quinta-feira, 20 de setembro de 2012

a alternativa

Não sei se era irónica mas parece-me que a Rita Maria , assim como muitos portugueses, insiste na diabolização da Troika. A Troika é meramente um intermediário entre estados soberanos que decidiram recorrer a ajuda financeira, mediante programas de ajustamento, estados que foram democraticamente eleitos, no caso português, por 85% do eleitorado. E compreende-se. À data das eleições, o cenário conservador de privilegiar a manutenção do euro parecia menos negativo. Ainda ontem o ministro das finanças alemão teceu rasgados elogios a Vítor Gaspar. Junto do eleitorado médio português, que é essencialmente conservador, há a ideia de que pelo menos enquanto os alemães tiverem confiança em nós, pertencemos a outro clube que não o grego e o nosso futuro é bem menos indefinido do que se estivéssemos isolados. Enquanto estivermos no programa de ajustamento, avaliados pela troika, sujeitos a regras europeias de limites de dívida, temos pelo menos "um rumo" e esse rumo, mesmo que catastrófico, não depende das decisões dos executantes que elegemos e nos quais não confiamos agora.

A Grécia não está propriamente à venda. A Grécia é, como Portugal, um país hipotecado e agora cobram a hipoteca. Independentemente do caminho a escolher, ele vai implicar uma recessão forte, seja pela diminuição dos rendimentos, seja pela desvalorização brutal da moeda num cenário de saída do euro, cenário que implica uma perda de poder de compra difícil de prever mas que alguns situam como sendo superior a 30% (para além de custos impossíveis de contabilizar como perder as vantagens da moeda única e de estarmos integrados num bloco europeu).

O problema é essencialmente a ausência de um caminho alternativo. A extrema esquerda continua a ter problemas que a impedem de ser uma alternativa elegível para governo. Tem cisões e fracturas que, aos olhos do eleitorado, parecem tão surreais como as religiosas ou étnicas no Iraque. Mas é com estes que podemos contar agora e, numa clara demonstração de inteligência colectiva do portugueses, subiram muito nas sondagens. Isso é positivo - pode parecer que não depois do que eu disse - porque eles defendem uma alternativa e isso ajuda na negociação. O primeiro passo implica a construção de uma hipótese alternativa e de coesão em torno dessa hipótese.

Neste momento, PS, PSD e CDS pedem-nos que escolhamos entre A e A: pagar a dívida e ficar no euro ou ficar no euro e pagar a dívida. O que se discute é ar. Se não é a tsu, é o IVA, se não é IVA, é o IRS, o IMI, se não são impostos, são maternidades, professores, reformas. Quando temos um líder do maior partido de oposição que diz que a RTP não pode ser posta em causa, estamos conversados.

É necessário um plano B. Mesmo que o B não venha a ser implementado, ele tem de existir e ser minimamente quantificado e debatido, para, inclusive, melhorar as condições do cenário A numa negociação. Esse B é, evidentemente, o não pagamento da dívida pública. O racional para isso é simples:

Um povo não pode ser responsabilizado pela dívida contraída pelos seus governantes.

Beneficiámos dessa dívida, é um facto, mas sempre sem a noção do custo porque fomos sucessivamente enganados e nunca tivemos informação completa. Os políticos focam o seu discurso no agora, mentem, desenham  cenários optimistas, ocultam a verdade, ou porque é impossível conhecer o futuro ou simplesmente por calculismo e demagogia criminosa. Em todo o caso, não é plausível que um país e as gerações futuras vivam na miséria porque foram governados por miseráveis. Um país não é uma empresa ou um privado. Se perdoaram (e bem) as indemnizações de guerra à Alemanha depois da II Guerra Mundial, o motivo é exactamente o mesmo. Faz sentido colocar de joelhos, numa humilhação total, o povo grego? E a seguir somos nós?

Parte da solução é penalizar quem forneceu o dinheiro, obedecendo às boas regras de mercado liberais. A verdade é que a hipótese de não pagar a dívida é uma espécie de assunto tabu. Não vi, em lado nenhum, esse cenário devidamente quantificado e discutido. O que sabemos é que a Grécia está prestes a mergulhar numa recessão ao estilo grande depressão seguindo a cartilha recessiva da austeridade. É empírico, não é um cenário.

Dizem-nos "se não pagarmos, vamos estar anos sem nos conseguir financiar nos mercados" e nós respondemos: ainda bem. Porque isso vai obrigar à mudança do paradigma económico português para a poupança. Pode arrasar o nosso poder de compra de bens importados, mas pode beneficiar os sectores exportadores devido à desvalorização cambial e fazer o país focar-se nos sectores onde tem vantagens competitivas naturais. Porque mesmo que atire o nosso desenvolvimento para níveis do paleolítico, vai criar um sistema em que a banca e a promiscuidade do estado com esta diminui e a partir daí temos a oportunidade de um novo começo, mais sustentado. Porque o próprio Euro é um monstro e os instrumentos como eurobonds ou compra de dívida por parte do BCE apenas adiam e geram um problema maior, atirando dívida para cima de dívida (como, aliás, boa parte dos alemães consideram). Porque existe o risco do euro acabar de qualquer forma quando a crise chegar a Itália, Espanha e França ou da próxima vez que um tribunal constitucional alemão recusar mais empréstimos à europa do sul. Porque com o aumento de impostos estamos a aumentar ainda mais o peso do estado na economia quando essa foi uma das causas da situação actual. Porque a banca vai pensar  melhor antes de emprestar dinheiro ao próximo José Sócrates que nós, inevitavelmente, vamos eleger.

