Fui ver o Vânia na trindade. Fantástico João Lagarto na personagem do
tio Vânia. Uma encenação algo desastrosa, um elenco que conta com dois
modelos a fazer de actores que fazem de personagens e ter feito chichi ao lado do Carlos
Carvalhas no wc que tinha daquelas luzes automáticas que se apagam ao
fim de algum tempo e ficarmos os dois às escuras com o coiso na mão,
estragou-me um bocado o espectáculo.
Ignorante como sou, nunca me passou pela cabeça que Tchekhov
fizesse comédias. Sempre interpretei aquelas coisas que escrevia no
subtítulo das peças, tipo o "comédia em quatro actos" como irónicas mas
pelos vistos não são. Acho a Gaivota comovente e triste do princípio ao
fim e depois dizem-me que é uma comédia. Mesmo no campo da sátira,
podemos comparar com Eça, que também
satirizava muitos dos mesmo temas de Tchekhov: o provincianismo, o isolamento, as vãs vitórias, o prestígio e a vaidade social, o
sentido da vida, os estereótipos etc. Mas Eça é leve, não tem a gravidade russa. O meu Tchekhov é o dos contos lidos com a minha voz interior e a sua
comédia, para mim, resume-se um riso ternurento e melancólico (assim
como a sua tragédia que nunca chega às profundezas de cortar à faca de um Dostoiévski). No fundo, acho-o próximo da vida e não consigo ver as suas personagens como caricaturas. Nunca podia prever as gargalhadas gerais como as que encheram a
Trindade a espaços e que me desfocavam do drama - como se
para isso não bastasse o Pedro Lima e a Teresa Tavares darem a sensação
de se assistir a uma espécie de distopia em que Tchekhov viaja no tempo
até aos nossos dias e é obrigado a trabalhar como argumentista de
novelas para sobreviver.
As pessoas podem passar do riso ao choro e vice-versa, mas a
inércia do riso é maior do que a inércia do choro. É possível acordar de
um momento dramático para um riso suave, como quando fazemos rir alguém
que está a chorar, com uma palermice qualquer. No teatro, basta uma
mímica corporal, como o João Lagarto a fazer de bêbedo. Mas demora mais a
entristecer ou abalar alguém que esteja num estado de espírito leve, de riso. Daí a expressão "alívio cómico" (comic relief) pois o alívio cómico serve apenas de respiração e contraste num sentimento dominante de tragédia, sentimento que no meu entender seria dominante no Vânia.
Leio que encenadores, no início,
interpretaram as suas peças como tragédias ou
dramas, eliminando a componente de comédia para irritação de Tchekhov. E que depois se fizeram novas interpretações com a introdução da comédia. Talvez a actualidade e o
potencial infinito das peças de Tchekhov advenha dessa
ambiguidade plástica. As peças que Tchekhov escreveu não têm praticamente
direcções nenhumas, estão lá as falas, pelo que o mesmo texto pode ter
um sentido e um peso completamente diferente consoante a interpretação,
encenação e a sua representação. No caso da leitura, o texto tem a
entoação que a nossa voz interior lhe der. No teatro,
estamos à mercê da encenação e dos actores e para mim isso é um bocado esquisito ainda, uma vez que implica uma atitude passiva perante intermediários entre mim e o meu Tchekhov. É bom que os intermediários sejam muito competentes.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
bom dia pessoas de diversos campos ideológicos
Ultimamente sinto-me com um pretinho da motown dos anos 60: há muitas injustiças e opressão contra mim e muitos problemas no mundo, mas em vez de roubar ou partir tudo como seria de esperar, eu quero é cantar e dançar e dar beijinhos à Plaft. Não vejo um telejornal há meses. Só vou saber de novidades da crise quando ficar desempregado e o meu cartão não abrir a porta do escritório. E vou ficar contente porque posso voltar para casa mais cedo e passar esse dia todo com ela. E o dia seguinte. E o outro. E um dia vou ao multibanco levantar dinheiro para lhe comprar flores e vão sair notas de cinco contos mas o florista aceita na mesma. Se calhar, com a inflação, uma flor vai vai custar 500 contos ou algo do género, mas não me importo, vai receber uma flor de 500 contos, ainda tem mais valor psicológico. E não como nesse dia, para poupar, digo-lhe que estou mal da barriga e que fico bem a pão e água, enquanto ela come o bife do lombo que me custou 3 mil contos e eu choro de felicidade. Felizes. Sim. E ela continuará a ter as suas peças de teatro que, devido à falência do estado e dos subsídios, se vão desenrolar no meio da rua, com cenários desenhados a giz no chão. E o público elitista trará couves e cenouras, cultivadas nas suas hortas urbanas, para alimentar os artistas. E seremos felizes. Um litro de gasolina custará o seu peso em platina. A relva vai crescer debaixo do carro alemão e cravos vermelhos vão sair do tubo de escape. Um casal de esquilos fará a casa dentro da capota do motor e todos os dias de manhã vai acenar bom dia com as patinhas e nós acenamos de volta, da janela.
Não sei porque é que as pessoas se preocupam.
terça-feira, 15 de maio de 2012
domingo, 13 de maio de 2012
Excertos do livro infantil “A Crise Explicada às Crianças”, por Vitor Gaspar
Os pais de Tomás eram de direita. Trabalhavam muito nos
Grandes Mercados e eram muito felizes e bonitos. A mãe de Tomás estava a fazer
uma deliciosa tarte de maçã na cozinha e Tomás estava a estudar engenharia,
quando o Pai de Tomás chegou a casa muito contente, com um jogo de Playstation
muito fixe para Tomás e um perfume francês para a Mãe de Tomás.
─ Uma prenda? É para mim? - perguntou Tomás, muito
espantado, pois não fazia anos.
─ Estás tão contente porquê? - perguntou a Mãe de Tomás.
─ Fui despedido querida! Era a oportunidade de que estava à
espera! Lembras-te daquela empresa exportadora que sempre quis montar? Pois
começo hoje mesmo, depois do jantar.
─ Parabéns! - exclamou a Mãe - Sei como isto era importante
para ti. Vou fazer gambas!
─ Sim querida! É uma oportunidade. E sabes, não aceitei ser formalmente
despedido, porque assim o Estado ia dar-me subsídio de desemprego e agravar o
deficit. Assim que o chefe me disse que ia ser despedido, despedi-me eu!
E beijou Tomás e a Mãe, unindo-os num abraço. Tomás tinha
muito orgulho no pai, mas tinha uma dúvida.
- Ó pai, o que é o deficit?
Os pais de Tomás olharam um para o outro. Chegara a altura
da pergunta complicada. Sentaram-se no bonito e confortável sofá italiano.
- Querido filho, já és crescido e tens de compreender certas
coisas. Sabes, nem toda gente é como o teu Pai, trabalhadora e optimista. ─
disse a Mãe.
- Não? - perguntou Tomás, muito espantado.
- Obrigado querida. Não, filho. Há pessoas que vivem do
dinheiro que o pai faz nos Mercados. O pai tem de trabalhar o dobro para te
poder pagar o colégio. Porque grande parte do dinheiro vai para as pessoas de
esquerda alimentarem o monstro do deficit.
- O deficit é um monstro, pai? ─ Tomás arregalou muito os
olhos.
- Sim filho. Um monstro socialista enorme, com escamas,
grande boca cheia de dentes e muito comilão. Come dinheiro e está sempre com
fome de mais e mais. As pessoas de esquerda gostam dele e dão-lhe de comer
porque em troca o monstro dá-lhes rendimentos mínimos, empregos no estado e subsídios para fazerem
filmes. Lembras-te daquele filme que a tua mãe comprou por engano, do Cesar
Monteiro, o Branca de Neve?
- Lembro! Era horrível pai! O ecrã todo escuro! Só vozes!
Tive muito medo.
- Bom, mas não falemos de coisas tristes! - exclamou a mãe -
Vamos para a mesa festejar!
Entretanto, na margem sul, Tomé tinha pais de esquerda e brincava
com um velho pião de madeira e um carrinho de lata, no chão da cozinha, indiferente aos tiroteio entre ciganos que decorria todos os dias na rua aquela hora. Estava
a distrair-se um pouco antes de ter de cozinhar o jantar. A mãe de Tomé não
trabalhava, vivia de baixa médica e ficava na cama a fumar o dia todo e a comer
chocolates. O pai de Tomé era sindicalista e chegou a casa muito corado e a
cheirar a vinho.
- Fizeste o jantar? - perguntou o pai a Tomé.
- Ainda não pai, desculpa.
O pai de Tomé assentou-lhe um estalo com muita força no ouvido. Ele caiu para o lado e ficou atordoado. O pai foi buscar cervejas
ao frigorífico e voltou para o pé de Tomé.
- Pequeno camarada, esse estalo, não fui eu que te dei. Foram os mercados,
entendes? - disse o pai.
- Sim pai.
- Os mercados é que me obrigam a beber para suportar o
terrível trabalho de que sou vítima. Entendes?
- Os mercados são maus, pai.
Do quarto onde dormia a mãe ouviu-se um lamento prolongado, como
um uivo de um animal ferido.
- Despacha-te a fazer o jantar, a tua mãe está com fome. Vê
o que os mercados lhe fizeram. Ela não era assim. Sabes porque está assim?
- Sei pai,os mercados.
