quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

magnificar algo

«O patrão sentou-se no seu canto, na tal cadeira estofada, como na sala de espera do médico. A sala flutuava, às escuras; o azul-denso do fim da tarde filtrava-se através das penas de cristal de gelo na vidraça. Ivan, o calmo, digno criado que rapara recentemente o bigode e se parecia agora com o seu falecido pai, mordomo da família, trouxe um candeeiro a petróleo, todo polido e inundado de luz. Pousou-o numa mesa pequena e, sem barulho, encerrou-o no pequeno quebra-luz cor de rosa. Por momentos um espelho inclinado reflectiu a sua orelha iluminada e o cabelo grisalho aparado. Depois ele retirou-se e a porta emitiu um rangido submisso.  
Sleptsov levantou a mão do joelho e examinou-a devagar. Uma gota de cera de vela caíra e endurecera na fina dobra de pele entre dois dedos. Abriu-os e a pequena escama branca estalou.»

Nabokov (conto "Natal", tradução de Telma Costa, Contos Completos, volume 1, Teorema) fazendo o que ele faz melhor, tão bem resumido por Sebald no a veces necesitáis magnificar algo, describirlo ampliamente de una forma indirecta. Y en el proceso descubres algo.

Nabokov tem alguns contos em que a única coisa com que se preocupa é lo que pasa alrededor suyo. Pinta  paisagens e naturezas mortas com um movimento marginal, como imagens que mudam consoante a perspectiva do observador, num loop de dois ou três frames, técnica amplamente utilizada em cromos da Matutano ou em retratos de Jesus Cristo à venda em barraquinhas do templo de Fátima. Como um ávido coleccionador de borboletas, apanha  o agora, o instante divino esvoaçante, e espeta-o com alfinetes num álbum. Note-se que nem escapa ao la meteorología no es superflua en la historia. No muestres aversión a dar cuenta del clima, como se pode ver no detalhe subtil do cristal de gelo na vidraça. De lamentar apenas o azul-denso do fim da tarde. Já aqui abordei a temática do uso excessivo do azul, pecado cromático que o sinestésico Nabokov chega a cometer duas vezes no espaço de uma página no conto O Combate: "claridade meridional no ar azul" (pag 167), "tudo em meu redor era de um claro azul" (pag 168). E peludo, não? É que não há nada como ser peludo e azul.

3 comentários:

Sister V. disse...

Peludo e azul? Monstro das bolachas!

Maria D Roque disse...

Já gosto mais dele... Devia ser do Belenenses !

RCA disse...

Ok, só percebi a última frase.