sexta-feira, 19 de novembro de 2010

happy meal


Janto umas 3 ou 4 vezes por semana no McDonalds do meu bairro, sozinho, tarde. Peço sempre sopa em vez das batas fritas. Um sem abrigo de barbas também janta comigo. Entra com uma refeição num daqueles tupperwares de papel de prata que lhe devem ter dado num restaurante do bairro, tira guardanapos e senta-se numa mesa. Nenhum dos happy empregados tem coragem para o expulsar dali e ele sabe. Come a sua refeição discretamente.

Pais desconfiados, com olheiras de stress, distribuem hamburguers pelos filhos. Ees correm de um lado para o outro, excitados. Os pais estão cansados demais para reagir. O sem abrigo é invisível..Reparo que tiro sempre uma palhinha apesar de  beber cerveja. Tento ter uma alimentação variada: double cheeseburger, royall deluxe, mcchiken, big tasty, crispy bacon...

Os empregados parecem-me desmotivados, cansados, macilentos. Quase que dá a sensação que gostariam de estar a fazer outra coisa. O gerente é sempre um tipo que tem aspecto de ser o único a levar aquilo a sério, mesmo que a profissão o obrigue a usar uma higiénica touca de rede na cabeça.

Acabo de comer depressa, no McDonalds não dá para ler com facilidade. Há uma cacofonia de bip bips de máquinas de fazer batatas e hamburguers e não há tempo de espera pela refeição. Acabei muitos romances em tascas à espera do bitoque. Brinco um pouco com o blackberry, respondo e e-mails, sms, vejo as notícias. Despejo o tabuleiro e saio para a rua. Hoje estava a chover muito e pus o meu carapuço do meu casaco novo. É um bom casaco, o carapuço serve-me.

Gosto de pensar nos carapuços como a minha toca portátil. Gostava de usar um sempre, como o Kenny. Gosto do som do tecido nas orelhas e dos pingos de chuva e de quando sopra o vento e sentimos o carapuço a proteger-nos.

Os bebados da tasca do senhor Antunes estão todos na rua, a fumar. A tasca do senhor Antunes é muito higiénica, nem as baratas podem fumar os seus mini-cigarros lá dentro, têm de vir cá para fora também. Entro, compro as minhas cervejas, ele diz-me pela 1000ª vez que "estas são de deitar fora" e eu digo "está bem" e saio, dizendo boa noite a todos e ninguém me responde. Há uma irmandade nestes sítios, mas uma pessoa precisa de ser credível eu sou alguém que anda sem fazer ruído e observa sem ser observado, um fantasma.

14 comentários:

Cat disse...

Um solitário...

E. disse...

é daquelas cenas q uma pessoa lê e porra, entende-se perfeitamente o q queres dizer. Vive-se espectacularmente bem o texto. Daquelas cenas q sim, q te saem bem.

Anónimo disse...

tolan, queres ser meu amigo?

Isabel disse...

Big Tasty, Big Tasty, Big Tasty!

(Gostei muito do texto, mas estou farta de escrever sempre o mesmo.)

Maria Fonseca disse...

Depois de ler este post, era capaz de arriscar que o menino Tolan nasceu e/ou foi criado cá pelo norte. Estarei enganada?

Tolan disse...

obrigado!

quanto ao norte, não, mas não sou de Lisboa, sou da zona oeste. mas porquê? :)

Maria Fonseca disse...

Porque conhece a palavra carapuço. E essa é uma palavra que apenas ouço Norte.

Maya disse...

Isso (de jantar no McD tantas vezes) é preprep para um livro? Tipo ... Moore?

Cuca disse...

Oh Tolan, credo! Vais ficar gordíssimo!

Tolan disse...

Hoje também almocei no Mac.
Eu não fico gordo, queimo muitas calorias a pensar nas coisas.

Cuca disse...

é, é...isso é o que dizem todos! Tolan, compra um livro de receitas fáceis e vais ver que até a escrita corre mais leve.

Wiwia disse...

Delicioso. Bela objectiva.

blimunda disse...

é o retrato actual mais fiel que tenho lido. e imagino, por exemplo, que esse sem-abrigo que compartilha o espaço-tempo contigo poderia bem ser o bukowski (ou o nosso sebastião alba) e cravar-te uma 'jola.

Aladdin Sane disse...

no McD da praça da república, em Queensbra, havia um septuagenário que lia o "Cahiers du Cinema" à mesa, sem comer. kinky?