terça-feira, 12 de junho de 2012

turmalina

Vocês acreditam em fantasmas? Eu acho que não, mas agora ando com uma turmalina negra que a Plaft me deu para me proteger nas reuniões do projecto internacional transatlântico em que sou normalmente trucidado e por isso já não sei. É uma pedra irregular e negra, parece o estado intermédio entre o carvão e o diamante. O melhor é postar uma foto.
Olha aqui ela, é mais ou menos assim:


Mais ou menos, a que a Plaft me deu é mais irregular e bonita.

Este domingo vimos o Biutiful do Alejandro González Iñárritu que realizou, entre outros, o assombroso Amores Perros. Que grande filme, a Plaft chorou muito e eu chorei um bocadinho numa cena, o que é sempre agradável porque estou farto de ser comovido apenas pelas cebolas que pico. O filme tem aquele misticismo / esoterismo sem cair nos clichés infantis do Shyamalan (Sexto Sentido) e tem paneleiros também mas sem a rabichice do Almodovoar, até porque é entre chineses e então é diferente, eles são mais contidos e sérios. Que cabrão de filme. Deram uma turmalina negra ao Javier Bardem para o proteger das cenas e eu então aceitei a turmalina negra da Plaft que ela me quis oferecer para me proteger e eu não tinha ligado muito a isso porque não sou cá de esoterismos.

Andei com ela o dia todo no bolso das calças. Não sei se fez efeito, mas fiquei com uma nódoa negra porque o bolso me apertou a turmalina um bocado e então pode ser que a nódoa negra faça um coágulo e eu vou ter um aneurisma ou assim. Se calhar protegeu-me de coisas, nós nem damos por isso porque não somos afectados pelas coisas que não nos afectam, só somos afectados pelas coisas que nos afectam. Pensem nisto.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

e agora, um exemplo cultural, o cinema

Façam um esforço, vá lá.

Depois do exemplo abaixo, que tenta expor o absurdo do raciocínio de que receitas que não advenham directamente do orçamento de estado não saem do bolso dos portugueses, pego neste artigo de opinião de Pedro Borges, no DN, intitulado "Verdades e Falsidades sobre o cinema português".

Antes de começar, e porque dizer mal do futebol é fácil tendo em conta o meu target, devo advertir que sou totalmente favorável a cinema financiado directamente pelo estado.

Tenho algumas ideias a esse propósito que não cabem neste post, mas o ponto a reter é que, no leque de gastos extremamente questionáveis por parte do estado português, considero que há um ataque ideológico ao sector da cultura, visto que é um sector normalmente dominado pela esquerda que, com  excepção da Fernanda Câncio, só se pode defender com a natural falta de capacidade argumentativa da esquerda (como vão ver).

 Depois de afirmar isto, vamos então a estes dois parágrafos épicos, em que Pedro Borges tenta separar as verdades das mentiras.

O cinema português é produzido com dinheiros do Estado: FALSO. Durante década e meia, os fundos públicos para o cinema resultaram de uma taxa sobre os bilhetes de cinema. Depois disso, de uma taxa cobrada pelas televisões aos anunciantes (4%), da qual quatro partes revertem para o Instituto de Cinema e uma parte para o (ridículo) orçamento com que trabalha a Cinemateca. Nem um cêntimo do Orçamento do Estado... 

Em Portugal há muitos milhões de euros para a produção de cinema: FALSO. O orçamento anual de apoios à produção não chega a nove milhões de euros: o equivalente a dois filmes médios europeus. Com esse dinheiro, e custos não muito diferentes, cria- -se em Portugal dez vezes mais filmes...

Bom, só coloquei o segundo parágrafo porque é totalmente contraditório com a afirmação do primeiro. O primeiro diz que o cinema não é produzido com dinheiros do estado (usa o termo "públicos" que na opinião do autor significa outra coisa), o segundo diz que há um orçamento de 9 milhões de... enfim, não vamos perder mais tempo com o segundo.

É no primeiro parágrafo que está o sumo. Lá está o que referia no post abaixo a propósito do dinheiro da UEFA, cobrado pela FPF que actua como intermediário do Estado. Na opinião de Pedro Borges (e de muita gente a propósito de muita coisa do género), o facto de se cobrar uma taxa sobre bilhetes e uma taxa aos anunciantes, não é o mesmo que receber dinheiros do estado.

Lá está o mesmo raciocínio da compartimentação de contas, quando no fundo se trata de dinheiro que é "taxado" a pessoas e que tem o mesmo efeito no rendimento delas e das distribuidoras / salas de cinema que tem o IVA. Na prática aquela taxa é uma espécie de agravamento do IVA nos bilhetes de cinema, não há diferença.

Federação Portuguesa de Futebol, um case study

Face ao escandaloso ranking dos custos por dormida de cada selecção do europeu de futebol que coloca Portugal no topo com 33 mil euros e Espanha no último com 4700 euros(embora me custe muito acreditar que conseguem alojar uma selecção e respectivo staff por apenas 4 mil e 700 euros diários havendo claramente aqui um problema de metodologia), Humberto Coelho, membro da comitiva, fez o comentário que já se esperava: não custou um tostão porque foi pago com prémios da UEFA. Procurando afastar-me da típica bipolaridade do povo português que oscila entre uma euforia desmedida pela selecção e um descrédito e mesmo rancor profundo, quero aproveitar a oportunidade para uma lição de economia. Esta ideia de que o dinheiro vai de um sítio (UEFA) para o outro (Federação) sem passar pela casa da partida (o Orçamento do Estado) e que por isso "é deles", é muito comum. É comum em institutos, entidades reguladoras ou qualquer tipo de organização com fins públicos que tenha em seu poder a capacidade de cobrar alguma espécie de taxa ou licença pela utilização de um recurso público, seja o solo português para fazer estradas, meter cabos e canos, o espectro, o ar para andar com aviões, as fronteiras para deixar entrar turistas etc. Como recebem directamente o dinheiro porque têm a função de cobradores, ficam com a ilusão de que são autónomos, como uma empresa (e logo uma monopolista) e só precisam de dar um excedente ao estado no fim de cada ano.

É por este motivo tão prosaico que existe uma certa cultura de despesismo e luxo neste tipo de entidades: procura-se gastar o mais possível para reter as "receitas" daquele ano e evitar "perder" dinheiro para o estado. A Federação Portuguesa de Futebol não é diferente, aliás, é provavelmente a mais mimada de todas e a julgar pelos números (já lá vou) aquela que melhor segue a máxima do estoirar até onde dá. A FPF explora talvez a expressão máxima do activo intangível "Portugal": o nome, a cor, a bandeira, o hino, a história, o patriotismo e claro, o direito a participar nas provas oficiais da UEFA. E se o recurso natural "jogadores portugueses" não é suficiente, naturalizam-se os que forem precisos.

Só em 2010 se extinguiu o curioso estatuto de utilidade desportiva pública à Federação, estatuto que lhe garantia 1,8 milhões de euros por ano pagos directamente pelo estado português. Contudo, mesmo que recebesse este subsídio, Humberto Coelho (e qualquer outro dirigente), podia alegar que o dinheiro que é utilizado para pagar o hotel na Polónia é aquele que vem dos prémios da UEFA, pois é também muito comum a ideia, em Portugal, de que o dinheiro se mantém compartimentado na mesma conta. Basta ouvir os nossos governantes quando dizem que o que vão cobrar especificamente ali, vão aplicar especificamente acolá.
 
