sábado, 30 de outubro de 2010

imitações

Na infância e ainda na adolescência, o tempo parece passar devagar e depois com a idade passa cada vez mais rápido, os anos voam. Como vivemos a mesma coisa uma e outra e outra vez, tendemos a ficar cada vez mais indiferentes. Vem aí o Natal outra vez etc. etc. A vida é feita de rotina e essa passa por nós como a paisagem numa ida para o trabalho de manhã, no eixo norte sul. Os olhos vêem mas não vêem nada e não conseguimos recordar nenhum detalhe particular. Essa inércia também nos pode fazer perder os impulsos criativos pois eles nascem de uma necessidade de reacção a qualquer coisa. Passamos a estar anestesiados pela tv, pela playstation, pela publicidade, pelo dinheiro, pelo conforto, pela previsibilidade. Existem, evidentemente, momentos marcantes que ficarão gravados. O primeiro beijo na mulher, o nascimento do filho, a morte do pai, mas pouco mais.

Tenho um alibi que me permite forçar certas coisas, apenas para poder falar sobre isso. Mas os grandes talentos não precisam disso. O Hemingway, apesar de ter tido uma vida intensa, não teve as experiências limites de que fala no livro. Por exemplo, ele era correspondente na guerra, não era soldado, mas descreve a sensação de matar e combater com enorme realismo, ao ponto de veteranos acharem aquilo mais real do que o que eles próprios viveram. Ele conseguia, como alguns grandes génios da literatura (Shakespeare, Dostoiévski), projectar-se para dentro da mente de pessoas diferentes. É como aqueles actores que apesar de não terem uma mutabilidade total - têm sempre um traço próprio - conseguem uma grande amplitude dramática, fazer comédia, drama, terror, serem o bom, o mau e o vilão. Penso no Kevin Spacey (o meu actor vivo preferido) por exemplo. Uma actriz disse-me que quando tinha de chorar em palco pensava numa coisa triste, quando os pais tiveram de dar o cão da família a outra pessoa. No palco, a tragédia a fingir era incomparavelmente maior (a morte do marido) do que aquele pequeno trauma, mas o público não precisa de saber isso.

O génio do Kevin Spacey a fazer imitações.

4 comentários:

Maria disse...

Este Homem é simplesmente brilhante! Não fosse o Keyser Soze uma das minhas persongens preferidas e o usual suspects estar na lista dos melhores filmes que já vi. Desconhecia o seu talento para impressões.

Beatrix Kiddo disse...

adoro essas entrevistas

moi chéri disse...

Kevin Spacey é também o meu actor (vivo) favorito. desconhecia-lhe o talento para as imitações. vou roubar um pedaço do post, posso?!

Tolan disse...

claro :)