terça-feira, 8 de março de 2011

elementar

(...)Ora, como se sabe, as massas em geral, e o povo em particular, é pouco mais do que analfabeto. E entregar o poder decisório nas mãos deste mesmo povo, facilmente influenciável por ondas mediáticas de efémera duração, destituído de conhecimentos específicos sobre a matérias, e por vezes sem um pensamento lógico-racional sedimentado, é conferir logo à partida ao concurso, seja ele de culinária, seja ele de música, um final no mínimo desprimoroso.
As escolhas, no que toca a assuntos artísticos ou criativos, têm de ser feitas, se a coisa é para ser levada minimamente a sério, por gente que perceba daquilo. No fundo, as escolhas às elites. E isto faz ainda mais sentido quando as escolhas dizem directamente respeito à representatividade artística do país num contexto internacional, onde o achincalhamento e o vexame facilmente podem surgir. (...)

Mas vem isto a propósito da celeuma que está a provocar a votação pública que elegeu a canção “A luta é alegria”, com letra de Jel e música de Vasco Duarte, como vencedora, no passado sábado, do Festival RTP da Canção (e que vai ao Festival da Eurovisão 2011, em Dusseldorf, na Alemanha, em Maio, representar Portugal). É tudo tão ridículo que alguém já se encarregou de criar petições online e grupos no Facebook a pedir a suspensão e o afastamento da música vencedora. Só por causa disto, o Jel até terá todo o meu apoio (apesar de não apreciar o género politicamente incorrecto pelo politicamente incorrecto que o artista explora). Pelo menos, e ao contrário de que se viu em outros anos, este parece ter noção da figura triste que irá fazer. E a isso, parecendo que não, tem de se reconhecer algum valor.
Ega, no Metafísica do Esquecimento.

8 comentários:

purpurina disse...

mas isso é simplificar a questão e no fundo menosprezar as massas que deram a vitória àquela canção. o voto não foi dado pela qualidade musical. sê-lo-ia se o festival ainda pesasse alguma coisa no panorama cultural português (como ainda pesa no escandinavo, por exemplo), mas ninguém o leva a sério mesmo. é assim tão terrível que se tenha tornado em mais uma forma de protesto político* (bom ou mau, isto já é outra conversa)?

*isto não é autorizado pelas regras do festival, daí os avisos todos que aparecem ligados a esta canção. a letra pode ser muito inócuazinha se tomada literalmente, claro, mas neste caso interessa é como as pessoas que votaram nela a ouvem.

Tolan disse...

Atenção, o Ega até gostou da vitória dos Homens da luta, vou só acrescentar essa parte do texto dele porque pode dar a impressão errada. Eu pessoalmente também não achei mau eles terem ganho.

Tolan disse...

e sim, de facto desprezo o voto das massas em tudo menos na democracia. Há uma ditadura das massas. As massas já decidem o que vende. Penso que devia ficar por aí. Não deviam decidir 'o que é melhor'. Concursos seriam ocasiões para haver algum avanço e educação das massas. A título de exemplo, veja-se a inenarrável lista que o Blitz publicou com os 10 melhores discos da década de 90, votados pelo público... Só dos U2 estão lá 2 e ainda há Pearl Jam (!?) Do Odelay do Beck ou do Blue Lines dos Massive Atack, nem sinal. Que se fodam as massas, é o que eu acho.

Tolan disse...

Outro exemplo triste são aquelas listas dos 100 melhores filmes de sempre, votados pelo público, e que incluem sempre uns 50 blockbusters dos últimos dois anos.

Tolan disse...

Quanto à "luta" que referes, não a vejo no caso dos homens da luta :)

Sempre achei os Homens da Luta uma coisa sem piada nenhuma, mas parece-me que gozam com a luta em si e com os clichés das canções intervenção. Por acaso foram apanhados no turbilhão dos tempos e estão a surfar a boleia.

Muito melhor o trabalho do eterno candidato Manuel João Vieira, esse sim é que devia representar Portugal...

Ega disse...

O segundo comentário do Tolan diz tudo.

TOlan, escrevi esta posta depois de ter bebido umas cervejas japonesas (na verdade até eram checas mas vendem-nas como sendo japonesas), e além disso se soubesse que ias partilhar aqui tinha feito uma revisão. Só nesta passagem detectei uns quantos erros de concordância. :(

purpurina disse...

(estou com um bocadinho de receio de responder)

concordo com quase tudo o que escreveram, embora tenha dificuldade em perceber como é que se pode "desprez[ar] o voto das massas em tudo menos na democracia". o mesmo raciocínio que se usa para a cultura não se pode aplicar à política? (provocaçãozinha traiçoeira...)

de qualquer maneira, acho que continuamos a falar de coisas diferentes. não estava a discutir o valor da votação do povo em matérias que exigem alguma educação (musical, cultural, etc.) porque não considero que tenha sido isso o que aconteceu neste caso. aquela canção não ganhou porque o povo achou que era m'ta bnita, contra a opinião dos especialistas - aliás, por isso é que se formaram imediatamente grupos indignados com a escolha. a motivação do voto foi outra.

isso do manuel joão vieira ser uma melhor escolha não é um nadinha rebuscado? para além de fugir à questão (o voto espelha a pouca cultura musical dos votantes ou não foi a mestria musical que ganhou os votos?), nem sequer é uma hipótese porque ele não participou no festival.

quanto ao texto do ega, talvez o tenha percebido mal. o que li foi: o sistema é mau, mas vocês escolheram-no por isso agora têm é de se aguentar com o resultado e calar.

pode-se dizer tanta parvoíce acerca deste assunto, talvez me esteja para aqui a enredar.

Tolan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.