segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

liberdade de expressão


Quem condena o protesto tem a originalidade de invocar o direito à liberdade de expressão. O caso de Relvas é paradigmático: tentou silenciar uma jornalista com ameaças torpes e que a levaram, inclusive, à demissão, por falta de solidariedade da direcção do jornal. Acresce que Relvas falsificou a sua formação académica, o que torna provocadora e degradante qualquer aparição oficial que faça junto de estudantes em ambiente académico.

Cantou-se o Vila Morena? Eram comunas? É uma pena. Também eu tenho pena que a sociedade civil (mea culpa) não esteja para se chatear tanto como grupos organizados e ideologicamente alinhados, mas é o que temos.

Pelo coro de virgens ofendidas do PS, pergunto-me o que Relvas teria de tão importante para dizer nesse dia em particular que não possa dizer todos os dias, 365 dias por ano, em conferências de imprensa, enquadrado pelo veludo vermelho, talha dourada e bibelots de porcelana de uma qualquer residência oficial.

O que está em causa não é o direito de Relvas falar, mas sim partir-se do princípio que tem o direito de ser ouvido, mesmo em ambientes académicos, com uma plateia de estudantes que não têm, ao contrário de Relvas, um diploma falsificado. O Governo e o principal partido de oposição (que eventualmente antevê problemas do mesmo tipo) podem achar que sim. Mas há quem ache que não. Pode haver quem ache que o respeito se conquista e que também se perde, sendo a ética o principal critério de avaliação. Se isto tivesse sucedido a um ministro como o Nuno Crato ou Paulo Macedo, eu, por exemplo, não tinha vontade de escrever isto. O escândalo da continuidade de Relvas no Governo e a hipocrisia cometida pelo PS ao considerar abstracta a figura de Relvas (agora é um "membro do Governo silenciado"), dão a entender que os partidos de poder ainda não compreenderam que há consequências para a falta de vergonha.

Este protesto, para além da expressão impagável de cagaço na cara lívida de Relvas, teve o lado positivo de continuar a separar o trigo do joio e deixar bem à mostra aquilo que tenho vindo a dizer de há algum tempo para cá: em Portugal, mais de três décadas depois do 25 de Abril, o respeitinho continua a ser bonito. Respeitinho acima de tudo, especialmente dos jovens para com os senhores doutores.

12 comentários:

marta morais disse...

agora nem parecias o reaccionário de serviço a que nos tens acostumado! ;-)
(ouviste o Cavaco a repetir à exaustão a expressão "pós-troika" na cena com os jovens empreendedores?)

A elasticidade do tempo disse...

A geração "laranjas mecânicas", transborda de sumo e doçura, mas vê-se obrigada a seguir uma moral mecânica, inerte e sem sentido.

Helena disse...

E o que dizer do Relvas e da sua futura noiva, quanto à liberdade de expressão e o direito ao acesso da informação a que nos vetou, a nós cidadãos, quando apagou toda a informação ministerial dos governos anteriores disponível, dando-nos um site de fachada, que quando não cracha está constantemente desactualizado, e tão parco em informação e documentação que mais parece um jornal de propaganda municipal de Marco de Canavezes no tempo do outro senhor.
Os discursos dos membros do governo, tirando algumas raras excepções, nunca estão lá disponibilizados. Existe uma plataforma em inglês que é actualizada semestralmente.
À liberdade de expressão de um membro do governo estará sempre associado o seu dever de comunicar a posição do governo. Não se percebe porque tanto teimam em ocultar os pdfs dos discursos e puramente se negam em comunicar os documentos em inglês que são enviados para as entidades internacionais.

São João disse...

O medo é uma arma que funciona para os dois lados. Pena não terem voado umas tartes de natas ou uns tomates podres. Ou ter levado um banho com aquelas espingardas de água gigantes, qualquer coisa que humilhe sem aleijar muit, ou pelo menos que não dê direito a pena de prisão, só coima. Os governantes também precisam de ter medo de vez em quando.

a.i. disse...