A Federação movimenta milhões em direitos e patrocínios, mas esse dinheiro também é nosso, ou do Estado, porque o Estado podia atribuir a outra entidade qualquer o direito de explorar o activo intangível "selecção portuguesa", que não é diferente do ar, do mar ou do solo. O Estado podia (e devia) exigir essas receitas e redistribuir como fosse melhor. À FPF caberia aquilo que conseguisse justificar com orçamentos anuais. Assim, a FPF consegue a proeza de prever lucros de apenas 150 mil euros, quando tem 37 milhões de euros de receitas. Por mágica coincidência (ou pelo motivo que expus acima) as despesas somam quase o mesmo valor das receitas.

 Em 2010/2011: Na proposta da direcção, a que a agência Lusa teve acesso, estão previstos 37,741 milhões de euros de despesas, contra 37,891 de proveitos, «valores que representam um ligeiro aumento em relação à época de 2009/2010».Isto é que foi pontaria, ficou ali rés vés Campo de Ourique, à continha. Mesmo assim ainda sobraram 150 mil euros para uma gorjeta. Era só mais umas noites nos hotéis certos ou subir um bocadinho de nada os prémios de jogo aos atletas e conseguiam acertar as contas.

Até porque os atletas merecem, vestir o recurso português que é a camisola das quinas não deve ser fácil, é muita pressão, ainda por cima depois de épocas esgotantes em clubes de topo onde também há muita pressão. A Federação Portuguesa de Futebol só paga prémios que mal chegam aos 112 mil euros (a cada jogador) com os apuramentos. Só o Ricardo Carvalho por exemplo (e é só um exemplo e eu até gosto muito dele como jogador) pela sua titularidade na selecção entre 2004 e 2011 recebeu mais de 900 mil euros em prémios.

Depois de escrever isto, vou fazer um esforço para evitar ressentimentos e aproveitar bem o Europeu porque adoro futebol. Ficam por isso aqui os meus votos de boa sorte à Irlanda.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

walk through the fire

"what matters is how well you walk through the fire" - Bukowski

 Estou com uns níveis de stress estupidamente elevados. Nunca em toda a minha carreira alguma vez tive uma tempestade perfeita assim, uma conjugação de factores agressivos e complicados, no pano de fundo da crise que lança um permanente tom de descrença na razão de ser de tudo. Às vezes sinto todo o meu corpo a comprimir-se esmagado pela pressão de dez atmosferas. A responsabilidade, uma espécie de mandamento genético do meu pai, não me deixa abandonar as coisas a meio. Dou por mim a fantasiar com um colapso, um esgotamento. A ideia de me deitar no chão do escritório e de me deixar ficar assim sossegado até alguém estranhar e vir ver o que se passa parece tentadora. Podia demorar algum tempo até virem ver o que se passa porque tendo a adoptar posições estranhas quando estou a reflectir em problemas. E depois chamavam alguém e levavam-me para casa, talvez passando pelo hospital primeiro. Eu teria um genuíno ar de alienado. Veria bocas a mexer, talvez me sacudissem um pouco, mas ia continuar a olhar de forma fixa para os coelhos cor de rosa a dançar em rodinha atrás dos médicos.

ontem tentei escrever uma peça de teatro

 Paula, para o berço:
 O teu pai é um cão. Ouviste, querida? O teu pai é um cão! Deve andar por aí a perseguir coelhos, a rebolar-se na lama, o costume. São onze da noite! A minha mãe tinha razão. As mães têm sempre razão. (Entra João, sujo de lama, de fato, com um coelho na mão, parece hipnotizado)

 Paula
 Isto são horas de chegar?

João
Hã? Eu… eu trouxe-te um coelho. (oferece o coelho a Paula)

Paula
Não quero o teu coelho estúpido. Tenho a arca cheia de coelhos congelados! Estou farta de comer coelho! Coelho com vinho tinto, coelho à caçador, coelho guisado, coelho assado, coelho no forno, coelho panado…

 João
Vou pôr este na arca.

 Paula
Não! Chega de coelho! Chega, deita-o fora. Fiz esparguete à bolonhesa. Está frio. Estiveste a rebolar na lama?

João (parece surpreendido de se ver coberto de lama)
 Não sei... se calhar...

 Paula
Como é que encontraste lama? Estamos em Agosto. Vou ter de mandar limpar isso a seco.

Bowie Song

escrita realista

A Plaft terminou hoje a intensa revisão ao meu romance. Todas as 280 páginas têm anotações em caps lock o que me dá a sensação que ela está a gritar comigo (já me explicou que não, que era para distinguir bem do meu texto). Invisíveis ficaram as correcções ortográficas, gramaticais e de conjugação de verbos, que ela aplicou de forma discreta e eficaz, como um assassino profissional. No total, acho que acrescentou cerca de 20 páginas de anotações.

Alguns exemplos escolhidos ao acaso:

CUIDADO COM ESTA DESCRIÇAO DAS MANCHINHAS, APARECE MAIS VEZES 

 (...)

PARA ALEM DA REPETICAO, ESTE TIPO DE FRASEAMENTO É ESQUISITO PARA UM GAJO COMO TU, “EM SUA CASA”

(...)
e as lessem num livro ou na letra de uma canção ou no cinema SE AS LESSEM NO CINEMA?!

(...)
 QUE ESPECIFICO, É CREDIVEL? INTERESSA-TE/SABES SEQUER O QUE ELE ESTUDA OU QUE AULA VAI TER? 

(...) 

O estômago apertava-se-me de fome e era quase hora de almoço POIS, MAS JÁ ESTAMOS NO FIM DA TARDE. HORA DE JANTAR?  

(...)
NÃO ESQUECER QUE JÁ LA VAI O FIM DA TARDE, QUANDO ACORDASTE

(...)
 ESTA DESCRIÇÃO ACIMA ESTÁ TODA UM POUCO CONFUSA. O MACIÇO DE ROCHAS É A PAPOA? MAS ABAIXO FALAS DA 'ENSEADA DA PAPOA'. ESTOU BARALHADA, BARALHADA.  <--- aqui sente-se o desespero da revisora


(...)


TENHO QUASE A CERTEZA DE JÁ TER LIDO ISTO, APAGA 


(...)
DEVES TER CORTADO ALGUMA COISA, PORQUE ACABASTE DE ALMOÇAR E JÁ ESTÁS A DORMIR COMO SE FOSSE NOITE, MAS PRONTO.  <--- pressentimos que a revisora está à beira de um ataque de nervos

(...)
 
 TOO MUCH, ESCOLHE UMA E APAGA A OUTRA. ABAIXO TAMBEM já TENS 'FOCA DESNORTEADA', APAGA O GOLFINHO.
(...)

:') Gosto tanto destas anotações que tenho vontade de o entregar assim a uma editora. É muito mais realista.

terça-feira, 5 de junho de 2012

uma mulher com eles no sítio

Maria José Oliveira demitiu-se do jornal Público. «A jornalista lamenta que a direção do Público não lhe tenha o pedido autorização para divulgar o conteúdo da ameaça do ministro Miguel Relvas e que não tenha «sublinhado que se trata de uma informação falsa que pretendia colar-me a uma agenda ideológica e descredibilizar o meu trabalho». A isto, Maria José Oliveira acrescenta outro lamento, que ao dar conta da alegada ameaça de Miguel Relvas, «o jornal tenha transformado em facto a ideia de que eu vivo com uma pessoa da oposição, quase corroborando as queixas do ministro sobre a perseguição que lhe faço».»

