terça-feira, 30 de outubro de 2012

plano



Vou escrever um livro que seja recomendado por programas de escolas. O truque é ter como protagonista uma professora do estilo daquele prof do Clube dos Poetas Mortos, assim do estilo inconformada, espontânea e que diga muitas vezes carpe diem. A professora depois vai mudar a vida dos meninos. Vai haver  um pretinho das barracas que deixa de bater nos outros meninos, um chinezinho das lojas que aprende a sorrir, um homossexual que se assume, um betinho católico que deixa de ser de direita e passa a ser boa pessoa, um gordalhufo que corta nos doces e faz dieta etc. Haverá alguma crítica social, mas focada em problemas abstractos intemporais (a injustiça, a pobreza, esse tipo de coisas). E todos aprendem o poder do Livro. Os livros, no meu livro, terão propriedades mágicas: curam com o toque, voam, falam, cozinham melhor que uma bimbi... São Amigos. São Companheiros. E com isto espero que seja incluído no plano nacional de leitura ou noutro plano que venha a existir assim do género. Evidentemente, vou escrever com um pseudónimo timorense, estive a investigar e não há nenhum timorense nestas coisas (espero que não haja porque a verdade é que não investiguei). Será um timorense que combateu nas montanhas e que depois da independência de Timor preferiu ficar na selva a escrever livros para crianças, recusando o poder e o dinheiro que poderia ter tido. E que chorou de alegria quando Portugal deu as mãos e meteu paninhos brancos por todo lado. Estava em pleno combate contra o exército de Suharto quando soube disso, os morteiros caíam à sua volta e tudo e ele meteu na cabeça que se sobrevivesse, iria retribuir aos portugueses o esforço de darem as mãos na rua e meterem os paninhos brancos com livros que fizessem com que as suas crianças lessem mais e fossem mais ricas na idade adulta. Porque se ele sobreviveu na selva durante duas décadas, foi graças aos escritores portugueses que leu e que lhe fizeram companhia e deram ânimo. Se fizer o pleno de inclusão nos programas de português, talvez  consiga comprar um SLK200 novo (é lindo, parabéns à Mercedes) com um salário de escritor, coisa que neste momento me parece muito difícil e que por isso me desmotiva bastante.


9 comentários:

Maria D Roque disse...

Então escreve depressa que o Natal está á porta !!!- Que post fantástico ! Não digo que gostava de ter a tua cabeça, porque gosto da minha, velhota e tudo, mas a centelha que lá mora... brutal !

anouc disse...

Com esses clichés todos no mesmo livro, tens aí a fórmula necessária para conseguir comprar não um Mercedes, mas toda uma frota. Ou várias, dependendo do marketing implicado na publicação.

R. Vieira disse...

Está ai, já sou leitor assídua do escritor que estás criando e já adicionei o livro mencionado como primeiro da minha lista de próximos livros a serem lidos!!

Você deu um show de escrita. Adorei!

Anónimo disse...

Rogério ama Carmina.
R.

Izzy disse...

Se queres comprar um Mercedes SLK com um salario de escritor entao eu recomendo explorar antes a veia Sombras de Grey. Talvez o ainda pouco explorado mercado do "daddy porn". Ah nao, espera...

alf disse...

Vou ver isso do John dos Passos, um gajo com este nome merece uma oportunidade.

Sobre o post aqui em questão não sei se não estarás a estereotolanizar a estupidez das pessoas num menu demasiado fechado.

O Rosa Mendes andou a escrever umas merdolas em cima do tópico timorense e aquilo não deu nada. É verdade que o gajo não escreve mal e toca em pontos problemáticos da vida, o que torpedeia qualquer tentativa de sucesso comercial, mas ainda assim não subestimes a infinita parvoíce criativa das pessoas que compram maus livros.

As bandas musicais é que falam muito disto: compõem um single e afinal a malta gosta é da última canção do alinhamento. Ser um José Rodrigues dos Santos exige uma arte quase tão difícil de atingir como ser um bom escritor.

cumprimentos

Cuca disse...

É um plano tão bom que vou roubá-lo já hoje.:)

Menino De Sua Mãe disse...

Que não te aconteça é como à Alice Vieira, que lhe meteram um livro no Plano Nacional de Leitura por engano... :)

Jorge Salema disse...
Este comentário foi removido pelo autor.