sábado, 18 de dezembro de 2010

O Truman Capote é má pessoa

Não gosto dele. É esmagador e cruel, pelo menos aqui nos contos. É demasiado bom aos 20 e poucos. Não percebo como há pessoas que escrevem contos e que não são ele ou o Theckov ou o Saroyan ou o Salinger ou o Poe ou o Bukowski . Há pessoas que escrevem e que eu não percebo também porque o fazem quando as comparo comigo. Portanto, suponho que tudo isto é uma longa cadeia de pessoas imperfeitas que deviam sentir-se esmagadas e desistir. E devia ser assim em tudo. Por exemplo, o Cristiano Ronaldo desistia de jogar à bola por causa do Messi e por aí abaixo até ao plantel do Sporting.Uma das muitas coisas que acho astronómicas no Capote é a capacidade de pincelar uma personagem numa frase com metáforas inesperadas e que nunca, mas nunca, soam forçadas. Descrever pessoas é uma das minhas maiores dificuldades, fiquem a saber. Às vezes as minhas descrições das personagens assemelham-se ao que eu relataria à polícia caso essa personagem me tivesse furtado o telemóvel na via pública. E mesmo essa descrição seria má e os senhores polícias diriam que aquele teria sido a pior descrição que alguma vez comunicaram pelo rádio aos carros patrulha.

E os polícias nos carros patrulha diriam certamente o mesmo e comentariam os parcos recursos estilísticos na caracterização dos olhos do assaltante, que não são apenas grandes ou pequenos, juntos ou afastados, castanhos ou azuis mas que "podem olhar para o infinito como alguém que se tenta recordar de um poema perdido" e eu a ouvir tudo na esquadra e o senhor inspector a encolher os ombros e a desculpar-se pelo rádio que não foi ele, que fui eu que o descrevi assim e a comentar que ainda na semana passada roubaram o timex ao Lobo Antunes e ele descreveu o meliante com metáforas tão boas que o apanharam no próprio dia.

No romance esta pecha pode ser mitigada mas no conto é porreiro condensar a primeira impressão numa penada. E quando queremos fugir propositadamente à descrição retrato robot da polícia, introduzindo elementos inesperados, idiossincrasias originais, tiques, pormenores, acabamos por ser como os maus escritores que escrevem pior do que eu, em que se vê bem que, quando atribuem uma característica destas a uma personagem, na realidade ela não é assim, ele está a mentir, o traste sem talento, só está a dizer aquilo porque soa bem que alguém tenha aquela característica para encaixar no perfil e isso torna a cena previsível e muito pouco realista porque a realidade tem de ter as naturais incongruências que as pessoas têm entre aquilo que são e o que parecem, fisicamente.

6 comentários:

masquediabo disse...

Tenho o livro à espera de ser lido...

Aladdin Sane disse...

acabei de encontrar isto (aliás, está a passar o genérico neste momento):
http://www.youtube.com/watch?v=GGsZTh_HWPU&feature=related

Demo Gra Pia disse...

Não gosto dele.
Pois está morto e deve cheirar mal
é pô-lo na rua


É esmagador e cruel, pelo menos aqui nos contos.
crescido na depressão chamada grande se fosse feliz era sócrates


É demasiado bom aos 20 e poucos.
A árvore da noite suponho
quem se chama Streckfus Persons,
geralmente arranja umas alterações
de personalidade e de resto começou a escrever aos 11
teve muito tempo para se desenvolver

Não percebo como há pessoas que escrevem contos e que não são ele ou o Theckov ou o Saroyan ou o Salinger ou o Poe ou o Bukowski . Há pessoas que escrevem e que eu não percebo também porque o fazem quando as comparo comigo.

é deixar de fazer comparações....

Beatrix Kiddo disse...

Matai o buda

Diego Armés disse...

Por mim, estou perfeitamente encantado com esta passagem:

"ainda na semana passada roubaram o timex ao Lobo Antunes e ele descreveu o meliante com metáforas tão boas que o apanharam no próprio dia."

Tolan ao Panteão! (Até fica perto e tudo, não dá trabalho a ninguém.)

Luna disse...

E nao deixa de ser irónico que seja o autor do livro que deu origem ao filme mais amado de sempre da bloga cor de rosa. ;)

"Mooooooooon river..."

(que descobri uma vez cá por casa com o nome "boneca e luxo". pior tradução de sepre)