Conheço pessoalmente a Maria e a informação é completamente falsa, se é que alguém a acharia credível ou sequer relevante. Estou solidário com ela e com jornalistas  que mesmo em condições de carreira cada vez mais degradadas, tentam fazer jornalismo de qualidade e independente. Para algumas pessoas (imagino que raras, como a Maria), a degradação ética é a mais grave. Pode ser menos mediático que a demissão de um qualquer administrador conhecido, pago a peso de ouro e com uma boa network, mas a decisão que ela tomou é muito mais significativa, porque é alguém como nós, que não vergou. Que nos sirva de inspiração e que Miguel Relvas aprenda qualquer coisa com isso, até porque, de acordo esta sondagem, é já o ministro mais penalizado do governo.

eles vão lá

Os Beach House vão estar no Primavera Sound 2012, no Porto. Estes aqui são eles, numa cena do Tree of Life do Malick que acabou por ser cortada.
 Aqui é uma música do último albúm deles, que é assim assim, mas esta música é gira.
O cartaz do Primavera Sound é, em geral, muito interessante e em particular também. O Porto é uma cidade superior a Lisboa se tivermos em conta indicadores como "coisas fixes per capita", a comida e o vinho.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tolan e Plaft, no Spa



Depois de meses a ser sujeito a um programa de esquerdamento por parte da Plaft, que envolveu, entre outras coisas, andar de autocarros da Carris e sair à rua para tomar café no 1º de Maio com a Plaft a puxar por mim e a bater palmas (em vez de me barricar com as latas de atum e a pressão d’ar como nos anos anteriores), decidi que eu também iria tentar fazer com que a Plaft se chegasse um pouco mais à direita.
Sendo a Plaft uma mulher de esquerda e ainda por cima artística, pus de parte qualquer tentativa de aproximação racional. O importante é a experiência, é isso que as mulheres procuram hoje em dia quando usam um perfume, têm um filho ou arranjam um emprego: experiências. Por isso reservei um fim-de-semana num hotel & spa 5* para lhe dar a experiência de como vive uma mulher de direita no dia-a-dia. Expliquei-lhe o meu plano e, para minha surpresa, ela não demonstrou grande resistência. Disse-me que sim, que estaria disposta a fazer esse sacrifício e ser uma cobaia. Transferi todos os meus fundos do PPR e da conta poupança para a conta à ordem, fiz um cartão de crédito gold e pude reservar um quarto no hotel.
Devo dizer que eu próprio nunca tinha metido os pés num hotel de spa. A atmosfera zen de relaxe fez-me subir os níveis de stress porque comecei a sentir que tinha de me sentir relaxado visto que estava a pagar bastante por isso. Fazendo as contas, cada minuto de relaxe estava a custar-me meio jogo de playstation novo. A Plaft pareceu-me bem à vontade, vestiu imediatamente o roupão e os chinelos e foi toda contente para o Spa. Eu fui atrás dela com o roupão e o meu speedo da Adidas. Pelo sim pelo não trouxe também os óculos de natação, o cloro arde-me os olhos. Fiquei muito confuso com o menu de tratamentos. A Plaft escolheu logo o balanceamento dos Chacras com pedras quentes e desapareceu numa sala escura e a cheirar a óleos perfumados, deixando-me sozinho no meio de uma floresta de bambu. Estava à espera de ver um panda de toalha à cintura a qualquer momento, mas em vez disso, só passavam por mim saudáveis pessoas de direita, bem bronzeadas e com medalhas e crucifixos ao peito, relógios de ouro e dentes bem brancos.

Também pensei em brincar ao balançar chacras mas se calhar era uma coisa só para mulheres. A Plaft sugeriu-me a vinoterapia mas isso é uma coisa que eu faço todos os dias, achei um bocado estúpido vir a um hotel tão caro quando uma boa garrafa se compra por cinco euros no mini preço. O funcionário do hotel, um jovem daqueles com um pé à frente do outro e a cabeça de lado, também não parecia disposto a ajudar-me, até porque eu fingia saber exactamente o que estava a fazer e não demonstrava precisar de ajuda. Abri o menu tratamento para homens: tratamento esfoliante regenerador, tratamento remineralizante desintoxicante… parecia-me indicado para vítimas de Chernobyl... Continuei a ler o menu… às tantas decidi que ia escolher ao calhas. Aponto com o dedo, leio e digo: “quero um facial intensivo”. O senhor com o pé à frente do outro sorriu e disse-me para o seguir, mas eu fugi e escondi-me no sítio mais hétero que me pareceu haver, o banho turco. Tudo cheio de vapor, não via absolutamente nada e a temperatura era sufocante. Parecia o ip4 numa manhã de inverno com a chauffage no máximo. Aquilo sim, era um ambiente de homem. Às apalpadelas encontrei o banco de pedra e azulejo encostado à parede. Sentei-me e pensei “agora vou descontrair caralho”. Nisto, vejo que estou mesmo ao lado de um tipo qualquer, também de toalhinha, todo a transpirar. E que do outro lado está outro gajo. Os meus olhos começaram a adaptar-se ao vapor todo e descubro com choque que somos os únicos naquela sala do banho turco. Fui-me sentar mesmo entre os dois. Tudo vazio e eu vou-me sentar mesmo entre os dois. Às tantas começam a falar um com o outro, conheciam-se e ficaram um bocado acanhados quando eu cheguei. Olhei para o relógio e exclamei “ena, as horas que são, tshh tenho de ir descontrair depressa noutro lado” e saí do banho turco e entrei numa cabine que dizia duche tropical, todo a transpirar e a ofegar. Era um mero cubículo forrado a azulejos e com um grande botão a dizer “START”. Ainda hesitei um pouco mas carreguei no botão. O duche tropical consistia num duche gelado com muita força com água a vir de muitos sítios, o que fez um relaxante contraste com a minha temperatura elevada do banho turco. Tudo extremamente relaxante. Depois de me erguer do chão onde caí devido ao choque térmico e à força da água, saí do duche tropical. Encontrei-me com a Plaft que vinha da sauna e já com os chacras todos balançados. Ela queria o banho de chocolate. Disse-me o preço e eu comecei a fazer contas mentalmente, com o volume cúbico da minha banheira e embalagens de nutela e estava quase a tentar demovê-la quando reparei numa cintilação nos olhos da Plaft, algo de novo no sorriso… uma espécie de brilho interior de prazer e felicidade… uma paz… estava a transformar-se numa pessoa de direita! Fiquei tão feliz que tive vontade de chorar. Claro que a deixei ir.

O resto do fim-de-semana correu bastante bem. Descobri uma bomba da Repsol nas imediações do hotel e comprei vinho para a minha vinoterapia. Enquanto bebia e via tv por cabo na cama gigante, tentando não gastar dinheiro sem querer, pensei em tudo aquilo, em toda aquela experiência científica. Também me estava a transformar numa pessoa mais de esquerda porque estava a ficar mais pobre ao ritmo de um accionista do BCP. Creio que o resultado final foi positivo. Um dia, com isto de me chegar um pouco mais para a esquerda e a Plaft um pouco mais para a direita, encontramo-nos no centro, o meu objectivo. Aí filiamo-nos os dois no CDS.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

dia da criança - composição infantil


Sou uma menina que tem dois anos. Vivo num castelo muito grande há muito tempo. Tem um corredor muito comprido e muitos quartos. O céu dos quartos está muito longe porque é um castelo muito grande e antigo. Às vezes há nuvens e não dá para ver o céu dos quartos por causa das nuvens. A mãe e o pai construíram uma tenda no quarto da princesa real. A princesa real é eu. A mãe às vezes quer entrar na tenda mas a tenda é da princesa e ela fica triste e começo a chorar e a mãe foge. O Sujinho é o coelho. Nasceu ao mesmo tempo que eu que sou a princesa. Somos os melhores amigos e gosto de o mastigar e depois de brincar com ele ao atira-te ao chão Sujinho! ou ao vai pelo ar Sujinho!