- Os mercados... malditos.... A tua mãe era muito
bonita e alegre. Ainda me lembro de quando a conheci na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas. Tinha uma sexualidade livre, foi o que me atraiu nela. Todos
os professores gostavam dela e tinha excelentes notas. Era assim, cheia de amor para dar a todos, a tua mãe. Às vezes iniciava jovens de cor na vida sexual para
combater o racismo. E olha como está agora… E sabes porquê, pequeno camarada?
- Os mercados pai?
- Exacto. Os mercados. Não deixaram que o nosso querido deficit lhe desse o emprego de filosofa
que ela pretendia, foi obrigada a trabalhar numa empresa privada, explorada
pelo patrão… Às vezes chegava a fazer uma hora a mais de trabalho. Um dia,
tinha trabalho para fazer em casa, num fim de semana e foi aí que entrou em baixa médica. Pobrezinha.
O pai de Tomé chorou lágrimas amargas de socialista, com a mão tapando a cara vermelha e inchada do vinho.
Tomé tentava concentrar-se na cozinha enquanto ouvia o pai choramingar e os lamentos guturais da mãe. Para poder mexer nos tachos tinha de se pôr num banquinho manco e às vezes desequilibrava-se e agarrava-se ao fogão, queimando as pequenas mãos frágeis de criança.
Tomé tentava concentrar-se na cozinha enquanto ouvia o pai choramingar e os lamentos guturais da mãe. Para poder mexer nos tachos tinha de se pôr num banquinho manco e às vezes desequilibrava-se e agarrava-se ao fogão, queimando as pequenas mãos frágeis de criança.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
bom fim de semana
O dia está bom para espetar aqui com o God do John Lennon. Ouvi e senti-me muito comovido, aquela música tem esse efeito, quando ele chega à parte do "the dream is over" e do "goodbye" e do "now I am John" é quase certo que começo a chorar. É tão comovente. Dá vontade de ir tirar fotos em falésias. Mas não pode ser. A música é extremamente útil se tivermos alguma racionalidade na sua aplicação como um antídoto e não como potenciadora de emoções, digamos assim, negativas, que já existem, a não ser para banda sonora de um filme. Só que aposto que as personagens do próprio filme, nas cenas dramáticas, se sentiriam ainda pior se pudessem ouvir a banda sonora que o espectador ouve. O pai da Alice não aguentava um minuto sem se atirar para debaixo de um autocarro. Nós estamos de fora, a ver. Também se pode usar isso no caso de se estar a escrever uma coisa que tem de ter essa atmosfera. É injusto, um escritor pode ouvir uma música comovente para ser comovente a escrever mas um compositor não pode ouvir outra música comovente para compor música comovente (pelo menos, não ao mesmo tempo) tem de partir sempre dele próprio e do silêncio.
Para o funeral do meu pai escolhi a Balada do Outono do Zeca Afonso (não houve cá padres, o velório estava cheio de oficiais desertores e alguns haviam de ser comunas, a minha mãe achou que seria perigoso). Pus o CD a tocar com o caixão aberto na sala do velório e a meio da música arrependi-me muito de não ter escolhido o Locomotion da Kylie Minogue (já usei esse truque). Mas não podia voltar atrás a meio da música. Se tivesse ali o meu equipamento de produção de música ainda teria feito um crossfade perfeito para o Sexy Boy dos Air. Tanta gente ali reunida e bem vestida... acho que nunca estive numa festa tão deprimente. Mentira, estou a esquecer-me de uma festa de branco na Kapital para a qual fui arrastado pela minha própria curiosidade mórbida. Meu Deus... Não quero falar nessa festa.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
o fantasma de pijama
Ler as crónicas do Miguel Esteves Cardoso a propósito do cancro da mama que atacou a sua mulher Maria João e que, entretanto, já criou metástases no pulmão e no cérebro, mexeu comigo. Estão lá as descrições da radioterapia no IPO, a neurocirurgia do hospital de Santa Maria e aquela sensação de passar para um negativo da vida. O meu pai morreu com um tumor cerebral em Fevereiro de 2008, um ano depois do diagnóstico. Eu escrevi, no blogue que tinha então, vários textos sobre isso, desabafos. Se por um lado sentia algum receio de exibicionismo, por outro lado era uma necessidade, ajudava-me (este não foge à regra) e podia ajudar outras pessoas apenas pela ideia de partilha. Foi um inferno mas foi mais duro para a minha mãe que era casada com o meu pai há mais de 30 anos. O diagnóstico que recebemos logo depois da primeira biopsia era de um ano de vida no máximo e a opção que ficou limitava a escolha entre mais qualidade e menos tempo, ou retirar-lhe um bloco do cérebro para viver mais uns meses como um vegetal. Se o diagnóstico tivesse nem que fosse 0,1% de esperança, ter-me-ia agarrado a isso com unhas dentes e espero que ela exista no caso da Maria João. No do meu pai não tinha e havia que encarar isso de frente. Os amigos e familiares mais próximos entendiam a situação, mas as pessoas de uma esfera mais distante tinham dificuldades. Não por culpa deles (bem intencionados) mas por não termos a crueldade de encavacar aqueles que, cheios de boas intenções, perguntavam se ele “está melhor” de um glioblastoma agressivo. As pessoas também precisam de uma reserva de fé para as suas próprias vidas e temos de ser modelos.
No meu local de trabalho, em 20 e tal colegas, talvez só 2 ou 3 mais próximos soubessem da minha situação familiar, para preservar a normalidade. Lembro-me que um dia tive mesmo de calar uma dessas pessoas que me perguntava pelo meu pai todos os dias e tive de lhe dizer não tem cura, é certinho que vai morrer e ela ficou meio em estado de choque por eu estar a fazer o start up ao windows enquanto lhe dizia aquilo mas depois pelo menos deixou-me sossegado a mim, ao meu pai e ao nosso glioblastoma de estimação. A morte foi varrida das casas para os hospitais e temos uma relação algo neurótica com ela. Se alguém sobrevive a uma doença é porque a venceu. Venceu a adversidade. Não consigo pensar assim, uma vez que implica que os outros, os que morreram, não venceram. A vitória é relativa, cada um terá a sua. A minha será não ser maricas nestas ocasiões porque era precisamente esse o meu instinto. Uma vez, em Santa Maria, fiquei petrificado a ver o meu pai ter um ataque de epilepsia, nem me consegui mexer e depois dos enfermeiros se precipitarem sobre ele, saí da sala e vim fumar um cigarro na rua, a tremer. A minha mãe não era mariquinhas, fazia tudo, assistia a tudo, tratava de tudo. Na neurocirurgia lembro-me de ver um miúdo magrinho e franzino, com cicatrizes da operação no crânio e uns olhos enormes. Andava por ali a arrastar os chinelos, curioso, a espreitar para os quartos, como um pequeno fantasma de pijama extralargo. Os pais ofereciam-lhe peluches e forçavam sorrisos debaixo daquelas luzes néon frias. Ele tinha o mesmo tipo de tumor do meu pai. Apesar de imagens assim serem provavelmente comuns em sítios assim, não são comuns para quem neles entra pelas primeiras vezes. E o certo é que saía de lá com a sensação de ver o mundo todo do avesso, como uma criança de seis anos que está a ser traumatizada com filmes do Ingmar Bergman e do Romero.
O que é a vitória? Condicionam-nos para as vitórias erradas toda a vida. Não ser feliz e são é apenas um dos fracassos. Os modelos são de saúde e força. A publicidade vende uma felicidade de plástico, impossível de atingir, a tecnologia faz progressos diários mas a maior parte das vezes fúteis, é ela que cria a sua própria necessidade: precisamos de mais memória, mais ecrã, mais comunicação e por aí fora. Parece que resolvemos tudo ou estamos em vias de resolver. E depois, no que respeita a cancro, apesar dos tímidos avanço da ciência, mergulhamos numa espécie de obscurantismo primitivo, num grande mistério que decorre com regularidade em locais como o IPO ou a neurocirurgia de Santa Maria. Depois do funeral, os dias seguem-se, indiferentes, fica um buraco, um vazio. Se tivermos de pensar em coisas positivas disto, há algumas. A minha mãe ficou muito mais forte. Também se descobriram amigos novos e uma solidariedade até ali invisível. De facto não estamos sozinhos, é isso que sinto ao ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a sua querida Maria João ou como me sentia na sala de espera da radioterapia do IPO que nunca estava vazia. Também se relativiza mais a noção de "ter azar" ou outro tipo de desgostos como aqueles próprios dos desamores. O funeral é bonito e catártico, aparecem pessoas de que gostamos sem termos de as convidar como sucede nos casamentos e nos aniversários, conhecemos outras pessoas que gostavam do nosso pai e que estão, misteriosamente, ali, vindas de um passado que nos é desconhecido. De resto não se aprende muito. Pode-se pensar numa revelação do que é importante na vida e de todas essas tretas, de sentimentos que muitas vezes se encontram diluídos porque as ambiguidades próprias das relações humanas, especialmente entre família, desaparecem perante o fatalismo da separação em vida. Assim, a sensação de estar sentado ao lado do meu pai a ver as folhas de um pomar a agitarem-se com o vento e cães a correr, passa de visita de rotina de domingo, para o grau de momento sagrado. Mas não é uma lição necessária, é até bastante dispensável. A consciência do momento sagrado advém da consciência da sua inevitável perda. Se para essa consciência é necessário pormo-nos a pensar que todas as pessoas que amamos podem morrer a qualquer momento e que caminhamos sobre o gelo fino da saúde, vamos ser, no mínimo, uma companhia um pouco deprimente. Só somos eternos quando esquecemos que somos mortais. Gostava muito de poder dizer que uma coisa dessas faz uma pessoa ficar mais sábia mas fiquei sem vontade de fazer perguntas, eu que fazia tantas e pensava tanto. Desde 2008 que não meto os pés num médico porque acredito que quando estamos fodidos eles não nos conseguem ajudar e só nos vão dizer para deixarmos de beber e de fumar. É irracional, eu sei e estou a tratar disso. Abrir a caixa de correio tornou-se um suplício porque detesto essa ideia de existir um mundo que exige coisas de mim mas depois não consegue curar a merda de um cancro a um filho, quanto mais a um pai. Às vezes dou comigo melancólico em momentos felizes e simples porque não os posso partilhar com ele e queria, como quando o Benfica joga bem. Ele ia gostar muito da Plaft sem o admitir e depois ia manifestar-me a sua perplexidade por ela gostar de mim, ia tentar descortinar o seu problema, alguma coisa que explicasse aquela improbabilidade. Tendo em conta a personalidade de ambas as criaturas, não me custa adivinhar que em pouco tempo iriam interagir num tom sarcástico tendo por alvo a minha pessoa amuada e as suas idiossincrasias. Também ia gostar do carro alemão sem o admitir e ia manifestar a sua perplexidade por me terem dado um carro assim, quem é que eu tinha enganado, quando é que vão descobrir. Depois ia abrir e fechar a porta para ver se o fabrico é bom, examinar o motor, tecer considerações obscuras de engenheiro, mexer nas coisas perante os meus protestos, com sorte não me desmontava aquilo às peças para examinar e descobrir falhas ou sinais de má manutenção. E pronto, este texto não tem conclusão, mas há temas assim também e uma pessoa se quer conclusões depois acaba por não começar nada.
