quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

inquieto

Este texto foi escrito ao abrigo do memphis soul, uma música do misterioso Anders Lewen da banda sonora do BFBC 2 Vietnam

Gosto de andar de metro. Gosto de ver as caras das pessoas. No carro não se vê a cara das pessoas e depois julgamos que as pessoas são piores do que são e apitamos e elas também julgam que somos piores do que somos e apitam. E às vezes fazem gestos feios com a mão. E às vezes param os carros e começam à bulha, mesmo depois de verem a cara uns dos outros. No metro há muitos pretos e paquistaneses e parece que estamos numa cidade a sério como Londres e Nova Iorque. Há raparigas giras com livros e iPods nas orelhas e eu tento colocar-me no campo de visão delas e sacar das capas giras do Bukowski. Gosto da voz da senhora do metro, é sexy e imagino-a sempre a dizer coisas eróticas com aquela entoação, marquês de pombal… há correspondência com a linha mete-mo todo lá dentro ou próxima estação… dá-me com força. O marido dela deve divertir-se imenso. Há publicidade divertida e colorida por todo lado que nos faz sentir que tudo está bem. Gosto de escadas rolantes, quando as senhoras de idade ficam em pânico no fim, a olhar para os pés e para as escadas, para certar o timing. Às vezes as crianças sobem as escadas que descem e ficam no mesmo sítio ou descem as escadas que sobem e também ficam no mesmo sítio e os pais ralham. E adoro os tapetes rolantes, nos tapentes rolantes como o do Marquês ou de Sete Rios ou do Cais do Sodré, se andarmos a pé e depressa parece que vamos a voar mas sem grande esforço. E se vierem pessoas no sentido contrário vemos muitas caras a passar, cansadas, distraídas, sonhadoras, concentradas, preocupadas. O metro desaparece no túnel escuro e quando vem parece um dragão de olhos a brilhar. No centro comercial de Alvalade, hoje decrépito e quase vazio, e que ainda tem o helicóptero de moedinhas em que eu andava quando era miúdo, havia uma passagem para a linha verde que já não existe. Imagino os corredores e o cais abandonado e fechado, com velha publicidade dos anos 80, em cartazes cheios de rostos sorridentes e bolorentos, a anunciarem produtos que já não existem e modelos que já não são bonitos e jovens e se calhar já morreram. E à noite, no cais abandonado, nos bancos, talvez haja esqueletinhos a aguardar o metro fantasma enquanto à superfície, na cidade fustigada pelo alerta vermelho, alguém está inquieto.

15 comentários:

Laranja disse...

Ainda andas de metro?
;)

Andorinha disse...

Essa passagem em Alvalade existiu até 2004...ou 2003...A IBM era naqueles edifícios grandes mesmo por cima do CC Alvalade. Qdo saiu de lá a IBM e as Páginas Amarelas virou um deserto. É uma pena. A pastelaria que havia com neons cor de rosa no andar de baixo era bem boa. Cara. Chulos. Mas bem boa. E à hora do almoço fazia-se "piscinas" no CC ou na Avenida da Igreja. À tarde apanhava o metro para os Anjos, se ainda fosse de dia, claro.

Papoila disse...

:D
Que texto fofo.
Em Viana do Castelo não há metro. Só comboios velhos que cheiram a gado.
Em Florença também não há. Só comboios de 2 andares e outros que também cheiram a gado. E chineses. Muitos chineses e indianas com os trajes tradicionais.

Tolan disse...

Laranja, raramente, é mais carro agora e bicicleta quando posso :)

Tolan disse...

Andorinha, vou regularmente ao centro comercial de Alvalade, ainda há uns cafés, será que essa pastelaria já fechou mesmo?

Tolan disse...

Papoila... "velhos que cheiram a gado" não é muito fofinho de se dizer :\

Andorinha aka Sofia disse...

O facto de eu usar o tempo verbal no passado nao quer dizer q a pastelaria nao exista, eu e' que nunca mais la fui :( gosto mto da zona de alvalade. Qdo voltar, se nao for viver pra Graca quero viver na Av de Roma ou em Alvalade. A pastelaria era no piso principal, no mesmo onde havia uma loja de fotografias. La' esta': havia-porque nao sei se ainda ha :)
A pastelaria tinha uma cadeiras cor de rosa :) sei q levaram um rombo enorme qdo as duas empresas vieram embora. Espero q tenham sobrevivido :)

Pólo Norte disse...

Gostei imenso destas sinestesias. ;)

Tolan disse...

Obrigado :)

Marisol disse...

Ahhhhhhhh Tolan! <3
Não sei se já reparaste na cara das pessoas quando as escadas rolantes que dão para o largo do Chiado estão avariadas. [o que é quase sempre, nem que seja só uma]

Tolan disse...

Sim Marisol, é mais ou menos esta sequência

O_o


-_-

Maria Flausina disse...

Eu ando de barco. Só tem 2 estações, Cai Shudré e Cacilhas. Nos barcos há muitas caras, e nos antigos havia algumas baratas! E quando eu for grande quero entusiasmar-me a andar de barco, como o Tolan se entusiama a andar de metro!
Boa redacção, dou-lhe um B+

Nandita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nandita disse...

Por isso sempre gostei de andar de metro, de autocarro, de tram... :) olhar as pessoas é um guilty pleasure!

Papoila, desculpa, mas em Viana os comboios não cheiram a gado... e tenho pena de já raras vezes apanhar comboios à moda antiga, com os estofos de napa castanha :) e tenho pena de os bilhetes já não serem rectangulozinhos cor de tijolo "meio bilhete por favor" :)

Dina Garça disse...

Adorei este post. De repente fez-me sentir novamente em Lisboa e no metro.