 Os pais é deram a ele o nome de Sujinho, não sei porquê. Uma vez tiraram o Sujinho e depois fiquei a ver o Sujinho na máquina a andar à roda e tinha as patinhas encostadas ao vidro e rodava, rodava, rodava. E depois ficou no estendal do pátio preso pelas orelhas e eu sei que doía e chorei muito e depois ele veio e cheirava mal, demorou muito a ser o Sujinho outra vez.

Eu e o Sujinho gostamos de ver o carteiro Paulo, é sempre emocionante. O carteiro Paulo é um carteiro que tem um gato preto e branco e depois tem aventuras. O pai comprou os filmes todos do carteiro Paulo. Já vi mil vezes infinitas o episódio em que o carteiro Paulo não pode entregar o correio porque caiu uma árvore na estrada. E o gato Preto e Branco olha para ele e depois adormece. É muito engraçado porque o gato adormece. São sempre histórias emocionantes mas fazem impressão aos pais porque tem muita emoção e suspense e eles não aguentam. O pai e a  mãe fogem quando começa a tocar a música do carteiro Paulo e vão os dois beber chá de uma garrafa escondidos na cozinha e o pai começa a fumar.

O carteiro, o carteiro

E o seu gato preto e branco

O pai gosta de ver senhores a falar na televisão e depois começa a falar na crise. O meu pai é uma pessoa importante e manda muito e vai salvar o reino. A minha mãe foge para a cozinha quando ele começa a falar disso e depois o meu pai fala para mim e para o Sujinho e ouvimos os dois com muita atenção até começar outro episódio do carteiro Paulo. 

Quando os meus pais estão tristes do dia no reino lá fora eu gosto de os ajudar porque sou uma princesa generosa. O carteiro Paulo é muita emoção para eles, mas o pai fica muito feliz quando a princesa generosa deixa o Economist no colo. A minha mãe gosta que a princesa peça colinho. Gerir uma relação com os pais é difícil e temos de fazer sacrifícios. Senti que era altura de deixar de usar fraldas e a semana passada comecei a fazer chichi e cocó na sanita onde o Sujinho tomava banho às escondidas. Os pais ficaram muito contentes. Se eu soubesse tinha feito isso há uns meses.

Às vezes o meu pai começa com um cachecol verde a dizer “Spoooorting!” até eu e o Sujinho dizermos “Spooorting” também e ele fica todo contente. Os mais crescidos são muito simples. Não têm de lidar com a complicação que é ser uma princesa num castelo e tomar conta do pátio das flores.

Tenho um pátio que tem muitas flores. As flores são bonitas e nascem abelhas para mim. Tenho um regador cor de rosa com pintas pretas e sou eu que salvo as flores de morrerem à sede e a água depois faz nascer abelhas nas flores. Gosto das abelhas porque são amarelas e pretas e voam como eu e o Sujinho quando joga ao vai pelo ar Sujinho mas a minha mãe não gosta que eu tente apanhar as abelhas e tem medo delas. O meu pai não gosta que eu brinque com as flores. Elas querem brincar comigo e começam a dançar e a dizer para as salvar porque estão presas nos vasos e não podem ver o castelo.  Assim que arranco umas flores para brincar com elas e mostrar-lhes o castelo, o pai vem a correr a dizer “não, não! Não faz isso às flores!” 

É muito mau para as flores, o pai. E fala comigo na terceira pessoa do singular sempre que se trata de um contexto de limitação da minha liberdade. Mas dá jeito porque quando tenho fome ou quero brincar com ele e não sei onde ele está, é só arrancar uma flor e ele vem a correr. Para chamar a minha mãe é mais fácil ainda, é só chorar. Ela é capaz de ouvir eu a chorar de uma ponta à outra do castelo, mesmo quando o pai tem a televisão muito alto para ver senhores sérios a falar. E acorda a qualquer hora da noite e vem a correr. Às vezes gosto de brincar ao chora chora vem a correr mãe toda noite porque passado um bocado vem o meu pai também, e depois a minha mãe e é à vez. É muito divertido.

Também gosto de me esconder. Os meus pais gostam muito desse jogo. Uma vez escondi-me no roupeiro da mãe debaixo da roupa dela que cheira bem e adormeci e acordei com a minha mãe a chorar sentada na cama e o meu pai a gritar por mim na rua. Foi muito divertido para mim e para o Sujinho e para eles também porque quando a mãe viu eu e o Sujinho a sair do roupeiro ficou muito contente e o pai subiu as escadas a correr todo contente também!

Para a Catarina, o J e a R.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

excertos da correspondência secreta de Bento XVI, revelada pelo seu mordomo espião

O compromisso do mordomo, Paolo Gabriele, em cooperar com os investigadores aumenta o espectro de que prelados com altos cargos poderão proximamente ser relacionados com o escândalo da divulgação de correspondência confidencial do Vaticano que revelam lutas e intrigas aos mais altos níveis da Igreja Católica. - DN


(…)Graças a Deus pelas bonitas fotografias que me enviou Giselle Eloíse. Abençoadas sejam as Vossas formas fecundas, quando se encontra de joelhos a rezar. Obrigado por fazer as poses litúrgicas lhe pedi. É uma mulher de fé. Respondendo ao seu pedido, creio ser cedo demais para lhe revelar a minha verdadeira identidade. Desejei ardentemente encontrar-me convosco na minha primeira viagem ao Brasil, mas não tive tempo. Vim para a Conferência do Episcopado Latino-americano que se realizou em Aparecida, no Santuário de Nossa Senhora. É meu desejo que as mulheres deste “Continente da Esperança” tenham, n’Ele, vida plena. Gostava muito que a querida Giselle Eloíse tivesse nele vida plena porque, tenha fé, sou abençoado com um bastante grande. Também aproveitei para fazer umas compras. Espero que os bikinis lhe sirvam (…) 


 (…)meu querido amigo José António Saraiva, sei como se sente e Deus também. Aqui no Vaticano trabalhamos nesse tipo de jovens que colocam o pé em frente ao outro e põem a cabeça assim de lado, em pecado. Disse-me que nessa zona do “Chiado” em Lisboa havia muitos? Enviarei em breve o nosso scouting department. Temos uma frota de carrinhas a que damos o nome de Papapecados. Podemos enviar algumas para Portugal. Quando detectamos um homossexual, convencemo-lo a aderir ao nosso programa de reeducação por intermédio de panfletos sobre Jesus, uma rede e um dardo tranquilizante. Às vezes pomos a tocar Abba dos altifalantes da carrinha, como isco, parece atraí-los como crianças para uma carrinha de gelados. O programa tem sido um sucesso. Temos muitos pubescentes seminaristas que recolhemos da rua por esse método. Mas o trabalho não termina aí, porque alguns confessam que o seminário é o paraíso. Vestem as batinas negras e ficam todos vaidosos, dormem em camaratas, não há mulheres. São efeminado, vejo-o pela forma como se ajoelham e rezam, com as mãozinhas delicadas, unidas em prece, como abrem a boca de forma lânguida para lhes meter lá dentro a óstia. São uma praga e já nos criaram muitos problemas no passado (…)


