quinta-feira, 14 de outubro de 2010

a euforia do escritor

Estou tão excitadinho com o meu romance, só me falta dar pulinhos e bater palminhas como uma rapariguinha numa loja da hello kitty. Estou a aproximar-me das 70 mil palavras, a estrutura está feita. Há dois dias pus-me a reler umas partes escritas há quase 4 meses e são do caralho. Deu-me a sensação de "precog" do Minority Report, aquela cena de começar a ler uma frase de que não me lembro de ter escrito, escrevê-la mentalmente e depois soltar um "eish foda-se lindo" quando a acabo de ler porque está melhor do que faria hoje. Nesses momentos estou perto do meu máximo potencial actual e nunca me aconteceu com uma extensão tão grande de trabalho, apenas a espaços, e nunca em tentativas de conto ou romance. Começo a cantar o Cant Touch This do MC Hammer e tudo. É possível que daí por 1 ou 2 anos releia e ache uma merda. Mas não interessa. Eu ficaria deprimido se não sentisse evolução, transformação, refinação. Há muito trabalho ainda, passagens más, buracos e inconsistências. Preciso de mais 3 ou 4 meses e de o dar a ler a 3 pessoas cuidadosamente seleccionadas com base em critérios exigentes.

Humildade? Não me falem de humildade (ninguém falou, mas eu precisava agora de uma introdução para o que se segue) É preciso ser humilde e apagar aquilo que o nosso eu achou bestial numa noite menos inspirada, páginas e páginas desaparecem com um delete. É preciso ser humilde para atirar para o lixo um aborto de romance de 150 páginas e outro de 130 e meia dúzia de 60-70 páginas. É preciso ser humilde para reconhecer que somos uma grande merda, uns preguiçosos, uns cobardes. Por vezes somos patéticos, vocês são muito patéticos também, mas quando uma pessoa se escreve, fica o registo da patetice do patético, da presunção, da superficialidade, do armanço, como um espelho que, quando nos apanha de ressaca e com o cabelo oleoso, tira uma foto e nos mostra aquela cara de vez em quando. O Hemingway dizia que é preciso ter um radar detector de merda, é o essencial para se ser escritor. Pelo menos isso, o Tolan tem. Eu se fosse a uma audição dos ídolos, era capaz de, ao sentir que tinha cantado mal, pedir desculpa ao juri, insultar-me e ir-me embora, sem que aquele panhonha, o da cara de parvo, abrisse a boca. Era muito bem feita.

10 comentários:

Rita F. disse...

Tu acaba-me esse romance, que eu compro.
E gosto da tua persona que já se prepara para o vedetismo - "detector de merda, o Tolan tem". Já chegámos à terceira pessoa, que coisa linda. Espero que seja para continuar.
E agora pensando bem, o conceito de "detector de merda" é muito inteligente. E essencial.

Tolan disse...

Obrigado Rita *snif*... se eu acabar, pagas-me é um jantar no Trás D'Orelha e eu dou-te uma cópia autografada.

sushi mata disse...

esse detector de merda dava-me um jeito... emprestas-me por uns dias?

Anónimo disse...

ehhhh, só um aparte... patético não tem nada a ver com patetice. patético deriva da latim pattetiaus, ou algo que o valha, e hoje em dia tem o significado de comovente. pateta deriva do espanhol (construído a partir da palavra pata!) e significa aquilo que todos nós sabemos.

de qualquer forma, no contexto em que se insere, até pode querer dizer patético! só que hoje em dia essa palavra está muito em voga e habitualmente o significado que se quer dar é de pateta ou patetice.

espero que esse romance saia, de preferência nada pateta. e já agora, patético também não que isso não é de homem, car*.

Tolan disse...

Os anónimos neste blog são terríveis :( Vou passar a moderar comentários! Isto é inadmissível! Pessoas que não têm mais nada que fazer senão ir para os blogs dar informações úteis e observações pertinentes a coberto do anonimato!

kiss me disse...

patético [pa'tÈtiku]
adjectivo
1. que suscita piedade;
que comove;
2. pejorativo
que é considerado ridículo por explorar as emoções até ao excesso;

nome masculino
1. arte de despertar nos outros emoção ou piedade;
2. aquilo que comove;

Grande Dicionário da Porto Editora

Por isso neste contexto até se aplica "Por vezes somos patéticos" = "Por vezes todos nós suscitamos piedade/metemos pena"

E venha daí esse livro.

Tolan disse...

Pois Kiss me, mas está o meu erro ali, devia estar "fica o registo do patético" não "registo da patetice" porque patético não tem a ver com patetice (eu até sabia mas escapou). O anónimo tem razão. Tenho stalkers anónimos terríveis, terríveis!

Cuca disse...

Sabes, Tolan, acho pouco aconselhável anunciar-se um livro (um primeiro livro, pelo menos) antes de ter dois terços completos. Depois toda a gente nos chateia por causa do livro e acabamos mesmo por ser obrigados a escrevê-lo.

Tolan disse...

Thats the plan cuca.

Cuca disse...

Era o que eu temia.