No meu local de trabalho, em 20 e tal colegas, talvez só 2 ou 3 mais próximos soubessem da minha situação familiar, para preservar a normalidade. Lembro-me que um dia tive mesmo de calar uma dessas pessoas que me perguntava pelo meu pai todos os dias e tive de lhe dizer não tem cura, é certinho que vai morrer e ela ficou meio em estado de choque por eu estar a fazer o start up ao windows enquanto lhe dizia aquilo mas depois pelo menos deixou-me sossegado a mim, ao meu pai e ao nosso glioblastoma de estimação. A morte foi varrida das casas para os hospitais e temos uma relação algo neurótica com ela. Se alguém sobrevive a uma doença é porque a venceu. Venceu a adversidade. Não consigo pensar assim, uma vez que implica que os outros, os que morreram, não venceram. A vitória é relativa, cada um terá a sua. A minha será não ser maricas nestas ocasiões porque era precisamente esse o meu instinto. Uma vez, em Santa Maria, fiquei petrificado a ver o meu pai ter um ataque de epilepsia, nem me consegui mexer e depois dos enfermeiros se precipitarem sobre ele, saí da sala e vim fumar um cigarro na rua, a tremer. A minha mãe não era mariquinhas, fazia tudo, assistia a tudo, tratava de tudo. Na neurocirurgia lembro-me de ver um miúdo magrinho e franzino, com cicatrizes da operação no crânio e uns olhos enormes. Andava por ali a arrastar os chinelos, curioso, a espreitar para os quartos, como um pequeno fantasma de pijama extralargo. Os pais ofereciam-lhe peluches e forçavam sorrisos debaixo daquelas luzes néon frias. Ele tinha o mesmo tipo de tumor do meu pai. Apesar de imagens assim serem provavelmente comuns em sítios assim, não são comuns para quem neles entra pelas primeiras vezes. E o certo é que saía de lá com a sensação de ver o mundo todo do avesso, como uma criança de seis anos que está a ser traumatizada com filmes do Ingmar Bergman e do Romero.
O que é a vitória? Condicionam-nos para as vitórias erradas toda a vida. Não ser feliz e são é apenas um dos fracassos. Os modelos são de saúde e força. A publicidade vende uma felicidade de plástico, impossível de atingir, a tecnologia faz progressos diários mas a maior parte das vezes fúteis, é ela que cria a sua própria necessidade: precisamos de mais memória, mais ecrã, mais comunicação e por aí fora. Parece que resolvemos tudo ou estamos em vias de resolver. E depois, no que respeita a cancro, apesar dos tímidos avanço da ciência, mergulhamos numa espécie de obscurantismo primitivo, num grande mistério que decorre com regularidade em locais como o IPO ou a neurocirurgia de Santa Maria. Depois do funeral, os dias seguem-se, indiferentes, fica um buraco, um vazio. Se tivermos de pensar em coisas positivas disto, há algumas. A minha mãe ficou muito mais forte. Também se descobriram amigos novos e uma solidariedade até ali invisível. De facto não estamos sozinhos, é isso que sinto ao ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a sua querida Maria João ou como me sentia na sala de espera da radioterapia do IPO que nunca estava vazia. Também se relativiza mais a noção de "ter azar" ou outro tipo de desgostos como aqueles próprios dos desamores. O funeral é bonito e catártico, aparecem pessoas de que gostamos sem termos de as convidar como sucede nos casamentos e nos aniversários, conhecemos outras pessoas que gostavam do nosso pai e que estão, misteriosamente, ali, vindas de um passado que nos é desconhecido. De resto não se aprende muito. Pode-se pensar numa revelação do que é importante na vida e de todas essas tretas, de sentimentos que muitas vezes se encontram diluídos porque as ambiguidades próprias das relações humanas, especialmente entre família, desaparecem perante o fatalismo da separação em vida. Assim, a sensação de estar sentado ao lado do meu pai a ver as folhas de um pomar a agitarem-se com o vento e cães a correr, passa de visita de rotina de domingo, para o grau de momento sagrado. Mas não é uma lição necessária, é até bastante dispensável. A consciência do momento sagrado advém da consciência da sua inevitável perda. Se para essa consciência é necessário pormo-nos a pensar que todas as pessoas que amamos podem morrer a qualquer momento e que caminhamos sobre o gelo fino da saúde, vamos ser, no mínimo, uma companhia um pouco deprimente. Só somos eternos quando esquecemos que somos mortais. Gostava muito de poder dizer que uma coisa dessas faz uma pessoa ficar mais sábia mas fiquei sem vontade de fazer perguntas, eu que fazia tantas e pensava tanto. Desde 2008 que não meto os pés num médico porque acredito que quando estamos fodidos eles não nos conseguem ajudar e só nos vão dizer para deixarmos de beber e de fumar. É irracional, eu sei e estou a tratar disso. Abrir a caixa de correio tornou-se um suplício porque detesto essa ideia de existir um mundo que exige coisas de mim mas depois não consegue curar a merda de um cancro a um filho, quanto mais a um pai. Às vezes dou comigo melancólico em momentos felizes e simples porque não os posso partilhar com ele e queria, como quando o Benfica joga bem. Ele ia gostar muito da Plaft sem o admitir e depois ia manifestar-me a sua perplexidade por ela gostar de mim, ia tentar descortinar o seu problema, alguma coisa que explicasse aquela improbabilidade. Tendo em conta a personalidade de ambas as criaturas, não me custa adivinhar que em pouco tempo iriam interagir num tom sarcástico tendo por alvo a minha pessoa amuada e as suas idiossincrasias. Também ia gostar do carro alemão sem o admitir e ia manifestar a sua perplexidade por me terem dado um carro assim, quem é que eu tinha enganado, quando é que vão descobrir. Depois ia abrir e fechar a porta para ver se o fabrico é bom, examinar o motor, tecer considerações obscuras de engenheiro, mexer nas coisas perante os meus protestos, com sorte não me desmontava aquilo às peças para examinar e descobrir falhas ou sinais de má manutenção. E pronto, este texto não tem conclusão, mas há temas assim também e uma pessoa se quer conclusões depois acaba por não começar nada.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
o pior realizador de sempre é o Tim Burton
O Tim Burton é o pior realizador da história do cinema. Faltam-me palavras para descrever a náusea crescente que sinto a cada novo cartaz com o Jonhy Depp com maquilhagem gótica e a Bonham Carter nos créditos. Desde a Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), ver filmes do Tim Burton começou a ser cada vez menos agradável e neste momento, um filme como aquele das sombras, ameaça tornar-se numa experiência semelhante à do visionamento do filme do Castelo Branco no menage com o empresário do norte e a saca de batatas, uma espécie de "porque é que eu estou a ver isto? já estou de novo naquela parte da internet, foda-se"
Ao contrário de Ed Wood, o "pior realizador de sempre" e por quem o Tim Burton nutre um fascínio que resultou no excelente filme homónimo, Tim Burton foi um génio nos finais de 80e durante a década de 90 e o mau nele acabava por ser bom porque era o mau dele.
Depois, desde que se amancebou com a Bonham Carter aí em 2002, arranjou filhos etc, acabou-se. Está no seu direito,mas podia ser só um bocadinho menos mau, como o Spielberg que até faz umas coisas fixes de vez em quando e compensa e, sobretudo, diferentes foda-se, diferentes. Cada filme do Tim Burton parece uma versão estúpida de um filme melhor que fez antes, é uma espécie de Margarida Rebelo Pinto dos filmes alternativos. Como vive dos louros de ser um tipo que fez cenas de culto e muita fixes, e tem o Jonhy Depp que é fixe e indie, consegue ainda o extra de não ser considerado assim tão mau e até fixe e até artístico, que não é, pois desapareceu completamente o lado experimental do seu cinema, triturado por uma mentalidade de estúdio fábrica de efeitos digitais. É deprimente ver toda aquela matéria prima a ser destruída, a sensação de "isto podia ser um bom filme de entretenimento" e não, fica tudo transformado numa espécie de cruzamento de Filipe La Féria com Disney financiado por um Rui Rio que descobriu petróleo nos jardins de Serralves.