 (…) caro Pinto da Costa, quando vem visitar-me de novo? Muito obrigado pela garrafa de vinho do Porto e pelo contacto da Giselle Eloíse. Tenho trocado correspondência com ela. Tenho de lhe elogiar o departamento de scouting, que pérola. Compreendo que com ajuda divina dessa categoria não terá certamente dificuldades em se sagrar campeão mais uma vez (…)

foi o step 3 que te safou, Plaft


  

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Prémio Literário 101

P oema absorto no absurdo
R evoluto mar suave de mim
É agora, é matar.
M orrem as palavras-pombas,
I squémicos seguidores do teu fundo
O rfão. 
L uta a manhã, maior
I nsinuando as minhas pequenas
T inas verdes de vento
E m imensos espaços estelares, em
R aiva
Á rvore maior do reino
R omã apodrecida de angústia redonda
I nterior de ti, de mim

O pacos. 

não tenho tempo

para escrever por isso vou inspirar-me num blogger famoso e despachar isto


Loud And Clear

Acusam-me, mas eu não reconheço autoridade a tribunais de outros. Não tenho medo nenhum, longe vai o tempo em que o tinha. Não encaro essa mudança como algo de positivo, mas pelo menos ando mais sossegado, talvez mais perto da morte, a arrefecer como um uma estrela anã no espaço. Tu foste cruel mas as coisas são o que são, foram essas as tuas palavras e talvez as tenhas dito sem entender o seu significado. Estou a anhar um bocado hoje. Vou ouvir Morrissey a ver se espevito um pouco.

I know I'm unloveable
You don't have to tell me
Oh, message received
Loud and clear 

terça-feira, 22 de maio de 2012

escrever e essas coisas!


A revisão da Plaft ao meu romance está a decorrer a bom ritmo, tenho apenas de rever a revisão dela porque tem a tendência de me alterar a descrição de personagens femininas de forma subtil, introduzindo um “a gorda da”antes de qualquer nome feminino, o que por vezes distorce o sentido original do texto, especialmente nas cenas tórridas de sexo que por acaso são muitas.
Ela tem um notável espírito crítico e sensibilidade para com o meu delicado ego. Gosta muito de um capítulo, diz que é genial e a melhor coisa que já leu e eu concordo, também é a coisa mais genial que eu próprio li e digo-o objectivamente apesar de ser suspeito. É certo que o romance tem mais uns 40 capítulos aos quais ela prefere não se referir e eu também não. As mulheres entendem destas coisas, criticar o draft de primeiro romance a um aspirante a escritor é como criticar a performance sexual de um adolescente virgem. É por isso que não existem escritores adolescentes virgens, é demasiado difícil (a Anne Frank não conta, para além de ser mulher, estava tudo ali à mão de semear, zero de mérito criativo).
Entretanto fiz um conto muito bom, cheio de páginas e se calhar vai para concursos desses das câmaras municipais e que sempre rendem dinheirinho, até porque com o andar das coisas na Grécia, pode dar-se o absurdo da minha profissão actual ser socialmente menos útil que andar por casa a inventar histórias e a mendigar subsídios e queixar-me das pessoas que preferem ir ao Pingo Doce em vez de ler Dostoiévski.

As pessoas de esquerda que vão tomar conta disto porque são resistentes como as baratas, gostam mais de escritores do que de consultores e vão-me subsidiar com notas de monopólio e galinhas e couves. Vou comprar um calendário de parede e vou preenchê-lo com tudo o que é concurso, como aquele senhor dos anos 80 ou 90 que recortava os cupons todos da tv guia para participar no 1 2 3, mesmo os do cabeleireiro e do dentista e toda gente da aldeia lhe dava os cupons (quero acreditar que isso dos cupons já não existe e que cupons se escreve cupons).

É o terceiro parágrafo consecutivo que termino com uma piada entre parênteses, é um mau recurso, tenho de rever isso (e muitos outros recursos, como dar a entender que percebi uma coisa e depois imediatamente o oposto para efeito cómico).

E estou a pensar há semanas no tema do 2º romance. A minha parte preferida nisto de escrever romances é a que antecede a parte de os escrever. Dá para idealizar um romance diferente todos os dias e são todos muito bons. Não gosto tanto da outra a parte, a de escrever mesmo um. Escrever durante dias a fio...  observar como o argumento se vai desenvolvendo... as personagens florescendo... como tudo se vai compondo numa obra épica e entusiasmante que parece provir do mais fundo meu ser... até culminar  no recycle bin do desktop.

Isto é como os objectos que se lançam para o espaço, há um ponto em que escapam à gravidade do juízo e conseguem viajar no infinito da imaginação para sempre.

Obrigado por terem lido este post. Usei uma técnica no título: colocar um ponto de exclamação. Viram? Deu a sensação de que o post era empolgante e cheio de energia, não deu? Um pontinho de exclamação, é tudo o que é preciso para se ser feliz!

domingo, 20 de maio de 2012

E se todas as equipas jogassem como Chelsea?



─ E começa a partida entre Barcelona e Real Madrid… Cristiano Ronaldo dá para Kaká, Kaká dá para Coentrão. Coentrão recua. Dá para Pepe. Pepe dá para Sérgio Ramos. Sérgio Ramos para Pepe. Pepe para Sérgio Ramos. Sérgio Ramos para… Pepe. E a equipa do Barcelona está toda no seu meio campo, mãos na ilharga, Xavi faz “heh toiro, heeeh toiro”… Cristiano Ronaldo recua, tira a bola a Pepe e vai, e vai , e vai Cristiano Ronaldo, passou o grande círculo, está a descair para a direita e vai direito a Xavi, Xavi foge e minha nossa Senhora! O que é isto! 5 jogadores do Barcelona não contemporizaram e caíram em cima de Cristiano Ronaldo! Perdeu a bola para Messi. Messi dá para trás para Puyol. Mourinho está muito insatisfeito com Ronaldo, diz-lhe para recuar. Messi dá toques no seu meio campo, um, dois, três, quatro, com a cabeça, o ombro, o público aplaude. A equipa do Real já se organizou na defesa e agora são eles a provocar o Barcelona para atacar. Pepe faz sinal com o dedo para Messi vir até ele, “anda Messi” parece dizer, “vem cá Messi, traz cá esse esférico”… E Messi está a dar um show de freestyle, já vai em 30 ou mais toques com a cabeça no meio campo do Barça, protegido por um cordão de jogadores de braços cruzados, parecem porteiros de discoteca, qué isso... Carlos, tu que estás junto ao relvado, aquilo são marcas no chão, onde os jogadores do estão?
─ Sim Júlio, antes da partida começar, os treinadores de ambas as equipas colocaram 11 xis com um pó vermelho no campo, é o sítio onde os jogadores devem estar sempre que estão na defesa e no ataque também.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

para ver os man man ao vivo eu pagava bilhete e tudo

o teatro de tchekhov e a comédia

Fui ver o Vânia na trindade. Fantástico João Lagarto na personagem do tio Vânia. Uma encenação  algo desastrosa, um elenco que conta com dois modelos a fazer de actores que fazem de personagens e ter feito chichi ao lado do Carlos Carvalhas no wc que tinha daquelas luzes automáticas que se apagam ao fim de algum tempo e ficarmos os dois às escuras com o coiso na mão, estragou-me um bocado o espectáculo.

