terça-feira, 20 de novembro de 2012

Crónica de uma família sem metáforas

O despertador tocou e Jorge assustou-se bastante quando sentiu o toque no ombro. Acordou Patrícia, disse-lhe que estava na hora, iam para um casamento de um familiar. Patrícia foi para a oficina, apertou uma mão que estava meio solta, colou uma orelha partida e lubrificou as articulações e por fim gritou ‘Já estou arranjada!’ Foram para a garagem. Jorge estendeu a chave ao automóvel mas este deixou-a cair no chão. Jorge voltou a pegar na chave e estendeu-a de novo mas o automóvel voltou a deixar a chave cair no chão. Depois estendeu-lhe a pasta, o casaco, mas nada a fazer, o carro não pegava. Foram para a rua. Jorge estendeu a rede de pesca na faixa do bus e quando um táxi passou ele puxou a rede e apanharam-no. Um pouco adiante, meteu-se um jovem vestido de preto com a cabeça assim de lado e o pé à frente do outro, mesmo em frente ao taxi. ‘Que grande bicha!’ - exclamou o taxista. Depois virou-se para trás e disse-lhes para não se preocuparem pois conhecia muitos atalhos. Encostou o taxi à berma, abriu a janela e disse olá a um atalho. O atalho retribuiu. Uns metros mais à frente cumprimentou outro atalho e depois outro. Conhecia muitos, de facto. Jorge impacientava-se. Foram por uma rua onde as pessoas estavam aborrecidas, sentadas em bancos de jardim com a cabeça apoiada nas mãos, a bocejar. ‘Por aqui está tudo parado, vamos por outro lado’ observou o taxista. Nos Restauradores, onde havia muitas obras de arte antiga e técnicos especializados a trabalhar nelas, meteu-se outro jovem vestido de preto com a cabeça assim de lado à frente do táxi. ‘Apanhámos outra bicha. Isto hoje está imposível, bichas por todo lado, é melhor irem a pé’, disse-lhes o taxista. Pagaram e foram o resto do caminho a pé. Chegaram finalmente à Igreja. Jorge exclamou ‘conheço aquela cara…’ e Patrícia disse ‘eu também, e aquela também’. Eram familiares. Ao entrar na Igreja, Jorge começou a ficar com os olhos um pouco estrábicos, uma mão toda empenada para o lado e uma careta esquisita na cara. Patrícia por sua vez abanava-se e babava-se, arrastando os pés. Consultou o relógio: ‘oh não, estamos atrasados'.

12 comentários:

Anónimo disse...

Muito Boris Vian! (muito bom)

Maria D Roque disse...

Bom de ler... parece uma cena em Pepperland.

Izzy disse...

Adorei este post, por isso fiz-lhe um altar em casa. Mas uma duvida assaltou-me (ainda nao tive tempo de ir fazer queixa): porque eh que o Jorge levava uma pasta para um casamento?

Menino De Sua Mãe disse...

Izzy, a "pasta" era o dinheiro da prenda dos noivos, é metafórico.

Anónimo disse...

Não seria o funeral deles?

Maria D Roque disse...

...Quando deram por isso, estavam "atrasados"...

São João disse...

Eu ia dizer que parecia o Boris Vian mas também eu estou atrasada — espetando gelado na testa.

tata disse...

genial!

nemsabesnoquetemetes disse...

Awesome

Maria D Roque disse...

Calças as botinhas porque convém para as calçadas. O vento sopra; pelo bafo saiu à noite e não lavou os dentes. Desces para baixo no Inverno que é uma estação escura e molhada, tiras do bolso o laço de nó corrido bolsado do leite do gato e apesar do mau jeito que deste ao ombro , consegues à primeira apanhar o metro pela hora de ponta, o que o torna num decâmetro. levas a mão aos botões e abotoas-te ao lugar dos deficientes que estavam deficitários de atenção e continuaram em pé de guerra.Esperas fechar a porta para abrir o livro: é bom prevenir correntes de ar.
Deixas o olhar atravessar o espaço, não sem antes mirar à esquerda e à direita.Está tudo agarrado aos livros... drogados dum raio!!...


Quem me dera ser Tolan !! Falta de tempo e MUITA falta de jeito. Jokas :\

Tolan disse...

A pasta é porque primeiro era para ser uma reunião mas depois meti a mulher dele a arranjar-se para o casamento e esqueci-me da pasta lá pelo meio.

Anónimo disse...

boa!!

um ensaio sobre as problemáticas mêcanico-linguísticas do nosso dia-a-dia.

deixa lá a pasta. é o que menos interessa neste texto.