terça-feira, 21 de junho de 2011

uma auto-corrente de post literário

Anda aí uma corrente que ninguém me passou e era sobre livros, pedia-se a bloggers que respondessem a uma série de perguntas sobre livros (agora já não vale). Em consequência disso e da situação do Fernando Nobre, esta noite, sonhei que saía um artigo num jornal com uma apanha dos melhores bloggerse estavam lá uns 8 nomes, incluindo alguns obscuros e eu não estava e fiquei irritado. E depois uma mulher, que pelos vistos devia ser minha esposa, diz-me: "mas não és tu que dizes que os críticos não percebem nada?" e eu anuí tristemente "sim, sim, é verdade" e comecei a tentar ver a coisa pelo lado positivo: "se fazem uma lista e eu não estou nela, quer pelo menos dizer que sou diferente" e atirei o jornal para o lado. Só que no íntimo sabia que ela ficaria orgulhosa se o meu nome saísse ali porque, para uma mulher, é importante o que a sociedade em geral pensa do seu homem (traduzido em fama e dinheiro, normalmente ambos). Depois voltei a sonhar que perseguia coelhos, que é uma coisa que me descontrai bastante e acordei bem disposto porque percebi que nem sequer estava casado nem nada.

Não recebi esta corrente, mas recebi há tempos um mail de um leitor a perguntar-me directamente os 10 livros que eu recomendaria como imprescindíveis para se ler e comecei a trabalhar nessa lista de 10 livros, muito feliz de me pedirem a opinião (falei nisso a uma miúda, para a impressionar). Também me pediu uma lista dos 10 melhores videogames (é um bom leitor, o leitor ideal diria). A dos jogos, cheguei logo à conclusão que é impossível de se fazer. E a dos livros, também.

No caso dos jogos, o problema tem a ver com a tecnologia e a sua exponencial evolução num curto espaço de tempo. A literatura é, tecnologicamente, a mesma coisa: letras a formar palavras que formam frases, ideias etc. Um jogo tem de envolver os sentidos com o recurso da tecnologia e qualquer hardcore gamer só jogará a um jogo da geração anterior da consola ou do computador, por piada (ou porque não tem dinheiro para uma PS3 nova), quanto mais um clássico da Atari com 30 anos. Ora, na literatura, macacos do Monkey Island me mordam se não podemos hoje ler o  Dom Quixote do Cervantes e mesmo assim retirar um prazer real e efectivo, sem qualquer esforço ou condescendência - nunca dizemos "olha que engraçados que eram os livros nesta altura ahahaha tão fofinhos, o Sancho Pança é uma bola e o D.Quixote um rectângulo com uma linha que deve ser a lança ahahah e as descrições são todas pixelizadas ihihihih".

É claro que podia resolver isto pensando nos jogos de que retirei mais prazer, mas o problema é que a tecnologia apareceu com a minha infância e evoluiu comigo, tornando-se indissociável da capacidade de ficar imerso num mundo imaginário próprio das brincadeiras. Não vou ser eu aquele trolaró que diz que os desenhos animados no nosso tempo é que eram,  porque hoje, aos 35 anos, fica a olhar com cara de parvo para os bonecos que os filhos vêem. A não ser, claro, que a tecnologia evolua até ao ponto de enganar todos os sentidos, como no Existenz do Cronenberg. Aí a coisa muda, vai acontecer e, nesse momento, a arte dos jogos estabilizará enquanto tecnologia veremos apenas evoluções na forma, como sucede no Cinema, pontuadas por detalhes tecnológicos superficiais (3D, gráficos digitais etc.).

Quanto aos livros, cheguei à conclusão que era um pouco escusado fazer uma lista dos melhores, visto que estaria a chover no molhado.Então lembrei-me de listar livros que considero mais próximos de mim, isto é, uma lista mais coerente, feita de livros que têm algo em comum, achei que podiam ter sido escritos tendo-me a mim como o seu leitor ideal. À medida que vamos lendo pode começar a desenhar-se um padrão pessoal de gosto, como se na literatura vissemos reflectida um 'eu' até então desconhecido, a desenhar-se com bocadinhos da grande obra literária universal que também diz muito ao meu semelhante, inclusive semelhantes que nasceram há 300 anos. Existe a probabilidade de um leitor deste blogue gostar deles, a não ser que esse leitor leia este meu blogue com o mesmo espírito com que eu leio o 5 Dias ou os posts do Henrique Raposo que o maradona às vezes linka. Mas mesmo isso não é certo porque tenho recebido relatos de pessoas desiludidas com o Bukowski por exemplo, o que me faz pensar que este blogue não está a ser bem feito. Portanto, vou inaugurar uma nova forma de fazer correntes, que é dirigi-las para mim e acabá-las em mim: Tolan, por favor, começa a fazer a lista de rajada sem pensar muito e pára dentro de 20 minutos.