Helena, o que dizes é grave se for verdade. dei-me ao trabalho de ir averiguar junto de uma pessoa que trabalha num ministério e costuma saber dessas coisas que me disse "As coisas que têm que ser publicadas continuam a ser
publicadas. Deixou de ser é no site dos ministérios e passou a ser nos
sites das direções-gerais, que continuam a ter sites próprios."

Helena disse...

A.i.,
Há muita informação que se perdeu. Info ministerial e dos governos anteriores não tens mesmo acesso.
A informação das DGs sempre esteve nas DGs, e continua a estar porque quem teve a ideia de unificar os sites dos ministérios no site do governo não pegou nos sites das DGs. Mas qse tudo o que existia nos antigos sites do governo e dos ministério desapareceu e deixou de estar online. Estamos a falar de documentos, acordos, etc, de anteriores legislaturas.
Foi um completo blackout.
OK, nalguns sites tinha-se de chafurdar um pouco para encontrares alguma documentação, mas o facto é que a informação estava acessível.
Não critico a estratégia do governo em ter-se unificado a informação do governo num único site. E aplaudo até o facto de no inicio se ter publicado os ordenados e cvs dos membros do governo (nalguns sites ministeriais antigos, isso não existia).
No início julguei que a informação não estava disponível por demora na actualização das e uniformização das bases de dados e que a barafunda se devia mesmo à fase inicial da implementação. Neste momento julgo que não. É propositada.
Se quiseres consultar um discurso do Relvas em representação do estado num evento internacional, não o encontrarás. A haver alguma informação, como a organização dos documentos é por ordem cronológica e o display é de 4 ou 5 items, facilmente desistirás de procurar. A indexação por palavras é fraquíssima. O Rss, curiosamente, só me funciona qdo algo de bom acontece.
Comunicados de imprensa no site do governo, contas uma mão deles.
Info em inglês, que existe e é distribuida em briefings às entidades internacionais, agências de notação; limitam-se a alguns comunicados do Paulo Portas e pouco mais.
O que tu sabes, é aquilo que a imprensa te comunica. Face a isto, estarás sempre a ver com os olhos dos outros.

Pipoca Mais Picante disse...

A forma de protesto adequada seria deixá-lo a falar para as paredes, ninguém aparecer. Ser estupor só porque outrem é estupor é descer ao nível dele. Não gosto de arruaceiros, sejam eles de esquerda ou direita.

Anónimo disse...

Protestos da mesma estirpe existiram no tempo de Sócrates. Apoiados pelo ministro em questão. Protestos da mesma índole existem nos EUA. Em França. Em Inglaterra. É de louvar, é sinal de vida. Contudo, não posso deixar de reparar no aspeto prático de não deixar falar o ministro e de o cercar (já o protesto ao Paulo Macedo foi diferente e o mesmo continuou a falar) que a meu ver não é democrático. E não é democrático por uma simples razão. Eu que votei, não me identifico com este grupo. Este grupo não representa os Portugueses. Este grupo não representa a "Liberdade". E não é a mandar calar um ministro eleito que se defende a Liberdade. Fazer disto um caso de "liberdade" ou fascismo é ridículo. Estas situações existem em todo o lado. Só que lá fora são saneadas ou os ministros antecipam-se. Naturalmente que o ministro se entregou à morte.
R.

Sister V. disse...

A liberdade de expressão de um, não pode ser vista como obrigação de ouvir de outro. Para se ser ouvido é preciso legitimidade para falar.

a.i. disse...

O que a Helena conta é de facto muito grave. eu já tinha reparado que agora quando se pesquisa um ministério vamos dar à página do portal do governo mas ainda nunca precisei de procurar documentos. provavelmente será mesmo propositado.
Anónimo: O ministro (relvas ou outro)não foi "eleito". O governo não é "eleito", mas sim nomeado. O que é eleito é o parlamento e é da maioria eleita que é formado o governo. veja o artigo 133 alíneas f) e h) e artigo 187 da Constituição: http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx

Maria D Roque disse...

Enquanto forem só cantigas a silenciar abjectos... tem vezes que dou por mim a ansiar o pior ... é um pensamento assustador...

Peppy Miller disse...

F**K Relvas!!