Ignorante como sou, nunca me passou pela cabeça que Tchekhov fizesse comédias. Sempre interpretei aquelas coisas que escrevia no subtítulo das peças, tipo o "comédia em quatro actos" como irónicas mas pelos vistos não são. Acho a Gaivota comovente e triste do princípio ao fim e depois dizem-me que é uma comédia. Mesmo no campo da sátira, podemos comparar com Eça, que também satirizava muitos dos mesmo temas de Tchekhov: o provincianismo, o isolamento, as vãs vitórias, o prestígio e a vaidade social, o sentido da vida, os estereótipos etc. Mas Eça é leve, não tem a gravidade russa. O meu Tchekhov é o dos contos lidos com a minha voz interior e a sua comédia, para mim, resume-se um riso ternurento e melancólico (assim como a sua tragédia que nunca chega às profundezas de cortar à faca de um Dostoiévski). No fundo, acho-o próximo da vida e não consigo ver as suas personagens como caricaturas. Nunca podia prever as gargalhadas gerais como as que encheram a Trindade a espaços e que me desfocavam do drama - como se para isso não bastasse o Pedro Lima e a Teresa Tavares darem a sensação de se assistir a uma espécie de distopia em que Tchekhov viaja no tempo até aos nossos dias e é obrigado a trabalhar como argumentista de novelas para sobreviver.

As pessoas podem passar do riso ao choro e vice-versa, mas a inércia do riso é maior do que a inércia do choro. É possível acordar de um momento dramático para um riso suave, como quando fazemos rir alguém que está a chorar, com uma palermice qualquer. No teatro, basta uma mímica corporal, como o João Lagarto a fazer de bêbedo. Mas demora mais a entristecer ou abalar alguém que esteja num estado de espírito leve, de riso. Daí a expressão "alívio cómico" (comic relief) pois o alívio cómico serve apenas de respiração e contraste num sentimento dominante de tragédia, sentimento que no meu entender seria dominante no Vânia.

 Leio que encenadores, no início, interpretaram as suas peças como tragédias ou dramas, eliminando a componente de comédia para irritação de Tchekhov. E que depois se fizeram novas interpretações com a introdução da comédia. Talvez a actualidade e o potencial infinito das peças de Tchekhov advenha dessa ambiguidade plástica. As peças que Tchekhov escreveu não têm praticamente direcções nenhumas, estão lá as falas, pelo que o mesmo texto pode ter um sentido e um peso completamente diferente consoante a interpretação, encenação e a sua representação. No caso da leitura, o texto tem a entoação que a nossa voz interior lhe der. No teatro, estamos à mercê da encenação e dos actores e para mim isso é um bocado esquisito ainda, uma vez que implica uma atitude passiva perante intermediários entre mim e o meu Tchekhov. É bom que os intermediários sejam muito competentes.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

bom dia pessoas de diversos campos ideológicos

Ultimamente sinto-me com um pretinho da motown dos anos 60: há muitas injustiças e opressão contra mim e muitos problemas no mundo, mas em vez de roubar ou partir tudo como seria de esperar, eu quero é cantar e dançar e dar beijinhos à Plaft. Não vejo um telejornal há meses. Só vou saber de novidades da crise quando ficar desempregado e o meu cartão não abrir a porta do escritório. E vou ficar contente porque posso voltar para casa mais cedo e passar esse dia todo com ela. E o dia seguinte. E o outro. E um dia vou ao multibanco levantar dinheiro para lhe comprar flores e vão sair notas de cinco contos mas o florista aceita na mesma. Se calhar, com a inflação, uma flor vai vai custar 500 contos ou algo do género, mas não me importo, vai receber uma flor de 500 contos, ainda tem mais valor psicológico. E não como nesse dia, para poupar, digo-lhe que estou mal da barriga e que fico bem a pão e água, enquanto ela come o bife do lombo que me custou 3 mil contos e eu choro de felicidade. Felizes. Sim. E ela continuará a ter as suas peças de teatro que, devido à falência do estado e dos subsídios, se vão desenrolar no meio da rua, com cenários desenhados a giz no chão. E o público elitista trará couves e cenouras, cultivadas nas suas hortas urbanas, para alimentar os artistas. E seremos felizes. Um litro de gasolina custará o seu peso em platina. A relva vai crescer debaixo do carro alemão e cravos vermelhos vão sair do tubo de escape. Um casal de esquilos fará a casa dentro da capota do motor e todos os dias de manhã vai acenar bom dia com as patinhas e nós acenamos de volta, da janela. Não sei porque é que as pessoas se preocupam.

domingo, 13 de maio de 2012

Excertos do livro infantil “A Crise Explicada às Crianças”, por Vitor Gaspar



Os pais de Tomás eram de direita. Trabalhavam muito nos Grandes Mercados e eram muito felizes e bonitos. A mãe de Tomás estava a fazer uma deliciosa tarte de maçã na cozinha e Tomás estava a estudar engenharia, quando o Pai de Tomás chegou a casa muito contente, com um jogo de Playstation muito fixe para Tomás e um perfume francês para a Mãe de Tomás.
─ Uma prenda? É para mim? - perguntou Tomás, muito espantado, pois não fazia anos.
─ Estás tão contente porquê? - perguntou a Mãe de Tomás.
─ Fui despedido querida! Era a oportunidade de que estava à espera! Lembras-te daquela empresa exportadora que sempre quis montar? Pois começo hoje mesmo, depois do jantar.
─ Parabéns! - exclamou a Mãe - Sei como isto era importante para ti. Vou fazer gambas!
─ Sim querida! É uma oportunidade.  E sabes, não aceitei ser formalmente despedido, porque assim o Estado ia dar-me subsídio de desemprego e agravar o deficit. Assim que o chefe me disse que ia ser despedido, despedi-me eu!
E beijou Tomás e a Mãe, unindo-os num abraço. Tomás tinha muito orgulho no pai, mas tinha uma dúvida.
- Ó pai, o que é o deficit?
Os pais de Tomás olharam um para o outro. Chegara a altura da pergunta complicada. Sentaram-se no bonito e confortável sofá italiano.
- Querido filho, já és crescido e tens de compreender certas coisas. Sabes, nem toda gente é como o teu Pai, trabalhadora e optimista. ─ disse a Mãe.
- Não? - perguntou Tomás, muito espantado.
- Obrigado querida. Não, filho. Há pessoas que vivem do dinheiro que o pai faz nos Mercados. O pai tem de trabalhar o dobro para te poder pagar o colégio. Porque grande parte do dinheiro vai para as pessoas de esquerda alimentarem o monstro do deficit.
- O deficit é um monstro, pai? ─ Tomás arregalou muito os olhos.
- Sim filho. Um monstro socialista enorme, com escamas, grande boca cheia de dentes e muito comilão. Come dinheiro e está sempre com fome de mais e mais. As pessoas de esquerda gostam dele e dão-lhe de comer porque em troca o monstro dá-lhes rendimentos mínimos, empregos no estado e subsídios para fazerem filmes. Lembras-te daquele filme que a tua mãe comprou por engano, do Cesar Monteiro, o Branca de Neve?
- Lembro! Era horrível pai! O ecrã todo escuro! Só vozes! Tive muito medo.
- Bom, mas não falemos de coisas tristes! - exclamou a mãe - Vamos para a mesa festejar!


