quinta-feira, 18 de abril de 2013

afectos

Feliz por poder desviar os meus dedos 'escrevinhantes' da crise, escrevo a propósito do cepticismo dos afectos nos blogues do camarada Pipoco, rebatido pela camarada Palmier.

Uma característica curiosa dos blogues e da internet é que se forma facilmente um universo de afectos algo compartimentados no espaço e no tempo. Ocorre por vezes uma especialização das amizades. Por exemplo, eu conheço algumas pessoas com quem falo sobretudo de escrita quando as vejo pessoalmente. E até almoço às vezes com um gajo com quem praticamente só falo de Magic The Gathering (conheci-o online também). Também posso citar o exemplo de ter ido a Paris em trabalho em 2004 acho eu, e ter estado com 3 bloggers portugueses num fim de semana espectacular e depois disso, nunca mais os ter visto ou falado com eles, situação perfeitamente normal e saudável.

Há quem fale no cliche do "hoje em dia as pessoas nem conhecem os vizinhos", como se isso fosse uma coisa errada. A isso eu digo "óptimo". Não tenho qualquer desejo de arriscar conhecer pessoas de quem não posso fugir facilmente e prefiro manter relações cordiais e discretas com quem mora no meu prédio. Diga-se que cresci numa pequena aldeia e depois numa cidade de província e não tenho uma imagem romantizada da sensação que é "toda gente saber quem é toda gente". A vinda para Lisboa foi uma primeira libertação, digamos assim, os blogues a segunda, faltando a terceira que há de vir e que tem a ver com poder ganhar dinheiro por intermédio de escrita, ou seja, o plano profissional.

O que é certo é que nos momentos iniciais dos blogues e da vida virtual, existe um certo entusiasmo e predisposição que depois se pode amenizar com o tempo, um pouco à semelhança do processo que sucede quando se começa a trabalhar e ainda cometemos aquela loucura de ir para os copos e jantaradas com colegas. Com o tempo, as pessoas ficam mais selectivas, penso eu, no que respeita à predisposição para os outros, uma vez que vão também preenchendo os "slots" vazios para poderem encaixar pessoas na logística social. Quando os blogues surgiram, eram obviamente novos para todos e havia por isso uma euforia maior no que respeita a esse lado social. Eram comuns os jantares e festas (não patrocinados por marcas, como sucede hoje em dia), blogues colectivos e uma sensação de comunidade mais espontânea.

De resto, não existe qualquer sobressalto na transição de um afecto virtual para um afecto no plano "pessoal". Isto é, duas pessoas que tenham uma afinidade virtual, mantêm essa afinidade se estiverem frente a frente, com duas canecas de cerveja ou vinho, por isso pode-se deduzir que existem afectos mesmo entre pessoas dos blogues que nunca se conheceram cara a cara e que não fazem intenções de que isso aconteça. Muitas das atitudes que se esperam de um amigo, podem obter-se virtualmente também. Recordo-me que no período da doença grave do meu pai, tinha muito mais facilidade (e vontade) de escrever num blogue para desabafar, do que propriamente fazê-lo junto de pessoas fisicamente próximas que, de qualquer forma, não podiam fazer nada também. Em inúmeras ocasiões ao longo de 10 anos, fui alvo de generosidade totalmente desinteressada.

A propósito disto, as amizades do meu pai resumiam-se a "companhia para pesca" ou "companhia para caça" ou "companhia para partilhar um jantar preparado pelo próprio". A ideia de partilhar "afectos", naquele sentido meloso, era-lhe estranha. O que contava era qualquer coisa de concreto. Se um tipo não soubesse pescar como deve ser, de que lhe servia a companhia numa tarde de pesca? Ia-lhe encher os ouvidos com problemas de casamento enquanto ele se concentrava nos iscos e no engodo? Ora bem.

7 comentários:

Anónimo disse...

Este li até ao fim :)
R.

nAnonima disse...

«Há quem fale no cliche do "hoje em dia as pessoas nem conhecem os vizinhos", como se isso fosse uma coisa errada. A isso eu digo "óptimo". Não tenho qualquer desejo de arriscar conhecer pessoas de quem não posso fugir facilmente e prefiro manter relações cordiais e discretas com quem mora no meu prédio.»

nem mais!

Maria D Roque disse...

Afinal é tão simples isto dos afectos nisto dos blogues. Subscrevo a pssagem sobre os vizinhos . Em 13 anos conto pelos dedos duma só mão o who's who...

Margarida disse...

É tão mais facil conhecer muita gente para falar de assuntos distintos conforme o gosto de cada um... é bom saber com quem contar em cada situação. Melhor ainda é não ter que se falar com pessoas quando não apetece.
Neste meio pequeno, onde vivo e toda a gente me conhece, a vida de todos é uma telenovela sem que se possa fazer algo em contrário e se não te apetece beber café todos os dias depois do trabalho é porque andas a esconder alguma coisa, ou porque estás com algum problema que não queres que se saiba...
Eu não quero estar todos os dias com as mesmas pessoas nem seuqer virtualmente! A vantagem do virtual é que tu escolhes quando responder, consegues manter a boa disposição e controlas melhor os assuntos...

euexisto disse...

"Em inúmeras ocasiões ao longo de 10 anos, fui alvo de generosidade totalmente desinteressada."

valha-te o bom senso e humildade.

bom fim de semana

Luna disse...

Apesar de ser algo reservada nisto de conhecer pessoas pelo blog, a verdade é que através das afinidades que se encontram, se começa a muitas vezes a criar afecto por aquelas pessoas que só se conhece virtualmente, mas de quem gostamos como se conhecêssemos pessoalmente.
Não terei de te dizer que criei afecto por ti ainda nos tempos do outro blog, especialmente devido às vivências dolorosas semelhantes por que passámos ambos num curto espaço de tempo.
E por isso hoje em dia alegro-me com a tua Plaft e baby on the way como se fosses meu amigo "real", como bem explica a Palmier no seu excelente post.

Jorge Salema disse...

Em relação ao que dizes do teu pai, conviria reparar que ele poderia ir- obviamente- sozinho pescar com cana (a menos que fosse de barco- uma traineira necessita de tripulação). Talvez quisesse companhia por motivos que imagino puramente emocionais. A camaradagem na pesca e caça propicia partilha de experiencias ricas próprias da convivencia humana onde acontecem muitas erupções emocionais que talvez não associes ao teu pai. Entre a nossa geração e a dos nossos pais nota-se muito uma diferença que podemos atribuir a uma rigidez ancorada na antiga identidade de género. Ser homem, mais que isso- crescer rapaz, tinha um caderno de encargos implacável que muitas vezes exigia o mutismo emocional. Os adolescentes masculinos que sucederam estiveram muito longe disso. Crescemos à mesma mesa do café com elas a falar do "periodo." Somos outro mundo.