E é por estes motivos que ele é o pior realizador de sempre, lembra-nos a pior coisa que nos pode acontecer na vida: a perda de curiosidade. É nesse momento que se fica velho.
Em breve volto a escrever sobre os The National. Estou a brincar... estou?
Ao contrário de Ed Wood, o "pior realizador de sempre" e por quem o Tim Burton nutre um fascínio que resultou no excelente filme homónimo, Tim Burton foi um génio nos finais de 80e durante a década de 90 e o mau nele acabava por ser bom porque era o mau dele.
Depois, desde que se amancebou com a Bonham Carter aí em 2002, arranjou filhos etc, acabou-se. Está no seu direito,mas podia ser só um bocadinho menos mau, como o Spielberg que até faz umas coisas fixes de vez em quando e compensa e, sobretudo, diferentes foda-se, diferentes. Cada filme do Tim Burton parece uma versão estúpida de um filme melhor que fez antes, é uma espécie de Margarida Rebelo Pinto dos filmes alternativos. Como vive dos louros de ser um tipo que fez cenas de culto e muita fixes, e tem o Jonhy Depp que é fixe e indie, consegue ainda o extra de não ser considerado assim tão mau e até fixe e até artístico, que não é, pois desapareceu completamente o lado experimental do seu cinema, triturado por uma mentalidade de estúdio fábrica de efeitos digitais. É deprimente ver toda aquela matéria prima a ser destruída, a sensação de "isto podia ser um bom filme de entretenimento" e não, fica tudo transformado numa espécie de cruzamento de Filipe La Féria com Disney financiado por um Rui Rio que descobriu petróleo nos jardins de Serralves.
E é por estes motivos que ele é o pior realizador de sempre, lembra-nos a pior coisa que nos pode acontecer na vida: a perda de curiosidade. É nesse momento que se fica velho.
Em breve volto a escrever sobre os The National. Estou a brincar... estou?
terça-feira, 8 de maio de 2012
vinho da madeira e cerveja
Acordei com os palavrões da Plaft e o som de uma roçadora a gasolina a desbastar a sebe do jardim da frente, mesmo por debaixo da janela do quarto. A minha almofada foi puxada num safanão. Os palavrões esbateram-se abafados pelas penas do meu travesseiro que apertou contra a cabeça, numa espécie de casulo de insonorização. Acalmou-se a pouco e pouco, os últimos palavrões foram já proferidos em sono profundo e dissolveram-se a meio, em sílabas imperceptíveis como na linguagem secreta de sonolentos elfos estivadores. Saí da cama. Entorpecimento dos sentidos, os caminhos todos fechados, desespero existencial, olhos baços com ocasionais sombras de morte, qual é o sentido da vida, hmm? Qual é? Diz-me, diz-me. Nota mental:
nunca mais misturar cerveja com vinho da madeira, a não ser que queira viver num romance do Lobo Antunes. Enquanto tomava banho e a dor de cabeça latejava com o vapor da água quente, seguiram-se toques frenéticos à minha campainha que rapidamente foram acompanhados por mais imprecações vindas do quarto. No início achei que era apenas um distribuidor de publicidade no primeiro dia de trabalho, entusiasmado e profissional. Depois seguiu-se a imagem mental de um carteiro com parkison. A campainha não parava, a Plaft já estava a gemer convulsivamente debaixo da almofada. Fui à janela ver porque motivo a minha campainha se tinha tornado no centro do universo. O meu carro estava estacionado em frente às sebes e eles precisavam de lhes aceder com as roçadoras a gasolina e adivinharam que o dono do carro devia morar naquele andar.
Despachei-me a tomar banho e a fazer a barba, vesti-me e despedi-me da Plaft como pude, por entre almofadas e edredons. Quando cheguei à minha viatura, estavam dois jardineiros de fato macaco fluorescente e máscaras, com roçadoras enormes, à espera. Pedi-lhes licença, um pouco envergonhado de ser tão novo e da minha vida ser tão fácil.
Depois, no caminho, vi dois acidentes daqueles em que um carro de uma mulher bate por trás no carro de um homem nos seus 40-50 e não se nota absolutamente estrago nenhum e o senhor está de cócoras a fazer festinhas no pára-choques, a ver se detecta um afundamento ou uma irregularidade e não sai dali até encontrar uma.
Despachei-me a tomar banho e a fazer a barba, vesti-me e despedi-me da Plaft como pude, por entre almofadas e edredons. Quando cheguei à minha viatura, estavam dois jardineiros de fato macaco fluorescente e máscaras, com roçadoras enormes, à espera. Pedi-lhes licença, um pouco envergonhado de ser tão novo e da minha vida ser tão fácil.
Depois, no caminho, vi dois acidentes daqueles em que um carro de uma mulher bate por trás no carro de um homem nos seus 40-50 e não se nota absolutamente estrago nenhum e o senhor está de cócoras a fazer festinhas no pára-choques, a ver se detecta um afundamento ou uma irregularidade e não sai dali até encontrar uma.
sábado, 5 de maio de 2012
afinal o Brasil é capaz de estoirar mais depressa do que eu pensava
«O Brasil de hoje não justifica isso [juros altos]. Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra, com honestidade, os seus compromissos", afirmou a presidente na noite de ontem (madrugada de hoje em Lisboa).
Rousseff disse ainda que a economia brasileira só será "plenamente competitiva" quando for feita a redução dos juros para produtores e consumidores e quando as taxas se equipararem às praticadas no mercado internacional. » - DN
O Brasil conseguiu a proeza de criar uma bolha imobiliária (e não só) com taxas de juro superiores a 10% e com uma banca comercial ainda num estado semi-primitivo. Podem acompanhar aqui http://www.bolhaimobiliaria.com/. Enquanto a economia "cresce", não se vê grande crescimento estrutural. O Mundial de futebol, pago a peso de ouro para cumprir prazos irrealistas, é simbólico e familiar. A rede de transportes é de 3º mundo, a burocracia e leis favorece a corrupção generalizada, preparam-se para aniquilar a Amazónia com o novo Código Florestal, os impostos são draconianos, as medidas ultra-proteccionistas estrangulam a concorrência das empresas brasileiras nos mercados internacionais e o fosso entre ricos e pobres não pára de crescer. Mas o problema, dizem eles, é o crédito que não é barato que chegue. É isso aí.
O Brasil conseguiu a proeza de criar uma bolha imobiliária (e não só) com taxas de juro superiores a 10% e com uma banca comercial ainda num estado semi-primitivo. Podem acompanhar aqui http://www.bolhaimobiliaria.com/. Enquanto a economia "cresce", não se vê grande crescimento estrutural. O Mundial de futebol, pago a peso de ouro para cumprir prazos irrealistas, é simbólico e familiar. A rede de transportes é de 3º mundo, a burocracia e leis favorece a corrupção generalizada, preparam-se para aniquilar a Amazónia com o novo Código Florestal, os impostos são draconianos, as medidas ultra-proteccionistas estrangulam a concorrência das empresas brasileiras nos mercados internacionais e o fosso entre ricos e pobres não pára de crescer. Mas o problema, dizem eles, é o crédito que não é barato que chegue. É isso aí.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
pronto, ganhou mais uma
Pinto da Costa: o bitó pereira ganhou a liga, viste? lol
Mou: vi, parabéns
Pinto da Costa: lol é só para veres que num és nada de especial
Pinto da Costa: para o caso de achares que sim
Pinto da Costa: sabes se o Florentino precisa de frutinha portuguesa? lol
Abramovitch: 20 million euros + nice car + protection from russian mafia
Mou: no. i told you, money is not everything to me
Abramovitch: whores.lots and lots of whores.
Mou: no
Abromvitch: a bimbi?
Mou: no
Moratti: mio bambino speciali, vieni qui al Inter, 15 millione de aerofichi!
Mou: Morattini mio amiguini... non puó..
Moratti: la mamma va fare molto pizza al fromaggio e funghini.. che ti piace!
Mou: :) si, ma non puó
Moratti: :(
Vieira: o jorje jesus fika.
Mou: mas... prometeu-me :(
Vieira: mudei de ideias, ele fika. talves para o ano. abrasso
Mou: dei 30 milhoes pelo coentrão e pelo di maria e agora o witsel
Vieira: faltou o combinado.
Mou: 200 mil euros pelo emerson!? impossível
Vieira: faltou o combinado.
Mou: 200 mil euros pelo emerson!? impossível
Vieira: azar. abrasso, até pro ano
Mou: :( quinta-feira, 3 de maio de 2012
têm razão..
... os que se indignam contra a manobra do Pingo Doce que é comum noutros países,como em inglaterra no Boxing Day e mesmo cá quando começaram os outlets ou como a feira de viagens abreu ou até a merda do IKEA às quartas feiras com o dia do quarto que dá xis de desconto em mobília de quarto e que me fez ter um semi-esgotamento quando pensei que podia aproveitar (saí sem comprar nada, abandonei o carro na fila). E se fez dumping, pois que seja punido. E pela escolha da data, que foi filha da putice mesmo.
