terça-feira, 3 de maio de 2011

Aparição - Vergílio Ferreira, notas terminais

Frio, aborrecido, paternalista, condescendente, pretencioso pretensioso* e sem uma centelha humana, a não ser o episódio, provavelmente real, do enforcamento de um cão doente na infância do narrador. Não me passava pela cabeça que as personagens e a atmosfera de Évora, bem esgalhadas, fossem apenas uma armadilha. O primeiro quarto do livro é bom porque ainda estamos na apresentação humana das personagens e o enredo é simples, a atmosfera apelativa. Mas quando a aparição começa a infectar os pobres dos fantoches, instala-se um teatro pedagógico para turma de liceu. É o equivalente a um filme que me mostraram em puto, para me alertar contra os perigos da droga. Há um fantoche para cada estereótipo, embora, curiosamente, falem todos praticamente da mesma forma, com a mesma voz melodramática, empolada e críptica, assim que são acometidos de aparição. Distante e condescendente, o narrador disseca o que acontece aos outros e finge um desespero existencial que tem tanto de credível como o Cristiano Ronaldo ser heterossexual.

Penso que num jovem o livro possa ter algum efeito e ser, mesmo, agradável e marcante e isso tem o seu valor também.

Desisto de o ler a duas dezenas de páginas do fim, foi difícil e masoquista chegar tão longe. É muito bem escrito, tecnicamente, apesar das inusportáveis repetições de palavras demasiado fortes, como "aparição", "estalar de" ou "ressoar". Se fizessem uma telenovela mexicana filosófica existencialista, seria assim. O próprio enredo é novelesco.

A quem se interesse por estas coisas mas em bom, é favor ler Dostoiévski, por exemplo, o Demónios.

Outra coisa, lembrei-me que desisti de outro livro do Vergílio em tempos, o Escrever. Foi-me ofertado por um grande amigo, que por acaso lê este blogue e, portanto, não vou explicar por que motivo não o cheguei a terminar. As minhas desculpas e eu sei que gostas de mim na mesma.
Lembra-te que eu te tentei convencer que o album Devil Without A Cause do Kid Rock era genial, por isso, estamos quites. Mesmo assim, fica aqui o video, pensa nisso melhor.



*quanto ao "pretencioso", que de facto é pretensioso, gostaria apenas de dizer três coisas:
- a busca "pretencioso ou pretensioso" dá mais de 4 mil resultados no google
- existem muitos repositórios de gramática supostamente oficiais como este que têm pretensioso mal escrito (pretencioso) e replicam o erro
- o comentador Luiz Pacheco teve piada :]

14 comentários:

Anónimo disse...

Eu sabia! Não podia ser só problema meu quando tentei ler esse livro para Português do 12º ano. Juro que comecei umas 5 vezes e nunca passei das primeiras 5 páginas. Restou-me esperar que não saísse no exame nacional. (Não saiu, felizmente.)

Luiz Pacheco disse...

Será que o facto de escreveres mal a palavra 'pretensioso', por si só, te torna despretensioso? Olha que era metalinguagem muito bem metida.

LN disse...

Então? Oh Tolan... o «punch line» deste livro é no fim... é quando todas aquelas tautologias se iluminam e justificam. E creio ser um dos melhores livros dele (li entretanto outros, e são, para mim, inferiores); é um livro para ler até ao fim. Concordo com a achega sobre a pedagogia liceal, mas percebe que uma personagem como a Cristina é bem superlativa... o Vergílio Ferreira é um daqueles escritores que, mais do que apreciar os livros, tens de Gostar de Estar com ele. Se não gostas, vai tomar café com outro. É assim. Um cosmo muito único e em diálogo consigo próprio. O leitor entra se quer, naquela mesma distância q que o Vergílio não obriga ninguém entender. E depois tem páginas belíssimas de texto.

o anão gigante disse...

Estás bem lixado, a Sony foi atacada novamente e mais uns milhões de utilizadores viram os dados roubados. Joga damas :))

Isabel disse...

Já agora chegavas ao fim, não?!

Rita Maria disse...

Totalmente de acordo, já passaram muitos anos mas lembro-me de me sentir muito defraudada com a estratégia do livro posta assim a nú, como se toda aquela filosofia-para-adolescentes só estivesse ali para me insultar a mim. Mas gostei muito do livro dele passado num colégio de miúdos, mais do que o que o do Vargas Llosa sobre o mesmo tema (isto fazia mais sentido com títulos, mas já nao consigo).

Teresa disse...

Mais duas correcções, se não levar a mal:

Aparição - o título do livro. Sem artigo.

No último parágrafo, aquele "porque" tem de ser "por que" (a razão pela qual).

blackphoenix disse...

Esta é a terceira vez que tento comentar isto, agora até me parece um comentário desprovido de sentido, mas... podia dizer que é persistência, mas é teimosia mesmo!

Li esse livro no secundário, por obrigação, e como tal passei a detestá-lo. Nunca lhe encontrei grande sentido ao contrário de todas as pessoas que conheço; aliás, por isso mesmo sempre considerei que o defeito era meu!

Anónimo disse...

Este livro foi determinante para formular quem sou. Entendo que nem toda a gente tenha a profundidade para o compreender. Todavia, quem nem sequer compreende a gramática, não admira que não chegue a Vergílio Ferreira!

blackphoenix disse...

Xiii... nunca comento e quando o faço ainda levo com um atestado de burra! (não sei se era para mim, mas tomei-me das dores!) Será um indício? Um prenúncio?!Um presságio?! Um sinal de que nem todos gostamos de azul não é de certeza!

blackphoenix disse...

Ai sim?! Bem, nesse caso, e porque estou aqui para ajudar, deixa-me dizer-te que apesar de considerarem a da Maria Helena Mira Mateus muito boa, nada se compara à do Cintra!

(Desculpa!!! Quando me dá para aparvalhar é muito difícil controlar-me. Mas eu prometo que já me vou embora e não volto!)

blackphoenix disse...
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blackphoenix disse...
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blackphoenix disse...
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