sábado, 10 de setembro de 2011

ressaca de cachaça

Ontem descobri que tinha andado a beber caipirinhas de limão o tempo todo porque aqui no brasil limão é o que nós chamamos lima e lima é o que nós chamamos de limão. Muito entusiasmado pela minha descoberta e cheio de vontade de aplicar este conhecimento recém-adquirido, pedi muitas caipirinhas de limão. Com a cachaça que eles colocam numa só caipirinha aqui, posso dizer que três numa noite são suficientes para um homem experiente na bebida começar a ficar subitamente inexperiente na bebida. Considero-me um especialista em ressacas. Não propriamente em curá-las, mas em tê-las. Não sou o tipo de bebedor inconsciente que bebe sem consciência do inferno do dia seguinte. Não que isso altere o meu comportamento, mas confere-lhe mais prestígio e honra, pois não acordo chocado e surpreendido com o sofrimento, como um cobarde. Há muitos tipos de ressaca e o dia de hoje confirmou definitivamente os conhecimentos empíricos que tinha recolhido da última vez que vim ao brasil: a ressaca de cachaça ou pinga é das mais peculiares que se pode ter. Dá vontade de pedir a legalização da eutanásia. A vida deixa de fazer sentido, assim como a noção de espaço e tempo. Os sentidos ficam muito aguçados. Para além de não poder abrir os olhos sob pena de cegar devido à fresta de luz ténue que vem de um bocadinho de um estore um poucochinho aberto, conseguimos ouvir os pássaros tropicais na amazónia. Não é aconselhável qualquer espécie de movimento porque há como que uma decantação da alma. O corpo move-se na cama, a alma arrasta-se lentamente, como azeite em água. Para além de forte enjoos, isto suscita pertinentes questões existenciais como 'quem sou eu?' ou 'onde estou?' ou 'porque tenho os ténis calçados, se estou em boxers?'. O travo ácido a lima e o bafo a destilaria deixa adivinhar o que se passa no nosso organismo ocidental europeu, pouco habituado à intensidade da destilação dos trópicos. Depois das questões existenciais estabilizarem, conseguimos andar até ao wc, recordando a logística complexa de colocar um pé à frente do outro e esticar os braços para paredes e objectos sólidos e tridimensionais para balizar a direcção. Em larga medida, isto é como nascer outra vez, uma experiência que instiga poderosos sentimentos de humildade e resignação à condição humana. Estamos em sintonia com o sofrimento universal, mas pode ser curado com três aspirinas. Há um vulto no espelho e evitamos cuidadosamente olhá-lo nos olhos, com vergonha e sentimento de culpa. Rastejamos de volta para a cama, desta vez a gatinhar. Já na cama, começa a fase dos gemidos que, com a cachaça, adquirem tonalidades desafinadas de bossa nova. A posição fetal recomenda-se.
Umas horas depois acordamos com a dor de cabeça mitigada e a alma dorida. Estamos felizes porque afinal estamos vivos, algo que parecia muito improvável uma horas antes. É possível abrir os olhos, é um bom começo. A partir daí cada acontecimento é como que uma revelação, uma epifania. Alguém telefona-nos para saber como estamos e estranha o nosso estado de deslumbramento que se manifesta por parcos recursos de linguagem e monossílabos. Insiste connosco para que falemos mas não sabemos o que dizer e articulamos coisas como 'hmm?', 's...sim' ou 'p... pois'. A pessoa que fala e não está ali fisicamente, não se parecer aperceber do absurdo que é para nós que a sua voz venha de um objecto que nos chamou a atenção momentos antes porque estava a tocar e a vibrar, com "mãe - mobile" a piscar no ecrã.

5 comentários:

Anónimo disse...

Tolan tens que experimentar caipirinhas de saké! São muito boas :)
Experimentei aí em S Paulo...
Rápidas melhoras

Joana

Tolan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Pão com bastante manteiga antes e durante/depois beber bastante água ou sumos de frutas (ainda a tempo de apagar completamente). E ouvir muitas vezes isso: http://www.youtube.com/watch?v=J758GW3Bl58&feature=related
;)
Astrid

G. Varino disse...

sempre a mãmã...

A. disse...

meio litro de sumo de fruta, com fruta de verdade, nada de concentrado, um salgado bem gorduroso e um guronsan e numa hora nem parece que apanhaste uma de caixão à cova no dia anterior. as melhoras.