No entanto, nós vivemos no facebook e no blogger e nos jornais. Num nível menos sério, isto é um pouco como aquele horrendo anúncio do pingo doce de janeiro a janeiro, sempre encher os bolsos o ano inteiro etc. e que me fez, na altura, jurar nunca mais meter os pés num supermercado que puxa ao patriotismo serôdio e depois não tem fruta ou vegetais portugueses à venda (pelo menos nos de Alvalade e Alcântara é quase tudo estrangeiro, até o caralho das cebolas) e muda a sede para a Holanda. Mas as pessoas assobiavam a música e até fizeram versões e tornou-se viral. Tudo bem. Eu também continuei a ir lá porque na minha curva de utilidade, a proximidade de casa e do trabalho é o factor mais importante, aqueles filhos da puta sabem disso. Enfim. Vou-me adaptando e depois desta iniciativa, vou reservar o sábado de manhã para ir à praça aqui do bairro e combinar com o Mini Preço. É a minha contribuição. E se o Pingo Doce pensa que pode ir dando tiros nos pés junto de um target premium que não precisa de ir a correr por uns descontos e/ou que eventualmente pode ter alguma ideologia e se sinta ofendido com a história do 1º de maio, pois que pode ver a rentabilidade pura e dura a mudar. É beleza da livre escolha.
Eu que conheço pessoas que foram. Eu tenho contacto com essa gente oprimida, desde um colega consultor que é obcecado por promoções, até ao senhor do café que foi abastecer o estabelecimento de whiskey a preços mais baixos. E na tv, diria que 9 em 10 pessoas que foram entrevistadas (e tinham ido) aprovaram a iniciativa. Olha não. Então iam, submetiam-se aquilo e achavam que a dignidade deles tinha sido posta em causa? Essas pessoas ficaram contentes com os descontos que fizeram. E não, não tem absolutamente nada a ver com o contexto actual de crise. Lembro-me que há uns anos passava pela Repsol em frente ao Estádio de Alvalade que fazia um desconto de 4 ou 5 cêntimos por litro e a puta da fila era de 30 minutos pelo menos (para poupar 2 euros no máximo) pelo que acho compreensível que conseguir poupar 150, 200 ou mais euros seja algo apelativo a uma franja enorme da população. Quando abriu o IKEA, tinham uma merda qualquer de meter casais a dormir em camas na rua e fazerem figuras de parvo no telejornal das 8, para um desconto qualquer de merda. E sempre que era um concerto dos U2, as pessoas até dormiam na rua dias a fio para comprar um bilhete. Meu deus, para os U2. O mundo é assim. Também me intriga muito aquilo do Pique Nique do Continente ou as vuvuzelas da Galp e a bandeira humana e essas merdas. Ou pessoas que gostam de José Luís Peixoto ou de The National ou os congressos do PCP.
Cada um tem a sua curva de utilidade que inclui, entre outras coisas, preocupações ideológicas e a sensação de ser manipulado. Não significa nada. É completamente subjectivo e relativo. Se uma pessoa se sente bem com isso, está tudo bem. É de uma enorme condescendência e paternalismo generalizar e considerar os portugueses que foram como uns desgraçados esfomeados e oprimidos. Eu digo isto porque sinto o mesmo que vocês, só que sei que é um sentimento errado e tento combater isso. Façam um esforço também. Pronto.
terça-feira, 1 de maio de 2012
night drive
Saí da
cama sem te acordar. Fiz-te uma festa no cabelo
e suspiraste, a tua mão adormecida procurou-me mas desistiu e caiu inerte
no edredon de penas como se tivesse um súbito ataque de narcolepsia. Depois
peguei-te no pulso e arrumei-te o braço debaixo do edredon para não te
constipares. Eram duas da manhã e chovia torrencialmente. Vesti-me às escuras,
fui buscar umas cervejas ao frigorífico, escrevi-te uma nota num post-it, peguei
no pequeno gravador sony e saí. Nas escadas confirmei que tinha meias de cores
diferentes, mas não me importei, não estavas ali e só tu é que reparas nessas
coisas. Entrei no carro, fiz reset ao contador dos km, meti uma música de dor
de corno e arranquei para a A2 Sul, dando assim início à experiência.
Primeiro afastei-me de ti devagar e de forma intermitente por causa dos semáforos e do trânsito da ponte, mas uns quilómetros depois abri uma cerveja e comecei a afastar-me de ti a 160km/h, uma boa média.
Primeiro afastei-me de ti devagar e de forma intermitente por causa dos semáforos e do trânsito da ponte, mas uns quilómetros depois abri uma cerveja e comecei a afastar-me de ti a 160km/h, uma boa média.
Liguei o gravador e comecei a gravar
notas:
0240 horas, Delta +34km
de Amor Da Minha Vida, doravante designado por ADMV. Velocidade +160km/h,
música… nightdrive, chromatics.
Sinto a gravidade do ADMV
a puxar-me, o universo a ficar num plano inclinado com ADMV no centro. As gotas de
chuva rolam até aos extremos do pára-brisas e são pulverizadas em sua direcção.
Pode eventualmente dever-se ao vento e à deslocação da viatura automotora. Música
induz um estado mental melancólico. Hipótese de lágrimas fracas ocasionais. Over
and out.
0300 horas, Delta +92km
de ADMV, velocidade +160km/h, música: only the lonely, roy orbison
Calor do corpo do ADMV
a ficar mais distante. Aumentei temperatura do carro para não correr risco de
hipotermia. A noite ficou mais escura. Sentimento de ciúmes dos condutores dos
carros que vêm na direcção oposta, para mais perto de ADMV. Tentativa de abrir
a janela para fumar cigarro, hesitação, receio de que a chuva estrague os comandos
eléctricos dos vidros. Para efeitos de simulação de sentimento de “quero lá saber”, abertura total de todos os vidros da viatura. Cigarro apagou-se. Over and out.
0330 horas, Delta +180km
de ADMV, velocidade 170km/h, música… perfume de mulher, ágata
Chuva torrencial. Vidros
fechados, excepto o vidro da porta direita da frente, deixou de funcionar. Registar
resultados para sentimentos futuros de “quero lá saber”. Saudades de ADMV, vida
não é possível sem a proximidade física de ADMV. Lágrimas frequentes e
sentimento de desespero existencial, possivelmente ampliado de alguma forma
pela expectativa de custo monetário da reparação do comando eléctrico do vidro na BMW. Over and out.
0355 horas, Delta +220km
de ADMV, velocidade 170km/h, música… strange little girl, stranglers
Necessidade de interromper
o afastamento a grande velocidade, formação de poça de água no banco de pele,
orçamento para experiência ultrapassado, possível corte de financiamento para
experiências futuras. Saída para área de serviço de Almodôvar. Estacionamento
com cobertura. Cervejas integralmente consumidas. Solidão extrema, forte
sensação de que não vale a pena viver sem ADMV misturada com sono e estimativas de orçamentos de reparação. Over and out.
Só gravei estas, de manhã fui tomar o pequeno almoço a Almodôvar e vim para cima nas calmas pela nacional. Lamento muito ter-te assustado
quando acordaste sozinha de madrugada. Desculpa também não ter atendido o
telemóvel e só chegar a casa a horas de almoço, cheio de fomeca. A propósito
disso, dadas as circunstâncias, compreendo perfeitamente que não tenhas cozinhado
o Empadão do Amor como disseste que ias fazer... E admito que o post-it com “adeus
mundo cruel” pode ter-te induzido alguma preocupação desproporcional face à
discussão que tivemos ontem à noite a propósito de margarida ou manteiga na
massa (margarina?!…) Mas é preciso fazer estas experiências em nome da ciência. De forma
controlada, sim, mas o mais realisticamente possível, para
estarmos precavidos para este tipo de situação e procurar evitá-la. E da próxima vez, talvez penses duas vezes antes de meteres um bocadão de margarina no meu prato de esparguete.
domingo, 29 de abril de 2012
Feira do Livro
Andei por ali para cima e para baixo, já tinha comprado muitos livros, sempre sem encontrar a Assírio & Alvim, muito triste.
Começou a chover torrencialmente e corri para debaixo de uma banca da Porto Editora para me abrigar. A Plaft ficou à chuva debaixo do chapéu a chapinhar nas poças, é tipo uma pancada que ela tem e não quero alongar-me sobre isso. Estou ali abrigado, de costas para as prateleiras de livros, entalado na pequena multidão compacta que se formou, quando começo a desconfiar... Um gajo com óculos de massa e sobretudo, outro de barbas e camisola de gola alta, outro com o cabelo comprido e óculos redondos, outro magrinho com o aspecto macilento dos vegetarianos, outro vestido de preto niilista recusante da vida e do futuro a meter os pés assim e com a cabeça tombada para o lado... Voltei-me para a prateleira dos livros: Assírio & Alvim! Eu sabia! Foi o destino! Tinha-me esquecido que a Assírio & Alvim foi absorvida pela Porto Editora.
Lá estavam os livros todos que já comprei e li, encafuados em prateleiras iguais às das outras bancas da Porto Editora. Tentei chamar a Plaft para lhe mostrar aquilo, porque gosto muito de apontar para livros à venda e dizer-lhe "tenho este, este e este" como um latifundiário a mostrar as suas terras à noiva comunista. Ela estava em modo Fred Astaire, aparecia a esvoaçar pelas poças para me avisar que tinha avistado ginja de óbidos mais acima e que já tinha lido aquele e aquele e aquele que eu lhe sugeria com condescendência, desaparecia disparada, voltava para me dizer que tinha visto farturas com bom aspecto uns metros adiante.