O Castelo, O Processo, o Estrangeiro (ou América) - Kafka
Gogol (em geral)
Um Herói do Nosso Tempo - Leermontov
O Idiota, os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo - Dostoiévski
Le Rouge Et Le Noir - Stendhal
Voyage au bout de la nuit - Céline
Salinger (Salinger em geral)
Post Office, Ham on Rye, contos em geral - Bukowski
L'ecume des jours, Morte aos feios, Elas não percebem nada etc. - Boris Vian
Fome - Knut Hamsum
Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Molloy - Becket
Saroyan em geral
As aventuras de Huckleberry Finn - Mark Twain
O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
Os Nús e os Mortos - Norman Mailer
A extensão do domínio da Luta - Houellebecq
Lolita, Convite para uma decapitação, O Dom - Nabokov
O Deserto dos Tártaros - Dino Buzzati
Contos (em geral) - Truman Capote
A Queda, o Estrangeiro - Camus
Guerra e Paz - Tolstói
Contos em geral - Tchékov
Robison Crusoe - Daffoe (versão original completa)
Dom Quixote - Cervantes
Confissões de Uma Máscara, O marinheiro que perdeu as graças do mar, - Mishima
Belle du Seigneur - Albert Cohen
Tolkien em geral, particularmente o Silmarillion, o Hobby e o Senhor dos Anéis
Contos em geral - Guy de Monpassant
Poe (contos)
Além - Huysmans
O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago
Cartas de Guerra, volumes 1 e 2 de crónicas, Fado Alexandrino - António Lobo Antunes
Eça, em geral duh
Heart of Darkness - Conrad
Shining - Stephen King
A Ilíada e a Odisseia - Homero 

acabou o tempo

*acrescentei agora o O Que Sabemos do Amor - Raymond Carver, este tem de lá estar.

** apercebi-me ao ler a lista que não sei quem sou mas não queria apagar aquele parágrafo com a lenga lenga do nosso retrato pessoal a desenhar-se etc., talvez se desenhe mais facilmente com uma lista dos grandes livros de que não gostámos (livros que sabemos que objectivamente são bons mas com que não fomos à bola)

14 comentários:

Anónimo disse...

Nao devia ser hobby?

Anónimo disse...

Muitos beijinhos pela inclusão do "Deserto dos Tártaros", é sempre bom sabermos que não estamos sós.
Se eu fosse gaja, era na boca

Tolan disse...

Corrigido!

quanto ao Buzzati, também gosto muito da colectânea de contos da Baliverna :** (nas bochechas)

Tolan disse...

caraças, e falta-me ali alguns sul americanos... não pus nem um... mas gostei muito do Juan Rulfo e do Adolfo Bioy Casares por exemplo.

Marinofsky disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
purpurina disse...

olha lá o que deixaste passar: http://ladyohmydog.blogspot.com/2011/06/isto-agora-e-so-disto.html

tsc tsc

hierra disse...

Aqui ficam boas sugestões e isso é que é preciso, já li alguns mas faltam-me outros tantos

Margarida disse...

Estou um bocado angustiada c a lista...! Dos russos não li nada, do Lobo Antunes,já tentei várias vezes e não consigo, assunto encerrado.Não li o Cervantes, nem o Guy de Monpassant, nem o Tolkien e mais alguns.
Tantos q me faltam ler!
Não gosta do Bruce Chatwin? Eu gosto mto. Estou a ler o In Patagonia c uma capa mto bonita do Michael Salu.

Tolan disse...

Margarida, vá pelos russos. Hei de ler Bruce Chatwin, nunca li.

purpurina, obrigado!

Anónimo disse...

Deserto dos Tártaros, gosto muito. E também de Boris Vian. E de Alice no País das Maravilhas e Alice no Outro lado do Espelho. E de Charles Dickens que já ninguem lê, a não ser eu

Samuel Filipe disse...

Falta aí o Rulfo para ser uma lista próxima da perfeiçao. E o Walser e o Vila-Matas. E sacar o Vian e o King... (suponho que nao gostas do P. Roth?) Estou a ler Bella del Señor (existe trad em português??) e que grande surpresa. Irónico e sensual ao mesmo tempo (falo dos monólogos dela). Uma escrita incomparável. Boa surpresa encontrá-lo aqui, mas outra coisa nao seria de esperar. :) Abraço.

Tolan disse...

Pois, só me lembrei do Rulfo já nos comentários. Nunca li Walser nem Vila-Matas. Gosto do Roth, mas não o suficiente. Havia uma edição do Bela do Senhor por editora que era a Contexto, ainda deu para oferecer uns 3 exemplares (eu li no original) mas nunca mais vi o raio do livro, dizia-me que a contexto tinha falido. Só vi por aí o Trinca Pregos, também dele. O Bela do Senhor é mesmo um dos livros de que gosto mais, li-o antes de fazer 20 anos e marcou-me muito.

silvia disse...

eu sabia :)
que bastava passar por aqui...

não perca: "diário de um escritor" do Dostoiévski

"a vida e as opinioes do tristram shandy" (laurence sterne)recomendado pelo JMB lá na causa

bom trabalho :)

A. disse...

Obrigado pelas recomendações. Mais vale tarde do que nunca.

Hoje comprei os:

O Castelo, O Processo - Kafka

Tenho por aqui uma bela lista para me entreter.