim não te vou oferecer a caçadeira júnior que vi no outro dia em TV, à revelia dos protestos da mãe.’
E Tolan fez a confissão, às 21:34 desse dia.
‘Eu não lhe queria acertar. Foi sem querer. Apontei e disparei e ela caiu para o lado. Uma das patas ainda estremeceu um bocado, assim ó. As outras galinhas fugiram. Primeiro pensei que tivesse adormecido de repente. Podia ser narcoplética.
‘Narcoléptica’ – corrigiu o pai.
‘Isso. Fiquei ali meia hora parado. Então pensei que era melhor ir lá abaixo e levar o corpo comigo, tinha de o esconder, sem corpo não haveria prova e eu não queria ser apanhado. E a mãe podia fazer uma bela canja. Tu gostas de canja e a mãe também. Pensei em vocês. Também em eliminar as outras galinhas e o galo, os cães prometeram-me que não diziam nada a ninguém, o Garoto e o Snoopy são amigos deles. E tínhamos canja para o resto do ano. Desci o muro, os cães ladraram muito e tive de correr depressa para a Felizmina. Apanhei-a, era pesada. Estava a escorrer sangue à brava da cabeça e as patas não paravam de estremecer, como se estivessem a andar. Depois as luzes da casa da dona G. acenderam-se e sabia que ela vinha ver o que se passava. Não podia sair pela frente e não conseguia subir o muro. Então vi o monte de estrume, dava quase até ao muro e pensei que podia subir o monte e trepar pelo muro. Pensei que o monte fosse fofinho e que só me ia enterrar até aos pés e fui a correr com a Felizmina agarrada pelo pescoço, saltei e afundei-me todo. Quando a dona G. saiu para o quintal viu-me a sair de lá de dentro coberto de esterco e com a Guilhermina a deitar sangue e a estremer das patas. Assustou-se pai, ficou mesmo com os cabelos em pé. Mas eu disse-lhe ‘boa noite, vai-se andando?’ e tudo, acho que fui bem educado.'

5 comentários:

Tolan disse...

«ai, este é muito grande, tem montes de letras...» etc. ya.

Mary disse...

MUITO BOM!!! E a canja estava boa?

MA disse...

Muito Bom, mas foi a Guilhermina que ficou na mão do Tolan a "deitar sangue e a estremer as patas"?

hazinheira disse...

ena tanta letra... nao há em BD, como o outro das prunes?

Josué disse...

Quantos candeeiros destruíste com a Diana? :´)