Fomos beber uma ginja, eu comi uma fartura e ela comeu uma italiana que é uma coisa que parece um donut, mas chama-se italiana, assim mo explicou a menina da roulotte com uns modos bruscos. Foi depois acalmada pelas colegas, aquilo deve acontecer-lhe constantemente, pessoas da Feira do Livro a apontar para os donuts e a dizer "é um donut destes" e ela "é uma ITALIANA CARALhOS FODAM ESTES INTELECTUAIS DA MERDA! NÃO É UM DONUT! Foda-se puta que os pariu, feira do livro é sempre a mesma merda todos os anos..".
O momento alto da tarde foi quando tive a brilhante ideia de sugerir à Plaft o Espuma dos Dias do Boris Vian que por acaso é o livro preferido dela e ela já me tinha dito isso umas 4 ou 5 vezes. Talvez isso explique o entusiasmo e a convicção com que lhe sugeri o Espuma dos Dias do Boris Vian.
- Olha Plaft! Queres a Espuma dos Dias? Já leste? Vais adorar! Conheces Boris Vian? Devias conhecer!
- Estás gozar comigo?
Aqui devia ter dito "sim, estava a brincar ah ah", bastava observar o facto do sorriso grandioso, ainda com um bocado de açúcar por cima do lábio, se ter dissolvido numa expressão de incredulidade apática. E depois passava o resto da tarde a tentar perceber o que se tinha passado, porque estaria eu a gozar.
- Não! A sério, acho que... ias... adorar :|
- ESTÁS A GOZAR COMIGO!?
Ok, perdi a oportunidade, pânico, ela entrou-me em modo Sigourney Weaver, Aliens. Os intelectuais à volta começaram a formar um pequeno círculo a uma distância segura e um senhor cinquentão olhou para mim mesmo com aquela cara cúmplice de "fizeste merda não fizeste? ;)"
É evidente que depois me lembrei muito bem das conversas sobre o Boris Vian e do livro preferido dela, mas era tarde demais, há uma coisa muito enervante na vida real que é a linearidade do tempo e a ausência de botão de undo. Tentei desculpar-me explicando que ela só me tinha dito que adorava o livro e não me tinha feito uma análise crítica ao mesmo, da próxima que escrevesse um pequeno texto sobre isso e eu nunca mais me esquecia, mas a certa altura (quando ela abriu a janela do carro para apanhar ar e soltou um daqueles suspiros de "meu Deus, como é que eu vim parar aqui?") optei por calar-me.
Sei dar-lhe a volta muito bem, eu controlo a relação, ao contrário do que sucede com os outros gajos que se deixam controlar por elas. O truque é trazer-lhe oferendas diversas, de olhos postos no chão, fazer vénias, tratá-la por Deusa em discurso indirecto e apenas para emitir elogios à sua beleza, sensibilidade e inteligência. Pode demorar mas as coisas resolvem-se sem problemas e com facilidade, é o segredo de uma relaç... meu Deus, olha as horas que são, tenho de ir buscar sushi, ela está quase a acordar!!
Começou a chover torrencialmente e corri para debaixo de uma banca da Porto Editora para me abrigar. A Plaft ficou à chuva debaixo do chapéu a chapinhar nas poças, é tipo uma pancada que ela tem e não quero alongar-me sobre isso. Estou ali abrigado, de costas para as prateleiras de livros, entalado na pequena multidão compacta que se formou, quando começo a desconfiar... Um gajo com óculos de massa e sobretudo, outro de barbas e camisola de gola alta, outro com o cabelo comprido e óculos redondos, outro magrinho com o aspecto macilento dos vegetarianos, outro vestido de preto niilista recusante da vida e do futuro a meter os pés assim e com a cabeça tombada para o lado... Voltei-me para a prateleira dos livros: Assírio & Alvim! Eu sabia! Foi o destino! Tinha-me esquecido que a Assírio & Alvim foi absorvida pela Porto Editora.
Lá estavam os livros todos que já comprei e li, encafuados em prateleiras iguais às das outras bancas da Porto Editora. Tentei chamar a Plaft para lhe mostrar aquilo, porque gosto muito de apontar para livros à venda e dizer-lhe "tenho este, este e este" como um latifundiário a mostrar as suas terras à noiva comunista. Ela estava em modo Fred Astaire, aparecia a esvoaçar pelas poças para me avisar que tinha avistado ginja de óbidos mais acima e que já tinha lido aquele e aquele e aquele que eu lhe sugeria com condescendência, desaparecia disparada, voltava para me dizer que tinha visto farturas com bom aspecto uns metros adiante.
Fomos beber uma ginja, eu comi uma fartura e ela comeu uma italiana que é uma coisa que parece um donut, mas chama-se italiana, assim mo explicou a menina da roulotte com uns modos bruscos. Foi depois acalmada pelas colegas, aquilo deve acontecer-lhe constantemente, pessoas da Feira do Livro a apontar para os donuts e a dizer "é um donut destes" e ela "é uma ITALIANA CARALhOS FODAM ESTES INTELECTUAIS DA MERDA! NÃO É UM DONUT! Foda-se puta que os pariu, feira do livro é sempre a mesma merda todos os anos..".
O momento alto da tarde foi quando tive a brilhante ideia de sugerir à Plaft o Espuma dos Dias do Boris Vian que por acaso é o livro preferido dela e ela já me tinha dito isso umas 4 ou 5 vezes. Talvez isso explique o entusiasmo e a convicção com que lhe sugeri o Espuma dos Dias do Boris Vian.
- Olha Plaft! Queres a Espuma dos Dias? Já leste? Vais adorar! Conheces Boris Vian? Devias conhecer!
- Estás gozar comigo?
Aqui devia ter dito "sim, estava a brincar ah ah", bastava observar o facto do sorriso grandioso, ainda com um bocado de açúcar por cima do lábio, se ter dissolvido numa expressão de incredulidade apática. E depois passava o resto da tarde a tentar perceber o que se tinha passado, porque estaria eu a gozar.
- Não! A sério, acho que... ias... adorar :|
- ESTÁS A GOZAR COMIGO!?
Ok, perdi a oportunidade, pânico, ela entrou-me em modo Sigourney Weaver, Aliens. Os intelectuais à volta começaram a formar um pequeno círculo a uma distância segura e um senhor cinquentão olhou para mim mesmo com aquela cara cúmplice de "fizeste merda não fizeste? ;)"
É evidente que depois me lembrei muito bem das conversas sobre o Boris Vian e do livro preferido dela, mas era tarde demais, há uma coisa muito enervante na vida real que é a linearidade do tempo e a ausência de botão de undo. Tentei desculpar-me explicando que ela só me tinha dito que adorava o livro e não me tinha feito uma análise crítica ao mesmo, da próxima que escrevesse um pequeno texto sobre isso e eu nunca mais me esquecia, mas a certa altura (quando ela abriu a janela do carro para apanhar ar e soltou um daqueles suspiros de "meu Deus, como é que eu vim parar aqui?") optei por calar-me.
Sei dar-lhe a volta muito bem, eu controlo a relação, ao contrário do que sucede com os outros gajos que se deixam controlar por elas. O truque é trazer-lhe oferendas diversas, de olhos postos no chão, fazer vénias, tratá-la por Deusa em discurso indirecto e apenas para emitir elogios à sua beleza, sensibilidade e inteligência. Pode demorar mas as coisas resolvem-se sem problemas e com facilidade, é o segredo de uma relaç... meu Deus, olha as horas que são, tenho de ir buscar sushi, ela está quase a acordar!!
sábado, 28 de abril de 2012
o nome dele é skrillex
Na cabeça de alguns, Skrillex parece estar para a música electrónica e o próprio dubstep (género que popularizou) como os Bush para o grunge. Ainda se agravou mais quando limpou os Emmys (primeiro produtor a ganhar aquelas categorias). Vejo o Skrillex um bocado como uma fusão de Chemical Brothers, Daft Punk, Burial e até Aphex Twin (mesmo nos videos, as influências são óbvias). Parece que foi buscar as peças a isto tudo, extraiu a parte pop mas sem sacrificar um edge agressivo (que afasta muita gente), fundiu tudo obsessivamente e ao detalhe num laptop a partir de casa e deu um toque mainstream a um género de nicho com melodias verdadeiramente catchy que uma criança entende. É acusado de ser um "vendido" mas ele nunca teve apoio comercial e promoção. Fez o disco em casa, fez upload, foi fumar um cigarro e passado um mês era uma celebridade mundial e nomeado a Emmys. Depois, em vez de destruir a cena da música electrónica, nomeadamente o dubstep (é só um rótulo por amor de Deus), o que fez foi abrir as portas e divulgar o próprio dubstep, como fizeram os Metallica com o Black Album para o heavy metal ou os Nirvana com o Nevermind para o rock alternativo mais pesado. Acho o trabalho dele absolutamente genial do ponto vista "pop" puro. Comparar isto com, por exemplo, um David Getta e afins, é um insulto.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
o jogador de poker
Hoje fui almoçar com um dos meus melhores amigos ali num restaurante em Alfragide, onde vão os camionistas e operários. Posso dizer que é praticamente um irmão, visto que nos conhecemos há 25 anos e fizémos toda a escola juntos, inclusive o curso de matemática, ao qual chumbámos um ano os dois, só para nenhum de nós se antecipar ao outro.
O gajo é um pacato programador e tem um cérebro focado no jogo e na ambição de começar uma carreira no poker profissional, tudo isto potenciado por factores pessoais importantes (não tem miúda, é óptimo para a concentração). Começou a jogar poker mais ou menos ao mesmo tempo que eu, mas sem os meus problemas. Eu vim do blackjack para o poker e pelo poker domestiquei o vício do jogo, mas ao fim de centenas de milhares de mãos online e chegar a NL100 percebi que era impossível ser jogador profissional, uma fantasia que tive, seria um ganha pão a combinar com a escrita. Abandonei devido a problemas cognitivos: arrogância, indisciplina, sentimentos místicos, sensação de controlar o destino, tudo coisas óptimas para um escritor.
