quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Rituais


Um amigo que anda em terapia aconselhou-me terapia. Toda gente que faz ou fez terapia aconselha terapia a quem não faz nem fez terapia. Todos referem, invariavelmente, que é preciso alguma sorte ou conhecimento para encontrar um bom terapeuta. E depois seguem-se relatos de experiências em que os tarapeutas / psicólogos debitaram clichés ou ficaram simplesmente assoberbados pela análise fria e completa das confissões, ouvindo em silêncio e marcando nova consulta no fim. Deve haver com certeza bons terapeutas (afinal de contas, os meus amigos frequentam-nos) embora não tenha visto nenhum mudar algo de fundamental, nem ao fim de anos de consultas. Parece-me uma forma de ritualizar, de forma clínica, o facto de se ter um problema. Os ‘terapeutizados’ ganham também um arsenal de lucidez e perspectivas diferentes. Penso que é positivo nos casos de pessoas que não têm o hábito de exprimir os sentimentos a si próprios ou a amigos. Recordo-me sempre  do meu pai que era incapaz de proferir uma frase como ‘estou triste’ ou ‘estou aborrecido’ ou ‘isto foi um bocado frustrante’, educado que foi a reprimir fosse o que fosse que pudesse significar fraqueza. Mas sentia e sentia de forma absoluta, visceral.  Talvez venha dele o meu cepticismo face a coisas como terapia. Em certos casos, o seu fogo frio parece cauterizar as emoções para que não sangrem mais. Um amigo teve o seu trauma gerador de ataques de pânico substituído pela aceitação de que idealizava a ex namorada e que tinha de aceitar a perda. Os ataques passaram-lhe. Em compensação, não se aproxima de uma mulher há mais de 10 anos e perdeu todo o idealismo romântico.

A verdadeira mudança ocorre de fora para dentro e é física, tem relação com o corpo, os actos do corpo e o contexto do corpo. Por isso existem os rituais, tanto nas famílias como nas religiões, como nas consultas regulares ao terapeuta. Todos os rituais fornecem conforto porque nos esvaziam a mente do ruído mental e subjugam o nosso ego, amor próprio e orgulho a uma ordem superior, a uma autoridade superior, seja a tradição familiar, seja um terapeuta ou um Deus, nem que seja por gestos físicos como rezar de mãos juntas, meter-se no carro para conduzir os sogros ao restaurante num domingo em que nos apetecia estar em casa a ver um filme ou ir à consulta, sentar-se numa cadeira e falar. O meu ritual mais próximo da terapia é, obviamente, a escrita, embora seja apenas uma relação de simbiose. A escrita não me elimina o ruído mental, alimenta-se dele e ainda lhe fornece combustível e espero que seja constante como a relação vitalícia do Woody Allen com os seus terapeutas. Se o objectivo fosse a cura, a melhor que conheço é a salmoura do ego. É muito simples, a salmoura do ego: deixem-se enrolar por ondas geladas, depois sequem ao sol cobertos de sal e, à noite, adormeçam exaustos com os ouvidos cheios de mar.

18 comentários:

Isa disse...

"o seu fogo frio parece cauterizar as emoções para que não sangrem mais".

choras lágrimas de sangue antes, meu caro...

Um dia quando vieres a sampa e se quiseres, falamos sobre terapia e o efeito brutal e sem volta que tem em ti. sem mudares nada, absolutamente nada que é teu.
Bjo

Peppy Miller disse...

"adormecem exaustos com os ouvidos cheios de mar"... esta frase diz muito com tão pouco

R. disse...

Talvez tenha percebido mal, mas não será um pouco contraditório achares que a terapia pode ser positiva para quem normalmente não exprime sentimentos, mesmo para o próprio, e no entanto seres céptico em relação à mesma?

R.

Tolan disse...

R., a contradição é fruto de ter reescrito isso algumas vezes... Acho que o cepticismo é face à sua utilidade para mim e em reacção a quem me sugere terapia.

Isa, se eu quisesse chorar lágrimas de sangue ia apanhar ébola ou algo parecido :\

Limited Edition disse...

se o objectivo da terapia fosse única e exclusivamente a cura, deixariam de existir psicólogos. penso mesmo que a magia ocorre quando não nos são reveladas as cartas todas, criando uma dependência justificada pela premissa "há determinados pormenores que o paciente não pode saber por serem demasiado dolorosos, mas que deve trabalhar EM TERAPIA".
parece-me também que há uma diferença entre consultar um terapeuta e um psicólogo. com este último assumes que tens um problema, com o primeiro trata-se de uma opção válida de crescimento interior. seja como for, não me parece que a "cura" esteja apenas em aceitar o placebo do ritual. para isso existiriam outros a que poderias recorrer. este funciona para alguns indivíduos, na medida em que torna os "terapeutizados" funcionais no dia a dia porque optimiza as suas neuroses e fraquezas, ao mesmo tempo que lhes proporciona um discurso sobre si que é socialmente aceitável e promovido. um melhor conhecimento de si para uma sociedade melhor, como diria foucault.

