sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Requiem

Nunca fui um gajo de pesadelos. Em miúdo tinha alguns e lembro-me de 3 ou 4 muito marcantes, um deles recorrente. Mas de há 2 anos para cá, comecei a sonhar com pessoas que me desapareceram. Aparecem-me em sonhos e nos sonhos a sensação é real, é como se estivessem ali. Uma, é o meu pai, que faleceu há cerca de dois anos. Aparece-me em sonhos e, apesar das situações serem normalmente rotineiras, como discussões sobre a minha sanidade mental, o Benfica ou o volume da televisão, costumam ser perturbadores ao ponto de acordar. E quando acordo, ainda envolto no sentimento do sonho, começo a aperceber-me que ele morreu e seguem-se momentos de confusão mental. À medida que vou ganhando lucidez, vou encaixando o facto de que morreu e que foi um sonho, e então é como se ele morresse outra vez e invade-me um sentimento de tristeza absurdo, uma vez que tudo aquilo foi despoletado por um sonho perfeitamente dispensável na vida de um gajo que tem de acordar em forma para trabalhar e fazer contas no excel. Raramente consigo adormecer de novo. Durante o dia as coisas correm bem e eu sou um tipo bem disposto e calmo. Mas notei uma transformação subtil: quando oiço certas músicas, por exemplo, o Requiem de Mozart ou o Evangelho Segundo S. Mateus de Bach, há uma ligação qualquer, uma ponte, entre a minha consciência que ouve a música e o mundo onírico de onde vêem os sonhos e que antes não existia. E os dois, a música que oiço pelos ouvidos e esse sonho, encontram-se e comovem-se os dois, como se fossem íntimos, enquanto eu assisto perplexo.

3 comentários:

Crente disse...

Obrigada pela música.

Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosário disse...

Acho que é a 1.ª vez que deixo um comentário num blogue mas este "Requiem" comoveu-me profundamente. É que eu também costumo ter sonhos/pesadelos destes desde que o meu pai faleceu. Revi-me em cada palavra.