Ele é mais calmo e cerebral (um excelente jogador de xadrez, brilhante em raciocínio profundo) e começou com uns míseros 100$ no poker online que se transformaram em largos milhares. Está neste momento a disputar pots que chegam aos 1200$. Tem, como qualquer bom jogador, a perspectiva correcta que no jogo, o dinheiro consiste em “fichas abstractas” e não dinheiro real. Jogar com 10$ ou 1000$ é igual, desde que a nossa banca possa acomodar a variância dos ganhos e perdas. E recordo que ele começou com pouco e nunca mais lá meteu “dinheiro”. Aquela banca é abstracta. O poker transformou-o numa pessoa melhor, o poker levado a sério é como um zen prático e não teórico e implica uma transformação no modo de pensar e de ver a própria vida.
Sonha em deixar o emprego, estuda poker 3 horas por dia. O objectivo é chegar a high stakes, com pots de milhares de dólares. Espero que consiga. O caminho é muito difícil, até porque não tem fim. Partilhámos experiências. A ironia é que os nossos problemas, ele com o poker, o meu com a escrita, e os sonhos que temos, entalados em vidas em que encaixamos para ganhar o tostão, acabam por ser um espelho um do outro.
Depois falou-me no desejo de ser encurralado e no exército que Sun Tzu coloca de propósito numa garganta que impossibilita qualquer retirada, porque sabe que perante um exército maior, o facto de não poderem fugir, motivará as suas tropas a lutar como nunca e a infligir danos sérios. Venha daí essa crise.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
blindagem
Uma forma de assegurar um estilo blindado é incluir referências auto-depreciativas, um certo cinismo ternurento, que tudo condena e perdoa simultaneamente, com recurso a ironia. Se por um lado isso cria um estilo sólido e interessante, o potencial é limitado pela aversão ao risco inerente a qualquer acto criativo puro que não contenha em si a chave para o destruir, como alguém que admite um defeito e pensa que, por admitir o defeito e viver bem com isso, o defeito transforma-se numa qualidade. Muitas vezes é o caso. Às vezes penso na evolução deste tipo de escritor (de pessoa) como uma esfera que se vai expandindo com a prática mas que não deixa de ser uma esfera e não uma lança ou uma nuvem. Estou com muito sono. Estou à espera da crise, com muito sono.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
12 boas razões para achar que a Plaft é a tal
Acabou o Portal 1.
Despiu-me até aos boxers a jogar strip poker.
Bifes bons fazem-na chorar.
Passou o teste dos cones no GT5.
Ganha-me ao Buzz 85% das vezes (eu nunca tinha perdido ao buzz).
Ganhou-me uma vez ao scrabble por mais de 100 pontos.
Ganha-me sempre ao Lobo.
Acabou o move the box.
Gostou muito do Tree of Life mas considera a cena final imbecil.
É do sexo feminino.
Acha que este livro é uma bosta.
Está a acabar o Portal 2.
terça-feira, 24 de abril de 2012
a lição
Acabei de ler a peça A Lição de Eugene Ionesco enquanto
comia um hamburguer à portuguesa no irish da doca de santo amaro, à beira do
tejo, indiferente às pessoas que escolhem esta área para correr com fones e bodys de licra e passam a ofegar de autoflagelação desportiva. Gostei (da peça) mas, como todas as peças de teatro
que li, causou-me uma sensação um pouco estranha, como se estivesse carregada
de simbolismos e fosse uma fantasia esquemática. Mesmo na insuspeita peça de
Tchékov, A Gaivota, as personagens ocupam posições
simbólicas: jovem escritor falhado, o velho escritor consagrado, a actriz
consagrada, a actriz aspirante falhada, a Gaivota morta, o escritor morto… Os diálogos acontecem e o tempo é denso e mágico,
quando a vida real é como o universo, cheia de matéria negra de silêncio,
nada, absurdo e contemplação.
Suponho que faz parte da linguagem e das formas dramáticas este universo carregado de energia de palavras e acções. O texto tem de ir da cabeça do
autor, para a do actor para a do espectador. A própria experiência do teatro, como a
sala escura do cinema, predispõe para o encantamento e é potenciada por luzes, som e encenação. Talvez o domínio do tempo seja um trunfo da literatura, pode-se congelar um instante por tempo indefinido, avançar, recuar, misturar tudo. No teatro o agora é
tudo, é preciso acontecer algo, mesmo que nada aconteça, a própria espera é um
acontecimento, tudo é linear.
O proclamado anti-teatro de Ionesco não é A Lição, que, pela
leitura, me pareceu ser bom teatro e igual a bom teatro (embora me falte a
perspectiva histórica para não considerar um cliché um Professor que mata a Aluna
e uma braçadeira nazi que o protege da justiça etc. me falte a consciência das
reacções à peça na época e tudo isso porque sou ignorante e por isso emito opiniões e já mal o faço a propósito de literatura notem bem, só estou à vontade é em terreno novo e...)
O verdadeiro nada não pode vir de vontade humana. Tem de provir de algo aleatório e frio e desinteressante, como são desinteressantes os exercícios de Burroughs com bocados de jornal
misturados ao acaso para formar texto, especialmente se o leitor souber que foram feitos assim e que depois lhe exigem atenção e tempo para ler aquilo. O
anti-teatro deve ser simplesmente mau teatro, como uma anti-restaurante, é um restaurante ali na zona do Parque das Nações.
sábado, 21 de abril de 2012
às vezes acordo com coisas destas na cabeça
- Gabinete da Presidência da República, em que posso ajudá-lo?
- Alô, bom dia, queria falar com o Presidente por favor.
- Quem devo anunciar?
- Diga que é o Patins, ele sabe quem é o Patins.
- O Patins?
- Ele sabe quem é.
- Um momento por favor... Senhor Presidente, tem Patins em linha.
(passado umas horas e normalmente depois de dois ou três cafés, reavalio as coisas, etc.)
- Alô, bom dia, queria falar com o Presidente por favor.
- Quem devo anunciar?
- Diga que é o Patins, ele sabe quem é o Patins.
- O Patins?
- Ele sabe quem é.
- Um momento por favor... Senhor Presidente, tem Patins em linha.
(passado umas horas e normalmente depois de dois ou três cafés, reavalio as coisas, etc.)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Oh.
Hoje abateu-se sobre mim uma depressão profunda ao pescar de dentro do armário da cozinha nada mais nada menos do que sete (SETE!) embalagens de esparguete já abertas.
Enquanto não conseguir incutir no Tolan o mínimo respeito pelas massas, nunca farei dele um homem de esquerda.
Enquanto não conseguir incutir no Tolan o mínimo respeito pelas massas, nunca farei dele um homem de esquerda.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Portugal é muito confuso
Estou lentamente a metamorfor... metamoforsear... transformar-me numa pessoa de esquerda. Cheguei ao ponto, vejam só, em que começo a achar ligeiramente errado o estado (no fundo eu, vocês) comprar o BPN assumindo um buraco de 6 mil milhões de euros, sendo posteriormente enrabado pelos angolanos do BIC e depois, no caso do BCP, estar em vias de injectar uns mil milhões (meus, vossos) mas sem o nacionalizar, sem o "comprar" como acontece em qualquer país de esquerda que se preze (por exemplo Inglaterra, onde o governo socialista inglês tomou conta do Lloyds e meteu lá o socialista Horta Osório). Ou seja, se bem entendo, só compramos bancos que faliram de forma catastrófica e por ilegalidades. Aos outros, os que têm hipóteses de se safar, emprestamos dinheiro. A injecção permitiria ao BCP sobreviver (e outros bancos, caso precisem). As acções vão valorizar a médio longo prazo visto estarem ao preço de um sms para outra rede e o book value do banco estar bem acima da sua capitalização bolsista. Era bonito que o estado fizesse um negócio em que podia sair a ganhar e privatizar o banco mais tarde e ter um lucro porreiro. Não sei, acho esquisito só fazer negócios financeiros em que perdemos ou perdemos ainda mais (recordo os menos dados a estas coisas de economia, que o "estado" é uma entidade abstracta que gere o dinheiro que vocês lhe dão). Isto significa que os donos do banco, os accionistas actuais portanto, só têm de devolver o dinheiro que o estado (nós) lá meteu com uns juros simpáticos. Se o banco for ao ar não há crise, nós os contribuintes estamos cá é para assumir o prejuízo. Os donos, compreende-se, não querem as patas do estado nos bancos deles, mas precisam do nosso dinheiro. Diz que dá má imagem ser nacionalizado e ter lá pessoas ligadas à política. Imaginaria que sim mas o BCP não me pareceu muito preocupado com a imagem quando teve lá o Armando Vara como bibelot ou aborrecido de ter accionistas angolanos que não são propriamente privados (no sentido não corrupto do termo). Estou confuso. Portugal é muito confuso. A minha esperança é que o Governo também esteja confuso. Constou-me que anda, o que é bom sinal. Temem (é ridículo eu sei) que uma coisa destas crie pessoas de esquerda ou liberais assim de repente, tipo os gremlins quando comem depois da meia noite e que isso signifique o seu fim. Vamos ver, eu gosto de ser como sou, moderado e tendo a ver-me como o representante da consciência colectiva de Portugal e como tendo o poder de 60% do eleitorado. Desde que me lembro, o partido que eu achava que devia logicamente ganhar as eleições, ganhou. Por isso sei que sou eu que decido. E no no dia em que achar que este governo deve cair, ele vai cair. Don't fuck with me.
tapete fofinho e creme de dia essencial
Ontem tive um choque ao pisar o novo tapete na casa de banho.
