sexta-feira, 16 de novembro de 2012

brandos costumes

A razão pela qual os polícias do corpo de intervenção agridem pessoas que claramente não são violentas ou desordeiras, mesmo em 2012 em que tudo é filmado, o treino é especializado e os danos de imagem para um governo são fortes, prende-se com o efeito dissuasor e condicionador que tal acção provoca. A ameaça e a intimidação têm de ser credíveis. Com essa intimidação, um pequeno efectivo de polícias consegue manter a ordem na próxima manifestação de milhares de pessoas e restringir o número de desordeiros a um punhado de extremistas. Ficamos condicionados com a seguinte mensagem na cabeça: «posso indignar-me e protestar, mas tenho de me manter na ordem porque se passar essa ordem eles são implacáveis e injustos comigo». Barreiras virtuais, como o espaço que medeia entre nós e um cordão policial, parecem intransponíveis. A intimidação não se esgota na carga. A forma como são tratados os prisioneiros, com penas e medidas desproporcionais, leva-nos a pensar «afinal de contas estavam a protestar como eu, a diferença é que eles atiraram um calhau ou foram apanhados no sítio errado à hora errada»

A nossa tendência, perfeitamente natural e compreensível em pessoas de bem que nunca contactam com violência, é fugir dali para fora a correr, à primeira ameaça de carga. A diabolização dos polícias, que acontece sempre depois de uma coisa destas (e por vezes atinge um  histerismo piegas inenarrável) tem o efeito de os mistificar ainda mais. Contudo, eles são profissionais e obedecem a ordens de pessoas que obedecem a ordens de um ministro. Têm mulheres e filhos e se calhar fantasiam com cargas sobre a bancada do PSD e do PS em pleno plenário. Se forem postos em fotos em que uma tonta os abraça com uma florzinha, até parecem pessoas.

Vamos colocar um cenário teórico. Vamos supor que a situação actual continua a evoluir no sentido para o qual está a evoluir, com mais desemprego, fome e miséria. E à medida que vai evoluindo continuam notícias como a de que 1300 boys do governo continuaram com o subsídio de férias ao contrário da restante função pública e outro tipo de coisas que acicatam os instintos mais primários do taxista que há em nós. Ou vocês nunca tiveram vontade de partir a tromba a um político? A sério? Nem aquele do PS que ganhava 8000 euros por mês e disse que precisava da ajudinha dos pais para sobreviver? Oh, por favor. Esses sentimentos são normais, não se sintam culpados.

Vamos pensar no cenário em que em vez de 20 ou 30 pessoas em frente à AR a atirar calhaus, temos 20 mil pessoas nas ruas, extremamente zangadas e mais 200 ou 300 mil manifestantes do tipo pacífico à mistura. E que se dirigem para AR e que os deputados assomam às janelas da AR assim a espreitar entre cortinas, um bocado nervosos (excepto os do PCP que devem ter fantasiado com isso algumas vezes).

Aqui podemos contar com balas de borracha, gás lacrimogéneo, canhões de água. Mas vamos supor que o número de manifestantes ainda engrossava mais e mais, dia após dia. O que temos no nível seguinte? O exército.

Que tem tanques, aviões, metralhadoras com balas a sério, esse tipo de coisas violentas. Nesses contextos, atiram a matar sobre manifestantes. Na Síria, no Egipto ou no Portugal de 74 em vésperas do 25 de Abril, é o exército que determina o curso dos acontecimentos em último caso. Ou está do lado do povo, ou contra o povo. Se tudo corre bem, está do lado do povo e permite eleições livres. Se correr mal, ou substitui o anterior ditador por outro, ou esmaga a revolução ou entra-se numa guerra civil em que o manifestante, que talvez uns meses antes se limitasse a gritar na rua, se vê agora com uma arma na mão, num pequeno pelotão de guerrilheiros, obrigado a ser "violento" ou a vergar-se. Espanha passou por isso recentemente, os níveis de violência da sua guerra civil foram bárbaros e mesmo depois da guerra seguiu-se um período conturbado e violento. E isso explica, em parte, o facto das suas manifestações serem mais descomplexadas neste aspecto.

Mesmo num estado regido por leis, instituições democráticas, normal, digno e protocolar (excepto nos momentos em que se pendura a bandeira a contrário) existe sempre a consciência da importância do exército e da sua força num cenário limite, um pouco como as armas nucleares. Parte daquilo que torna uma sociedade possível e isto não ser uma anarquia total, é  o estado  convencer-nos que tem a arma nuclear (paradas militares, carga policial, exibição de símbolos de força institucionais, hino, o Presidente da República dirigente máximo do exército etc.) e convencer as pessoas, o povo, que ele não tem arma nuclear nem desejo de utilizar uma mesmo que tivesse ("o povo mais digno do mundo", "o melhor povo do mundo", "sentido de dignidade", "povo é sereno", "pobreza digna", "extraordinário civismo", "coragem dos que foram trabalhar").

Da minha parte, não me insurjo contra esta ordem de coisas porque tenho mais que fazer do que pensar em sistemas políticos, revoluções e assim e sou tudo menos anarquista. Gosto de ler e escrever, gosto de caracóis e cerveja. Mas há sempre um meio termo desejável, um equilíbrio, uma reacção necessária numa dada situação. É positivo que um Estado, que os vários intervenientes políticos, possíveis candidatos, a Troika, o FMI, a UE ou os boys que precisam da ajuda dos pais para sobreviver, percebam que as pessoas podem usar a sua bomba nuclear e que há um limite. É a única forma das coisas se ajustarem antes do limite ser ultrapassado.