Se o cenário de Portugal não pagar as dívidas e sair do euro preocupar assim tanto os credores, o nosso governo, o BCE, a União Europeia, Merkl, então vamos conversar e ajustar o programa de resgate para algo que não nos mergulhe num apocalipse grego. Nós valemos mais do que o peso da nossa dívida no PIB europeu. O que acontecer aqui pode acontecer, por exemplo, em Espanha ou Itália, como um exemplo a seguir. E é nessa altura que negociamos, não com a faca e o queijo na mão, mas pelo menos com um pedacinho de queijo e um canivete. Não como "bons alunos" elogiados pelas próprias pessoas e instituições contra quem nos manifestamos uns dias antes, não como exemplos de "civismo" e de "dignidade", como se fossemos umas crianças com birra e o nosso protesto inconsequente e eles os nossos pais condescendentes, mas como um povo soberano que tem o poder de recusar um destino e o poder de criar outro.

16 comentários:

nAnonima disse...

Aplaudo-te de pé (e já não é a primeira vez)!

Maria D Roque disse...

Absolutamente fantástico . Já li 3 vezes!!!

RCA disse...

Mas pagamos ou não pagamos?

Tolan disse...

Nas condições e prazos actuais não pagamos de certeza, nem que o governo queira e acredite que 2013 vai ser de recuperação... O que temos de fazer é exigir ao FMI um plano de ajuda de longo prazo e realista, sem implicar medidas recessivas. Ou então não pagamos.

Anónimo disse...

"Pagar a dívida é ideia de criança"
I.Punk

Anónimo disse...

«sem implicar medidas recessivas.»
Define "medidas recessivas"?

delarocha disse...

Grande!

Pedro Almeida disse...

Sabes o que te digo?
Só agora o percebi, mas foi um erro crucial termos trocado o Sócrates pelo Passos.
O tipo pode ser desonesto e ter todos os defeitos do mundo, mas era o único que poderia fazer essa negociação com o FMI e a Europa. Coragem e ambição nunca lhe faltou.
Por incrível que pareça temos um PM que consegue ser mais pró-austeridade do que a própria Merkel.

Neste momento o único caminho viável é a saída do Euro, já chegámos a um ponto onde as desvantagens de ficar no Euro são superiores às de saírmos e assim pelo menos recuperávamos alguma soberania.
Este EURO assim definido e controlado pelos Alemães não é nem nunca será para países pequenos e periféricos, só nos vai levar a mais e mais pobreza.

Porque não existe esta discussão na sociedade Portuguesa?
Porque não se discute uma saída ordeira e combinada do EURO?

Pipoca Mais Picante disse...

Isto não pode ser a sério... não pagamos? Portanto vamos ao restaurante, pedimos os pratos mais caros, bebemos do bom e do melhor e... não pagamos. Está certo, está muito certo.

Tolan disse...

Pipoca, uma coisa era eu ou tu termos ido a um restaurante e não pagarmos. Outra é alguém ter ido ao restaurante das PPPs, do BPN e do BPP, da RTP, do Submarino e da Parque Expo, e exigir que um velhote pague da reforma dele a dívida que criou.

Tolan disse...

Pedro, não concordo muito com isso do Socrates, ele adorava a cena de ser o bom aluno também, quem lhe tirava a fotografia ao lado da Merkl aos beijinhos tirava-lhe tudo :)

Izzie disse...

"Outra é alguém ter ido ao restaurante das PPPs, do BPN e do BPP, da RTP, do Submarino e da Parque Expo, e exigir que um velhote pague da reforma dele a dívida que criou."

Precisamente. Responsabilize-se quem nos endividou, de forma negligente ou quiçá dolosa. Mas nós, os que trabalhamos para pagar contas e as pagamos, não conseguimos arcar com mais essa despesa.

Anónimo disse...

E digo mesmo mais. Há muitos a argumentar que até "se não pagarmos, vamos estar anos sem nos conseguir financiar nos mercados" não é bem verdade... Depende da definição de "anos" - basta ver o caso da Argentina: eles NÃO pagaram. (Isto parece um texto dos idos de 1994-1995, quando os estudantes também não queriam pagar... e não pagaram. Hmmmm, será por isso também que hoje estamos assim?)

Pipoca Mais Picante disse...

Exactamente. Responsabilize-se quem nos endividou. Mas acontece que nós os elegemos. Como tal temos de pagar, por muito que doa. E entretanto "responsabilize-se os responsáveis". Gestão danosa é crime

Anónimo disse...

"O racional para isso é simples". O racional? Foda-se, mas agora escreves em inglês?
Queria ver se não pagássemos... o problema, meu caro, não são os outros, somos nós mesmos. Se se acabasse o dinheiro, muitos partiam para a violência, adeus democracia e tudo o resto...

Rita Maria disse...

Lembrei-me agora de que não te respondi a isto, mas o queria dizer era que na verdade já te tinha respondido e que mantenho isso tudo.