quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

disco preferido que não interessa a ninguém, Velvet Underground, Loaded (1970) e reflexão inconsequente


O Bukowski diz, algures na maravilhosa entrevista partilhada pelo Pedro Gois Nogueira nos comentários ao post do Under The Volcano (respirar) que está pronto para morrer porque com a idade as coisas tendem a entrar em repetição. Nesta música, o esmagador I Found A Reason, o Lou Reed canta "I do believe, if you dont like things, you leave for some place you never gonne before e "I do believe you are what you perceive, what comes is better than what came before". Gosto muito desta canção, é raro uma coisa inspirar-me tanto e ser tão boa, como aquele anúncio do Nescafé e aquela música.

O narrador da canção vem de um mundo de solidão, descrito com clichés na pausa aos 1:48, que tanto podem ser irónicos, como reais. A esperança a emergir do coração das trevas ensopado em heroína dos Velvet Undergound e tudo porque ele encontrou a mulher. Consigo marcar com precisão alguns momentos em que senti qualquer coisa a quebrar para sempre, como provavelmente o caro leitor também consegue. Pense no primeiro cão que lhe morreu, na primeira ilusão de amor desfeita, na primeira traição que cometeu ou que cometeram sobre si, nos caminhos que se fecham com o tempo, nos sonhos que teve e que adormecem cheios de pó numa arca e nas fotos de avós ou bisavós que nunca conheceu e cujos genes estão em si. Está sempre a acontecer, o passado repete-se, outro natal, outro ano novo, outro aniversário, o eixo norte sul cheio de trânsito numa noite fria de dezembro, as gotas no pára-brisas a reflectir as luzes da ambulância numa constelação vermelha e azul e no rádio as notícias da crise, mais uma, outra e outra e outra e imaginamo-nos naquela ambulância luminosa, confusos e assustados com os rostos desconhecidos debruçados sobre nós e cá fora, as pessoas educadamente a desviarem os carros. Por isso, para mim é bom ouvir músicas como o I found a Reason, mesmo que seja apenas uma música de uma banda de agarrados de nova iorque, o rock, a poesia, é a voz de Deus, é a minha religião e fé. O que vem é sempre melhor do que o agora. É como o plantel do Benfica, 2011 e a próxima mão num jogo de poker.

6 comentários:

Anónimo disse...

Amo este disco. Beijos.

Pedro Góis Nogueira disse...

Mas as repetições da vida ainda nos vão dando posts destes. Casos há em que o Eterno Retorno é desejável..:)

Isabel disse...

Houve aí um trecho que gostei especialmente, mas é um bocadinho lamechas, por isso não digo qual foi!

Tulipa disse...

Muito bom! Muito bom!

Beatrix Kiddo disse...

a música do Nescafé I can see clearly now the rain is gone?

Tolan disse...

Sim, é muito bonita.