sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O meu emprego de sonho

Estou atrás de um balcão num estabelecimento. Um balcão normal. Tenho uma cadeira confortável e livros numa pilha confusa em cima do balcão, todos de autores russos do século XIX. Estou a ler um bom livro de um autor russo do século XIX. Uma pessoa pensa que os conhece todos e depois há mais um e outro. No balcão também há um cinzeiro e um maço de Português azul. Por debaixo do balcão há um pequeno frigorífico, desses dos hotéis, com dois copos vazios em cima. Ao lado do frigorífico, uma caixa grande cheia de pandas de peluche e uma zebra de peluche. No tecto, uma ventoinha vintage que me custou uma pipa de massa. Pertencia a um café lisboeta há muito encerrado. Uma cliente entra. Por momentos só lhe vejo a silhueta a contra-luz mas percebo imediatamente que é uma mulher, o que é bom sinal. Finjo que continuo a ler. Ela avança, confirmo que é uma mulher porque me pergunta, numa voz de mulher:
-- Sinto-me muito sozinha. Uma amiga disse-me para vir aqui.
Pouso o livro com calma. Olho para ela. Não é má, já cá veio parar pior. Nesses dias digo que só estou a tomar conta do estabelecimento pelo Tolan e que ele é capaz de demorar.
-- Tem uma boa amiga – digo. Abro o pequeno frigorífico e agacho-me debaixo do balcão e pergunto-lhe – Whisky? Ice-tea? Sumol de ananás?
-- Pode ser um Sumol.
Vazo o whisky para um dos copos, umas pedras de gelo, retiro o Sumol do frigorífico e ponho-o no outro copo. Pouso-os no balcão. Estendo o maço com um cigarro de fora:
-- Fuma?
-- Não, obrigado.
Bebe um bocadinho do Sumol. É bonita, tem uma cara trágica. Não de quem tem uma vida aborrecida. Ficamos um bocadinho calados, eu a fumar, ela a olhar em volta como uma criança curiosa, de vez em quando põe-se nervosamente em bicos de pés, com as mãos atrás das costas. É adorável.
-- O que vende? – pergunta-me.
Tiro um dos pandas, na mão esquerda, e a zebra na mão direita, coloco-os frente a frente no balcão e, fazendo vozes diferentes e sacudindo um bicho de cada vez, ponho-os a falar um com um o outro. De vez em quando tenho de largar um dos bichos para dar uma passa no cigarro ou beber um pouco de whisky.
-- Bom dia Zebra.
A mulher ri-se da voz taralhouca e arrastada do panda, resulta sempre.
-- Bom dia Panda.
-- Zebra, porque é que nunca mais fazemos miminhos?
-- Panda, se calhar é porque não somos compatíveis.
-- Mas Zebra, repara, temos as mesmas cores.
-- Não é suficiente Panda. Aliás, acho que o problema é esse. Não me completas. Gosto de ti como amigo.
-- Não Zebra, não digas isso. Eu posso mudar. Eu inscrevo-me no ginásio. Eu deixo de cozinhar bambu todas as noites, eu…
-- Pára Panda, pára. Mantém a tua dignidade. Não faças esse ar triste.
-- Sou a porra de um panda, a minha cara é mesmo assim. Se quiseres, se isso te fizer feliz eu pinto-me todo às cores.
-- Não te serve de nada. Estou apaixonada por um cavalo.
-- Um cavalo?
Tiro uma passa do cigarro, é o momento dramático.
-- Sim, um cavalo, um puro lusitano, grande e possante. Tu não passas de um panda roliço, pequeno, triste e preguiçoso. Estou farta de ti. Adeus!
-- Não, nãaaao voltaa Zebra, volta!
A zebra afasta-se aos saltinhos e arrumo-a na caixa. O panda está dobrado sobre si mesmo, com as patinhas em cima dos olhos, a soluçar silenciosamente. De vez em quando faço-o erguer a cabeçorra incrédula e esperançada que tudo não passe de uma brincadeira da zebra. Mas ela vai mesmo embora.

A mulher está calada.
-- Quer comprar este panda? 90 euros.
Ela dá-me o dinheiro e sai do estabelecimento com o panda ao colo, a fazer-lhe festinhas. É incrível, cada panda destes custa-me dois euros aos chineses.
Limpo o balcão, os copos, verifico o stock de pandas. Está tudo em ordem. Continuo a ler o meu autor russo do século XIX, daqui a pouco é hora de almoço.

9 comentários:

The Indian Railway disse...

Ainda não tinha percebido a loucura geral à volta deste blog. Percebi agora. Fenomenal este texto.

lisa carol fremont disse...

podia ter saído de um qualquer livro de murakami. espero não ter ofendido. era um elogio.

Anónimo disse...

O gajedo ferrou a cona nesta merda e ferrou-a de forma perene! Que chouriço!

Ana disse...

E até já tens um candidato a Harry Lime!!!

Tolan disse...

É verdade Ana, estou muito orgulhoso :)

Ardinario disse...

Obrigado por esta pérola.

Roberta Ávila disse...

Sensacional... Também queria esse emprego, se quiser uma sócia, me avise. Aproveito para avisar que copiei seus posts sobre a vantagem e a desvantagem de ser escritor e citei a fonte.

Isabel disse...

Tão bom! O diálogo entre a zebra e o panda está o máximo!

Beatrix Kiddo disse...

"Sinto-me muito sozinha. Uma amiga disse-me para vir aqui." eeh pá que ideia genial. Vou abrir um estabelecimento desses, onde as pessoas vão quando se sentem sozinhas. Uma sala com sofás, música, jogos de tabuleiro, cartas, cigarros...sem ter de consumir nada para se estar lá, com casas de banho, um sítio desses era genial. Parece um lar de terceira idade grátis e para todas as idades. Era isso que fazia falta.