Entretanto, na margem sul, Tomé tinha pais de esquerda e brincava com um velho pião de madeira e um carrinho de lata, no chão da cozinha, indiferente aos tiroteio entre ciganos que decorria todos os dias na rua aquela hora. Estava a distrair-se um pouco antes de ter de cozinhar o jantar. A mãe de Tomé não trabalhava, vivia de baixa médica e ficava na cama a fumar o dia todo e a comer chocolates. O pai de Tomé era sindicalista e chegou a casa muito corado e a cheirar a vinho.
- Fizeste o jantar? - perguntou o pai a Tomé.
- Ainda não pai, desculpa.
O pai de Tomé assentou-lhe um estalo com muita força no ouvido. Ele caiu para o lado e ficou atordoado. O pai foi buscar cervejas ao frigorífico e voltou para o pé de Tomé.
- Pequeno camarada, esse estalo, não fui eu que te dei. Foram os mercados, entendes? - disse o pai.
- Sim pai.
- Os mercados é que me obrigam a beber para suportar o terrível trabalho de que sou vítima. Entendes?
- Os mercados são maus, pai.
Do quarto onde dormia a mãe ouviu-se um lamento prolongado, como um uivo de um animal ferido.
- Despacha-te a fazer o jantar, a tua mãe está com fome. Vê o que os mercados lhe fizeram. Ela não era assim. Sabes porque está assim?
- Sei pai,os mercados.
- Os mercados... malditos.... A tua mãe era muito bonita e alegre. Ainda me lembro de quando a conheci na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tinha uma sexualidade livre, foi o que me atraiu nela. Todos os professores gostavam dela e tinha excelentes notas. Era assim, cheia de amor  para dar a todos, a tua mãe. Às vezes iniciava jovens de cor na vida sexual para combater o racismo. E olha como está agora… E sabes porquê, pequeno camarada?
- Os mercados pai?
- Exacto. Os mercados. Não deixaram que o nosso querido deficit lhe desse o emprego de filosofa que ela pretendia, foi obrigada a trabalhar numa empresa privada, explorada pelo patrão… Às vezes chegava a fazer uma hora a mais de trabalho. Um dia, tinha trabalho para fazer em casa, num fim de semana e foi aí que entrou em baixa médica. Pobrezinha.
 O pai de Tomé chorou lágrimas amargas de socialista, com a mão tapando a cara vermelha e inchada do vinho.


Tomé tentava concentrar-se na cozinha enquanto ouvia o pai choramingar e os lamentos guturais da mãe. Para poder mexer nos tachos tinha de se pôr num banquinho manco e às vezes desequilibrava-se e agarrava-se ao fogão, queimando as pequenas mãos frágeis de criança.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

bom fim de semana

O dia está bom para espetar aqui com o God do John Lennon. Ouvi e senti-me muito comovido, aquela música tem esse efeito, quando ele chega à parte do "the dream is over" e do "goodbye" e do "now I am John" é quase certo que começo a chorar. É tão comovente. Dá vontade de ir tirar fotos em falésias. Mas não pode ser. A música é extremamente útil se tivermos alguma racionalidade na sua aplicação como um antídoto e não como potenciadora de emoções, digamos assim, negativas, que já existem, a não ser para banda sonora de um filme. Só que aposto que as personagens do próprio filme, nas cenas dramáticas, se sentiriam ainda pior se pudessem ouvir a banda sonora que o espectador ouve. O pai da Alice não aguentava um minuto sem se atirar para debaixo de um autocarro. Nós estamos de fora, a ver. Também se pode usar isso no caso de se estar a escrever uma coisa que tem de ter essa atmosfera. É injusto, um escritor pode ouvir uma música comovente para ser comovente a escrever mas um compositor não pode ouvir outra música comovente para compor música comovente (pelo menos, não ao mesmo tempo) tem de partir sempre dele próprio e do silêncio. Para o funeral do meu pai escolhi a Balada do Outono do Zeca Afonso (não houve cá padres, o velório estava cheio de oficiais desertores e alguns haviam de ser comunas, a minha mãe achou que seria perigoso). Pus o CD a tocar com o caixão aberto na sala do velório e a meio da música arrependi-me muito de não ter escolhido o Locomotion da Kylie Minogue (já usei esse truque). Mas não podia voltar atrás a meio da música. Se tivesse ali o meu equipamento de produção de música ainda teria feito um crossfade perfeito para o Sexy Boy dos Air. Tanta gente ali reunida e bem vestida... acho que nunca estive numa festa tão deprimente. Mentira, estou a esquecer-me de uma festa de branco na Kapital para a qual fui arrastado pela minha própria curiosidade mórbida. Meu Deus... Não quero falar nessa festa.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

