terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

a minha oficina...

... também está cheia de serradura, óleo, ferramentas...

A gaiola era um pequeno pátio, duas vezes maior do que a minha cela, com muros ocre, muito altos, tão altos que não deixavam ver nada a não ser céu enjaulado por grades. O meu guarda tirou-me as algemas e soltou-me lá para dentro com um pontapé no cu porque fiquei com medo da claridade do sol reflectida no chão de pedra branca; aquilo nem parecia chão sólido e desconfiei que podia ser uma armadilha. Disse-me que eu tinha uma hora e fechou o portão de ferro com um claque metálico. Uma hora para quê? Não me respondeu e deixou-me, sozinho, na minha gaiola. O pátio era ligeiramente côncavo de modo a que as gotas de chuva corressem para um ralo no centro, uma abertura circular coberta por uma tampa de ferro enferrujado. Inspeccionei a tampa pois podia-se fugir por canos, já o vira em filmes. Mas o cano era demasiado estreito para que uma pessoa pudesse passar por ele e senti a desilusão que assombrava a gaiola desde que o primeiro de muitos reclusos a sentira antes de mim. Então olhei para cima, para o céu por trás da grades da gaiola. Pequenos farrapos de nuvens no azul e o sol, violento. Muito bonito. Quem me der saber voar, pensei. Em todo o caso, ali não me serviria de muito por causa das grades... Porque teriam posto grades por cima do pátio? Os muros tinham cerca de quatro metros de altura, completamente lisos, sem apoios para trepar. Também me parecia pouco plausível que tivessem tido um percalço com um preso voador, em tempos. Não, o mais provável é que aquelas grades lá em cima tivessem como único objectivo manter a coerência no estado de espírito do prisioneiro, não fosse ele sentir-se um pouco melhor por ver uma extensão de céu livre. Fiquei ali assim, de mãos nos bolsos do pijaminha prisional, com as minhas pantufas a aquecer em cima das lajes de pedra, semicerrando os olhos que lacrimejavam da luz branca. A pouco e pouco os meus olhos habituaram-se à claridade. A sombra rendilhada das grades no chão e nas paredes dava a sensação de estarmos dentro de um cubo de rubick resolvido, uma face branca, quatro ocres e outra, um puzzle do céu. O pátio era demasiado pequeno para se andar para trás e para a frente em linha recta sem uma pessoa ficar demasiado consciente de que estava encarcerada. Já tinha a experiência da minha cela, eu, não era um novato. Então comecei a andar aos círculos e de olhos quase fechados, assim podia ter a ilusão de caminhar sempre em frente, em liberdade. As grades no céu deram-me a impressão que, mesmo morrendo, a minha alma não podia subir e libertar-se dali. Tentei afastar a sensação de claustrofobia metafísica andando mais rápido. Para não tropeçar, descalcei os chinelos, senti a pedra lisa das chuvas ácidas e iniciei um longo passeio à beira mar, a comer um corneto imaginário, como Jesus Cristo. Andei, andei, andei, os meus círculos cada vez mais apertados e rápidos, uma espiral elíptica para o buraco negro do ralo, olhos fechados, acenando a pescadores e peixeiras que me diziam adeus. Era tudo tão bonito, a areia quente nos meus pés, as gaivotas a rir de piadas de gaivotas, os barquinhos ao longe, dissolvendo-se no horizonte… Quando o guarda me veio buscar, encontrou-me estatelado no chão, inanimado. Devo ter desmaiado do calor e das tonturas de andar assim as voltas. A minha mãe bem me dizia, ‘não andes ao sol sem o boné’. Demorei um pouco a voltar a mim, ele foi simpático e deu-me de beber de uma caneca de ferro. Depois de recuperar consciência, não me apetecia andar, mas uma bastonada motivacional surtiu o seu efeito, de modo que me pus de pé e caminhei aos tropeções, algemado, nos túneis escuros do forte onde os meus olhos cegos da luz agora nada viam.

9 comentários:

Izzy disse...

Shawshank Redemption, Tolan style.

Maria D Roque disse...

@Midnight-Express.pt

São João disse...

Retive 2 expressões "pois podia-se" e "claustrofobia metafísica". Larga isso, peixoto :P

a.i. disse...

as letrinhas pequeninas é para ver se os teus leitores são persistentes e gostam o suficiente de ti para lerem tudo e deixarem comentários?
devias dar um prémio: quem fizer melhor comentário, depois tu transcreves na contracapa do teu livro, logo por baixo do "brilhante no seu género" The Guardian

Peppy Miller disse...

gosto.

Alexandra, a Grande disse...

Gosto da ideia da a.i. e desconfio que aumentei duas dioptrias enquanto o desgraçado andava às voltas.

Tolan disse...

Mudei o tipo de letra. Não percebo porque ficou mais pequeno, o tamanho está "normal". Talvez seja o itálico :\

euexisto disse...

<*span style="font-size:14px;"><*/span>

retira os asteriscos e mete o texto dentro destes tags na janela html. deve funcionar.

só agora ganhei coragem para ler um texto maior do que meia dúzia de linhas e valeu a pena.

carrega

Tolan disse...

thanks! :)

mas vou deixá-lo assim pequenino, foi postado num vaipe, tarde à noite, assim passa despercebido...