10 comentários:

Anónimo disse...

"Ou está do lado do povo, ou contra o povo."
Han?
Eu não percebi a tua indignação e o discorrer de letras em relação ao assunto. Tal como não percebi a Amnistia e os milhentos posts no Arrastão. As coisas são o que são e se não aceito que meia dúzia de borregos se achem o "povo" e atirem pedras à polícia, não quer dizer que não o façam ou no contexto que escreves, exista um equilibrio. Daí a diabolizar a polícia por até (vê lá tu!) ter avisado que ia carregar... mas estamos à brincar às manifestações na happy hour da "tendinha dos caracóis"? Ou há efetivamente razão para..?
Essa da "fome e da miséria" tem barbas. Fome e miséria é coisa que não atingem um terço dos manifestantes (exceptuando os saudosos) que ontem atiraram pedras à polícia. Aquele grupelho não é o povo ó Tolan. O Povo, esse, trabalha, marra e tem uma pretinha como eu tenho. Happy Hour?
Opá.
R.

Tolan disse...

Não percebi o teu comentário. Eu não estou a diabolizar ninguém, nem a polícia, nem os manifestantes que atiraram pedras. Só estou a dizer que temos de mostrar que temos a nossa "bomba nuclear" e que podemos sair da norma estipulada para mostrar a nossa indignação. É positivo que do outro lado se sinta que há um limite de tolerância e que se evite chegar a esse ponto. Caso contrário, vão elogiar-nos o civismo e continuar a fazer o que têm feito. Há tempos um executivo da banca disse numa reunião "não sei como é que as pessoas aguentam isto... vão-se fartar qualquer dia" a propósito de injecções de capitais em bancos. Elas fizeram-se, as pessoas (para quem essas coisas são muito complexas) não se fartaram. Mas registo com agrado que existe pelo menos o sentimento de que "as pessoas podem-se fartar" e que isso é mau. Sem esse sentimento, sem a ameaça de um caos qualquer maluco, acredito que nenhum protesto pacífico é levado a sério. O protesto pacífico só tem efeito se servir para mostrar que é um primeiro nível de protesto, um bocado como um exercício, uma parada militar mas da parte do povo.

Maria D Roque disse...

Amen, Tolan, meu filho, amen !!!!!!!!

tata disse...

Eu não quero ser bruta, nem ordinária, nem previsével, nem cliché, mas foda-se, que merda foi aquela? O que se prova com pedradas nos polícias? Ou mesmo no Gaspar, vá, como tu dizes Toan, qualquer tuga que se preze tem vontade de ir à mona do senhor. Agora o que nos difere de um cão ou de uma libelinha é que, supostamente, sabemos controlar as nossas vontades, certo?
Nojo daquela gente, não percebi foi porque é que a policia não mandou logo uma cacetada no primeiro que se lembrasse de se portar como um animal!

disse...

meu, escrevi ontem um texto acerca do medo, da culpa, da vergonha e do ódio, onde referi especificamente, e para designar a mesmíssima coisa, as "armas nucleares" ao dispor dos regimes em austeridade. para as brandir sem ser necessário usá-las, ou sequer mencioná-las, é necessário primeiro a demonstração, e foi exclusivamente o que se passou. o meu texto tinha um sentido antagónico ao teu, ou no mínimo menos partidário. e estava uma merda, larguei a meio.

Tolan disse...

Great minds think alike :) não sei porque achas que o meu é "partidário"... mas se calhar ouvi demasiado Rage Against The Machine quando era miúdo.

Tolan disse...

Tata, as pedradas dirigiram-se a polícia de choque altamente preparada para levar com pedradas e muito pior. O desequilíbrio de forças foi bem evidente na carga que se seguiu. São pagos para aquilo e para muito pior. Eu não acharia normal que se atirassem pedras ao Gaspar ou a pessoas que andam aí na rua indefesas. Também é completamente diferente alguém levar uma bastonada fora de uma manifestação mesmo não tendo feito nada (como sucedeu com muitos que não atiraram pedras nem fizeram nada de mal e levaram) Uma manifestação pode ser um bocado como um combate de boxe. Também é violento e há sangue, mas é um contexto específico.

disse...

partidário se calhar não é a palavra, mas entendes a violência de estado como um mal necessário. o meu era mais uma constatação de uma inevitabilidade, não apresentava alternativas, mas era uma constatação cínica. mas lendo melhor o final do teu... também é. ou pelo menos falas do problema a montante.

Anónimo disse...

Oh pá! Obrigada por este post!... Parece que anda tudo ou numa lógica «polícias bons / manifestantes maus» ou «polícias maus / manifestantes bons», ou «manifestantes bons / manifestantes maus»... e isto se calhar tem que ser colocado a outro nível. Ainda não tinha encontrado uma posição em que me revisse.

Pessoalmente, abomino violência e odiava que isto descambasse à séria. Mas acho importante criar uma consciência de que isso pode acontecer.

Ana

Isa disse...

podias ter passado bem sem falar na história da miúda e do abraço, pá.