o fantasma de pijama

Ler as crónicas do Miguel Esteves Cardoso a propósito do cancro da mama que atacou a sua mulher Maria João e que, entretanto, já criou metástases no pulmão e no cérebro, mexeu comigo. Estão lá as descrições da radioterapia no IPO, a neurocirurgia do hospital de Santa Maria e aquela sensação de passar para um negativo da vida. O meu pai morreu com um tumor cerebral em Fevereiro de 2008, um ano depois do diagnóstico. Eu escrevi, no blogue que tinha então, vários textos sobre isso, desabafos. Se por um lado sentia algum receio de exibicionismo, por outro lado era uma necessidade, ajudava-me (este não foge à regra) e podia ajudar outras pessoas apenas pela ideia de partilha. Foi um inferno mas foi mais duro para a minha mãe que era casada com o meu pai há mais de 30 anos. O diagnóstico que recebemos logo depois da primeira biopsia era de um ano de vida no máximo e a opção que ficou limitava a escolha entre mais qualidade e menos tempo, ou retirar-lhe um bloco do cérebro para viver mais uns meses como um vegetal. Se o diagnóstico tivesse nem que fosse 0,1% de esperança, ter-me-ia agarrado a isso com unhas dentes e espero que ela exista no caso da Maria João. No do meu pai não tinha e havia que encarar isso de frente. Os amigos e familiares mais próximos entendiam a situação, mas as pessoas de uma esfera mais distante tinham dificuldades. Não por culpa deles (bem intencionados) mas por não termos a crueldade de encavacar aqueles que, cheios de boas intenções, perguntavam se ele “está melhor” de um glioblastoma agressivo. As pessoas também precisam de uma reserva de fé para as suas próprias vidas e temos de ser modelos.
No meu local de trabalho, em 20 e tal colegas, talvez só 2 ou 3 mais próximos soubessem da minha situação familiar, para preservar a normalidade. Lembro-me que um dia tive mesmo de calar uma dessas pessoas que me perguntava pelo meu pai todos os dias e tive de lhe dizer não tem cura, é certinho que vai morrer e ela ficou meio em estado de choque por eu estar a fazer o start up ao windows enquanto lhe dizia aquilo mas depois pelo menos deixou-me sossegado a mim, ao meu pai e ao nosso glioblastoma de estimação. A morte foi varrida das casas para os hospitais e temos uma relação algo neurótica com ela. Se alguém sobrevive a uma doença é porque a venceu. Venceu a adversidade. Não consigo pensar assim, uma vez que implica que os outros, os que morreram, não venceram. A vitória é relativa, cada um terá a sua. A minha será não ser maricas nestas ocasiões porque era precisamente esse o meu instinto. Uma vez, em Santa Maria, fiquei petrificado a ver o meu pai ter um ataque de epilepsia, nem me consegui mexer e depois dos enfermeiros se precipitarem sobre ele, saí da sala e vim fumar um cigarro na rua, a tremer. A minha mãe não era mariquinhas, fazia tudo, assistia a tudo, tratava de tudo. Na neurocirurgia lembro-me de ver um miúdo magrinho e franzino, com cicatrizes da operação no crânio e uns olhos enormes. Andava por ali a arrastar os chinelos, curioso, a espreitar para os quartos, como um pequeno fantasma de pijama extralargo. Os pais ofereciam-lhe peluches e forçavam sorrisos debaixo daquelas luzes néon frias. Ele tinha o mesmo tipo de tumor do meu pai. Apesar de imagens assim serem provavelmente comuns em sítios assim, não são comuns para quem neles entra pelas primeiras vezes. E o certo é que saía de lá com a sensação de ver o mundo todo do avesso, como uma criança de seis anos que está a ser traumatizada com filmes do Ingmar Bergman e do Romero.
O que é a vitória? Condicionam-nos para as vitórias erradas toda a vida. Não ser feliz e são é apenas um dos fracassos. Os modelos são de saúde e força. A publicidade vende uma felicidade de plástico, impossível de atingir, a tecnologia faz progressos diários mas a maior parte das vezes fúteis, é ela que cria a sua própria necessidade: precisamos de mais memória, mais ecrã, mais comunicação e por aí fora. Parece que resolvemos tudo ou estamos em vias de resolver. E depois, no que respeita a cancro, apesar dos tímidos avanço da ciência, mergulhamos numa espécie de obscurantismo primitivo, num grande mistério que decorre com regularidade em locais como o IPO ou a neurocirurgia de Santa Maria. Depois do funeral, os dias seguem-se, indiferentes, fica um buraco, um vazio. Se tivermos de pensar em coisas positivas disto, há algumas. A minha mãe ficou muito mais forte. Também se descobriram amigos novos e uma solidariedade até ali invisível. De facto não estamos sozinhos, é isso que sinto ao ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a sua querida Maria João ou como me sentia na sala de espera da radioterapia do IPO que nunca estava vazia. Também se relativiza mais a noção de "ter azar" ou outro tipo de desgostos como aqueles próprios dos desamores. O funeral é bonito e catártico, aparecem pessoas de que gostamos sem termos de as convidar como sucede nos casamentos e nos aniversários, conhecemos outras pessoas que gostavam do nosso pai e que estão, misteriosamente, ali, vindas de um passado que nos é desconhecido. De resto não se aprende muito. Pode-se pensar numa revelação do que é importante na vida e de todas essas tretas, de sentimentos que muitas vezes se encontram diluídos porque as ambiguidades próprias das relações humanas, especialmente entre família, desaparecem perante o fatalismo da separação em vida. Assim, a sensação de estar sentado ao lado do meu pai a ver as folhas de um pomar a agitarem-se com o vento e cães a correr, passa de visita de rotina de domingo, para o grau de momento sagrado. Mas não é uma lição necessária, é até bastante dispensável. A consciência do momento sagrado advém da consciência da sua inevitável perda. Se para essa consciência é necessário pormo-nos a pensar que todas as pessoas que amamos podem morrer a qualquer momento e que caminhamos sobre o gelo fino da saúde, vamos ser, no mínimo, uma companhia um pouco deprimente. Só somos eternos quando esquecemos que somos mortais. Gostava muito de poder dizer que uma coisa dessas faz uma pessoa ficar mais sábia mas fiquei sem vontade de fazer perguntas, eu que fazia tantas e pensava tanto. Desde 2008 que não meto os pés num médico porque acredito que quando estamos fodidos eles não nos conseguem ajudar e só nos vão dizer para deixarmos de beber e de fumar. É irracional, eu sei e estou a tratar disso. Abrir a caixa de correio tornou-se um suplício porque detesto essa ideia de existir um mundo que exige coisas de mim mas depois não consegue curar a merda de um cancro a um filho, quanto mais a um pai. Às vezes dou comigo melancólico em momentos felizes e simples porque não os posso partilhar com ele e queria, como quando o Benfica joga bem. Ele ia gostar muito da Plaft sem o admitir e depois ia manifestar-me a sua perplexidade por ela gostar de mim, ia tentar descortinar o seu problema, alguma coisa que explicasse aquela improbabilidade. Tendo em conta a personalidade de ambas as criaturas, não me custa adivinhar que em pouco tempo iriam interagir num tom sarcástico tendo por alvo a minha pessoa amuada e as suas idiossincrasias. Também ia gostar do carro alemão sem o admitir e ia manifestar a sua perplexidade por me terem dado um carro assim, quem é que eu tinha enganado, quando é que vão descobrir. Depois ia abrir e fechar a porta para ver se o fabrico é bom, examinar o motor, tecer considerações obscuras de engenheiro, mexer nas coisas perante os meus protestos, com sorte não me desmontava aquilo às peças para examinar e descobrir falhas ou sinais de má manutenção. E pronto, este texto não tem conclusão, mas há temas assim também e uma pessoa se quer conclusões depois acaba por não começar nada.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

o pior realizador de sempre é o Tim Burton

O Tim Burton é o pior realizador da história do cinema. Faltam-me palavras para descrever a náusea crescente que sinto a cada novo cartaz com o Jonhy Depp com maquilhagem gótica e a Bonham Carter nos créditos. Desde a Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), ver filmes do Tim Burton começou a ser cada vez menos agradável e neste momento, um filme como aquele das sombras, ameaça tornar-se numa experiência semelhante à do visionamento do filme do Castelo Branco no menage com o empresário do norte e a saca de batatas, uma espécie de "porque é que eu estou a ver isto? já estou de novo naquela parte da internet, foda-se"

Ao contrário de Ed Wood, o "pior realizador de sempre" e por quem o Tim Burton nutre um fascínio que resultou no excelente filme homónimo,  Tim Burton foi um génio nos finais de 80e durante a década de 90 e o mau nele acabava por ser bom porque era o mau dele.

Depois, desde que se amancebou com a Bonham Carter aí em 2002, arranjou filhos etc, acabou-se. Está no seu direito,mas podia ser só um bocadinho menos mau, como o Spielberg que até faz umas coisas fixes de vez em quando e compensa e, sobretudo, diferentes foda-se, diferentes. Cada filme do Tim Burton parece uma versão estúpida de um filme melhor que fez antes, é uma espécie de Margarida Rebelo Pinto dos filmes alternativos. Como vive dos louros de ser um tipo que fez cenas de culto e muita fixes, e tem o Jonhy Depp que é fixe e indie, consegue ainda o extra de não ser considerado assim tão mau e até fixe e até artístico, que não é, pois desapareceu completamente o lado experimental do seu cinema, triturado por uma mentalidade de estúdio fábrica de efeitos digitais. É deprimente ver toda aquela matéria prima a ser destruída, a sensação de "isto podia ser um bom filme de entretenimento" e não, fica tudo transformado numa espécie de cruzamento de Filipe La Féria com Disney financiado por um Rui Rio que descobriu petróleo nos jardins de Serralves.

E é por estes motivos que ele é o pior realizador de sempre, lembra-nos a pior coisa que nos pode acontecer na vida: a perda de curiosidade. É nesse momento que se fica velho.

Em breve volto a escrever sobre os The National. Estou a brincar... estou?