nAnonima disse...

mas que tema tão apropriado... psicólogos livres ou baratos por aí??? :b

eu sou céptica, seja na religião, seja na ciência. a própria palavra "cura" me dá vontade de rir. em vez de tentarmos (para não escrever "obrigarmos") as pessoas a serem todas "iguais", que tal aceitá-las verdadeiramente como são, sem lhes recomendar constantemente a terapia?...

beijos (da louca :b)

R. disse...

Não acredito em grande coisa realmente, neste campo. Vá-se lá saber porquê conheço um monte de terapeutas, e parecem-me eles sim necessitar de tratamento.

R.

Luna disse...

Eu já aconselhei terapia e nunca fiz terapia.
Para mim, que não percebo nada de psicologia e tenho algumas reservas, o importante é essa catarse de sentimentos de que falas, e que tem de existir, para que se supere algo traumático. Acontece que nem sempre quem sofre uma perda é capaz de expressar os seus sentimentos mais íntimos e a dor da perda aos seus entes mais próximos, muitas vezes até para os proteger, para não os sobrecarregar com a sua infelicidade, e acaba por se fechar, sem nunca realmente assumir o que sente e por isso sem conseguir superar.
Aconteceu por exemplo com uma amiga minha, depois de abortar duas vezes seguidas aos 5 meses de gravidez, e como o marido ficou um caco, teve de se fazer forte ela, e reprimir o seu desgosto. E foi definhando até chegar aos 42 kg, sem conseguir comer, sem conseguir dormir, sem conseguir continuar.
Depois de mais de um ano comigo a insistir que procurasse ajuda profissional, finalmente resolveu fazê-lo, pôs-se a ela e ao marido no psicólogo (diferentes), e finalmente está a ultrapassar e até já fala em tentar outra vez.
Ou seja, se uma pessoa é capaz de exteriorizar e fazer realmente o luto necessário depois de uma perda, muito bem, mas se precisar de ajuda para o fazer, acho que a deve procurar.

Anónimo disse...

Há uns bons anos, em conversa sobre nambuangongo, diz um amigo do meu Pai que matou pessoas e isso em nada lhe afetou a personalidade. Dorme tranquilo. Tem uma vida normal.
Nunca privei com ele. Mas, normalmente quem esteve em nambuangongo veio de lá extremamente vulnerável. Principalmente os que foram enterrar os corpos do massacre. Mas serve isto de exemplo que, cada um lida com o que tem no prato. E nem todos lidam da mesma maneira. Há uma série de variáveis e contextos. Graças ao meu mau feitio, até hoje nunca precisei de terapia. E não caí na droga nem no álcool.
Força Tolan!
R.

Anónimo disse...

E escapei ao comunismo e tenho bom gosto a vestir-me. E gosto de mulheres.
R.

Izzy disse...

Tem piada (ou nao) que os psiquiatras que conheco (3, e ja sao muitos) sao todos, como direi...hummm... maluquinhos e a precisar eles proprios de terapia. Ca por mim ja tirei as devidas conclusoes desse facto. Nao obstante, nunca fiz terapia mas nao duvido que seja benefica. Estas a pagar a alguem para te servires dos seus ouvidos. Uma especie de prostituicao auditiva.

Pólo Norte disse...

Temos aqui um reducionista, é?

Tolan disse...

Reducionista? só se for pela redução de vinagre balsâmico que às vezes faço e que corre sempre mal.

Maria D Roque disse...

Trocar o padre do confessionário pelo psicólogo e ainda ter que pagar para estar a falar para o boneco, e vir de lá com um bolso cheio de torpor, não nada é apelativo...
Sou pela salmoura, Tolan. Sou pelo embalo do mar nos teus ouvidos. Isso é vida.

Pólo Norte disse...

"Pagar para estar a falar para o boneco". Maria, esperava mais de si...

(Tolan, Tolan, quem diz reducionista diz gestaltista, vá...)

Rita F. disse...

Olha, eu já fiz e não aconselho. Não me fez mal nenhum, mas também não me fez bem nenhum. Consigo mais resultados a ver um bom filme ou a ler um livro adorável. É apenas uma questão de encontrar um bom filme e/ou um livro adorável.
Mas, se calhar, fui eu que tive azar.

Fuschia disse...

Acho que retiras da terapia tanto quanto o que lá investes. Se vais para lá numa postura defensiva, de braços cruzados à espera que o psicólogo/psiquiatra faça o malabarismo que achas que precisas para te curar, não vás. Se vais de mente aberta, para ver no que dá, acho que sim. Ou seja, a resposta é nim.

Maria D Roque disse...

Querida Ursa, nada contra... quem precisa, vai... já experimentei e não gostei...também fiz o catecismo e as comunhões...