- Plaft, que tapete é aquele?
- É fofinho não é? :) É mais fofinho que o outro que tinhas, todo velho e sujo.
Todo velho é sujo... Suponho que na opinião dela, o Bukowski também era velho e sujo. Ou o Salvador Dali. Ou o João César Monteiro.
No outro dia foi a minha colecção de aftershaves que perturbou o seu peculiar sentido de lógica feminina. Diz que não faz sentido eu ter quatro embalagens quase vazias e nunca acabar nenhuma. Tomou a iniciativa de as reunir e comprimir numa só prateleira. Agora têm por vizinhos uns cremes e produtos esquisitos. No outro dia reparei num creme com o misterioso nome de "creme de dia essencial". Que raio é isso de "creme de dia essencial", quem é que compra um creme que só vai usar em dias essenciais? É normal sentir-me inseguro por ela não usar o creme todos os dias comigo?
- Plaft, que tapete é aquele?
- É fofinho não é? :) É mais fofinho que o outro que tinhas, todo velho e sujo.
Todo velho é sujo... Suponho que na opinião dela, o Bukowski também era velho e sujo. Ou o Salvador Dali. Ou o João César Monteiro.
No outro dia foi a minha colecção de aftershaves que perturbou o seu peculiar sentido de lógica feminina. Diz que não faz sentido eu ter quatro embalagens quase vazias e nunca acabar nenhuma. Tomou a iniciativa de as reunir e comprimir numa só prateleira. Agora têm por vizinhos uns cremes e produtos esquisitos. No outro dia reparei num creme com o misterioso nome de "creme de dia essencial". Que raio é isso de "creme de dia essencial", quem é que compra um creme que só vai usar em dias essenciais? É normal sentir-me inseguro por ela não usar o creme todos os dias comigo?
terça-feira, 17 de abril de 2012
pedagogia para criar crianças que venham a ser especiais
Ao ritmo a que estou a desenvolver o meu talento e capacidade, já percebi que não vou nunca chegar a ser uma coisa de jeito. Sou evidentemente talentoso, mas os meus pais não tiveram grande profissionalismo na minha educação e foram demasiado brandos em diversas ocasiões. Para colmatar a impossibilidade de eu ser uma pessoa especial e bem sucedida, percebi que o truque é ter alguns filhos e continuar a trabalhar neles, mais ou menos a partir do ponto onde eu fiquei e fazer deles pessoas extremamente especiais e talentosas que vão fazer os outros pais roer-se de inveja com os seus filhos medíocres e desinteressantes nas reuniões de pais e festas de aniversário.
Só que isto de fazer pessoas especiais é também um talento e vai exigir alguma tentativa erro, tanto que planeio experimentar vários caminhos diferentes com cada filho. Por exemplo, um vai ser sempre contrariado e nunca lhe vou demonstrar qualquer afecto ou aprovação e ao outro (o ideal era ser um gémeo) vou dar tudo o que precisa: carinho, apoio e compreensão e dizer-lhe que ele é especial.
Claro que na verdade o primeiro tem muitas mais hipóteses de ser bem sucedido que o segundo e é nele que deposito as esperanças. O primeiro será certamente nobelizado ou algo do género, enquanto que o segundo, no limite, vai criar um movimento do tipo geração à rasca. É contra o pai (o ideal é a mãe participar também) que o jovem se vai rebelar e esforçar para conquistar a sua admiração e afecto para o resto da vida (sem sucesso). É preciso começar desde cedo. Nunca percebi os pais que elogiam os filhos quando estes fazem um desenho mal feito ao ponto de terem de escrever por cima o nome das coisas que tentaram desenhar, ainda por cima com erros.Se descobrir que aquele a quem estou a dar apoio e compreensão se revela mais talentoso que o filho proscrito, posso inverter subitamente os papéis sem qualquer aviso.
Sinto-me compelido a fazer um aviso, o tema é sensível, afinal, trata-se do bem estar dos pais na sociedade e não tem jeito nenhum ter filhos que os envergonhem, vão para a cadeia ou acabem mortos numa banheira antes de venderem os discos todos como deve ser. É importante o acompanhamento dos pais para os ajudar a escolher comportamentos desviantes que não sejam demasiado auto-destrutivos e que ajudem mesmo à criatividade (o famoso binómio autodestruição vs. estímulo). As doses de álcool e certo tipo de drogas (cocaína) devem ser administradas com receita médica ou auxílio de um nutricionista e mesmo assim é preciso ter cuidado porque há médicos que não são de fiar (os McCann por exemplo). De certeza que quantidade de cerveja que um rapaz de 16 anos pode beber, é totalmente diferente daquela que uma criança de 6 ou 7 pode tolerar antes de ficar em coma.
Tenho falado destes planos à Plaft porque é importante desde muito cedo estarmos alinhados com isto ou então não há futuro. E eu sou da opinião que quando namoramos com uma pessoa devemos imediatamente decidir a educação dos filhos que vamos ter, faço isso desde os 14 anos. Ela tem assim umas ideias esquisitas sobre o tema e fala em "felicidade", que é um conceito muito bonito mas um bocadinho vago e hippie demais. Mas o debate prossegue.
Só que isto de fazer pessoas especiais é também um talento e vai exigir alguma tentativa erro, tanto que planeio experimentar vários caminhos diferentes com cada filho. Por exemplo, um vai ser sempre contrariado e nunca lhe vou demonstrar qualquer afecto ou aprovação e ao outro (o ideal era ser um gémeo) vou dar tudo o que precisa: carinho, apoio e compreensão e dizer-lhe que ele é especial.
Claro que na verdade o primeiro tem muitas mais hipóteses de ser bem sucedido que o segundo e é nele que deposito as esperanças. O primeiro será certamente nobelizado ou algo do género, enquanto que o segundo, no limite, vai criar um movimento do tipo geração à rasca. É contra o pai (o ideal é a mãe participar também) que o jovem se vai rebelar e esforçar para conquistar a sua admiração e afecto para o resto da vida (sem sucesso). É preciso começar desde cedo. Nunca percebi os pais que elogiam os filhos quando estes fazem um desenho mal feito ao ponto de terem de escrever por cima o nome das coisas que tentaram desenhar, ainda por cima com erros.Se descobrir que aquele a quem estou a dar apoio e compreensão se revela mais talentoso que o filho proscrito, posso inverter subitamente os papéis sem qualquer aviso.
Sinto-me compelido a fazer um aviso, o tema é sensível, afinal, trata-se do bem estar dos pais na sociedade e não tem jeito nenhum ter filhos que os envergonhem, vão para a cadeia ou acabem mortos numa banheira antes de venderem os discos todos como deve ser. É importante o acompanhamento dos pais para os ajudar a escolher comportamentos desviantes que não sejam demasiado auto-destrutivos e que ajudem mesmo à criatividade (o famoso binómio autodestruição vs. estímulo). As doses de álcool e certo tipo de drogas (cocaína) devem ser administradas com receita médica ou auxílio de um nutricionista e mesmo assim é preciso ter cuidado porque há médicos que não são de fiar (os McCann por exemplo). De certeza que quantidade de cerveja que um rapaz de 16 anos pode beber, é totalmente diferente daquela que uma criança de 6 ou 7 pode tolerar antes de ficar em coma.
Tenho falado destes planos à Plaft porque é importante desde muito cedo estarmos alinhados com isto ou então não há futuro. E eu sou da opinião que quando namoramos com uma pessoa devemos imediatamente decidir a educação dos filhos que vamos ter, faço isso desde os 14 anos. Ela tem assim umas ideias esquisitas sobre o tema e fala em "felicidade", que é um conceito muito bonito mas um bocadinho vago e hippie demais. Mas o debate prossegue.
instântaneos entre grandes escritores #2 Sartre e Camus
- Que cadela adorável... De certeza que não queres ficar com ela Jean Paul? Parece gostar de ti.
- Toda a coisa existente nasce sem um motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso. A última coisa que eu preciso é de uma coisa que nasce sem motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso por aí a encher-me os sofás de pêlo.
- A Simone mete-te 15 gatos em casa e tu nem pias, nem quando eles te mijam o tabaco do cachimbo todo...
- Os gatos são livres, Camus. Quando me urinam dentro da bolsinha do tabaco ou mesmo no cachimbo e eu só dou por isso quando levo o cachimbo à boca e puxo duas baforadas... sinto... eu sinto isso como um acto de liberdade. Eles existem, eles são, independentemente de mim. Esta cadela procura em mim um Deus. Eu recuso esse papel de opressor.
- Toda a coisa existente nasce sem um motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso. A última coisa que eu preciso é de uma coisa que nasce sem motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso por aí a encher-me os sofás de pêlo.
- A Simone mete-te 15 gatos em casa e tu nem pias, nem quando eles te mijam o tabaco do cachimbo todo...
- Os gatos são livres, Camus. Quando me urinam dentro da bolsinha do tabaco ou mesmo no cachimbo e eu só dou por isso quando levo o cachimbo à boca e puxo duas baforadas... sinto... eu sinto isso como um acto de liberdade. Eles existem, eles são, independentemente de mim. Esta cadela procura em mim um Deus. Eu recuso esse papel de opressor.
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